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9.3.26
[ANJO CEGO]
por tais leituras, quer decifrar
os avisos da noite sobre a humilde
forma de um tijolo, quais litanias
foram ali gravadas, quais vogais,
quais limeriques ou mesmo quais
canções que o anjo cego da noite
quis deixar tão cedo para nós,
os indesistentes e portadores
de cajados, aí pelos caminhos.]
[A LATA QUE VIROU POEMA]
para que a lata, ao sol,
em canto analfabeto
de um quintal sem dono,
de um fundo de terra
e arames, entre pneus
entre carcaças de bichos
desbotadas, pois tardou
para que a lata,
de sua ferrugem,
emitisse por fim
[RIMAS? ORA, SÃO ENZIMAS]
[é pouco ou nada dizer que rimas
são sons que se combinam,
ou que se espelham, pares
eu diria que rimas são mais
que nutrem as linhas superpostas
o caroço que o senso comum
da língua, reagem à química
das palavras-ovelhas, estas que,
com anemia. por serem da ordem
rítmico do poema a cósmica coreografia,
e nutrem, com a poética do ver, do ouvir
e do pensar, os engenhos da poesia.]
[KANT E A RAZÃO PURA NA TARDE DO BAIRRO]
[depois kant puxou a bolota da razão pura de modo que, da longa tira emborrachada, bem esticada, pudesse soar um dó maior ensolarado pela tarde do bairro.]
[e os meninos.]
[e os meninos, toda a criançada de pés no chão e narizes líquidos, toda a meninada do bairro logo pôs caras e carinhas nas janelas.]
[os meninos viram quando o dedicado kant dedilhava com o dedo mindinho a goma esticada da razão pura.]
[os meninos viram aquilo.]
[eles viram aquilo e acharam muita graça.]
[como é que o velho kant havia conseguido fabricar tal razão pura esticada sobre a mesa das melancolias?]
[parecia até uma corda de viola, pois o dó maior atiçou curiosidades na rua do meio, depois na rua de cima, depois na rua sem nome, e mais depois ainda na praça das metafísicas obscenas.]
[mulheres sem-que-fazeres logo apareceram, os aposentados deixaram o jogo de damas, poetas boquiabertos caminharam por fios incandescentes.]
[isto é: a razão pura esticada e musical naquela tarde de julho.]
[frio fazia, luvas e os cachecóis dançavam a dança das nuvens, o dó maior da razão pura blimblava blins-blons pelo bairro afora, e paulinho assunção, o fantasma, posicionou o estilingue em direção às vidraças.]
[foi um tiro certeiro.]
[tiro certeiro de pedra redonda na vidraça da literatura sorridente.]
7.3.26
[PARA SALVAR A EXUBERÂNCIA]
[a exuberância: da pedra, do mar, do cesto ao sol, do peixe, do camelo na solidão do deserto, da mulher que nutria o espanto diante da janela matinal.]
[os martírios que vitimavam a exuberância eram, por exemplo, os ventos cruzados.]
[os ventos que trazem em seu interior revolutivo o desnorteio, a incongruência de rumos, o escoiceamento dos potros.]
[ao descerem sobre a exuberância, esses ventos cruzados submetiam a exuberância ao martírio de fenecer e murchar.]
[por isso, era preciso salvar a exuberância.]
[então os velhos se reuniam à tarde e emitiam palavras redondas para anteparo à ação dos ventos cruzados sobre a exuberância.]
[os velhos eram muito velhos.]
[aquelas mãos já quase adobe.]
[aqueles olhos já minerais.]
[e aquela calma dos grandes guerreiros sem armas e sem ódios.]
[era quase um tratado sobre o equilíbrio do mundo.]
[era quase um louvor aos engenhos da paciência.]
[tudo para salvar a exuberância dos martírios que a vitimavam e entristeciam.]
6.3.26
[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]
o vapor de cachoeira
é quase noite ao sul do sul, vai
o corte no olho do cão andaluz.
godard recorta o senso
"fracassamos", diz o homem
5.3.26
[LIVROS E AUTORES ESQUECIDOS]
27.2.26
[O VELHO POETA DA LANCHONETE NACIONAL]
[Havia na Rua Goiás, com uma porta que dava para a praça Alberto Deodato, quase esquina com Rua da Bahia, um estabelecimento chamado Lanchonete Nacional.]
[Pelo estilo, era remanescente de uma Belo Horizonte ainda com aura que vinha lá do Bar do Ponto, lá do modernismo mineiro, lá das empadinhas e dos bolinhos de feijão.]
[Na praça, mínima praça, havia também o Cine Metrópole, em local da antiga casa de ópera dos tempos dos tenores, contraltos e arrebóis. E cheiro de manacás. Mesma praça onde hoje pontificam as figuras em bronze de Drummond e Pedro Nava.]
[Às cinco em ponto da tarde (como no poema de García Lorca), o poeta, já idoso naquela metade da década de 1970, sentou-se em uma mesinha central, encostado em uma pilastra com espelhos, bem próxima do balcão. Pediu um copo de leite frio e um misto quente.]
[Longos bigodes possuía esse poeta já muito cansado, adoentado, um tanto melancólico.]
[Exibia vistosos olhos cor de argila, aquela argila verdete, enquanto olhava lentamente para um lado e outro naquele momento em que a Lanchonete Nacional estava praticamente vazia.]
[O poeta pensava em Goethe e na Elegia de Marienbad, poema que o autor do Fausto começou a escrever em 5 de setembro de 1823 sob o clima devastador da paixão não correspondida por Ulrike von Levetzow, de 17 anos. Goethe, à época, tinha 73.]
[De resto, é uma história conhecida.]
[Mas o poeta, com o seu lanche de final da tarde, parecia tomado pela cena de Goethe na sua viagem de volta para Weimar, compondo a primeira versão do poema.]
[Lá como cá, na estrada para Weimar e em Belo Horizonte, sincronizava-se a melancolia de um e outro por meio de um acontecimento com algum grau de semelhança nos descaminhos entre velhice e juventude.]
[Um pouco mais tarde, já no princípio da noite, o poeta levantou-se e desapareceu minúsculo pela Rua da Bahia afora.]
[Quero crer, porém, que foi ali, naquela mesa e naquele instante de um final de tarde na cidade de Belo Horizonte, que outra elegia com tema similar à Elegia de Marienbad começou a nascer, e cujo título, se não me falha a memória, aludia ao nome de Diamantina.]
[VOCÊ NEM SABE O QUE LHE CAI DA NOITE]
mas não em súplica, aparo as gotas
que da noite caem. não sei se água,
não sei se luz, não sei se estrela
ou qualquer luzeiro líquido, só
sei que aparo essas gotas, são quase
sílabas ou quase letras, pois,
ao ter plena a mão que as recebe,
sinto a indisfarçável presença do poema.]
26.2.26
[INVOCAÇÃO À DEUSA DA ESCRITA]
[que não me deixe cair nos círculos viciosos e enganadores da inspiração.]
[afaste-me das palavras gastas, palavras acostumadas às frases do senso comum, palavras deterioradas pelo uso negligente e efêmero, palavras clivadas entre intenção e ato.]
[conceda-me o verbo novo, sempre novo, como as manhãs de cada dia novo.]
[conceda-me o acesso ao reino das palavras inventadas, brincantes, palavras que o povo constrói de janela a janela, de rua a rua, na vida comunal dos bairros.]
[se poema, que ele rebrilhe ao sol como se lâmina afiada.]
[se conto, que ele provoque espanto, encantamento, e dê aos leitores o súbito e benéfico terremoto da vida em movimento.]
[se ensaio, que ele possua a amêndoa do conceito desencadeador de mundos inaugurais para a vida dos homens.]
[conceda-me estradas e desvios que não me levem à ira, ao ódio, nem deixe que as palavras que me ocorram estejam contaminadas pelo belicismo destruidor.]
[não deixe que o espaço territorial da folha em branco seja assemelhado a campos de treinamento dos senhores da guerra.]
[conceda-me a leveza, conceda-me a delicadeza, conceda-me a elegância como bússola estética e estrela-guia.]
[não me deixe cair nas armadilhas do preconceito estético, poético, filosófico, político ou ideológico.]
[conceda-me a alegria permanente diante da folha em branco e a subversão constante dos tempos verbais.]
[não deixe que as minhas palavras estejam subnutridas de música.]
[ilumine-me às obras do passado e faça o meu coração se abrir às obras do presente.]
[não deixe que a palavra trabalhador esteja separada e dissociada do ato de escrever.]
[e que este seu modesto servidor, paulinho assunção chamado, um pobre homem das beiras do córrego da confusão, não se submeta à ordem dos tecnicismos estéreis, predadores, anti-humanistas e inimigos da criação e dos inventos.]
25.2.26
[ENCONTRO DE LEIBNIZ E SPINOZA EM HAIA]
[Senhor Glous, vocacionado às pesquisas inusitadas, bizarras e até mesmo inúteis, conta-me do encontro que o Senhor Gottfried Wilhelm Leibniz teve com o Senhor Baruch de Spinoza entre os dias 18 e 20 de novembro de 1676, em Haia.
Conforme pesquisou Glous, o Senhor Leibniz se achava em missão diplomática na região e achou por bem visitar Spinoza, já bastante doente, e que morreria meses depois, em fevereiro de 1677.
Antes, por ter chegado aos Países Baixos em outubro, Leibniz visitou intelectuais como o matemático e físico Huygens, o comerciante de tecidos e construtor de microscópios van Leeuwenhoek, que associou microorganismos à produção de alimentos fermentados, e também o físico e médico Ehrenfried Walther von Tschirnhaus. E então dirigiu-se a Haia para conhecer Spinoza, de quem já lera o Tratado Teológico-Político (1670) e com quem já trocara correspondência indireta.
Por dois ou três dias, salvo erro, salvo engano, os dois filósofos conversaram com gosto e verbo sobre a natureza de Deus e da substância, sobre liberdade e necessidade, sobre a relação entre corpo e alma, e, claro, sobre a obra inédita de Spinoza, a Ética, que Leibniz leu em manuscrito.
Conforme a principal fonte desse encontro, Christoph Hermann von Wolff, Leibniz ficou impressionadíssimo, mas também intrigado, com a pulga atrás da orelha: viu ali a força lógica do sistema de Spinoza, mas igualmente avistou certo perigo, pois implicava, segundo ele, uma forma de panteísmo (Deus = Natureza), o que julgava incompatível com a teologia cristã.
O bate-papo entre os dois também foi relatado pelo próprio Leibniz em um texto que se encontra conservado em Hannover.
Ao partir, Leibniz levou na bagagem um exemplar manuscrito da Ética, exemplar que ainda existe com suas próprias anotações à margem.
"Sabe-se que esse colóquio entre os dois filósofos foi um marco, pois foi daí que Leibniz, como se em um contraponto a Spinoza, criou a filosofia das mônadas e da harmonia preestabelecida", diz exultante o Senhor Glous, escandindo cada palavra de sua revivência daqueles dias.
Enquanto caminha pela tarde em Salvador, na Rua Conselheiro Pedro Luiz, e até mesmo transborda os olhos de emoção pelo relato desses acontecimentos, Senhor Glous saúda os passantes do bairro do Rio Vermelho, como se ele próprio tivesse feito parte do famoso encontro de Haia.]
23.2.26
[SIGNOR FRAGOLINO E A SUA BICICLETA]
Meu filho contou-me a história, que teria sido assim:
Que Signor Fragolino, com as mãos já trêmulas, abriu um pouco a cortina da sala naquela manhã de fevereiro e percebeu que o tempo, pouco a pouco, melhorava em sua querida Ravenna. As nuvens já não estavam tão pesadas e escuras como na semana anterior, e o sol, mesmo tímido, iluminava em rebrilhos os telhados do centro velho. O termômetro marcava 13 graus.
Muito devagar, frágil e arrastando as pantufas, Signor Fragolino aproximou-se da mesa da cozinha. Ali, pelas mãos afetuosas e sexagenárias da sobrinha Alda, já o esperavam sobre a toalha vermelha de bolinhas brancas o caneco de café, as fatias de pão, o pote de manteiga Galbani e o prato com o queijo Squacquerone. Signor Fragolino havia completado exatos 115 anos no final de janeiro e vivia apenas com a Signora Alda, viúva de outro combatente histórico da Resistência Italiana na região de Ravenna, o Signor Gildo.
Aquele era um dia especial na longa e aventurosa vida do Signor Fragolino. Especial e doloroso, dada a decisão que tomara com grande e sofrido esforço alguns dias atrás: vender a sua amada Bianca, a bicicleta que lhe servira desde os anos 1940 quando juntou-se à 28ª Brigada Garibaldi, liderada por Arrigo Boldrini, o famoso Bulow, como era o seu codinome, no combate ao nazifascismo.
Ali na cozinha, curvado sobre a mesa, Signor Fragolino fechava os olhinhos castanhos e tentava reviver as suas peripécias junto com os demais partigiani por toda a Emilia-Romagna, mas, especialmente, a partir da Isola degli Spinaroni, uma ilha existente lá pelas lagoas ao norte de Ravenna, que servia tanto como refúgio quanto centro de comando da luta antifascista.
Signor Fragolino terminou o café e olhou demoradamente para a sobrinha Alda. Com ajuda dela, iria daí a pouco à loja Il Baule dei Ricordi, onde o dono, Signor Alberto, prometera receber Bianca para revenda com única condição e exigência: que o comprador da bicicleta cuidasse dela com o mesmo zelo com que fora cuidada desde quando, no vigor da idade e destemido combatente, cantara Bella Ciao pilotando Bianca pelas trilhas mais secretas do norte da cidade.
Agasalhado com o velho capote e com a boina vermelha antifascista, o pescocinho protegido pelo cachecol de lã que a mulher, Signora Natalia, tecera por noites e noites de inverno antes de falecer aos 84 anos, lá foram pelas ruas de Ravenna o Signor Fragolino, a Signora Alda e a velha Bianca. A bicicleta era levada como se fosse uma criança: cada um, carinhosamente, segurava uma das pontas do guidão.
Ao avistar a loja, Signor Fragolino suspirou e puxou lentamente o lencinho vermelho do bolso do capote. Suspirou outra vez e enxugou uma lágrima. De lá, Signor Alberto, com os seus bigodões negros, acenou com o estardalhaço de sempre, famoso entre os moradores de Ravenna. Mas aquele aceno, em tudo amigável, doeu ainda mais no coração do Signore Fragolino. É que terminava ali a sua história com Bianca.
Pouco depois, cantarolando Bella Ciao baixinho em louvor aos tempos históricos e heroicos, ele voltou para casa amparado pela sobrinha Alda. Morreu no dia seguinte, com 115 anos e quinze dias.
Menos de um mês depois, a bicicleta Bianca encontrou um novo dono à altura da exigência assinalada pelo Signor Fragolino: Tomás, francês de nascimento, mas internacionalista com porções brasileiras, mexicanas e italianas, comprou a velha Bianca e se deixou guiar por ela pelas ruas seculares de Ravenna: livre, sem rumo, deliciosamente sem rumo como um travesso passarinho.
21.2.26
[FUTURO-TE?]
lances de tempo delirante
dar à poesia, ao mesmo tempo,
ontem-te, hoje-te e futuro-te?
em paz deixo-a galante no livro
dos livros em verbetes, assanho-
me em gozo de procurá-la
e achá-la em qualquer tempo
de depois ou de antes, melhor
sempre querê-la continuamente.]
20.2.26
[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores
e arbustos do cerrado, essa paisagem
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.
foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase,
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.
dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim
porque os tropeços são comuns
nesse tipo de latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]
18.2.26
[QUANDO PENSO EM POEMA]
[GERMINAR]
o milagre dos grãos.
lançados,
atirados, caídos.
vazados por entre os dedos.
saltados das espigas.
levados pelo vento,
ao vento.
quase vocábulos.
quase letras. frações
germinativas e germinantes.
e o campo. a pedra.
os pedregulhos.
e os homens.
uns e outros.
os muitos e os poucos.
e a cidade.
e então as ruas.
e então as casas.
e as mesas.
e as bocas. os corpos
e as camas.
os líquidos e as mãos.
e o tempo.
os dias e as noites.
migalhas e resíduos.
o cisco e o meteoro.
o giro. a dança.
os campos magnéticos.
as erupções, as intempéries.
essa vida potente
e coreográfica
à qual
podemos chamar de esperança.]
17.2.26
[A NATUREZA E O PENSAR]
quero dizer, o redemoinho
e o gafanhoto, a pedra e o graveto,
a chuva e o terremoto.
não ponho pressa em mim
para pensar o rio, seus remansos,
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,
esse rio que ponho no pensamento
para melhor pensá-lo, pois um rio
é sempre dois rios, uma coisa
é sempre duas coisas,
a que está fora e a que está dentro,
são campos magnéticos, circuitos
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,
ao ser pensada, ganha a consistência
de ser a mesma e ser diversa, pois
pensar é uma moenda, pensamento
é aquilo que engenha, se penso
a coisa, e penso a natureza, a mesma
coisa logo se inventa, basta pensar
para que outro mundo venha,
por isso chego à natureza
como um peregrino, ando com patas
de felino, lento eu giro o que eu vejo
em suave rodopio, não corro, aprendo
com a modorra do cachorro,
aprendo com a sonolência do cavalo,
alio-me à força dispersiva que leva
o cisco em ventania. se não entendo,
espero, e se me espanto, alegro-me.]
[ÓPERA EM SILÊNCIO]
os cavalos
azuis. a lesma.
os vidrilhos
da luz. o calmo
antúrio e a nobre
avenca.
e os cartógrafos.
seus mapas
por onde a chama
da vela diz:
"eis o país de lá",
"eis as cidades
que flutuam
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu.
a espada.
há o baú
com os papéis tristes.
substantivados abandonos,
goivas de lacerar
as saudades, o corpo
em seu litígio perene
pois potro
sem doma, sem rédeas.
o corpo ágrafo
destituído de palavras.
o corpo em selvageria
úmida. a casa. o lodo.
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham
com suas tochas incendiárias.
tudo é calma sobre o fio
da lâmina. ela agora dorme.
a nudez exposta.
o lago que se formou
junto à cama.
lá fora, os cavalos azuis.
lá fora a madrugada
pendente, pêndulo
das noites baixas,
rentes ao chão.
as noites rastejantes,
tapete em trevas.
e os apitos.
ao largo as barcaças,
os marinheiros
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos,
as velas piratas.
e a trempe.
as brasas dormidas.
hora de macerar as ervas,
hora de chamar assim o dia:
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares
no pescoço. o dia
com os seus cavalos
vermelhos.]
16.2.26
[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]
"pallaksch",
nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó
a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan
também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro
"pallaksch", murmuro as desdobras
sem dobras do que indefine,
mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,
intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar
desconhecido, intuo esse pássaro,
não é do sim, não é do não,
mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]
24.1.26
[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]
sua sombra.
ao vento.
seu murmúrio.
sua horta,
sua praga.
está vazio.
edifícios
da grande cidade.
sua caneta
não tem tinta.
seu enchimento-espantalho,
seu gesto
performático.
sua memória.
sua vaidade,
seu sucesso, sua bolsa
de valores.
seu seguidor
e seu seguido.
figurativa,
suas volutas significantes.
nega o ato
o poema, sol a pino,
da janela-bruma.]
4.1.26
[O FIO E O TIGRE AZUL]
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais.
na paisagem que a cidade
como se fantasmas, mulheres
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los
o fio único desafiava
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio
leste e vinha como se serpente
atravessava a cidade
tristes, em pânico
9.12.25
[OS SABERES E OS DESSABERES]
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo,
ainda há pouco eu sabia,
logo esse novo saber
fazem morada, um novo saber
a um saber não se dá a recusa,
puxamos a cadeira,
novo conviva. olá, eu digo,
de uma frase sinuosa
as amizades,
outra vez, em reprise, outra vez
outros saberes chegarão,
vão ceder o lugar


















