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1.12.22

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã
prenunciada, veio o texto.
texto assim: fiapo
da roupa de um peregrino.

lembrei-me então da carta 
que paul celan
escreveu a hans bender 
em 18 de maio
do ano de 1960: 
"só mãos verdadeiras
escrevem um poema verdadeiro. 
em princípio, 
não vejo nenhuma diferença
entre um aperto 
de mãos e um poema".

e o texto veio assim: fiapo 
da roupa de um peregrino. 
não era ouro,
não era ourivesaria, nada 
de texto-diamante à luz chegante 
do dia: era fiapo.
fiapo da roupa de um peregrino.

com a delicadeza que se impôs 
em hora tão inaugural no tempo, 
tratei de laçar a lápis 
esse indizível que jamais escreveremos.

modo não há de escrever o fiapo
que se fez de texto na manhã 
prenunciada. o fiapo é o indizível,
é o horizonte inalcançável, é isto 
que nos ilude para a escrita 
sempre sonhada e impossível.]

30.11.22

[ORA DIREIS, LAVAR PALAVRAS]

[ora direis, lavar palavras.
ora direis, ensaboá-las, quarar 
as pobres em cima de pedra, depois 
enxaguá-las e torcê-las, 
anáguas silábicas tão alvas
como se quisessem aparência-hóstia.

ou quisessem condição carola, palavras
de sacristia, o tablete de anil 
para torná-las puras, virginais
senhoras ou frases em conserva.

pois que deixem nelas a crosta
do sol ou da chuva, deixem a capa 
de lodo-fungo em suas escamas, 
deixem intactas marcas, nódoas, 
manchas, fantasmas
― acúmulo de bocas que as disseram,
acúmulo de dedos que as escreveram.]

27.11.22

[EM TRIESTE, NO CAFÉ MOJORES]

[Os camarões enlatados da marca Nogalitos (para quem não os conhece, são secos, miúdos e polvilhados com especiarias picantes) ainda podem ser degustados no Café Mojores, de Trieste, o mesmo aprazível e distinto estabelecimento já centenário onde o escritor Carlo Nubs costuma receber os amigos nas tardes de quarta-feira. Ali estive, no mês passado. Levava comigo algumas edições raras de manuais de pesca. Entre eles, cito um pequeno compêndio, não propriamente sobre a arte pesqueira, mas sobre a atitude que deve ter o pescador em locais de arriscado acesso, locais pouco frequentados, locais regidos pelo acaso, já que nunca sabemos se terminamos o dia com o embornal farto ou com a paciência rota. Carlo Nubs ficou comovido ao folhear essa edição que lhe caíra em mãos, pela primeira vez, fazia uns vinte anos. Ouvi-o dizer, de cor, frases inteiras sobre a arte da paciência ali contida, especialmente ali pela página 50, onde o autor do compêndio (omito o seu nome por motivos de segurança) compara o pescar com o escrever. Foi então que Carlo Nubs pediu ao garçom (um croata sessentão) os Nogalitos. O próprio Nubs fez questão de abrir a lata. Exalou-se pelo Café Mojores a hipnotizante sedução das especiarias. E o garçom, passo seguinte, ofereceu-nos as claras cervejas Nugars, claras e fortes, muito apetecíveis quando combinadas com os Nogalitos em seus incêndios apimentados. E foi-se a tarde. Veio a noite. Trieste estava como dantes. Fronteira de mundos e de sabores. E ainda pude, ao final da jornada, lançar aos ares os redemoinhos e as espirais de um puro da Etiópia, composto por metade tabaco, metade penugem de ninfas.]

21.11.22