16.2.26

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

[as tardes no suplemento literário eram tardes lépides, víssilas, larúnias, essas palavras que não existem.]

[tarde boa era tarde cortázica.]

[de quando em quando, uma tarde quintero, o ednódio, ou uma tarde dyonélio, o machado, ou uma tarde caio fernando abreu.]

[a pasta de poemas dera crias durante a noite.]

[pintainhos novos eclodiam desde barbacena, juiz de fora, maceió, manaus.]

[poema inédito de max martins, e, de amparo, comparecia o ainda menino marçal aquino.]

[manoel lobato aplicava farmacopeias na pasta de ficções.]

[jaime sugeria guilhotina e cepo para um conto pó de arroz.] 

[quem sabe, na contracapa, um poema do novíssimo ricardo aleixo?]

[piroli não veio.]

[há semana e tanto que piroli não vem.]

[mas o duílio chega, ofega, agita-se.]

[cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.]

[é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?]

[mas deus, federal, universal, orbital, deus não respondia.]

[na poltrona, o lugar de honra ainda aguarda por emílio moura.]

[dona maria helena anuncia a chegada de libério.]

[trouxe poema inédito e nos oferece cigarrinho de palha goiano.]

[libério é um monge feito de substantivos perfeitos.]

[adão está ao telefone.]

[há hora e meia que adão está ao telefone.]

[o poeta fala e ri, fala e pisca para o jaime.]

["é moça", diz manoel lobato.]

["é musa", digo eu.]

[os poemas concordam comigo.]

[a tarde agora está ridente, peralta, travessa.]

[branca veio rir conosco.]

[murilo foi ao palácio.]

[e se o piroli chegasse?]

[chega o bley barbosa, e, com ele, o henry corrêa de araújo.]

[vai chover para os lados do pelicano.]

[lobato noticia: "tem conto muito bom da lucienne samôr".]

[duílio diz: "vai para a página central".]

[quem há de contestar?]

[fecha-se a edição.]

[chove.]

[mesóclises passeiam pela avenida augusto de lima.]

[um velho modernista com um guarda-chuva traz um poema 
em francês.]

[pobres de nós.]

[quem nos salvará do albatroz?]

[chove.]

[lá vai embora o manoel lobato.]

[a vida?]

[a vida é dúctil, excelsa, ebúrnea.]

[chove manga.]

[há conclave no pelicano.]

[e o vicente huidobro, e o lezama lima?]

[adão está outra vez ao telefone, ri e fala, ri e pisca para o jaime.]

["é musa", digo eu.]

[é que tudo na vida nasceu para caber dentro de um poema.]

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

[IDIOMAS DA OBJETARIA]

[agradeço ao poema pelos idiomas
falados pela objetaria. eu disse objetaria:
gavetas, latas, quinas, argolas, a infinita
enciclopédia que me cerca, e me envolve,

essas estantes de coisas na luz e nas trevas,
a bola de gude, a escama do peixe, esses falares
da gravata, o sotaque do prego e do parafuso,
a entonação que o tampo da mesa produz

ao amanhecer. por esses idiomas da objetaria,
eu agradeço ao poema. só o poema arma
ao relento a poltrona imaginária das conversações
sem fim: respondo aos cumprimentos do grão

de areia, respondo às indagações do cadarço
já em desuso sobre o balaústre, ouço a música
que o caixote guardou para o crepúsculo,
eu, o gato e o cachorro somos partes desse simpósio.]

7.2.26

[A FLOR VIAJANTE]

[isabel botas negras achou a flor ao pé de uma árvore na rua trifana. pego-a. acariciou a flor entre os esmaltes cor de marte e foi pela rua como se levasse um pequeno anjo.

era flor minúscula, mirrada, já um pouco murcha, flor sem nome das espécies de flores em estado de mendicância, flor sem teto e sem jardim nas dobras da cidade.

isabel cruzou a afonso pena com a flor entre os dedos, desceu com suas bravas botas negras para o vale do anchieta, alcançou o carmo, seguiu pela outono, estava agora na grão-mogol, ela e a flor, flor-irmã nas dobras áridas da cidade.

mas os tratados de economia não incluíram tal acontecimento em seus gráficos de curvas apocalípticas. o senador não incorporou tal fato ao relatório das vicissitudes da república. homens de terno permaneceram assépticos e imunes à flor que isabel levava: flor-irmã, flor-amiga, a ínfima flor sem nome pelas bordas toscas da cidade.]

31.1.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]

26.1.26

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.


24.1.26

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, 
sua sombra.

seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira 
ao vento.

tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, 
seu murmúrio.

sua aorta está vazia. 

sua horta, 
sua praga.

tudo está vazio.

o livro que você lê 
está vazio.

letreiros da imensa avenida, 
edifícios 
da grande cidade.

tudo está vazio.

seu lápis não tem grafite, 
sua caneta 
não tem tinta.

tudo está vazio.

seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, 
seu gesto 
performático.

tudo está vazio.

seus dedos, seu teclado, 
sua memória.

seu chip está vazio.
 
sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa 
de valores.

tudo está vazio.

seu monólogo em rede, 
seu seguidor 
e seu seguido.

tudo está vazio.

sua metáfora, sua curva 
figurativa, 
suas volutas significantes.

tudo está vazio.

mas o poema, rebelde, 
nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão 
submissa, 
o poema, sol a pino, 
cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]