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[A FLOR VIAJANTE]

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[isabel botas negras  achou a flor  ao pé  de uma árvore na rua trifana.  pego-a. acariciou a flor  entre os esmaltes  cor de marte e foi pela rua  como se levasse um pequeno anjo. era flor minúscula, mirrada,  já um pouco murcha, flor sem nome  das espécies de flores em estado  de mendicância, flor sem teto  e sem jardim nas dobras da cidade. isabel cruzou a afonso pena  com a flor  entre os dedos,  desceu com suas bravas  botas negras para o vale do anchieta,  alcançou o carmo, seguiu pela outono,  estava agora na grão-mogol, ela e a flor,  flor-irmã nas dobras áridas da cidade. mas os tratados de economia  não incluíram tal acontecimento  em seus gráficos de curvas  apocalípticas. o senador  não incorporou tal fato  ao relatório das vicissitudes  da república. homens de terno  permaneceram assépticos e imunes à flor  que isabel levava: flor-irmã,...

[FANTASMAS DIANTE DA GRUTA METRÓPOLE]

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[fantasmas de fraque  e cartola  palreavam hoje  diante do que foi a gruta metrópole.  palreavam sobre doces  e panturrilhas.  calmos e serenos  pela aura  da fantasmagoria,  usavam apetrechos  de silêncio  para a descrição  do remoto  convívio, lá  quando  as esbeltezas de suas calvas luziam belo-horizontinas,  adjetivadas calvas de doutores  e pontífices, de sonetistas  e barrigas  de redondilhas.  nós, os que hoje  passamos  pela rua da bahia,  vimos esses fantasmas  em colóquio sobre o nada, o nada  eterno  que sempre floriu  naquele tugúrio. e um de nós, talvez  o escriba  desse cenário,  percebeu ser ele  um igual fantasma  ali no simpósio, canivete em óxido  no bolso  da sobrecasaca, relógio parado  no fundo das algibeiras.]

[O QUE É, O QUE NÃO É]

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[convém não crer em tudo o que o gato mia, que o cachorro rosna, que o trovão barulha, que a chuva molha, que o filósofo escava, que o perfume exala ou que a matemática soma ou subtrai no dia que pode ser noite, na noite que pode ser dia.]

[O PENSAMENTO E A POESIA]

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[há um indescritível e indecifrável rumor noturno de asas quando porções  de pensamento esvoaçam em direção à poesia. essas porções que a noite  não consegue aprisionar com os seus cadeados e grades, esses vazamentos de matéria pensante a caminho da poesia poderiam ser chamados de "odres suspensos", posto que lembram o jorro do vinho para disseminar a festa  e a desordem.]

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

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1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história. 2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor. 3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela. 4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento. 5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábi...

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

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[tudo está vazio: sua boca, sua cabeça,  sua sombra. seu discurso está vazio. bacia sem nada, peneira  ao vento. tudo está vazio: seu grito, seu rumor,  seu murmúrio. sua aorta está vazia.  sua horta,  sua praga. tudo está vazio. o livro que você lê  está vazio. letreiros da imensa avenida,  edifícios  da grande cidade. tudo está vazio. seu lápis não tem grafite,  sua caneta  não tem tinta. tudo está vazio. seu corpo no palco,  seu enchimento-espantalho,  seu gesto  performático. tudo está vazio. seus dedos, seu teclado,  sua memória. seu chip está vazio.   sua vaidade,  seu sucesso, sua bolsa  de valores. tudo está vazio. seu monólogo em rede,  seu seguidor  e seu seguido. tudo está vazio. sua metáfora, sua curva  figurativa,  suas volutas significantes. tudo está vazio. mas o poema, rebelde,  nega o ato...

[LADRILHOS, PARTÍCULAS, MIGALHAS, VIDRILHOS]

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[a mediocridade é a mais sedutora e hipnótica das bruxas. atrai como a serpente atrai o passarinho.] [no olho da fervura, há mais poesia do que nos compêndios de verso e prosa, nos tratados altivos, nas falas da soberba.] [bem cedo, ainda escuro, cortei a cebola, o pimentão e o tomate, amassei o alho, e fiz o cozido exalar pela casa.] [disse o velho que ideologia é tal água aberta no quintal: ora inunda tudo, ora vai por trilhas aqui e lá, direita, esquerda e pelos meios.] [com o prumo do pedreiro, você pode aprender a dar o corte, no final da linha, no próprio coração da imagem. é o ritmo.] [torquês: ótima ferramenta para um poema.] [o novo, agora, só na criptoteca, com os códigos indecifráveis. o resto é rede.] [prantear. verter lágrimas por isto e aquilo. na antiguidade do dicionário ainda encontro tais pepitas.] [na oficina, para construir o poema, ele fez antes uma incisão na rocha.] [nesta altura das contendas, já sou o homem que palreia com os livros. digo-lh...