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16.9.21

[EPITÁFIOS DOS ESQUECIDOS]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, fino pó abstrato.
nem pedra no caminho,
nem poeta concreto".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, pasto de verme tonto.
queriam poema, fiz conto.
melhor se tivesse sido santo".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, tíbias
de carbureto.
em tempos de haicais,
pratiquei sonetos."]


[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, poeta
louco e insensato.
não fui às flips, flops e flups, 
nem ao sempre um papo".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo. o diabo
esteja. vade retro!,
disse o editor com meu 
livro sobre a mesa".]


[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, anêmica
corda de banjo.
não fui drummond,
nem augusto dos anjos".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo. tivesse sido
acadêmico, tocariam
flautim e flauta 
à hora do meu féretro".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo. virei pó
etc. e tal. melhor se tivesse
sido poeta marginal".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo. só me sobrou
o úmero. a geração
a que pertenci
não possuía número".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, mais reles
que um cuspe.
e ninguém me estudou
na sorbonne nem na usp".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, do pó 
voltei ao pó do ossário
sem jamais ter sido verbete
de um dicionário".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo. do meu nome
ou do meu sobrenome,
não houve anamnese,
nem tese".

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, nesta paisagem
abjeta, não tive pai oligarca
nem tive mãe intelecta".]

[epitáfio dos esquecidos:

"aqui jazo, rasurado
em sete palmos. mudo
que nem esfinge, também
morri de morte em efígie".]

14.9.21

[BEM MAIS QUE OS VIVOS, OS AUTORES MORTOS HABITAM ESTE POEMA]

[bem mais que os vivos, 
os autores mortos
habitam este poema, 
é a seiva 
de uma vogal
que atravessou milênios, 
é o berimbau
de uma consoante 
em teso aço 
que pelo poema ecoa.

de longe vem o pólen
que com as mãos
recolho, de longe a voz
de um verbo
nas entrelinhas, de longe
a sombra, o vulto, a presença,
como se no sangue
outros sangues, como se no rosto
outros rostos, 
ventos marítimos
dos que movem barcos,
sóis de imagens, clarões
de figuras e personas
à beira-página.]

13.9.21

[DESERTAR-SE]

[desertar-se do comboio
que leva o senso, o consenso, 
desertar-se do carro-guia
com o seu aboio, desertar-se

no primeiro atalho, ir-se
pelo desvio, desertar-se
estrangeiro antes
do primeiro arroio, antes

do primeiro fio ligador
do comum com o fastio, 
desertar-se, só, na solidão
de um sol rebrilho no dorso

do seu punho, desertar-se
da ladainha unívoca de um só ritmo,
desertar-se com o livro, o branco
e nu despaginado livro, desertar-se

pela folha que encruzilha
os aforas do caminho, desertar-se
livre inominado índio,
desertar-se da tribo, seguir
o chamado do fogo.]

[O VOO ASTRONÁUTICO DE BELO HORIZONTE]


[íamos, a passos de polca, avenida afora, presenciar o voo astronáutico de belo horizonte.]

[diziam que a cidade levantaria voo às oito em ponto da manhã dominical.]

[fantasmas doutros tempos igualmente se reuniam em correnteza pelas ruas, precários em seus andrajos, precários e ocos, mas ávidos pela magnífica novidade.]

[não havia mais a maravilha dos brilhos vidrinhos marioandradinos.]

[ninguém pescava mais com os narizes o cheiro das magnólias nos quintais ou das empadas nos mostruários.]

[metafísicas sujas de lama se enroscavam no bico dos nossos sapatos.]

[fenomenologias esquartejadas eram comidas pelos cachorros em recantos lúgubres da rua da bahia.]

[tão pobres estávamos em nossos estoques de espanto.]

[daria quase oito horas da manhã nos sinos da igreja são josé, aqueles sinos esburacados pelos tiros djangos da madrugada.]

[poetas-de-voz-alta, performáticos, diziam os seus poemas com as bocas enrijecidas pelas poses labiais.]

[havia entojo no olhar dos mendigos, havia náusea espiralada pelos lados do edifício maletta.]

[mais e mais a vala comum dos escritores velhos acumulava novos pretendentes ao esquecimento.]

[alguém gritou “carlos lamarca” pelas bandas da rodoviária.]

[alguém assoviou uma guarânia.]

[pedaços de brasil podiam ser vistos em farelos pelos bueiros.]

[deu então a hora esperada.]

[foram solavancos de versos quebrados.]

[houve intempérie nas redondilhas mancas.]

[e a cidade, albatroz com piolhos e sarnas, então levantou o seu voo astronáutico.]

9.9.21

[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]

[o velho disse:

− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.

− há uma zona de fricção
entre um e outro.

− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não saber
que explora as múltiplas possibilidades.

− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.

− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.

− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.

− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.

− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.

− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]

6.9.21

[DORIVAL, O HERMENEUTA]


[o gato dorival, dito hermeneuta, está para completar um ano de uma vida deveras atribulada. nasceu em lauro de freitas, bahia, e ali, abandonado, dedicou-se à meliância com outros felinos da região, o que lhe rendeu, como herança, icônicas cicatrizes nas orelhas. recolhido por mão caridosa, dorival por fim ganhou residência em belo horizonte, para cá trazido em voo muito tranquilo entre o aeroporto de salvador e o de confins. como sujeito capaz de leituras rápidas e sagazes do ambiente, e também dos humanos do entorno, dorival adaptou-se à nova moradia num piscar d´olhos. em minutos, sentia-se dono da casa aqui nos altos da rua muzambinho.]

2.9.21

[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]

[o poema-documentário começa 
nos próprios óculos de mário: é ali,
pela redondez das lentes, que se dará

o fenômeno dos vidrilhos, aliterado
fenômeno a se reproduzir ressoante
por maravilhas e brilhos da noite.

diz pedro nava que mário de repente 
debandou-se do grupo, foi para a sacada 
do grande hotel, contemplou o estilo 

flamejante e manuelino do conselho 
deliberativo, rua da bahia com avenida 
paraopeba, ali onde, adusto e áspero

pela rigidez e a monotonia, eleva-se
hoje o edifício malleta. e então
o poema-documentário volta aos óculos

de mário, e pela redondez das lentes
com faíscas nas hastes, flagra outra vez 
o fenômeno dos vidrilhos, a combustão 

de luzes na noite de belo horizonte,
o sonar de mário capta frequências acústicas,
seu radar recebe ondas eletromagnéticas.

com letreiros diante da câmera, o poema,
que é documentário, exibe as seguintes
frases: "ah, o brasil da república velha;

ah, a belo horizonte das magnólias; ah,
o barnabé em pânico com o ovo do novo
que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,

o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah,
o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos 
do partido republicano mineiro". corte.

volta-se a câmera para os óculos de mário,
"holofotes que varrem a noite", diz nava.
corte. fusão de imagens dos óculos de mário

com os óculos do poeta sem nome. é o ano
de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, 
chove, dói no horizonte a dor de um mendigo 

bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos 
de sangue, eis o poeta sem nome, turvas
lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]

13.8.21

[A FRASE QUE CAIU DA NOITE]

[gatos apreciam andar lentamente pelo gerúndio.]

[país. imaginei ter um. já não imagino mais.]

["vem", disse a chama. a lenha foi. e era noite. falava-se a língua dos murmúrios.]

[buraco. o da estante. o que ficou do livro in absentia.]

[arder. era mesmo para arder aquele comunal convívio pelo livro, para o livro.]

["qual legado seria o da inscrição feita dentro de uma amêndoa?", ela perguntou.]

[benjamin disse: "a rua: habitação do coletivo".]

[aparições. instantâneos que a letra, qual radar, puxa para a frase.]

["a mão também é peregrina com o seu lápis-cajado", ele disse.]

["manto. tão abrigante palavra, toda ela aquecida", ela disse.]

["ah, mas o tecido do texto só para poucos vira manto", ela disse.]

[arpejo. tudo aquilo que, em um tempo-antes, foi rumor.]

[fímbria. certas dobras, certas beiras, onde pensamento e abismo se irmanam.]

[declamação. o que dizem ser uma forma de envergonhar os poemas.]

[café. o que alguns chamam de noite líquida.]

[tejo. o que intuiu o que eu digo, o que diremos, o que a língua dirá.]

[silêncio. entre os silêncios, existem aqueles feitos de farpas.]

[hölderlin: "diotima". «tantas vezes chorei, em largo rio, diante dela.»]

[hölderlin. e ele disse: «que deleite eu não havia de sentir por ser carvalho!»]

[llansol. eis o pão repartido sobre a mesa-figura, as mãos dos comensais-legentes.]

[clarice. dizíamos dela, baixinho: "é um verbo intransitivo".]

[rio. espécie de forma que o pensamento adotou em conluio com as águas.]

[agulha. seu fundo dá abrigo e passagem à linha peregrina.]

[romã. é tão sábia que arremedou os astros e as constelações.]

[desvio. voz narrativa indireta e oscilante dos caminhos.]

["quando tudo for superfície na letra, use goiva", ela disse.]

["ah, mas como são bonitas as rasuras", ela disse.]

[estilo. suposições de um quarto desarrumado, de uma casa em escombros.]

[lago. bashô ri da rã com água-som.]

[nó. o que sonha mediante laços, enlaces, cordões.]

[figo. flor para dentro, flor que preferiu o eu.]

[avenca. a que em diálogo com o muro roça a tristeza.]

[poema. da ordem dos grãos, das amêndoas, da respiração das coisas.]

[arte. só o avesso reluz.]

[blanchot. ouvir as agonias da literatura.]

[fragmento. por entre os dedos, debulha-se a totalidade.]

[borges. confirmam-se as previsões de gutenberg.]

[nódoa. assim quando o lápis em vertigem.]

[cisco. o que era das escamações dos anjos.]

[barthes. a suprema nitidez do que é minúsculo.]

[linha. o que o abismo ensinou depois da queda.]

[olho. o que atravessa entre dois desertos.]

[água. esse espanto da página em branco.]

11.8.21

[OS ESQUISITOS, COMO NÓS, À BEIRA DO DOURO]

["Nenhum de nós recorda o texto da lei que obriga a recolher folhas secas", diz Julio Cortázar ali pela página 129 de A volta ao dia em oitenta mundos, quarta edição da Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, outubro de 1968. Ndalu, que é versado nesses temas um tanto em desuso, e é capaz de paradas súbitas na rua ao ter o olhar atraído para uma pedra, um besouro morto ou um papel com letrinhas manuscritas, propôs a Jorge um jogo enquanto caminhávamos pela manhã à beira do Douro. 

Vínhamos de Dublin, fizemos uma parada de dois dias no Porto, mas o nosso destino era mesmo Havana, pois ali, naquele mês de agosto, participaríamos do XX Encontro dos Livros e Personagens Inexistentes. "O jogo consiste em ativar em nós o fervor para a esquisitice", explicou Ndalu. 

Soprava do Douro um ventinho travesso e mefistofélico. Caminhávamos lentamente e descompromissados. E havia como que um ritmo frásico de lerdo e preguiçoso soneto em nossos pés. Em meu bolso, o bolso direito da camisa, palpitava uma carta que recebera do professor baiano Otto com 22 sugestões para livros e personagens inexistentes. Uma carta que, confesso, seria de utilidade imensa no encontro cubano. 

Ndalu, então, explicitou um pouco mais o jogo ativador de esquisitices, que seria uma espécie de circuito cerebral inexplorado, posto que marginal à ordem do comum e do usual naqueles dias em curso pelo mundo. Esquisitar seria o verbo maestro nesse jogo que a visão do Douro instigava, que os passos de caminhantes sem pressa estimulavam, que a perspectiva da travessia atlântica dali a dois dias motivava.

Éramos três amigos irmanados pelos livros e pelas histórias. A invenção de fábulas nos unira ao longo dos anos, e éramos capazes de engenhosas viagens, ora Bagdá, ora Minsk, ora Manaus, ora Praga, mesmo que na quietude de não sair do lugar. E jogávamos o jogo proposto por Ndalu. Lançávamos em voz alta hipotéticas concepções sobre a frase de Cortázar sobre as folhas secas. Dizíamos palíndromos às moças que passavam àquela hora da manhã, ou então tecíamos elogios aos chapéus dos senhores que, como nós, iam e vinham, à beira-Douro. As moças, sob ação palindrômica, sorriam; os senhores, com a sisudez destoante com a luz matinal, trancavam ainda mais os semblantes. 

Até que vimos, adiante, ungido por um prisma de luz, um menino. Soubemos, depois, que se tratava do Menino Recolhedor de Folhas. Virtuose no ofício, ele dispunha as folhas secas em estantes dentro de um caixote. Parecia uma biblioteca de livros sem títulos e sem personagens. Mas era coisa tão bonita de se ver que mereceu de nós saudações e vivas ecoantes-altissonantes pela manhã portuense.]

[QUATRO DA MANHÃ: PAUL VALÉRY COMEÇARÁ A ESCREVER]

[Íamos, Rubem Focs e eu, pela Rua dos Geômetras. Era, por fim, a noite calma e terna para os que vínhamos de perigoso embate com uns pistoleiros da Cidade Baixa. Focs levava sob o capote uma zero doze de fabricação alemã; eu mantinha no bolso do paletó a oito sete de procedência incerta. Deram-se os combates desde a hora vespertina. Eram nove contra dois. Vencemos. Aos andrajos, caminhávamos. Era vitória muito dolorida de muitas horas e tiroteios. E triste como todas as vitórias.

A Rua dos Geômetras era curta e plana e os sobradinhos de dois andares pontificavam com as suas fachadas delicadas àquela hora em que a cidade, deserta, parecia enroscar-se aos modos de um cão sem dono. Um ou outro surgia nas esquinas, gente talvez feita de bruma, sem consistência e substância de pessoa vivente. Uivavam ao longe talvez espécies caninas. Olhos de gatos apareciam em frações de minuto, aqui e ali, em algum desvão de garagem.

Por acidente, mais em fuga do que guiados por um mapa, caíramos na Rua dos Geômetras. O certo seria a Rua dos Caracóis, mais ao sul, limítrofe com o bairro dos Alfaiates. Mas estávamos ali na noite calma e terna e por ali seguiríamos até a Praça das Bolandeiras. De lá, cada um de nós tomaria o caminho de casa. A vitória doloria. Era decerto vitória muito triste. Aqueles tempos de guerra. Tempos abomináveis.

Foi quando passamos pelo número 33, diante do sobrado azul, três janelas no segundo andar, três portas no primeiro, com uns arabescos na fachada e gradis oxidados nos balcões minúsculos. Estava acesa a luz da janela do meio. Única luz na Rua dos Geômetras quando batiam as quatro horas da madrugada. Única luz como se um farol em alto-mar. Amarela, trêmula, mais tremular ainda quando o movimento de uma sombra parecia interpor-se entre o cômodo e a rua. Quem lá estivesse, não era fantasma, assim deduziu Focs em uma frase sem ponto final, frase reticensiosa nos tons baixos de alusão a mistérios. 

Paramos diante do sobrado e ali fizemos uma pausa. Quem lá estivesse, merecia esse intervalo em nossa caminhada. Focs olhou-me por um instante, refletiu sobre o que fazer e foi lentamente em direção à porta que nos parecia a porta principal. Havia identificação de moradores em uma placa esmaltada. Focs leu: Paul Valéry, 2º E. Dois outros nomes dividiam com Valéry a placa: Vernon Lassale e Jacobo Trévor. Mas era, sim, o poeta que se movimentava naqueles estertores da noite. Certamente, usava roupão e pantufas. E tinha diante dele mais um caderno aberto, a pena com certeza elevada para depois se abater sobre a folha para as notas aforismáticas de mais uma jornada de trabalho. 

A vitória doloria em nós. Era vitória triste daqueles tempos abomináveis. Mas seguimos caminho em passadas de intermitência, ofegantes, a ritmo muito cansado. Eram tempos abomináveis. Mas, ao nosso modo de homens rudes, saudamos em silêncio aquele poeta em sua laboriosa e grácil geometria.]

24.6.21

[O GRAVETO E AS RUÍNAS]


["eu posso entender bem 
por que as crianças amam areia", 
escreveu wittgenstein. 

os pés, as mãos, esses instrumentos 
de afundar e submergir, 
brinca-se por nada, brinca-se por menos 
de um vintém, 
e então cai a estrela de um grão 
de areia sobre o dorso de um besouro.

e há valsas nos túneis onde as mãos 
cavaram a origem do mundo. 

eis a súbita aparição ontológica 
de um graveto perdido 
que ali chegou pelo bico de um pardal, 
o mais desprezado dos pássaros. 

"amem os pardais", diz a ninfa 
dos alaridos doces. 
"amem os desprezados", diz a fada 
do nariz torto. 

somos então as crianças que amam a areia. 

somos os pardais nesse ensaio 
desvendador do indesvendável. 

somos o graveto perdido na paisagem das ruínas.]

7.5.21

[COM FERVOR, DEDICO-ME AOS TEXTOS QUE NINGUÉM LERÁ]

[dedico-me, com fervor, 
aos textos
que ninguém lê. 
ou jamais lerá. 

passa o corvo de poe
com um penduricalho 
no pescoço.
passa um navio sem porto.
passa a imagem 
de um monstro
pelo campo mais exíguo
do olho.

chora a cantautora de tango.
é frio o fio do punhal
no dorso do monstro, 
é chuva
de ácido no espelho d´água do poço.

chuto então a esperança 
com o peito do pé descalço, 
e, com fervor e paixão,
dedico-me
aos textos que ninguém lê,
que ninguém jamais lerá.]

27.4.21

[QUÃO INÚTIL É UM POETA]

[com os dedos, do modo que se afaga um cão,
ele apalpa a terra, e a terra é instável, treme,
são tremores de quem tem febre, vão e voltam

em ondas de calafrio. e ele pensa, pensa
nos dedos ali sobre o dorso do chão, pensa
nesse instável corpo seco, sedento, há muito

sem água, corpo pisado, pois ali é uma trilha,
um sinuoso caminho, pés por ali passaram
desde o começo do mundo, peregrinos

descalços, lavradores de manhã e à noite,
bois, cascavéis, um dono com as suas botas,
um soldado, quantos no sem-fim de gentes

a caminho, viajantes, e ele agora ali a apalpar
a terra, os dedos já avermelhados pela poeira,
e os tremores, tremores que vão e voltam, ondas 

de calafrio, ele que também seguia, era mais um
peregrino a caminho, e de repente se abaixa,
põe-se de cócoras, e procura ler o instável,

essa leitura ágrafa, pois ali não há letras, nem 
palavras, só há o pó de pedregulhos moídos,
rastros, marcas, sinais, e as formigas, os besouros,

é tão ridículo um poeta, é tão inútil um poeta,
ei-lo a ler o instável, ei-lo a alisar o árido, 
e a terra, trêmula, com sua mudez indevassável.]

16.4.21

[QUEM LERIA CONTO TÃO BREVÍSSIMO?]

O conto era brevíssimo, era quase um suspiro de borboleta de tão fugaz, por isso avisamos aos que passavam pela Rua Torta que não se iludissem, não esperassem o acontecimento-mor da criação. 

Flaubert, ainda de touca, conversava à porta da barbearia com Coelho Neto, e Rimbaud, de bicicleta, punha língua para Dona Ordália, a Santa. 

A Rua Torta era rua-cinema ou rua-baile ou rua-circo, conforme a hora.

Avisados que o conto era brevíssimo, os passantes e andantes e transeuntes puderam deixar as ilusões dentro das sacolas. 

Só havia dúvida quanto ao leitor do conto. 

Quem seria? 

Quem poderia ler tão ligeira e cadente peça de duas linhas, se tanto? 

Onofre, sempre um leitor em voz alta desde os tempos de coroinha, mudara-se para São Paulo. 

Jardel, anticomunista espumante, conseguira posto de observador de nuvens em Brasília. 

E o Antônio? 

Antônio era caso perdido.

O conto brevíssimo luzia à claridade da manhã. 

Conversa vai, conversa vem, o alcaide da rua, Tomás, teve a ideia de trazer um autofalante daqueles de armarinhos turcos. 

José Taranto, que se passava por magistrado, trouxe um caixote de maçãs. 

Eram demasiados os cachorros na rua àquela hora. 

Floreiras nas janelas exalavam em algumas casas o perigoso odor dos pecados. 

O ex-governador coçava a verruga. 

E nós, os autores do conto brevíssimo, esticávamos cordões pela rua afora, como se linhas de telégrafo.

Dez horas da manhã e nada. 

Meio-dia e nada. 

Duas da tarde e nada. 

Quem leria o conto brevíssimo para que as ficções não minguassem como se sementes carunchadas? 

Quem seria o leitor daquela migalha de palavrotas e palavrinhas? 

Quando soaram as quatro da tarde pelo carrilhão de Dom Acácio, o poliglota, começou um tumulto na Rua Oblíqua, paralela à Rua Torta. 

Vinha a passeata das Senhoras Roxas, ia a passeata das Senhoras Sônicas. 

Ali pelo número 44, as duas porções passeantes se enfrentaram. 

Houve tiroteio de impropérios. 

Anáguas foram rasgadas. 

Coifas viuvantes foram atiradas à poeira.

Carlo Emilio Gadda, que proseava com Flaubert já à porta da Cantina, decidiu ler o conto brevíssimo. 

Gadda, embora o estilo sinuoso, era querido pelas partes divergentes. 

Fez-se silêncio. 

Os cachorros amontoaram-se em posição de sentido nas calçadas. 

Ao longe, um navio mercante soltou a fúria de seu apito. 

Mariposas risonhas pararam seus voos de fim de tarde. 

Aguardavam. 

Gadda, então, com o minúsculo papel manuscrito nas mãos gordotas, limpou o pigarro. 

Começaria a leitura. 

Silêncio. 

Pausa. 

O mundo agora estático, o mundo agora estátua. 

E então explodiu a bomba atômica.

26.3.21

[O LIVRO-QUE-NINGUÉM-VIU, O LIVRO-QUE-NINGUÉM-LEU]

[era aprazível ouvir o diálogo entre o livro-que-ninguém-viu com o livro-que-ninguém-leu naquela manhã com as luzes em pencas e em cachos.]


[luzes em pencas e em cachos são parentes próximas das frutas, as frutas que se abrem à orgia das abelhas e dos passarinhos.]


[o diálogo entre o livro-que-ninguém-viu com o livro-que-ninguém-leu se dava, pois, em manhã com tais peculiaridades iluminadas.]


[mas não era diálogo versado em abandono. nem era diálogo contaminado pela melancolia.]


[no diálogo, os dois livros tratavam de pontas, bordas, extremidades, istmos, penínsulas e outras fímbrias próprias das finisterras.]


[de quando em quando, falavam de barcos que jamais chegavam, barcos que, perto de um destino, logo recuavam e mais uma vez rumavam para os largos desconhecidos dos mares.]


[de quando em quando, também contavam de certos vãos por onde os silêncios costumam fazer seus ninhos.]


[ou então procuravam palavras quentes para a definição mais exata de corpos acoplantes.]


[o livro-que-ninguém-viu era mais magro de páginas, uma centena e meia, em tipografia exótica e minúscula.]


[o livro-que-ninguém-leu, por sua vez, ostentava a grandiosidade das enciclopédias e dos dicionários, o que lhe impunha voz lenta e de sinuosidade consonantal.]


[nós, anjos decaídos por força da doença do verbo, ao largo ficávamos para não perturbar esse diálogo de sabedoria sem plumas.]

[e a manhã, com as suas pencas e cachos de luzes, envolvia a paisagem como se um manto feito de letras.]