[OUTRAS PARTÍCULAS]
[há tempo para tudo,
diz o eclesiastes.
e há mesmo. há tempo
de prantear, de rir, dançar
e catar gabiroba.
e há o tempo
de deixar queimar o feijão.]
[bonita a época
[bonita a época
em que havia poetas
com nomes assim:
ascânio lopes quatorzevoltas.]
["o que tenho a dizer",
["o que tenho a dizer",
ele disse, "é que não sou
versado em gentes assim
tão limpas
em seus estados d´alma".
nós rimos.]
[o poema era daqueles
[o poema era daqueles
com tomada de três pinos,
e nós, ora, nós vínhamos
no escuro pelo caminho
do cachorro, tal e qual
no poema de roberto bolaño.]
[contra o proselitismo
[contra o proselitismo
idiotizante, contra a catequese
carola, contra o apostolado
fundamentalista.]
[a poesia? ora, a poesia
[a poesia? ora, a poesia
deve ser um espinho
atravessado na garganta
deles.]
[se você bem observa,
[se você bem observa,
verá que um gato
é um dispositivo
provido de sensores,
radares, sonares,
parabólicas e outras
conexões
enigmáticas e secretas.]
["você é quem?",
["você é quem?",
ele perguntou.
"eu sou da horda
dos poetas velhos",
ele respondeu.]
[enquanto isto,
[enquanto isto,
avança a literatura
neoliberal empreendedorista:
domesticada, asséptica,
perfumada, edificante,
sempre mansa.
e gurmê.]
[talvez chegue o dia
[talvez chegue o dia
em que os escritores
desistirão de ser lidos.
ficarão contentes
com a exibição da própria
figura esvoaçante e sorridente
em fotos encantatórias, ficarão
contentes com leitores
que apenas mostram
a capa de seus livros
nas sessões de autógrafos.]


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