[A CAIXA-NINHO DAS PALAVRAS AINDA NÃO INVENTADAS]

[não era música. era só o rumor de palavras 
ainda não inventadas, palavras ainda anteriores aos fetos de palavras, óvulos talvez, um traço.

impossível nomeá-las, dizer assim: "ó substantiva passarinha, ó verbálica flor de maio". sem nome, só lhes restava o rumor de sílabas em correria.

não quis abrir a caixa-ninho onde tais alaridos se produziam, não quis flagrá-las ainda desnudas, as faces por lavar, o sexo ainda impúbere.

sei que os dicionários por elas demandavam, sei que palavras antigas, metidas em totens, em regras, nomenclaturas, vinham com a carapaça

de palavras líderes, o elmo vernáculo no sobrolho, o andar mastodôntico, aquele hálito das iluminuras, tudo para demarcarem um domínio e um território.

em vão, esse exercício bélico na caixa das inominadas, ali onde o mundo é brinquedo, sílabas ainda vegetais ou de natureza indistinguível, gravetos alados

ou peixes invisíveis, matéria a exalar o cheiro recém-fecundizado dos poemas, invenção do fogo ou instante primevo inaugural da língua.] 

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