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10.8.22

[RAPSODOS SEM VOZ]


[de repente, lá nas penumbras do livro, 
você se depara com um nome. 
desconhecido, esquecido, abandonado. 
é um ponto luminoso. 
dele, você puxa as linhas do novelo. 
dele, desse ponto à deriva, minúsculo 
farol no interior do continente-livro, 
você faz outro livro.]

***

[mas talvez já não mais necessitem de nós, 
os aedos já sem instrumentos 
ou peregrinos sem pés. 
ou rapsodos sem voz. fenecidas 
as epopeias, ou matéria para o que cantar, 
vamos em migrações. 
e não deixamos rastros. 
e a memória que cantávamos 
é agora o esburacamento 
em pergaminhos ilegíveis e inúteis.]

9.8.22

[CERTAS INCISÕES NO CADERNO]


[acender a luz de madrugada 
é como se surpreendêssemos 
nus
os espectros, 
nuas 
as sombras 
e nus 
os vultos, nudismo 
dos seres do escuro, 
esses
que lá estão, que sempre estão 
tão sós e perguntantes.]

***

[diz o senhor glous 
que o teorema mais perigoso 
entre todos os teoremas 
é abrigar tantas gerações 
dentro do balaio 
da contemporaneidade.]

***

[não. não há como fazer pose
de célebre no poema. 
o poema é massa que desanda
com pose de celebridade. 
tudo o que o poema quer
é o buraco 
por onde fugir da foto.]

***

[acontece que há uma comoção invisível em volta desses restos de letras, porções de textos abortados, resíduos da grafia em fracasso, óxido e ferrugem junto com insetos mortos. sim, a comoção invisível fica em volta. não é choro. não é lágrima. é a comoção do peregrino que vê o horizonte sempre se afastar na fímbria do deserto.]
 
***

[é quase certo que você viu passar em sua tela 
o tal vulto imperfeito,
o qual, como se sabe, é o protetor da escrita, 
é ele que faz você voltar
ao começo de uma frase, é ele que sugere 
fazer sangrar uma imagem, 
é ele que põe em  decantação as enzimas 
ácidas de uma letra, 
é ele, por fim, que prescreve a rasura 
e o apagamento daquele ar 
solene e pomposo que você foi aprender 
sem a mínima necessidade.]

***

[é estranho ver escritores no palco, no pódio, na tribuna, em performance de leitura e gesto, como se houvesse um movimento ansioso e ofegante de prosseguir com a escrita até aonde a escrita já não tem mais fôlego, é como se eles fossem a presa de um gozo de continuísmo para além do que foi escrito, e isto talvez não seja apenas vaidade, talvez não seja apenas seguir as normas imperantes do mercado, é mais possivelmente uma outra força motriz em jogo, alguma coisa assim como a gula, a sede, um furacão desejante, um tufão que arremete para fora, uma vez que o palco nega a escrita, os holofotes cegam a escrita, e isto pode ser o atestado mais veemente do escrever como fracasso.]

[BACIA COM PEDRAS REDONDAS]



[eles vinham todos em bando
e perguntavam quando
passaríamos pelo vau 
do aqui para o acolá,
do fulcro que há no abismo ao fulcro
das companhias airosas, 
essas que nos tocam
os ombros e pedem atenção contínua.
nós dissemos: nunca.]

***

[escritor? 
que seja insaciável.
que beba de muitas águas. 
que beba águas à mostra, 
que beba águas ocultas.
que beba de mar e de rio.
e beba até de riachinhos.]

***

[poetas não voam, 
grave engano
de quem os confunde 
com pássaros.]

***

[mas os sanhaços davam às laranjas
a festa das duas da tarde. e tinha abelhas,
as abelhas de Antônio, e os assovios 
que Antônia proferia para chamá-lo. 
demoraria muito para que a poesia
aparecesse no fim da curva. éramos
quase fiapos de gente. mas os sanhaços,
as laranjas, as abelhas, os assovios
de Antônia para Antônio davam 
bonitos cachos de humanidade.]

8.8.22

[LEITURA DOS MUNDOS]


[escrever é uma leitura do mundo. 
ou dos mundos.
escrever é ler as coisas e as gentes. 
ler o ínfimo e o imenso, 
o insignificante e o magnífico.
é ler as comunidades 
e também ler os indivíduos, o indivíduo.
ler o único e o comum.
escrever é ler pela ponta do lápis 
o que é visível ou é inefável, 
intocável, intraduzível.
ler os mundos e depois, 
ou simultaneamente, dar a ler 
ao mundo o que o lápis trouxe 
de sua viagem de leitura dos mundos.
o lápis é um viajante. o lápis é um navegante.
nele as palavras estão à espera, 
à espreita, elas são o salto repentino 
do tigre que sai da noite do grafite.
não se concebe uma oficina 
ou um laboratório de escrever 
sem que a leitura desses mundos 
interiores e exteriores anteceda a escrita.
a escrita é o depois do ler. é o após.
eu leio o homem que vai pelo beco 
antes que o homem que vai pelo beco 
seja o conto de um homem 
que vai pelo beco.
eu leio o mar bravio antes que o mar bravio 
seja o poema do mar bravio 
que o lápis por fim o deposita sobre a folha.
a leitura desses mundos é sem gramática.
é bem provável que a leitura desses mundos, 
os mundos do lado de fora 
e os mundos do lado de dentro, 
deva ser feita em uma língua 
só conhecida no momento em que os lemos.
a língua de cada coisa e de cada pessoa, 
de cada claridade e cada mistério, 
a língua da simplicidade 
e a língua dos enigmas.
tantas línguas existem para ler 
o que se vai escrever.
ou seja: a escrita é a safra daquilo que lemos.]

6.8.22

[DEPOIMENTO DE NOEL BISCOLET, VULGO CONDE DE LAUTRELUNE]

"Eu conheci o escritor Paulinho Assunção em São Paulo, em janeiro ou fevereiro de 1971. Era então um sujeito magro de dar pena. Pele e ossos. Usava uma calça de tergal, quedes pretos muito usados, camisa de gola puída e sempre com um casaco de brim marrom. Todos os começos de noite ele chegava à Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação, e dali era o último a sair. 


Dizia-me estar copiando verso a verso, linha a linha, sílaba a sílaba, a poesia de João Cabral de Melo Neto. Tudo em um cadernão escolar que ele levava debaixo do braço até um ponto do ônibus na Avenida Rio Branco, de onde seguia para os altos da Vila Madalena, na Rua Madalena.


Apesar da vida difícil e da asma, possuía um entusiasmo invejável. Tinha vasculhado toda a seção de livros raros da biblioteca. Em sua mesa, na sala de consultas, avolumavam-se primeiras edições do modernismo, lia com voracidade Oswald e Mário, e soletrava em espanhol a obra de Lorca e Antonio Machado. 


Lia sempre com um lápis na mão. Eu, que era então um apaixonado pelos livros de Pitigrilli, assustava-me com aquele tiroteio a esmo que ele praticava em suas leituras. Fartura de assuntos, fartura de autores. Parecia um presidiário que, solto, reencontrava a liberdade dentro de uma biblioteca. Ele tinha vindo do interior de Minas Gerais. 


Sim, se bem me lembro, a vida dele não era fácil. Trabalhava em dois expedientes na Rua 15 de novembro, em uma empresa de cadastro. Passava o dia dentro de ônibus pelas ruas de São Paulo. Ele recebia um pacote de fichas, logo cedo, e deveria ir de endereço em endereço colhendo informações sobre clientes. De sul a norte, de leste a oeste da cidade. A obrigação era entrevistar cada pretendente a um crediário e fazer anotações sobre o local visitado. Em mínimos detalhes: cor da casa, tipo de construção, informações sobre bairro, rua, vizinhança. O nome dessa profissão esquisita era informante de cadastro.


Por essa época, ele andava como uma moça sergipana de nome Artemísia. Nos finais de semana, gostava de frequentar umas reuniões organizadas por um velho sindicalista do porto de Santos. Gente do Partido Comunista. O sindicalista era pai de uma vizinha da Vila Madalena chamada Mara, mulher do Nelson, ambos artesãos da Praça da República. Aquela feira hippie. 


Acho que Nelson foi um dos grandes amigos de Paulinho Assunção naquele tempo. Tocavam violão e compunham. Foram até selecionados em um programa de calouros da Fundação Padre Anchieta, um programa dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. Cantaram uma música cuja letra era uma colagem de frases do Nietzsche. "Melodia aleatória", eles diziam com o orgulho daquela onda vanguardista do período. As notas da escala tonal eram numeradas em pedaços de papel e depois fazia-se um sorteio às cegas. O resultado era imprevisível para a dor dos ouvidos mais conformados. 


Um dia visitei Paulinho Assunção naquele barraco da Rua Madalena. Em uma mala de couro cru, ele guardava poemas escritos em folhas soltas, dobradas em pacotes e amarradas com barbante. Eu soube depois pelo Lips, um chapeiro de lanchonete na Rua Teodoro Sampaio, que esses pacotes depois foram queimados um a um no pequeno quintal que havia entre o barraco e a casa principal. Isto teria acontecido em agosto ou setembro. Provavelmente em setembro, quando o Exército matou o capitão Carlos Lamarca e Paulinho Assunção teria voltado para Minas. Não sei. A sergipana Artemísia divulgava outra história, que ele teria sido preso pelo delegado Fleury. Não sei. A experiência da literatura desfaz datas, desmonta fatos, turva o entendimento.


Nelson, o marido de Mara, conta por exemplo que Paulinho Assunção teria adotado outro nome, Vicente Pass ou Rubem Focs, e embarcado em um navio mercante para a Noruega. Sei apenas que tenho saudade de nossas conversas sobre vanguarda, sobre poesia e música de vanguarda, Maiakovski e Pierre Boulez, Stockhausen e poesia concreta. Conversas ali na porta da biblioteca, quando saímos para fumar. Ele puxava um cigarro do maço de Gauloise sem filtro comprado em uma banca de revistas da Praça da República. Baforava. Gesticulava. Um passarinho de tão magro. Eu fumava Continental. 


Hoje estou muito velho. Minha memória é uma memória esburacada. Mas se você souber por onde anda o Paulinho Assunção diga-lhe que consegui escrever o livro sobre os rios brasileiros, uma sinfonia de poemas entrecruzados. São 400 páginas. Nunca será publicado."

2.8.22

[SENHOR LAMBERTO, PROVOCADOR DE VENTO]

[o senhor lamberto provocava assiduamente o vento.] 

[atiçava no vento os seus cachorros, punha muros entre os canudos a sul e a norte.]

[sem canudos, o vento ficava entalado pelos lados de um riacho.]

[o senhor lamberto ainda provocava o vento com o assovio de canções desafinadas, valsas monótonas, árias reversas, polcas estropiadas.]

[o senhor lamberto era o maior provocador de vento entre as terras do ah e as terras do oh.]

[nós, os que carregávamos água, não dizíamos nada.]

[nem poderíamos.]

[apenas assistíamos a tais impropérios desmesuradamente loucos.]

[às vezes, consultávamos enciclopédias em busca de semelhantes exemplos de provocadores.]

[em vão.]

[o senhor lamberto era único em ter o vento como inimigo.]

[era a sua guerra diária.]

[da varanda, observávamos quando o vento ficava entalado lá pelos lados de um riacho.]

[parecia prestes a explodir.]

[o vento arrodeava pedras, entrava em buracos de tatu, ia na direção onde as cobras armam suas tocaias.]

[era um espetáculo deveras espantoso.]

[e um vento em tais estados de brabeza é o próprio diabo na invisibilidade horripilante.]

[mas quem poderá saber o dia de amanhã?]

[a vingança subia mais e mais os andaimes e os estaleiros.]

[a vingança dava pendões.]

[a colheita chegaria.]

30.7.22

[O CARROSSEL INFINITO]

[um leitor nunca é o mesmo
a cada vez que lê o texto.
por isto, eu repito sem fim
o meu carrossel infinito.

dou a ler o que já era lido,
um talvez pão que de novo
divido, um constante manejo
de um canteiro sempre vivo.

semear, colher, repartir,
até que semente e flor
sejam cacho, fruto, luz
ou raio nos olhos do leitor.]

29.7.22

[O CISCO]


[aqui, nesse andamento do texto, 
havia um vazio. preenchi-o. 

pus nele um grão. 
o grão não germinou. 
pus então um cisco, o mais triste 
dos ciscos, o mais abandonado 
dos ciscos. 

ali ficou o cisco 
no coração do vazio. 

de quando em quando, olho para o cisco 
à deriva na geografia do vazio. 

só eu sei da existência desse cisco.
 
nem preciso nomeá-lo. 

é um cisco único, singularíssimo, 
e eu poderia reconhecê-lo 
até mesmo em noite de breu plúmbeo. 

às gentes que passam 
e vão rumo à miragem, 
eu digo: 

"eu sou o homem 
velho salvador de ciscos".]

26.7.22

[A FLOR DA USURA]

[a amêndoa do ser não resiste
aos martelos. quebra-se fácil
tal cápsula. até os meninos,
cuja amêndoa é do tamanho

de um vaga-lume, até os velhos,
cuja amêndoa expandiu-se
com a passagem dos anos,
nenhuma amêndoa do ser

é imune aos martelos, saibam
disso para que não sejam presas
do engano, tenra é a amêndoa
que protege e guarda o ser

da aurora ao ocaso, quebra-se,
esfarela-se, parte-se em cacos
com um simples martelo, seja
o que toca a rótula dos joelhos,

seja o que desce sobre a cabeça
dos pregos, seja mesmo o que,
simbólico, está na voz da gula,
a voz que emite quem acumula,

esses impérios do verbo ter
que a humana gente cultua:
bezerro do mais, flor da usura,
o mais com aparência divina.]

24.7.22

[O CÉU INTERROGANTE DA SUA BOCA]

[augúrio: a porta, o túnel. abrir,
abrir, pois que as peônias roçam lábios
no sol. escrevo para que você não tropece

nesses vazios da música. torpedos 
mortíferos estão desenhados no muro,
e esta carta já nasce morta sob o estrondo

cruel de agosto. quem é aquela no lado
de lá da ponte? quem é aquele no lado
de lá dos escombros? antes, antes

que o traço atravesse a punhal as frases,
escrevo para que você não caia no abismo.
zune, zune, zune o projétil qual látego,

qual espinho, qual lasca de espelho.
distribuo o corpo do poema no assoalho.
eis os mosaicos sobre os ladrilhos.

deturpo a ordem dos ditos, desvirtuo
a hóstia dos sentidos. você me entende?
deixo ao sol a pino a pele de um poema

áspero e adusto. você me entende? melhor
seria a valsa, a polca, o fox, a novena?
inverto a frase, e ponho o pimento robusto

no céu interrogante da sua boca.]

20.7.22

[O AUTOR DE NOME PROIBIDO]

[eles ouviam o nome 
daquele autor
e ficavam mudos, 
sem jeito, sem lugar,
estátuas com os cotovelos
sobre a mesa.

podia-se tocar o silêncio.

nem rumores, 
nem murmúrios
saíam daquelas bocas.

mais fácil
seria dizer o nome 
do diabo.

mais fácil 
seria pronunciar 
os mais rombudos 
vitupérios.

pareciam enguias 
no aquário
de repente congelado.

e aquele
que invocara o nome 
do autor
enfiava-se para dentro. 

ausentava-se
do mundo. 

autopunia-se
pela lembrança 
imprópria.

lembrança indesejável
e tão desagradável
aos ouvidos doutos
e pernósticos
daquela mesa.]

14.7.22

[ESCRITORES QUE FICARAM NA BEIRA DA ESTRADA]

[os escritores que ficaram na beira da estrada olham para o bico dos seus sapatos, de vez em quando.]

[ou então olham para trás, lá onde o esquecimento.]

[ou olham para frente, lá onde o nada.]

[de vez em quando, passa pela estrada um comboio de escritores a caminho do lá-na-frente.]

[eles olham para os escritores que ficaram na beira da estrada e acenam, ou riem, ou lhes dão uma banana com os cotovelos tesos e ossudos.]

[de vez em quando, passa um escritor pela estrada em seu veículo deveras possante, em alta velocidade, a caminho do lá-na-frente.]

[esse tipo de escritor todo feito de músculos e determinação e pressa não olha para os escritores que ficaram na beira da estrada.]

[ele some na distância, a caminho do lá-na-frente, e deixa para trás a poeira de sua vitória.]

[os escritores que ficaram na beira da estrada são figuras desidratadas como galhos ou gravetos secos.]

[ficaram na beira da estrada e lá permanecem imóveis, mudos, inexpressivos, como se estátuas de barro em um descampado.]

[não são retirantes, posto que não vão a parte alguma.]

[não são migrantes, pois não há fronteira à vista para cruzá-la ou atravessá-la.]

[os escritores que ficaram na beira da estrada são apenas isto, nada mais.]

[pode ser dia ou pode ser noite. pode ter chuva ou pode abrir o sol.]

[não são mais organismos, não são animais nem bichos, mas coisas que a história já ignorou.]

13.7.22

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu derrama
a oeste, ali onde a estrela temporã
logo virá declamar um poema
de francis ponge.

o vapor de cachoeira não navega
mais no mar. o jardim protege
uma ninhada de vogais. o rústico
graveto aresta a página de uma avenca
que, quase noite, logo vai declamar
um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai
agora o sol, vem a lua, e o cheiro
do óleo diesel é o próprio coração
do diabo a bater na caldeira da fábrica.
a fábrica não vai declamar
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz.
o banquete dos mendigos por entre
as espirais do tabaco de buñuel.
godard recorta o senso comum
com as tesouras de uma andorinha
perdida, perdida e cega, na quase noite.
a andorinha logo declamará
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem velho
à beira de um canteiro. "fracassamos",
dizem os leitores e as leitoras do não
à beira das páginas mortas. e o gato,
gato sem nome, subnutrido, triste,
logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

12.7.22

[O VENTO]


[ainda há pouco, provei do vento
bom que rafagou janela adentro.

eu disse: "imito os gatos". alçar
as narinas, cheirar o vento. 

eu disse: "imito os leopardos". 
imito o engenho desse afago

quase tátil ao que vem dalgum
lugar sobre o qual eu nada sei.

cartas nas folhas ou dobras
do tempo. quiçá, um aviso. 

algum aedo que se travestiu
de vulto, asas de um turbante

de algum lugar ignoto do deserto.
lá onde um peregrino, lá onde

a rota labiríntica de alguma
ruptura no destino. quase ler

a mão da cartomante que,
da vidência, já foi destituída.]


11.7.22

[MIGALHAS QUÂNTICAS]


[no lugar onde morreu
o post, de quando
em quando cai
do céu um like,
talvez um resíduo
quântico
ou uma fração de pixel,
névoa e rastro deixados 
por um míssil-cisco,
cemitério de partículas
derivantes e em vertigem
e errância, franja
ou fímbria de um texto
sem autor, só a sístole
e a diástole de um algoritmo
ou de um robô.]

9.7.22

[AQUILO QUE BRETON PARECE TER VISTO ALGUM DIA]

[com o cesto que era para borboletas, 
agora ele caça epifanias. são curtos-
circuitos no dia, e ocorrem quando a rua,

soturna e obtusa, desvogaliza a vida,
troca as vogais da flauta pela bigorna 
da usina, o chumbo fundido de letras, 

homens-linotipos tão bestas, esses desanjos
em queda, as asas com avarias, línguas
queimadas em fel, incapazes de doçura.

e então vêm as pagãs, profanas epifanias,
não voam, mas dançam, giros em vórtice
na praça, espiral de cânticos em cânticos,

traçam em corisco e rabiscos os rastros
em arabescos, é o instante em que o poema
salta de um ovo alquímico e grassa seu gás

pelas ruas, casa-se o noivo poema com a noiva 
epifania, são as bodas que o poeta precisa
para girar a esferaria, essas esferas

magnéticas que breton parece ter visto 
algum dia, um tal desarranjo da ordem,
uma tal embriaguez das bússolas, assim,

pois, então, encerro tal gramatologia, esse 
reconto que diz lá no começo: com um cesto
para borboletas, agora ele caça epifanias.]

1.7.22

[E O SEU OLHO IGNOROU O OURO NO MEIO DAS FRASES]

[leitor, sim, mas de punti luminosi.]

[ler é buscar pepitas ali onde barranco é só calhau na superfície.]

[ou é apanhar a fruta que, só, sozinha nas grimpas, reside na árvore torta.]

[ou o peixe que navega na zona de sombra entre a água turva e o barro cálido das funduras.]

[leitor, sim, mas de punti luminosi, a erupção de um fogo, a germinação de um raio, uma só palavra capaz de incendiar o livro.]

[ah, os apóstolos do milharal para bandos de corvos.]

[ah, os já atordoados pela proliferação do mesmo e da mesmice nessa camada cômoda e acomodada dos textos.]

[ah, os preguiçosos do garimpo, glutões da banha que o palavrário insosso dá ao texto obeso.]

[leitor, sim, mas de punti luminosi, ilhotas selvagens e à deriva: só para navegantes despatriados e expatriados nesse exílio perene da escritura.]

30.6.22

[LITERATURA MIGRANTE]

[a falta de lugar, a ausência de lugar, o lugar que nunca mais será lugar.]

[o lugar como miragem.]

[o nomadismo migrante das gentes, as aves e os seus pousos temporários.]

[a ilusão das tribos corporativas em fincarem bandeiras em territórios já em total desaparecimento.]

[a ilusão da posse territorial desses guetos como se a posse territorial do que já não mais é território fossem a ressonância e a reverberação de seus anseios dominadores.]

[então a escritaria (a que interessa) se funda nesse movimento migrante a caminho das miragens.]

[as miragens no horizonte que é igualmente uma ilusão.]

[o horizonte é uma ilusão.]

[ecoa, profético, dos provérbios e cantares, o verso de antónio machado.]

[mas há, ainda, ilusionistas, prestidigitadores, risonhos corporativos enlaçados na politicalha dos compadrios literários.]

[os risonhos corporativos com as suas boinas, seus cachecóis.]

[e a belle indifférance.]

[são muitas as mainstreams em disputa, em litígio.]

[são muitas as mainstreams em contendas por territórios e posses dentro da mainstream-mãe.]

[então a escritaria (a que interessa) se funda nesse movimento migrante a caminho das miragens.]

[a escritaria que interessa é escritaria migrante e refugiada no caminho, o caminho sem fim da ausência de lugar.]

[toda literatura que interessa é literatura migrante, é literatura refugiada nesse não-lugar sem posses e territórios.]