[AFORISMOS DA HORA MAIS LARGA]


.adiante o branco, 
horizonte branco.

.mudar de lápis 
como se muda de camisa.

.a vida é o que vaza, 
que inunda e transborda.

.jamais ultrapassou 
o portão de acesso à fama. 
assim que se aproximava, 
o portão se fechava 
ou recuava 
até ser miragem.

.insuflar no lápis 
a rebelião 
de uma nova história.

.o método era escrever 
ao acaso até que uma linha, 
à maneira de um rio, 
achasse o leito 
e a correnteza.

.cesura 
na ideia difusa.

.em camadas, dentro do frasco, 
as infâncias se misturam 
e chegam às misturas do adulto.

.nesta lacuna, inscrevo 
a palavra míngua.

.fosso entre o dito 
e o não dito.

.em plantio a esmo, 
com as mãos cheias, 
lanço as letras às ruas 
que o arado 
abriu na lavoura.

.um lápis, outro lápis, 
todos com as pontas 
novas para mais 
um dia de baile.

.não faça projetos, garoto, 
obre, dê chances à obra 
e não à ideia de obra.

.toda uma vida escrita 
em cinco centímetros 
de um pendrive.

.a escrita manuscrita 
sempre tende ao filosófico.

.este estranho e enigmático 
fragmento de poema 
surgiu-me agora: "corroem 
em mim, feito ácido, 
os ditames das línguas 
primeiras". não sei 
o que isto significa, 
não sei 
o que isto quer dizer.

.a membrana que o lápis 
deposita sobre a folha, 
pó ou pólen, venda 
para o olho ou abertura, 
cisco de grafite, 
espanto nas células 
da letra, curva no mar, 
rio em fuga, a estranheza 
de escrever sem salvação.

.o velho disse: 
"nas análises políticas, 
procure primeiro saber 
de qual lugar 
o analista fala".

.um leitor fica, 
outro vai. qual leitor 
ficará depois 
deste falso haicai?

.há sempre um imitador 
à sorrelfa, à socapa, 
versado em tocaia, 
estrategista da moita.

.o que adianta um poema 
se as almas 
cada vez mais 
se apequenam?

.o mundo é vasto 
e não é monotemático, 
garoto.

.só aprecio 
a contemporaneidade 
que seja também milenar.

.sorrisos sociais 
(em fotogenia) em volta 
da poesia. para domesticá-la? 
para amansá-la? ou só 
para galgar 
com ela a escadaria?

.ah, os antenados, 
esclarecidos, especialistas, 
pesquisadores 
do próprio umbigo.

.o velho disse: 
"os donos de jornais 
sabem, desde o começo 
da imprensa, que há 
gente disposta 
a acreditar 
nas carochinhas da notícia".

.a escrita é instável, 
a escrita não tem casa, 
toda escrita é exílio. 
a escrita é uma comunidade 
a caminho, sem lugar e pouso, 
por ser comunidade nômade.

.se você não dá chance 
à poesia ou à ficção, 
é porque a sua realidade 
já virou tijolo.

.que mão é esta que escreve 
e apaga, que escreve e rasura, 
mão sem rumo e sem bússola, 
mão indomável, seduzida 
pelo movimento a esmo, 
mão que persegue o fogo 
das letras, todas essas letras 
em combustão na página, 
sol a sol, lua a lua, 
esta mão adoentada 
pelo verbo e à qual 
é vedado até mesmo o exílio?

.morro abaixo, sigo 
o caminho da água; morro acima, 
sigo o caminho do vento. 
se não há caminho, 
eu o invento.

.o velho disse: 
"não contamine 
o dia com os cultores 
de torpezas".

.instável, sem peso, 
a escritura é pássara 
à mercê dos ventos 
e das turbulências.

.o velho disse: 
"a hora do poema 
é a hora mais larga".

.desviou-se do rio 
principal e foi contar 
sagas e épicas 
pelos afluentes.

.quanto desperdício 
no áudio, quando você 
põe no poema um gerúndio.

.se não deu liga, se não 
tem visgo, não adianta, 
meu amigo, o poema afrouxa, 
a corda fica bamba, pior: 
você perde a chama 
da poesia, que é, 
veja lá, sempre ficar tesa.

.o velho disse: 
"os poemas 
são passarinhos 
que batem na vidraça".

.é preciso estar atento 
para que os arroios, 
os córregos, os fios d´água, 
os ribeiros não sejam 
tragados pelo rio principal.

.em literatura, sempre vou 
pelo córrego, 
jamais pelo rio principal.

.o velho disse: 
"as almas mais tristes 
são as almas crespas".

.sofria de pasmo 
e de espanto, então 
se medicava 
com as larguezas do horizonte, 
com as miragens do deserto.

.nossa senhora 
das rimas 
em ão, 
livra-me 
de ser um poeta 
resmungão.

.ah, os livros 
que sou obrigado 
a consertar 
para ganhar a vida.

.eles emergiram 
da pobreza e se tornaram 
politicamente infiéis.

.leia, filho. leia. 
leia para você 
desmascarar os farsantes.

.aprecio essas ranhuras 
por onde a tinta inunda 
o que pode ser papel 
ou pode ser um corte, 
um córrego, um riacho, 
ou mesmo a simples 
vala-trincheira 
onde nascem as letras.

.não aprecio a poesia 
enumerativa, inventariante, 
empilhadeira de coisas.

.é deveras tentador 
seguir os passos 
de joseph joubert, 
aquele que escreveu 
e jamais publicou.

.pobre de quem vai 
por uma única estrada. 
meus pés caminhadores, pés 
ambulantes e deambulantes, 
são pés para muitas vias, 
as retas e as curvas, 
as longas e as curtas, 
e até aquelas 
que dão num beco sem saída.

.vidente eu sou 
com as palavras.

.era uma turma. e a turma 
cevava no quintal, 
amarradinhos, 
alguns poetas 
de estimação. 

.ele disse ao livro: 
"você jamais 
vai comigo 
para a tal ilha deserta".

.pelo caminho do engano, 
pela via do equívoco, 
de erro em erro, 
o poema cresceu asas, 
içou velas, 
e foi cantar 
pelo mar adentro.

.o critério 
agora é este, 
senhor: eu não leio
livro 
que robô 
consegue escrever.

.limpidez para ver, 
claridade para discernir.

.também a vida 
é assim: letra a letra, 
frase a frase, 
página a página, 
livro a livro.

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