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5.5.26

[OS BLOGUES LITERÁRIOS SÃO CAUSA PERDIDA; APRECIO AS CAUSAS PERDIDAS]

[liguei o dia 
com um chamamento.
não chamei a luz,
chamei o silêncio.]

&&&&&&

[envelhecer com as palavras.
e remoçar-se com elas.]

&&&&&&

[em tonalidades irregulares,
mosaicos com múltiplas
tesselas,
dou à escritura a sua mais bela
paisagem,
essa dança de calhaus de pedra,
essas migalhas redistribuídas,
lascas
em combinação e liga.]

&&&&&&

[toda promessa
é elástica:
ora encolhe,
ora espicha.
espicha menos
do que encolhe,
some mais
do que aparenta.]

&&&&&&

[palavras órfãs
são palavras
que perderam a música.]

&&&&&&

[pelo tamanho
da letra
eu meço
o que é da ordem
do grito
ou da ordem
do silêncio.]

&&&&&&

[as exigências
do paladar devem ser
as mesmas exigências
do olho
que lê.]

&&&&&&

[os blogues literários
são causa perdida;
eu aprecio
as causas perdidas.]

&&&&&&

[a fricção dos casulos não produz a faísca
do metal quando em fricção com a pedra.
os casulos, esses guetos, guardam neles
apenas louvor ao isolamento.]

&&&&&&

[vendo o meu peixe
porque,
se depender dos outros,
ele apodrece.]

&&&&&&

[aqui vos trago
a semente,
a vogal,
o casulo,
a noz
e a esperança descalça.]

&&&&&&

[com olho-espinho,
com boca
de entojo,
nenhum leitor
entra no livro.
a porta do livro
requer fome,
a porta do livro
requer apetite.]

&&&&&&

[mas que triste
pessoa é esta
tão despossuída
de poesia?]

&&&&&&

[quando a política
vai para o fígado,
a inteligência
vai para o exílio.]

&&&&&&

[essas dobras do poema,
tecido de costura interna,
esse esconderijo,
lâmina na bainha,
dedos dentro da luva,
bolso falso,
botão sem casa,
duelo sem arma,
tempestade de areia
sobre um oásis
inexistente.]

&&&&&&

ele disse: "eu sinto
uma alegria
dos diabos quando acordo
e vejo que a biblioteca
ainda está lá".]

&&&&&&

[ia pela vida
a explodir as válvulas
das panelas literárias.]

[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]

[o velho disse:

− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.

− há uma zona de fricção
entre um e outro.

− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não-saber
que explora as múltiplas possibilidades.

− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.

− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.

− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.

− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.

− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.

− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]

[AO LARGO DO MAR DO RIO VERMELHO]

 

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4.5.26

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

 

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[POESIA INÉDITA REUNIDA ATÉ ONTEM]

 

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27.4.26

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO]



1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.

[OFENDIDOS PELO TEXTO]

[o texto é látego 
ou o texto
é paina, pluma, pena? 
o texto cinge 
ou o texto liga?

o texto corta, abre, 
desventra
ou o texto acaricia?
quem com o texto 
fere com o texto

será ferido, quem 
com o texto 
altiva será com o texto 
preterido, quem 
com o texto nubla 
será com o texto

desaparecido? o texto 
é dorso ou o texto 
é umbigo? o texto 
é reino ou o texto 
é feudo? o texto 
rala, rola,

rela, roça ou o texto 
é ósseo, pedra,
gancho, espinho? 
o texto vara 
ou o texto vira? 
o texto penetra,

entra, vaza, atravessa 
ou o texto é muro, 
parede, limite, fosso 
sem ponte-pênsil? 
o texto é arma

ou o texto é goma, 
gosma, baba?
o texto avança 
ou o texto recua?
o texto é nome 
ou o texto é água?

o texto ofende 
ou o texto é ofendido?
o texto é alarido 
ou o texto é balbucio?
o texto é gozo 
ou é guizo, sino, búzio,

bumbo? o texto vai 
ou o texto vem?
o texto limpa 
ou o texto suja? 
o texto ganha 
ou o texto perde? 
o texto é féretro

ou o texto é boda, 
noivo, amante,
baco? o texto 
em mim ou o texto neles?
o texto é visgo 
ou o texto é liso, amorfo,

plano, mudo? o texto é púbis 
ou o texto é língua? 
o texto é luto 
ou o texto é pândega? 
o texto brinca 
ou o texto enfeza?

o texto é fezes 
ou é torta, sopa, 
sorvete,ambrosia? 
o texto é ou o texto 
não é? o texto é texto 
ou o texto é texto, 
texto,

texto, texto, texto, 
texto, texto, texto?]

24.4.26

[DA SEPARAÇÃO ENTRE POEMA E POESIA]

[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema:
plâncton, âmbar, abelha,
ou grãos de trigo, em pendões,
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.

penso no organismo,
no indivíduo, penso na ilha
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.

penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia
era já forma adiposa, teia-aranha.

penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.

agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.

agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]