[liguei o dia
com um chamamento.
não chamei a luz,
chamei o silêncio.]
&&&&&&
[envelhecer com as palavras.
e remoçar-se com elas.]
&&&&&&
[em tonalidades irregulares,
mosaicos com múltiplas
tesselas,
dou à escritura a sua mais bela
paisagem,
essa dança de calhaus de pedra,
essas migalhas redistribuídas,
lascas
em combinação e liga.]
&&&&&&
[toda promessa
é elástica:
ora encolhe,
ora espicha.
espicha menos
do que encolhe,
some mais
do que aparenta.]
&&&&&&
[palavras órfãs
são palavras
que perderam a música.]
&&&&&&
[pelo tamanho
da letra
eu meço
o que é da ordem
do grito
ou da ordem
do silêncio.]
&&&&&&
[as exigências
do paladar devem ser
as mesmas exigências
do olho
que lê.]
&&&&&&
[os blogues literários
são causa perdida;
eu aprecio
as causas perdidas.]
&&&&&&
[a fricção dos casulos não produz a faísca
do metal quando em fricção com a pedra.
os casulos, esses guetos, guardam neles
apenas louvor ao isolamento.]
&&&&&&
[vendo o meu peixe
porque,
se depender dos outros,
ele apodrece.]
&&&&&&
[aqui vos trago
a semente,
a vogal,
o casulo,
a noz
e a esperança descalça.]
&&&&&&
[com olho-espinho,
com boca
de entojo,
nenhum leitor
entra no livro.
a porta do livro
requer fome,
a porta do livro
requer apetite.]
&&&&&&
[mas que triste
pessoa é esta
tão despossuída
de poesia?]
&&&&&&
[quando a política
vai para o fígado,
a inteligência
vai para o exílio.]
&&&&&&
[essas dobras do poema,
tecido de costura interna,
esse esconderijo,
lâmina na bainha,
dedos dentro da luva,
bolso falso,
botão sem casa,
duelo sem arma,
tempestade de areia
sobre um oásis
inexistente.]
&&&&&&
ele disse: "eu sinto
uma alegria
dos diabos quando acordo
e vejo que a biblioteca
ainda está lá".]
&&&&&&
[ia pela vida
a explodir as válvulas
das panelas literárias.]
PAULINHO ASSUNÇÃO
10.9.26
[OS CONCLAVES LITERÁRIOS]
com os seus cardeais
e bispos, seus papas e párocos,
suas patentes militares,
seus carregadores
de holofotes, suas claques
de marionetes, suas condessas
e viscondes, seus desembargadores
e causídicos, são, quase sempre,
mais sempre do que quase,
muito amiúde, muito frequente,
modos de elevar os medíocres
ao pódio da genialidade.]
de holofotes, suas claques
de marionetes, suas condessas
e viscondes, seus desembargadores
e causídicos, são, quase sempre,
mais sempre do que quase,
muito amiúde, muito frequente,
modos de elevar os medíocres
ao pódio da genialidade.]
9.9.26
[O TEXTO TÃO ANTIGO QUE VOCÊ PUBLICA]
ou fora de esquadro no texto
que você publica assim tão cedo,
a manhã ainda faz borda
com a noite, nem há pássaros,
nem gentes, só você à penumbra
produz o texto que logo terá
asas em sobrevoo público.
e aí você percebe a coisa-mofo
em seu conteúdo, a forma
é calcário que se esfarela,
o tom é o tom de um velho
em abrigo de ônibus a caminho
de lugar algum, estátua ao tempo.
e não há música no seu texto,
é mais uma engrenagem de metal
em óxido, são matracas nas mãos
de um arauto louco, e, no entanto,
você o publica, solta os cordames
e deixa o barco fantasma
em sua cabotagem tão pífia.
do rádio vem o noticiário
das urgências urgentes, a morte
de um mendigo ao relento, a pústula
lancetada na moral dos políticos,
um índio abatido, os tiroteios,
a guerra civil implícita e explícita
no dia que nasce, o alarido
dos hipócritas e seus catecismos,
a sopa, a sopa do cotidiano
com os ingredientes apodrecidos.
e você martela as teclas
para o texto fora de esquadro,
fala de luas e alabastros, fala
de cimitarras e nudezes, fala
de jardins e cigarras, mesmo
que um helicóptero bélico
esteja agora em ronda
pelos céus do bairro.]
[FOI POR AMOR? ACHO QUE SIM]
[sabe-se que o poeta gutierre de cetina,
nascido em sevilha no ano de 1520, e morto
no méxico em 1557, compôs sob o nome
pastoril de vandalio um muy bonito
madrigal em louvor de uma não menos bela
dama chamada laura gonzaga, cujo trecho diz:
ojos claros, serenos,
si de un dulce mirar sois alabados,
¿por qué si me miráis, miráis airados?
poeta da linhagem do toscano petrarca,
do valenciano ausiàs march e do toledano
garcilaso de la vega, gutierre de cetina
teve morte trágica no méxico, com mais
exatidão em puebla de los ángeles.
ali, sob a janela de leonor de osma,
dama por quem se apaixonara, gutierre
de cetina foi ferido no rosto por dois
golpes de punhal pelo ciumento hernando
de nava, que o teria confundido
com um rival de amores de nome
francisco de peralta.
há um emaranhado de controvérsias
sobre a exatidão desses acontecimentos
em torno da morte de gutierre de cetina,
classificado pelo colombiano miguel antonio
caro como o "homero do madrigal espanhol".
pelo sim, pelo não, inexatidões à parte
sobre a data e as sequelas deixadas pelo
punhal de hernando de nava no rosto
do poeta, cabe perguntar:
gutierre de cetina morreu por amor?
a voz que há em mim, muito assemelhada
com um bandolim, diz: pode ser que sim.]
nascido em sevilha no ano de 1520, e morto
no méxico em 1557, compôs sob o nome
pastoril de vandalio um muy bonito
madrigal em louvor de uma não menos bela
dama chamada laura gonzaga, cujo trecho diz:
ojos claros, serenos,
si de un dulce mirar sois alabados,
¿por qué si me miráis, miráis airados?
poeta da linhagem do toscano petrarca,
do valenciano ausiàs march e do toledano
garcilaso de la vega, gutierre de cetina
teve morte trágica no méxico, com mais
exatidão em puebla de los ángeles.
ali, sob a janela de leonor de osma,
dama por quem se apaixonara, gutierre
de cetina foi ferido no rosto por dois
golpes de punhal pelo ciumento hernando
de nava, que o teria confundido
com um rival de amores de nome
francisco de peralta.
há um emaranhado de controvérsias
sobre a exatidão desses acontecimentos
em torno da morte de gutierre de cetina,
classificado pelo colombiano miguel antonio
caro como o "homero do madrigal espanhol".
pelo sim, pelo não, inexatidões à parte
sobre a data e as sequelas deixadas pelo
punhal de hernando de nava no rosto
do poeta, cabe perguntar:
gutierre de cetina morreu por amor?
a voz que há em mim, muito assemelhada
com um bandolim, diz: pode ser que sim.]
7.9.26
[SE É PAPEL, AO PÓ RETORNARÁ]
As dez caixas com a obra inédita do escritor ficaram um largo tempo empilhadas no escritório da Casa Cinza: cadernos, blocos, folhas soltas dentro de pastas, ora manuscritas, ora impressas e encadernadas.
Largo tempo, conforme bem entendem leitores de ficção indomável, pode ser o simbolismo mais apropriado para um ano, dois, três. Etc.
Até quando bateu as botas, o escritor viveu no escritório da Casa Cinza.
Ali chegava às seis da manhã; de lá saía quando os passarinhos e as galinhas se recolhiam ao mutismo da noite.
Quando a Casa Cinza foi vendida, um dos filhos levou as caixas para o sítio.
Quando o sítio foi vendido, um neto do escritor levou as caixas para um depósito que a família ainda possuía no bairro das Laranjeiras Baixas.
Mais um largo tempo as caixas com a obra inédita do escritor ali permaneceram.
Até que uma das netas, a Corália, que estudava Letras no interior, propôs que a Universidade na capital abrigasse a obra inédita do escritor.
O professor Vanúsio Montes, responsável pela Arquivística Geral das Letras Locais, foi consultado.
Analisou-se o papelório.
Duas reuniões foram feitas com a Coordenação Semiótica de Obras Inéditas.
Chegaram as férias natalinas.
No ano seguinte, outra reunião foi convocada para o veredito.
O professor Vanúsio Montes falou 45 minutos e quatro segundos.
Todos os membros da Coordenação ouviram a douta explanação do professor.
Ele discorreu sobre a guarda de documentos, e falava em tom de violoncelo, muito solene, e com a aura da autoridade sobre o cocuruto.
Ao final, lavrou a sentença.
As dez caixas com a obra inédita do escritor não possuíam porte para ser integradas à Arquivística Geral das Letras Locais.
Lamentavelmente não atendiam aos apelos da posteridade, ele disse, com o rosto choroso de um poeta que declama um soneto.
Morria ali o intento da neta Corália de ver a obra inédita do avô protegida pela Universidade.
O novo plano diretor do prefeito Alírio Sultão incluía, na página 88, a remodelação urbanística do bairro das Laranjeiras Baixas.
Em outras palavras, casarões como o que abrigava o depósito seriam postos à terra para permitir novos viadutos ao modo de nó borromeano.
Na primeira segunda-feira de um mês de julho, inacreditavelmente quente, uma escavadeira surgiu na manhã e começou o seu trabalho de hecatombe.
Quem passou pelo bairro, certamente viu caixas de papelão entre os dentes da escavadeira.
Junto com carcaças de fogões e geladeiras, roupeiros do tempo da Revolução de 30, virabrequins e pneus, as caixas com a obra inédita do escritor foram descartadas dentro de caçambas.
Mais tarde, despejadas no aterro sanitário da próspera cidade de Alírio Sultão.
Por um certo tempo, era comum o vento espalhar entre urubus folgazões a letra miúda que o escritor aperfeiçoara com lápis apontados a canivete.
Depois, vocês sabem, tudo aquilo virou pó, pois o que é papel um dia retornará inexoravelmente ao pó.
[A DANÇA DO DESVER]
visto, o olho dança
a dança do desver.
quão difícil é saber
o que há abaixo,
no fundo mais fundo
do poço, ou no alto,
lá onde albatroz
e nuvem, reúnicos,
posto que reunidos
em único e difuso
corpo, ao olho iludem
como se um cisco
a flutuar sem rumo,
como se um anjo
de papel navegante,
como se vaga-lume
que vagasse epifânico.]
[KANT E A RAZÃO PURA NA TARDE DO BAIRRO]
[kant tomou a razão pura entre as mãos, moldou-a, agregou à massa ingredientes próprios para a goma, sovou a razão pura com esmero e vigor, e então, quando a bolota já adquiria uma consistência elástica, ele esticou a razão pura sobre a mesa, esticou-a de um canto a outro daquela mesa onde as melancolias costumavam cantar boleros e tangos.]
[depois kant puxou a bolota da razão pura de modo que, da longa tira emborrachada, bem esticada, pudesse soar um dó maior ensolarado pela tarde do bairro.]
[e os meninos.]
[e os meninos, toda a criançada de pés no chão e narizes líquidos, toda a meninada do bairro logo pôs caras e carinhas nas janelas.]
[os meninos viram quando o dedicado kant dedilhava com o dedo mindinho a goma esticada da razão pura.]
[os meninos viram aquilo.]
[eles viram aquilo e acharam muita graça.]
[como é que o velho kant havia conseguido fabricar tal razão pura esticada sobre a mesa das melancolias?]
[parecia até uma corda de viola, pois o dó maior atiçou curiosidades na rua do meio, depois na rua de cima, depois na rua sem nome, e mais depois ainda na praça das metafísicas obscenas.]
[mulheres sem-que-fazeres logo apareceram, os aposentados deixaram o jogo de damas, poetas boquiabertos caminharam por fios incandescentes.]
[depois kant puxou a bolota da razão pura de modo que, da longa tira emborrachada, bem esticada, pudesse soar um dó maior ensolarado pela tarde do bairro.]
[e os meninos.]
[e os meninos, toda a criançada de pés no chão e narizes líquidos, toda a meninada do bairro logo pôs caras e carinhas nas janelas.]
[os meninos viram quando o dedicado kant dedilhava com o dedo mindinho a goma esticada da razão pura.]
[os meninos viram aquilo.]
[eles viram aquilo e acharam muita graça.]
[como é que o velho kant havia conseguido fabricar tal razão pura esticada sobre a mesa das melancolias?]
[parecia até uma corda de viola, pois o dó maior atiçou curiosidades na rua do meio, depois na rua de cima, depois na rua sem nome, e mais depois ainda na praça das metafísicas obscenas.]
[mulheres sem-que-fazeres logo apareceram, os aposentados deixaram o jogo de damas, poetas boquiabertos caminharam por fios incandescentes.]
[e todos, todos os homens-vírgulas e as mulheres-reticências puseram pescocinhos e olhinhos para fora, parecia que o brasil vinha inteiro lançar olhos famintos sobre a razão pura do velho kant.]
[isto é: a razão pura esticada e musical naquela tarde de julho.]
[frio fazia, luvas e os cachecóis dançavam a dança das nuvens, o dó maior da razão pura blimblava blins-blons pelo bairro afora, e paulinho assunção, o fantasma, posicionou o estilingue em direção às vidraças.]
[foi um tiro certeiro.]
[tiro certeiro de pedra redonda na vidraça da literatura sorridente.]
[isto é: a razão pura esticada e musical naquela tarde de julho.]
[frio fazia, luvas e os cachecóis dançavam a dança das nuvens, o dó maior da razão pura blimblava blins-blons pelo bairro afora, e paulinho assunção, o fantasma, posicionou o estilingue em direção às vidraças.]
[foi um tiro certeiro.]
[tiro certeiro de pedra redonda na vidraça da literatura sorridente.]
[TUDO NO MUNDO ESCREVE]
[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.]
[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]
[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]
[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]
[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]
[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]
[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]
[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]
[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]
[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica.
[mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]
[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]
[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]
[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]
[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]
[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]
[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]
[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]
[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]
[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica.
[mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]
17.8.26
[OS ESQUISITOS, COMO NÓS, À BEIRA DO DOURO]
Vínhamos de Dublin, fizemos uma parada de dois dias no Porto, mas o nosso destino era mesmo Havana, pois ali, naquele mês de agosto, participaríamos do XX Encontro dos Livros e Personagens Inexistentes. "O jogo consiste em ativar em nós o fervor para a esquisitice", explicou Ndalu.
Soprava do Douro um ventinho travesso e mefistofélico. Caminhávamos lentamente e descompromissados. E havia como que um ritmo frásico de lerdo e preguiçoso soneto em nossos pés. Em meu bolso, o bolso direito da camisa, palpitava uma carta que recebera do professor baiano Otto com 22 sugestões para livros e personagens inexistentes. Uma carta que, confesso, seria de utilidade imensa no encontro cubano.
Ndalu, então, explicitou um pouco mais o jogo ativador de esquisitices, que seria uma espécie de circuito cerebral inexplorado, posto que marginal à ordem do comum e do usual naqueles dias em curso pelo mundo. Esquisitar seria o verbo maestro nesse jogo que a visão do Douro instigava, que os passos de caminhantes sem pressa estimulavam, que a perspectiva da travessia atlântica dali a dois dias motivava.
Éramos três amigos irmanados pelos livros e pelas histórias. A invenção de fábulas nos unira ao longo dos anos, e éramos capazes de engenhosas viagens, ora Bagdá, ora Minsk, ora Manaus, ora Praga, mesmo que na quietude de não sair do lugar. E jogávamos o jogo proposto por Ndalu. Lançávamos em voz alta hipotéticas concepções sobre a frase de Cortázar sobre as folhas secas. Dizíamos palíndromos às moças que passavam àquela hora da manhã, ou então tecíamos elogios aos chapéus dos senhores que, como nós, iam e vinham, à beira-Douro. As moças, sob ação palindrômica, sorriam; os senhores, com a sisudez destoante com a luz matinal, trancavam ainda mais os semblantes.
Até que vimos, adiante, ungido por um prisma de luz, um menino. Soubemos, depois, que se tratava do Menino Recolhedor de Folhas. Virtuose no ofício, ele dispunha as folhas secas em estantes dentro de um caixote. Parecia uma biblioteca de livros sem títulos e sem personagens. Mas era coisa tão bonita de se ver que mereceu de nós saudações e vivas ecoantes-altissonantes pela manhã portuense.]
13.8.26
[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]
[o poema-documentário começa nos próprios óculos de mário: é ali, pela redondez das lentes, que se dará
o fenômeno dos vidrilhos, aliterado fenômeno a se reproduzir ressoante por maravilhas e brilhos da noite.
diz pedro nava que mário de repente debandou-se do grupo, foi para a sacada do grande hotel, contemplou o estilo
flamejante e manuelino do conselho deliberativo, rua da bahia com avenida paraopeba, ali onde, adusto e áspero
pela rigidez e a monotonia, eleva-se hoje o edifício malleta. e então o poema-documentário volta aos óculos
de mário, e pela redondez das lentes com faíscas nas hastes, flagra outra vez o fenômeno dos vidrilhos, a combustão
de luzes na noite de belo horizonte, o sonar de mário capta frequências acústicas, seu radar recebe ondas eletromagnéticas.
com letreiros diante da câmera, o poema, que é documentário, exibe as seguintes frases: "ah, o brasil da república velha;
ah, a belo horizonte das magnólias; ah, o barnabé em pânico com o ovo do novo que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,
o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah, o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos do partido republicano mineiro". corte.
volta-se a câmera para os óculos de mário, "holofotes que varrem a noite", diz nava. corte. fusão de imagens dos óculos de mário
com os óculos do poeta sem nome. é o ano de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, chove, dói no horizonte a dor de um mendigo
bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos de sangue, eis o poeta sem nome, turvas lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]
o fenômeno dos vidrilhos, aliterado fenômeno a se reproduzir ressoante por maravilhas e brilhos da noite.
diz pedro nava que mário de repente debandou-se do grupo, foi para a sacada do grande hotel, contemplou o estilo
flamejante e manuelino do conselho deliberativo, rua da bahia com avenida paraopeba, ali onde, adusto e áspero
pela rigidez e a monotonia, eleva-se hoje o edifício malleta. e então o poema-documentário volta aos óculos
de mário, e pela redondez das lentes com faíscas nas hastes, flagra outra vez o fenômeno dos vidrilhos, a combustão
de luzes na noite de belo horizonte, o sonar de mário capta frequências acústicas, seu radar recebe ondas eletromagnéticas.
com letreiros diante da câmera, o poema, que é documentário, exibe as seguintes frases: "ah, o brasil da república velha;
ah, a belo horizonte das magnólias; ah, o barnabé em pânico com o ovo do novo que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,
o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah, o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos do partido republicano mineiro". corte.
volta-se a câmera para os óculos de mário, "holofotes que varrem a noite", diz nava. corte. fusão de imagens dos óculos de mário
com os óculos do poeta sem nome. é o ano de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, chove, dói no horizonte a dor de um mendigo
bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos de sangue, eis o poeta sem nome, turvas lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]
20.5.26
[OS GRAVETOS, ESSES SERES DA INOCÊNCIA]
[ela disse, e se referia ao graveto: "este jamais sofreu a maldição da escrita".]
[era o graveto de uma árvore também seca, que dava para um quintal corroído pelo silêncio, pela ausência, pelo abandono.]
[tinha o graveto a dimensão de um dedo, e terminava em forquilha numa das pontas.]
["este jamais sofreu a maldição da escrita", ela repetiu, e eu perguntei o seu nome.]
["meu nome", ela falou, "não tenho nome, e se o tivesse não o usaria".]
[depois, alguns dias depois, eu voltei a encontrá-la e ela escrevia a carvão símbolos ininteligíveis numa parede.]
[eram arremedos de vogais, porções de consoantes com aleijões, números que nenhuma aritmética poderia encampá-los.]
[só o carvão, em finca, pontudo, escavava nitidez negra nos tijolos, aquela parede que restara de um depósito de sal.]
[era o carvão de um graveto recém-queimado.]
[o graveto que não sofrera a maldição da escrita.]
21.10.25
[PROVOCAÇÕES: ERIÇAMENTOS: ATRITOS]
[ENTREVISTA COM O VAZIO]
[o vazio perguntou ao pleno por que se escreve. o pleno não soube ou não quis fecundar uma resposta.]
[chamamos deleuze, chamamos a reprodução simulatória de uma vitrine em outra vitrine numa cidade sitiada, chamamos rimbaud, lautréamont, chamamos os tuaregues e os ciganos.]
[chamamento meramente retórico.]
[só a vaziez sabe por que se escreve.]
[DOS DESTINATÁRIOS]
[o velho disse: "mas um livro é sempre uma carta para não-todos-destinatários".]
[o velho disse: "para-todos é sempre demais para o destino de um livro".]
[OS NÃO LEITORES]
[o vazio disse que gostava de provocar os não leitores com miríades baças de um texto com espinhos.]
[era o modo de dar às retinas os punhados de areia.]
[os não leitores poderiam então simular a queda no abismo.]
[a dor do texto prenhe de ilegível.]
[CANTATA MATINAL]
[na beira-página, estão os visitantes.]
[são legentes e são legíveis.]
[uns leem as páginas, outros são lidos por elas.]
[combinam-se, de um lado e outro, os povos migrantes do texto.]
[o texto é o modo mais sublime dos povoamentos.]
[o vazio perguntou ao pleno por que se escreve. o pleno não soube ou não quis fecundar uma resposta.]
[chamamos deleuze, chamamos a reprodução simulatória de uma vitrine em outra vitrine numa cidade sitiada, chamamos rimbaud, lautréamont, chamamos os tuaregues e os ciganos.]
[chamamento meramente retórico.]
[só a vaziez sabe por que se escreve.]
[DOS DESTINATÁRIOS]
[o velho disse: "mas um livro é sempre uma carta para não-todos-destinatários".]
[o velho disse: "para-todos é sempre demais para o destino de um livro".]
[OS NÃO LEITORES]
[o vazio disse que gostava de provocar os não leitores com miríades baças de um texto com espinhos.]
[era o modo de dar às retinas os punhados de areia.]
[os não leitores poderiam então simular a queda no abismo.]
[a dor do texto prenhe de ilegível.]
[CANTATA MATINAL]
[na beira-página, estão os visitantes.]
[são legentes e são legíveis.]
[uns leem as páginas, outros são lidos por elas.]
[combinam-se, de um lado e outro, os povos migrantes do texto.]
[o texto é o modo mais sublime dos povoamentos.]
31.8.25
[A FERA DA RUA DA BAHIA]
[a fera foi vista ontem
na rua da bahia.
fera ferrabrás
fera ferrabrás
de linhagem fera:
garras, bocarra, ira,
pelagem, retinas.
ninguém ligou.
não houve espanto,
não houve pânico,
ninguém ligou
para a polícia
borocoxô
ou mesmo
para o governador
coió.
douta
e acadêmica vida
esta que já não se espanta.
insípida e pernóstica
vida esta que já não eriça
os pelos da surpresa.
foi-se então a fera,
foi-se então a fera,
fera ferrabrás
de linhagem fera.
de linhagem fera.
foi-se pela cidade.
talvez tomar sorvete.
talvez
comprar uns trajes
novos lá onde drummond
novos lá onde drummond
fez um incêndio.]
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