[este poema em linha sem fim, em moto-contínuo, assim daqui
para além nas ruas do burgo,
eia,
que a cidade é sem cercas,
eia,
cavalo só crinas,
o jato-cinema de um raio cadente,
a polpa da fruta nos lábios
da moça, a carranca do barco,
a seco, de esquina a esquina,
eu sei que vou e que sigo,
eia,
ao mar das tormentas,
"nunca mais, nunca mais",
eis o corvo a voo de relâmpago,
aquilo é um castelo, aquilo
é um palácio,
"ao chão, o palácio de inverno",
que as vestais sejam comidas
pelas moscas,
eia,
que o poema é sem fim,
em moto-contínuo, roda d´água
e moenda, roldana de guindaste,
motor de transatlântico,
eu vou para cabo verde,
eu vou para a mongólia,
eia,
que o circo é em chamas,
eia,
e mais eu não digo,
eia,
e recomeço, do início para o difícil,
do fácil para o sem fim das dunas do deserto, eu leio cartago,
eu leio o estopim aceso
nas ruas de hamburgo,
conheço o seu segredo, eu sei
do seu cinismo,
eia,
palavrórios ao vento,
eia,
a manteiga na chapa,
lá vem o andor do sossego,
lá vem a santa desnuda,
comprei um escaravelho,
vendi o olho cego,
não vou de valsa,
eu sei o ponto que desapruma,
vai cair o edifício, está
em chamas a cidade,
"é a praga", diz o ventríloquo,
"é a louca do passarinho",
grita o mendigo, devoro
a música com garfo torto,
retiro os ladrilhos,
vou de pequim a lisboa
em busca da lâmina,
lá em recife
dos pernambucos cabralinos,
se tem cigana, eu danço,
se tem farinha, eu como,
debulho os gomos, de gomo
a gomo, desta cantaria.]