[GEOGRAFIA DO CADERNO VERDE]
[os curadores
me descuram;
os programadores
me desprogramam;
os editores
me deseditam.
a lua, no entanto,
está linda.]
<...>
[todos os fantasmas
brasileiros
me descuram;
os programadores
me desprogramam;
os editores
me deseditam.
a lua, no entanto,
está linda.]
<...>
[todos os fantasmas
brasileiros
foram expulsos
dos armários.]
<...>
[os vitupérios,
dos armários.]
<...>
[os vitupérios,
mesmo quando opostos,
se atraem.]
<...>
[mesmo quem não
se atraem.]
<...>
[mesmo quem não
sobreviveu
continuou dia
continuou dia
após dia
escrevendo livros.]
<...>
[ninguém passa
duas vezes
pelo mesmo texto.]
<...>
[ao pé da letra,
não há poema.]
<...>
[o camelo passou
pelo fio da agulha
e o poema
escrevendo livros.]
<...>
[ninguém passa
duas vezes
pelo mesmo texto.]
<...>
[ao pé da letra,
não há poema.]
<...>
[o camelo passou
pelo fio da agulha
e o poema
não foi lido.]
<...>
escrever talvez
<...>
escrever talvez
seja isto:
disseminar
a confusão universal
das algaravias.]
<...>
[é na matinata
que eu recolho
os poemas ainda
em estado de fonte.]
<...>
[ah, mas o que aprecio
é explodir
disseminar
a confusão universal
das algaravias.]
<...>
[é na matinata
que eu recolho
os poemas ainda
em estado de fonte.]
<...>
[ah, mas o que aprecio
é explodir
todas as sintaxes
vigentes.
eu quero o poema atirado
ao chão
como grãos de milho
ou calhaus
de cascalho.]
<...>
[eu já quase só gosto
é do texto
não percebido,
o texto que ninguém vê
ou lê,
o texto perdido,
grão órfão no deserto,
ilegível
e incomum.]
<...>
[ao texto,
eu dou de comer
e dou de beber.
somos iguais em natura,
em pessoa
e em figura.]
<...>
[renomeio as palavras.
chamo-as.
renomeadas, se alegram.
ficam acesas,
em chamas.
palavras com novos nomes.
todo o dicionário
gargalha.]
<...>
[pela poesia,
eu
queimei
as
minhas
vinhas.]
<...>
[um político
sempre
morre
pela boca.]
<...>
[é, pois, noite.
e há esta serenidade
que me permite
reler proust.]
<...>
[une-se
o pueril com o avaro,
o superficial
com o usurário,
o colunista
com a dondoca,
o filisteu
com o salafrário,
o guiável
com o guiado,
o rentista
com o rentável,
o proselitista
com o sugestionável.
faz-se, então,
o coquetel
volta-ao-passado.]
<...>
[rente ao mar, rente
ao rio, rente
à beira,
rente ao abismo,
rente ao fogo,
rente
à borda, rente
ao vazio,
o poema
é o próprio perigo.]
<...>
[aos seres
vigentes.
eu quero o poema atirado
ao chão
como grãos de milho
ou calhaus
de cascalho.]
<...>
[eu já quase só gosto
é do texto
não percebido,
o texto que ninguém vê
ou lê,
o texto perdido,
grão órfão no deserto,
ilegível
e incomum.]
<...>
[ao texto,
eu dou de comer
e dou de beber.
somos iguais em natura,
em pessoa
e em figura.]
<...>
[renomeio as palavras.
chamo-as.
renomeadas, se alegram.
ficam acesas,
em chamas.
palavras com novos nomes.
todo o dicionário
gargalha.]
<...>
[pela poesia,
eu
queimei
as
minhas
vinhas.]
<...>
[um político
sempre
morre
pela boca.]
<...>
[é, pois, noite.
e há esta serenidade
que me permite
reler proust.]
<...>
[une-se
o pueril com o avaro,
o superficial
com o usurário,
o colunista
com a dondoca,
o filisteu
com o salafrário,
o guiável
com o guiado,
o rentista
com o rentável,
o proselitista
com o sugestionável.
faz-se, então,
o coquetel
volta-ao-passado.]
<...>
[rente ao mar, rente
ao rio, rente
à beira,
rente ao abismo,
rente ao fogo,
rente
à borda, rente
ao vazio,
o poema
é o próprio perigo.]
<...>
[aos seres
fracassantes,
o reino
sem rei
do que um dia
se chamou poesia.]
<...>
[só a poesia
pode salvar a língua
do ataque intermitente
dos tribunos
e dos pregadores.]
<...>
[eu escrevo.
se sou lido,
isto não é comigo.]
<...>
[o acaso então costura
o manto do destino,
linhas pândegas e travessas
em novelagens
fabulantes. lua
que brilha com sol
a pino.]
<...>
[distingue-se uma pessoa
de outra pessoa
pelos creres
e pelos cismares.
a crente
do que um dia
se chamou poesia.]
<...>
[só a poesia
pode salvar a língua
do ataque intermitente
dos tribunos
e dos pregadores.]
<...>
[eu escrevo.
se sou lido,
isto não é comigo.]
<...>
[o acaso então costura
o manto do destino,
linhas pândegas e travessas
em novelagens
fabulantes. lua
que brilha com sol
a pino.]
<...>
[distingue-se uma pessoa
de outra pessoa
pelos creres
e pelos cismares.
a crente
quer a linha reta,
a cismante
a cismante
vai em zigue-zague.]
<...>
[o velho disse à beira
da estrada, na contramão
da glória:
"mais cedo ou mais tarde,
toda idiotia
torna-se notória".]
<...>
[heidegger
não viu
nem ouviu
essas maitacas
que passam,
orquestrais
e metálicas,
nas minhas manhãs.]
<...>
[das línguas,
eu quero o espanto
em todas
as ortografias.]
<...>
[abaixo da linha d´água
ficam os poemas,
a memória
e os cascos
dos navios.]
<...>
[lapis especularis,
também conhecido
em espanhol
<...>
[o velho disse à beira
da estrada, na contramão
da glória:
"mais cedo ou mais tarde,
toda idiotia
torna-se notória".]
<...>
[heidegger
não viu
nem ouviu
essas maitacas
que passam,
orquestrais
e metálicas,
nas minhas manhãs.]
<...>
[das línguas,
eu quero o espanto
em todas
as ortografias.]
<...>
[abaixo da linha d´água
ficam os poemas,
a memória
e os cascos
dos navios.]
<...>
[lapis especularis,
também conhecido
em espanhol
como espejuelo.
tipo de pedra de gesso
tipo de pedra de gesso
selenítico especular
translúcido.
e com estes saborosos nomes:
espelhilho, pedra do lobo,
espelhinho de asno,
e com estes saborosos nomes:
espelhilho, pedra do lobo,
espelhinho de asno,
pedra da lua, pedra de luz,
sapiência ou reluz.
a isto eu chamo poesia.]
<...>
[ele chamava
<...>
[ele chamava
o caderno
de mapa
das povoações
letrais.]
<...>
[palavras reunidas
em colóquio
escolhem a seta
mais certeira:
a que fura
o caroço da fruta;
a que entra
no miolo da luz
azulínea do dia.]
<...>
[as caravelas do poema
jamais anunciam
terra à vista.
só há o mar,
de mapa
das povoações
letrais.]
<...>
[palavras reunidas
em colóquio
escolhem a seta
mais certeira:
a que fura
o caroço da fruta;
a que entra
no miolo da luz
azulínea do dia.]
<...>
[as caravelas do poema
jamais anunciam
terra à vista.
só há o mar,
o infinito mar
e as naus à deriva.]
e as naus à deriva.]

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