30.8.26

[KANT E A RAZÃO PURA NA TARDE DO BAIRRO]

[kant tomou a razão pura entre as mãos, moldou-a, agregou à massa ingredientes próprios para a goma, sovou a razão pura com esmero e vigor, e então, quando a bolota já adquiria uma consistência elástica, ele esticou a razão pura sobre a mesa, esticou-a de um canto a outro daquela mesa onde as melancolias costumavam cantar boleros e tangos.] 

[depois kant puxou a bolota da razão pura de modo que, da longa tira emborrachada, bem esticada, pudesse soar um dó maior ensolarado pela tarde do bairro.]

[e os meninos.]

[e os meninos, toda a criançada de pés no chão e narizes líquidos, toda a meninada do bairro logo pôs caras e carinhas nas janelas.]

[os meninos viram quando o dedicado kant dedilhava com o dedo mindinho a goma esticada da razão pura.]

[os meninos viram aquilo.]

[eles viram aquilo e acharam muita graça.]

[como é que o velho kant havia conseguido fabricar tal razão pura esticada sobre a mesa das melancolias?]

[parecia até uma corda de viola, pois o dó maior atiçou curiosidades na rua do meio, depois na rua de cima, depois na rua sem nome, e mais depois ainda na praça das metafísicas obscenas.]

[mulheres sem-que-fazeres logo apareceram, os aposentados deixaram o jogo de damas, poetas boquiabertos caminharam por fios incandescentes.] 

[e todos, todos os homens-vírgulas e as mulheres-reticências puseram pescocinhos e olhinhos para fora, parecia que o brasil vinha inteiro lançar olhos famintos sobre a razão pura do velho kant.]

[isto é: a razão pura esticada e musical naquela tarde de julho.]

[frio fazia, luvas e os cachecóis dançavam a dança das nuvens, o dó maior da razão pura blimblava blins-blons pelo bairro afora, e paulinho assunção, o fantasma, posicionou o estilingue em direção às vidraças.]

[foi um tiro certeiro.]

[tiro certeiro de pedra redonda na vidraça da literatura sorridente.]  

29.8.26

[AFFONSO ÁVILA]


Eu gostava muito do poeta e ensaísta Affonso Ávila. Não me refiro apenas à sua obra, em tudo genial, mas à pessoa, ao ser humano.

Conversei duas vezes mais longamente com Affonso: uma, quando viajamos no Fiat da arquiteta Selma Miranda desde Itaverava a Catas Altas da Noruega, e fizemos um pernoite numa pousadinha à beira do rio Piranga sob o frio cortante de junho ali na Minas profunda.

A outra vez foi quando o entrevistei para o livro que eu escrevia sobre o nosso amigo comum Fritz Teixeira de Salles. O amigo Carlos Ávila foi quem intermediou a minha visita ao pai. À época, sua companheira de vida inteira, a sempre saudosa e querida poeta e ensaísta Laís Corrêa de Araújo, falecera alguns anos antes, em 2006.

E foi ali, na sala da famosa Rua Cristina, 1300, que Affonso definiu certeiramente Fritz: "Era um comunista lírico", ele disse. Tão certeira era a definição que a usei como título do seu depoimento no livro editado pela Conceito Editorial, sob a batuta de José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião.

Para a minha alegria, a conversa acabou extrapolando (e muito) o motivo principal de retratar o "Quixote Inesquecível", como escreveu Drummond em uma crônica-homenagem a Fritz no JB. E foi, com certeza, o dia em que mais saborosamente ouvi Affonso como pensador e poeta, o Affonso dos pioneiríssimos estudos sobre o Barroco, o Affonso da inquebrantável abertura para o novo, para as descobertas do novo.

Ainda agora, lembrando-me disto nesta tarde de sábado, recordo-me também da primeira vez que o encontrei lá pelos idos de 1980: foi no prédio onde funcionou a Fundação João Pinheiro, na avenida homônima. Fui visitá-lo como repórter e a pauta era sobre a Revista Barroco, que ele fundou.

Salve, Affonso, eu digo efusivo desde Salvador, mirando a foto dele ainda bem jovem diante da casa onde nasceu Gregório de Matos e que é capa do seu livro Barrocolagens.

[A ERA PÓS-LIKE]


Li por aí, acolá e algures (e talvez já esteja atrasado) que já se fala em uma era pós-like no ambiente digital, em decorrência da queda vertiginosa de curtidas em todas as plataformas.

Diz-se que o público entrou numa tal de "fadiga de validação", ou seja, se cansou de soltar likes em todas as direções, a sicrano, beltrano e a disgramo, e não quer mais ficar no modo tatibitate de avaliar tudo em todos os momentos, do soneto à foto do anoitecer, da receita de quiabo ao bebê que conversa com o gatinho.

Em resumo, age de modo mais criterioso ou econômico em seus perfis e pensa duas ou três vezes antes de clicar num emoji para validar ou desvalidar isto ou aquilo. Fala-se também que as plataformas têm priorizado mais o "tempo de tela" do que o botão de curtir.

Mais resumidamente ainda: na era "pós-like", o conteúdo já não é mais medido pela aprovação pública (cliques com o coraçãozinho), mas pelas conexões mais fortes, intencionais e silenciosas.

Por exemplo, enviar um conteúdo a amigos por mensagem direta ou salvar um conteúdo para consulta ou leitura futura.

Adepto então dessa nova onda, não curti o que li, mas guardei o que li no bloco de notas para escrever o que acima eu escrevi. Morou?

[MARGUERITE DURAS E A JANELA]

[vezes sem conta leio a foto em que marguerite duras toca o lá-fora com a mão espalmada, sua mão esquerda aberta

inteira sobre a vidraça, toque na luz que vem de um quintal ou jardim pela janela dividida em gomos de

vidro, à esquerda, atrás, uma cadeira, o tampo de uma escrivaninha, duras parece ter abandonado o que

escrevia pelas seduções estonteantes da luz, esse milagre da manhã (ou da tarde) que as

vidraças produzem em jogo com as cortinas, véu e clarão, bordados e raios, talvez essa mão espalmada traduza à

perfeição um contraponto visual à escrita, dois instrumentos em um duo de luz e letra, o violoncelo que

escreve, a flauta que emana luz sobre o já escrito ou ainda a escrever, duras foi à janela para brincar com uma das

partes do concerto.]

27.8.26

[DE UM MANUSCRITO DE FLAUBERT]


[mas escrever é isto que destroça,
escava, cava, fura, incisa,
essas letras sob, essas letras sobre,
esses riscos, essas cunhas, o furo,
e, sim, repito, essa paisagem de destroços,
fúria de oblíquas, linhas-pêndulos,
perpendiculares em estado de rasura,
ininteligível que se lê num átimo-relâmpago,
desconforme desconforto, disforme incômodo,
um trabalho para unhas, dedos que rascam,
rasgam, essa paisagem de ruínas,
flaubert insone, prontuário de sismos,
a terra que treme, o barco que soçobra e aderna,
tudo é sobra, limalha, resíduo, detrito,
tinta e vazio, tinta e farelo, essas
migalhas de sílabas que o terremoto
esqueceu entre as fendas, escrever
então é isto, nada que lembre o texto
em pompa, texto-discurso, texto-melável
em melaço solene, escrever então é isto,
o que não se pode, o que não aguenta
ou suporta a pomba senil das harmonias.]

25.8.26

[DO DIÁRIO BELO-HORIZONTINO DE RUBEM FOCS]


Terça-feira, pelas ruas, aos navegares


Sentados em banquinhos de três pernas na Rua Sergipe, Vicente Gunz e eu observamos os passantes e flanáveis transeuntes: um pangaré bacharel, duas centopeias de vestidinhos de organdi, um tatu doutor, seis minotauros sombrios, um hipopótamo, uma garça adverbial, nove rolinhas simbolistas, um beija-flor em pânico, um cabrito metonímico, um romancista, outro romancista, quatro romancistas, um gato hipotético, um contista, um arquiteto, um mineiro, outro mineiro, sete mineiros, mais um mineiro a bombordo, um filósofo de touca, um tigre, um tamanduá vienense, uma cabra performática, uma girafa, um poeta-com-os-seus-tijolinhos, um plagiário, dois plagiários, sete plagiárias, um frei de cavanhaque a caminho dos céus, um menino-que-derrete, duas babás armadas de espingarda, um jornalista passado a ferro, outro jornalista dependurado no varal, um narciso de tranças, um vendedor de substantivos, um cambista, um belo-horizontino alemão, um belo-horizontino francês, uma madame de boca de buzina, um advogado-nas-trevas, um cachorro punk, um homem a caminho do Palácio da Liberdade, sempre a caminho do Palácio da Liberdade, para todo o sempre a caminho do Palácio da Liberdade, pelos séculos a caminho do Palácio da Liberdade.

[DO DIÁRIO BELO-HORIZONTINO DE RUBEM FOCS]


Sexta-feira, a noite vem e é quase um oceano

Vicente Gunz e eu vamos em expedição pela Avenida Cristóvão Colombo, a cinco metros de distância do contista Andrauss Di Alexandria. O contista não nos vê e caminha lentamente, com os braços para trás, as mãos cruzadas sobre o traseiro. Vicente Gunz observa que o contista fala sozinho. De quando em quando, ele abana a cabeça, tomado por alguma contrariedade. E então para, abrupto, com ótimo freio em seus sapatões. Depois, abana outra vez a cabeça e prossegue com a sua caminhada. Andrauss Di Alexandria é autor do livro “As olheiras de Edgar Allan Poe”, que esteve entre os mais vendidos de 1998. Ele é casado com a psicóloga Viviana Rosendo, argentina de Rafaela — na juventude, ele viveu na cidade de Córdoba. Dizem que Andrauss Di Alexandria cultiva a magia negra e faz parte de uma sociedade secreta com sede em Valparaíso. É dele uma frase muito famosa nos dicionários literários: “O bom conto é aquele que mata o leitor no primeiro parágrafo”. Na esquina de Tomé de Souza, o contista aproxima-se de um poste, abre a braguilha e, solene, emite um xixi elíptico, de jorro curto, é certo, mas com excelente noção de tiro ao alvo.

23.8.26

[OUTRAS ÁGUAS]


[Torto por linhas tortas foi o modo que encontrei para exercer em mim as palavras em condição de viventes]

[Em épocas de primeiros êxtases, costumava rastrear delas as pegadas, os rastros, as manchas, como se fossem gentes em êxodo]

[Sonhei recados de umas para as outras nas vísceras do não dito nem escrito]

[Sonhei bilhetes no carvão, no fogo e nas cinzas, naquilo que restou das algaravias]

[Imaginei tratados filosóficos em ossos e fósseis de vocábulos]

[Vi pedaços do que eu fantasiava um dia escrever nas sementes deixadas na tumba dos faraós]

[E veio o dia em que olhei o mundo e o mundo era feito de letras e alfabetos]

[Foi então que fantasiei uma caixa de escrever, uma caixa de escrever com gavetas lacradas que descobri não terem chaves nem manual de instruções para abri-las]

[Torto por linhas tortas descobri que investigar palavras é diferente do ofício do anatomista que cinde um cadáver]

[Torto por linhas tortas soube que o matiz nelas existente é diferente do que há de matiz por exemplo no ventre de uma pedra]

[O que nelas há de peso e volume é diferente do peso e do volume que se apreende da mensuração de um tijolo]

[Nem adianta jogá-las em um poço a fim de que produzam os sons ou os ecos de uma moeda]

[Nem adianta querer delas o ritmo que vem da baqueta sobre o tarol ou sobre o bumbo, esses ritmos de fanfarra]

[Torto por linhas tortas descobri o quanto de falácia há no ato de encerrar palavras dentro de uma garrafa]

[Torto por linhas tortas restringi meus êxtases a um sol todo estilhaços vazado por uma janela e pintor de ideogramas nas paredes]

[Torto por linhas tortas fui até Rimbaud, mas tive de levar pincel e tinta a fim de dar cor à cor que ele disse ter visto em suas vogais]

[Tocar as palavras do modo como se toca uma coisa foi o maior dos meus enganos]

[Torto por linhas tortas vi que nem a palavra coisa pode ser tocada à maneira dos corpos]

[A pedra e a mão, sim, formam uma parelha em estado de núpcias e se tocam à maneira de amantes]

[Também parelhas núbeis são a mão e o graveto, a mão e o estilete, a mão e o cinzel, a mão e a goiva, a mão e o cálamo, a mão e a pena de pato, a mão e o pincel, a mão e o lápis]

[Falácia é dizer que a tinta contém fetos de letras e de palavras, pois a tinta é um mero aquém à espera, quando muito um dos murmúrios da cópula futura]

[Palavras podem ser depositadas sobre paredes mas nem por isso terão a consistência dos ovos de uma vespa]

[Palavras podem ser riscadas na areia mas nem por isso o boi vem lambê-las ou o lagarto engoli-las]

[Palavras no granito dissolvem-se na coisa-lápide ou na coisa-estátua, nada mais]

[Falácia é flagrar milagres de palavras em tecido, couro, pergaminho ou papel nos quais estejam incrustadas]

[Falácia é dividir as palavras entre vazias e cheias, entre substantivas e adjetivas]

[Falácia é dividi-las entre escuras e iluminadas]

[Torto por linhas tortas vim a descobrir as similitudes de umas com todas, de todas com nenhuma]

[Torto por linhas tortas descobri ser falácia palavras com chips ou circuitos de néon em suas entranhas]

[Não há estado de coisa nas palavras em escrita cuneiforme, há, sim, estado de coisa na substância barrenta dos tijolinhos de escrever]

[Coisa é o papel, coisa é o caderno, coisa é o livro, coisa é a tela do computador]

[Torto por linhas tortas vim a descobrir que as palavras não são da ordem da matéria, mas da ordem das povoações]

[E talvez quem saiba delas sejam os santos desmobilizados e sem igreja, os santos expulsos da ordem das santidades]

[Torto por linhas tortas vim a descobrir que as palavras são também da ordem das miragens]

[Reduzi assim meus êxtases à contemplação da mímica de luz e sombra que há no território das palavras]

[Por exemplo, a mímica da doçura, quando é de favo que elas se mimetizam]

[Por exemplo, a mímica do calor, quando é com fogo que elas nos ilusionam]

[Sob luz de vela, dentro de um claustro, um monge escreve a sua própria hipnose]

[No escritório, com a escrivaninha frente à janela, ou na praça, com o caderno sobre os joelhos, um ilusionista erige no ar palavras em dissipações]

[Num café de Paris, o escrevente sonâmbulo constrói hieróglifos mais leves do que o ar]

[Foi torto, por linhas tortas, que outras águas eu percebi na corrente que subjaz o rio das palavras]

[Coisa é o som que faz um homem na máquina de escrever, coisa é a cadeira anatômica diante do computador]

[Coisa é a cidade de Alexandria, coisa é a biblioteca de Ptolomeu]

[Num mosteiro do fim do mundo, o primeiro e o último livro se enlaçarão com seus braços ou tentáculos de alfa e ômega]

[Todos os dias um falso Gutenberg sonha palavras de gesso encarceradas na página de um livro]

[Torto por linhas tortas descobri ser o Diabo um deslegente tanto quanto Deus é o seu deslido]

[Só torto por linhas tortas pude acompanhar o fio de Ariadne por entre as estantes da biblioteca de Borges]

[Falácia é dividir as palavras entre as ardentes e as frias]

[Torto por linhas tortas descobri que as palavras são da ordem dos fios que ligam um lado e outro do abismo]

[Meu êxtase é ter hoje com elas o convívio das gentes serenadas, das gentes desafligidas de bando]

22.8.26

[ESCREVENTES]

[Uns, efêmeros, escrevem na areia para que as ondas lavem e o sal corroa o corpo das letras, e para que a manhã dos mares seja testemunha, não de frases ou palavras, mas de restos de sargaços, de quilhas carcomidas de barcos, de lemes e mastros avariados, de espuma pela boca de peixes mortos.] 

[Outros, porque visionários, escrevem no bronze para que o vento, com os seus chicotes de vento, e o tempo, com o seu olho insone de tempo, sejam pelas letras derrotados, e para que os séculos, com seus galopes de potro, com seus cascos de potro cego, grafem no metal os próprios ossos das palavras.]

[Uns, diletantes, escrevem nos feriados ou então nas tardes de domingo, e esperam, primeiro um inchaço, depois uma eclosão, por fim, esperam descer do teto a matéria gelatinosa e plástica que lhes servirá de letras, com as mãos eles aparam esses nacos e essas porções grudentas, quase bolotas, e ainda com as mãos eles passam a lambuzar de norte a sul a página, até  submergi-la, até afogá-la em gosma, para, enfim, sonolentos, de tudo esquecerem.]

[Outros, porque furiosos, escrevem com a ponta de um punhal depositada sobre o fígado. Convém manter deles certa distância, embora o risco para quem deles se aproxima esteja menos no punhal e mais no líquido que eles fazem porejar da pele, um líquido gélido e ácido, sem brilho, porém volumoso ao ponto de ao final do dia envolvê-los com uma mantilha de luto, já quando as letras sobre a página tornaram-se irritadiças e ásperas.]

[Uns, precavidos, escrevem em linha reta para proteger suas frases dos abismos de um lado e outro da página, sempre avante é o que parecem dizer a todo instante, sempre avante com chumaços de algodão em cada orelha, sempre avante eles jamais permitem que o canto das sereias e as próprias sereias lhes venham roçar os corpos, e fazer dos corpos deles um país definitivamente conquistado.]

[Outros, porque urgentes, escrevem o quanto antes para que não sejam surpreendidos pela noite em algum ponto ermo do deserto. Chegar o quanto antes e aonde quer que seja é para eles uma lei. Talvez, por isso, as letras que lhes saem são às vezes dardos, às vezes flechas; são às vezes um susto, às vezes são sinais de rádio a anos-luz de nós, isto é, são fósseis de letras, como estrelas mortas.]

[Uns, delicados, escrevem com o braço em repouso sobre o dorso de uma pluma, provavelmente porque concebem as letras como se as letras fossem asas de libélulas. Convém dar a eles o direito ao silêncio, convém dar a eles o ambiente de claustro, pois, se o som  de um clarim é capaz de desmoroná-los, de igual modo e efeito, o rumor do mundo pode desintegrá-los.]

[Outros, porque bélicos, escrevem nos gumes de armas brancas como o punhal ou a adaga. Esses costumam ter olhos vermelhos e língua seca, nunca suspiram de saudade e quase sempre estão de emboscada. Convém, pois, não compartilhar com eles a mesma rua, o mesmo andar de edifício, muito menos a mesma música.]

[Uns, gagos, escrevem cobrindo os buracos e os intervalos que o silêncio faz entre as letras e vivem constantemente em estado de síncope. São, por tais motivos, propensos a ritmos ensandecidos e dissolutos. Quando irados, sovam as palavras com os punhos ou as atiram no chão para serem pisoteadas. Contudo, se felizes, costumam engenhar palavras engraçadas, algumas magras, outras obesas, algumas sólidas, outras feitas de bolha.]

[Outros, porque larápios, escrevem a meio caminho entre a luz e as trevas, uma parte do rosto sob a névoa, a outra parte sob a sombra. Seres noturnos e vicários, apreciam recolher palavras na bolsa alheia, mais pelo gosto de desnutri-las do que com a intenção de utilizá-las. Não à toa, costumam possuir sinistros depósitos de palavras em decomposição.]

[Uns, solares, escrevem concedendo às palavras respiradouros e claraboias, escotilhas e janelas. Mesmo palavras mais soturnas ou mais enlutadas recebem deles frestas de luz nas partes onde as letras foram cobertas pelo musgo, pelo mofo ou pelo lodo. Amigos do sol, esses escrevem com assovios formados ou em doce formação no côncavo dos lábios.]

[Outros, porque melancólicos, mais escavando do que escrevendo, procuram as regiões sem luz no corpo das letras, não propriamente trevas, mas certos carnegões ou furúnculos ali depositados pelo tempo. A tarefa principal deles, portanto, é furar esses carnegões prenhes de humor enegrecido e barrento, fazê-los escoar a baba e o visgo entre as frases, de tal modo que, no fim de cada dia, densas camadas de matéria semelhante ao piche foram espalhadas sobre o corpo da escrita.]

[Uns, feirantes, escrevem nas manhãs dos bairros suas palavras-legumes, suas palavras-folhudas, suas palavras-grãos, suas palavras-frutos. Ou então fazem exuberar, aos olhos leitores dos cachorros, bandas de leitões, frangos dependurados pelo pescoço, suãs de novilhos, pernis de cabritos. Convém observar a ânsia com que oferecem consoantes secas e vogais molhadas pelo megafone, convém observar como são artífices de cálculos contabilidades, convém observar como estão permanentemente em estado de prateleira.]

[Outros, porque tribunos, põem as palavras na ceva para que elas ganhem volume e peso, e adquiram banha, e se tornem suculentas. Só então eles aceitam utilizá-las nas frases, umas escolhidas pelo tamanho do dorso, outras pela exuberância das ancas. Convém de quando em quando revolver o lixo deixado por esses tribunos nos cantos da oficina, pois, ali, entre monturos, pedem socorro as palavras raquíticas, as palavras desnutridas e agônicas.]

[Uns, catequéticos, fazem das palavras animaizinhos de mando, amiúde as palavras saem deles para missões incumbências, muito frequentemente podemos vê-las em pregações pelas esquinas das cidades. Convém não dar ouvidos a essas palavras missionárias, menos pelo que elas propalam, mais pelo barulho ensurdecedor dos seus latidos e relinchos.]

[Outros, porque ourives, usam goivas e pontais de diamante para esculpir o corpo metálico das palavras. Faz bem aos olhos e ao coração observá-los tão enlevados neste ofício, faz bem observá-los tão meninos com suas palavras-anéis, suas palavras-braceletes, suas palavras-pingentes, todas em estado de baile.]

[Uns, suicidas, são dados a encaixar cápsulas de cianureto nos interstícios das letras, para então ingeri-las durante o sonho. Ou então preferem encharcar as letras com álcool ou gasolina, e assim, ao meio-dia em ponto de uma segunda-feira, e com a ponta acesa de um fósforo, escrevem cartas que jamais chegarão ao seu destino, pois incendiadas no meio do caminho.]

[Outros, porque acrobatas, equilibram as palavras em fios de aço no mais alto ponto do circo. Algumas palavras são postas em fila, outras são empilhadas, e formam torres, ou se abrem em árvores, ou então simulam máquinas e engenhocas. Todas porém são obrigadas a contorcionismos em volta do próprio eixo. Contudo, é aconselhável saber que, quase sempre, o sopro de um anjo invisível desfaz essas formações de letras e, sem a menor cerimônia, as atira sobre a plateia.]

[Uns, nômades, louvam o próprio ir sem rumo das palavras por países e continentes, nem bem elas chegam e já estão partindo, um comichão inexplicável movimenta ininterruptamente esses comboios de letras, nada os retém, nem o olhar das mulheres que acenam de um tombadilho, nem as crianças em condição de abandono. Errantes, as palavras desses nômades estão sempre em estado de adeus.]

[Outros, porque estrangeiros, são os que geram palavras com o mal-estar do desassossego, as palavras deles jamais estão onde se esperaria estivessem, sempre cometem um equívoco de lugar e destino, e os leitores que as leem, quando as leem, costumam orar por esses estrangeiros como se aconselha orar para os excomungados.]

[Uns, inocentes, teimam em andar com as suas sacolas de palavras pelas zonas de litígio, atravessam com elas os campos de batalha, quase sempre são abatidos, ou então são feitos prisioneiros, não muito raramente são amestrados. E enquanto há guerra e há litígio, cumprem a ordem de divertir combatentes e comandantes em suas solidões de pernas atrofiadas, de olhos vazados, de vísceras à mostra.]

[Outros, porque usurários, põem pela manhã no cofre palavras gestadas durante a noite, anos a fio e para todo o sempre eles trancafiam em cofres as suas palavras-apólices, nada, ninguém os demove deste segredo, ninguém os convence ao gesto de soltar uma palavra matinal nos céus dos homens.]

[Uns, por fim, irremediáveis e danados, escrevem porque estão para todo o sempre e eternamente dentro de um círculo de fogo.]

[Outros, porque limítrofes ao círculo de fogo, escrevem e escrevem, escrevem para sempre escrevem, nada mais fazem do que escrever, sempre estiveram e sempre estarão destinados a escrever, não dormem, escrevem, não pulam dos edifícios nem tomam cicuta, eles escrevem, o fim é anunciado pelas trombetas, eles escrevem, as cidades são consumidas pela peste, eles escrevem, escrevem em busca e crentes da salvação que não há.]

[Escreventes, livro produzido 
artesanalmente, edições 2 luas, Belo Horizonte, 1998]

17.8.26

[OS ESQUISITOS, COMO NÓS, À BEIRA DO DOURO]

["Nenhum de nós recorda o texto da lei que obriga a recolher folhas secas", diz Julio Cortázar ali pela página 129 de A volta ao dia em oitenta mundos, quarta edição da Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, outubro de 1968. Ndalu, que é versado nesses temas um tanto em desuso, e é capaz de paradas súbitas na rua ao ter o olhar atraído para uma pedra, um besouro morto ou um papel com letrinhas manuscritas, propôs a Jorge um jogo enquanto caminhávamos pela manhã à beira do Douro. 

Vínhamos de Dublin, fizemos uma parada de dois dias no Porto, mas o nosso destino era mesmo Havana, pois ali, naquele mês de agosto, participaríamos do XX Encontro dos Livros e Personagens Inexistentes. "O jogo consiste em ativar em nós o fervor para a esquisitice", explicou Ndalu. 

Soprava do Douro um ventinho travesso e mefistofélico. Caminhávamos lentamente e descompromissados. E havia como que um ritmo frásico de lerdo e preguiçoso soneto em nossos pés. Em meu bolso, o bolso direito da camisa, palpitava uma carta que recebera do professor baiano Otto com 22 sugestões para livros e personagens inexistentes. Uma carta que, confesso, seria de utilidade imensa no encontro cubano. 

Ndalu, então, explicitou um pouco mais o jogo ativador de esquisitices, que seria uma espécie de circuito cerebral inexplorado, posto que marginal à ordem do comum e do usual naqueles dias em curso pelo mundo. Esquisitar seria o verbo maestro nesse jogo que a visão do Douro instigava, que os passos de caminhantes sem pressa estimulavam, que a perspectiva da travessia atlântica dali a dois dias motivava.

Éramos três amigos irmanados pelos livros e pelas histórias. A invenção de fábulas nos unira ao longo dos anos, e éramos capazes de engenhosas viagens, ora Bagdá, ora Minsk, ora Manaus, ora Praga, mesmo que na quietude de não sair do lugar. E jogávamos o jogo proposto por Ndalu. Lançávamos em voz alta hipotéticas concepções sobre a frase de Cortázar sobre as folhas secas. Dizíamos palíndromos às moças que passavam àquela hora da manhã, ou então tecíamos elogios aos chapéus dos senhores que, como nós, iam e vinham, à beira-Douro. As moças, sob ação palindrômica, sorriam; os senhores, com a sisudez destoante com a luz matinal, trancavam ainda mais os semblantes. 

Até que vimos, adiante, ungido por um prisma de luz, um menino. Soubemos, depois, que se tratava do Menino Recolhedor de Folhas. Virtuose no ofício, ele dispunha as folhas secas em estantes dentro de um caixote. Parecia uma biblioteca de livros sem títulos e sem personagens. Mas era coisa tão bonita de se ver que mereceu de nós saudações e vivas ecoantes-altissonantes pela manhã portuense.]

13.8.26

[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]

[o poema-documentário começa nos próprios óculos de mário: é ali, pela redondez das lentes, que se dará

o fenômeno dos vidrilhos, aliterado fenômeno a se reproduzir ressoante por maravilhas e brilhos da noite.

diz pedro nava que mário de repente debandou-se do grupo, foi para a sacada do grande hotel, contemplou o estilo 

flamejante e manuelino do conselho deliberativo, rua da bahia com avenida paraopeba, ali onde, adusto e áspero

pela rigidez e a monotonia, eleva-se hoje o edifício malleta. e então o poema-documentário volta aos óculos

de mário, e pela redondez das lentes com faíscas nas hastes, flagra outra vez o fenômeno dos vidrilhos, a combustão 

de luzes na noite de belo horizonte, o sonar de mário capta frequências acústicas, seu radar recebe ondas eletromagnéticas.

com letreiros diante da câmera, o poema, que é documentário, exibe as seguintes frases: "ah, o brasil da república velha;

ah, a belo horizonte das magnólias; ah, o barnabé em pânico com o ovo do novo que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,

o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah, o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos do partido republicano mineiro". corte.

volta-se a câmera para os óculos de mário, "holofotes que varrem a noite", diz nava. corte. fusão de imagens dos óculos de mário

com os óculos do poeta sem nome. é o ano de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, chove, dói no horizonte a dor de um mendigo 

bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos de sangue, eis o poeta sem nome, turvas lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]

12.8.26

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã prenunciada, veio o texto.]

[texto assim: fiapo da roupa de um peregrino.]

[lembrei-me então da carta 
que paul celan escreveu a hans bender em 18 de maio do ano de 1960: "só mãos verdadeiras escrevem um poema verdadeiro. em princípio, não vejo nenhuma diferença entre um aperto 
de mãos e um poema".]

[e o texto veio assim: fiapo da roupa de um peregrino.] 

[não era ouro, não era ourivesaria, nada de texto-diamante à luz chegante do dia: era fiapo.]

[fiapo da roupa de um peregrino.]

[com a delicadeza que se impôs em hora tão inaugural no tempo, tratei de laçar a lápis esse indizível que jamais escreveremos.]

[modo não há de escrever o fiapo que se fez de texto na manhã prenunciada.]

[o fiapo é o indizível, é o horizonte inalcançável, é isto que nos ilude para a escrita sempre sonhada e impossível.]

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

10.8.26

[BIBLIOTECA DA PRAÇA DA LIBERDADE]


[Creio ter sido entre março/abril de 1967 que entrei pela primeira vez na Biblioteca da Praça da Liberdade (assim conhecida na época; o nome Luiz de Bessa viria depois). Com 16 anos, recém-chegado a Belo Horizonte, foi a minha primeira visita a uma biblioteca pública. Não me lembro se ali cheguei pela manhã ou à tarde, se subi a pé a João Pinheiro, a Bias Fortes ou a Bahia. Nem me lembro se usava naquele dia o uniforme do Colégio Estadual da Gameleira. A ambiência do lado de fora da biblioteca é vaga na minha memória de 75 anos. Ao contrário, é nítida, palpável, do lado de dentro: o ambiente das estantes e das mesas, e, sobretudo, a memória tátil em meu primeiro convívio com aquela fartura de livros. Sinto ainda hoje a textura das lombadas e das capas, aquela fieira de autores que seriam o meu pão dali em diante. Desses, recordo-me claramente da lombada e da capa de A Cartuxa de Parma, de Stendhal, a encadernação em sépia no meio de todos aqueles volumes de literatura francesa. E logo a estante com os russos. E logo o empréstimo inaugural, o primeiro dos empréstimos, quando pude levar para casa, no Calafate, os livros escolhidos. A partir desse encontro amoroso e inesquecível com a Biblioteca da Praça, fiz dali o meu refúgio. E devido à impossibilidade de largar as descrições que lia das estepes russas, das condições feudais dos camponeses russos, fui reprovado em uma prova crucial de matemática em um daqueles anos. Mais tarde, em 1971, quando me mudei para São Paulo, repeti esse tipo de afetuosa e apaixonada convivência com a Biblioteca Mário de Andrade. E com outras, como a Tomás Rivera, da Universidade da Califórnia em Riverside, meu esconderijo diário ali nas beiradas do deserto californiano, mas que não teve expediente em 11 de setembro de 2001, pelas razões óbvias.

9.8.26

[GEORGES PEREC, A JANELA E O GATO PRETO]

[nada tem a ver o que agora escrevo com a foto de perec e seu gato preto, nem com a janela ao fundo, suas grades em arabescos, a luz vazante, o almofadão que de sofá se faz.
 
nada tem a ver. e tem, agora digo, pois há uma personagem que não vejo, e é tal pessoa (pessoa novelesca) que puxa palavra atrás de palavra, é a ponta de um novelo que não vemos. 

pobre literatura. 

quão pobre é a literatura nesse instante. 

no êxtase de uma ausência, eu digo, a pobre e miserável literatura, em seu lugar mendigo, ela poderia tratar de presenças, mas prefere as ausências. 

tão desmiolada literatura. 

enquanto a corrente direcional do senso comum vê o cenário, a réptil, a quelônia, a viscosa literatura vê o que não aparece na foto, opta pelo que está fora, pelo que fugiu pelas bordas-margens da foto. 

é batalha perdida, eu digo. 

desde os antigos palimpsestos do mundo é a mesma história, eu digo, a literatura trata desse buraco, é esse buraco que a redime, e é esse buraco que, a cada texto, lhe dá o tiro de misericórdia.]

3.8.26

[OS FILÓSOFOS E A ECLOSÃO DOS OVOS]

[os filósofos ficavam à espreita, atrás das pedras e dos arbustos. 

só saíam quando os ovos eclodiam. 

era o momento do júbilo. 

cada filósofo emocionava as pálpebras de ver e as pálpebras de sonhar. 

chamávamos esse espetáculo de "o que os ovos fazem com a filosofia". 

os povos ágrafos parece que transmitiram aos filósofos esse ardor na alma. pois não havia outro nome senão ardor na alma para definir aquela festa da eclosão dos ovos. 

era tanto êxtase que os filósofos, aos saltos, lembravam velas esvoaçantes de barcos em dia claro, sob vento contínuo e benfazejo. 

relatos posteriores desses acontecimentos ainda provocam até hoje a festa pândega e pagã da visão e do sonho. 

peço mais um cálice de vinho ao garçom leitor de proposições e axiomas. 

elevo brindes aos filósofos desses mundos obscuros. 

ponho a literatura ao sol, em varais com espinhos, para que ela sofra lentamente a dor das asperezas. 

é tarde. 

e a madrugada será longa como um deserto de tulipas murchas. 

chamam-me de "aquele que crê". 

prefiro, porém, ser chamado de "aquele que andarilha".]

26.7.26

[PASCAL QUIGNARD E AS CÂMARAS DE ECO]

[pascal quignard, em dois laços
entre o som e a noite, diz que as grutas
paleolíticas não são santuários de imagens,
mas instrumentos de música cujas paredes
foram decoradas, são ressoadores noturnos
pintados no invisível, câmaras de eco,
e o eco teria determinado a escolha
das paredes a serem pintadas. 

diz ainda pascal quignard que o eco
é o lugar do duplo sonoro, do mesmo modo
que a máscara é o lugar do duplo visível:
máscaras de bisonte, máscaras de cervo,
máscaras de ave presa de bico curvo. etc.

mais adiante ele diz que o eco é o guia
e o referente na obscuridade silenciosa,
e diz ainda: «o eco é a voz do invisível».

costumo pensar com frequência no eco
dentro do poema, no som que se estilhaça,
que se fragmenta, sílabas-partículas
em colisão sonora: sons para que os olhos
os vejam. ver som. ver o eco. o olho que escuta.

sei que as teorias poemáticas são modos
de justificar o que a obra, titubeante, obra.
mas de ler pascal quignard nesse tratado
sobre o som e a noite, encontro um alívio
na aflição de um paradoxo: 
o poema é o olho que canta.]

22.7.26

[CURSO GERAL DE POÉTICA: EUGÉNIO DE ANDRADE]

[em 2005, era fevereiro entrante, e manuel jorge marmelo, meu irmão-do-lado-de-lá-do-mar, levou-me em passeio pelas ruelas de miragaia, mostrou-me o douro e a procissão de gaivotas na terceira margem do douro, mostrou-me becos, passagens, vãos de ruas para outras ruas 

na região mais antiga do porto, subimos, descemos, descemos e subimos, e lá estava o douro, sempre o douro, e o jorge, sempre fraterno, levou-me ali pela foz (era tarde de sábado, era tarde de frio, era tarde em meu tempo de permanência no porto), jorge levou-me ali pela foz, e, ao largo, ali quando o rio e o mar parece que conversam, parece que dialogam, 

parece que filosofam, jorge apontou-me, bem perto, a casa de eugénio de andrade, eis a casa do poeta, eis que o poeta (isto eu pensei) soube ter diante, em suas janelas, a topografia do rio e do mar, pois rio é o que abre, mar é o que recebe, e ali a casa, névoas agora na minha vista, sombras de uma lembrança que a clara luz daquele dia só 

me cega, tantos azuis, tantos brancos, tantos raios de cores despidas de cores, cores nuas sobre o mar e sobre o rio, e lá a casa do poeta, até fiz menção de visitá-lo, quem sabe uma palavra, quem sabe só o aperto fugaz de mãos com o rio e o mar ali como testemunhas, mas, não, não era hora, 

não era mais a hora, jorge contou-me que o poeta se achava adoentado, se fosse antes, anos antes, quem sabe, mas, não, o tempo urge, o tempo é bicho voraz, e o sábado, o sábado de 2005, foi adiante, almoçaremos no abadia, disse jorge, e lá fui eu, sereno, com duas flores no peito 

para eugénio de andrade, mesmo com o crime de ter viajado ao porto tão tarde. a isto eu chamo poesia.]

[ALBERT CAMUS E A JANELA]

[na enciclopédia das quedas e dos fracassos, junto com o verbete livro, há também os verbetes dos verbos ver e deduzir.]

[impossível ver (e deduzir) o que albert camus vê pela janela nesse instante.]

[instante, assim nos parece, de descanso, de intervalo, de lacuna, ao sentar-se no marco da janela.]

[talvez fosse melhor chamar isto de contramarco da janela, ou, no dizer dos engenheiros, pano de peito.]

[talvez, talvez seja isto, ou não, pois as nomenclaturas igualmente fracassam, apenas vemos que camus se sentou.]

[uma das pernas alçada sobre o encanamento da calefação, a outra perna se apoia no assoalho.]

[a luz de paris com os seus cinzentos à beira do prata, um telhado, uma antena de televisão.]

[camus segura com a mão direita talvez um cálice, e olha.]

[o que vê o escritor não sabemos.]

[talvez nem olhe, talvez apenas absorva o que vai pela rua.]

[um homem e uma mulher talvez passem justo agora, um carro, ou nada, pode ser que a rua esteja vazia.]

[camus então apenas se deixa ficar com o nada pelos olhos.]

[sim, tudo isto é fracasso, fracasso das deduções, imaginâncias sobre uma foto que nos comove, imaginâncias sobre o fracasso do que tentamos ver.]

[um escritor na janela, entre duas folhas abertas para que a janela nos faça recordar de um livro, um livro 
igualmente aberto, a janela-página com um escritor sentado lá dentro.]

20.5.26

[OS GRAVETOS, ESSES SERES DA INOCÊNCIA]

[ela disse, e se referia ao graveto: "este jamais sofreu a maldição da escrita".] 
[era o graveto de uma árvore também seca, que dava para um quintal corroído pelo silêncio, pela ausência, pelo abandono.] 
[tinha o graveto a dimensão de um dedo, e terminava em forquilha numa das pontas.] 
["este jamais sofreu a maldição da escrita", ela repetiu, e eu perguntei o seu nome.]
["meu nome", ela falou, "não tenho nome, e se o tivesse não o usaria".]
[depois, alguns dias depois, eu voltei a encontrá-la e ela escrevia a carvão símbolos ininteligíveis numa parede.]
[eram arremedos de vogais, porções de consoantes com aleijões, números que nenhuma aritmética poderia encampá-los.] 
[só o carvão, em finca, pontudo, escavava nitidez negra nos tijolos, aquela parede que restara de um depósito de sal.]
[era o carvão de um graveto recém-queimado.]
[o graveto que não sofrera a maldição da escrita.]

21.10.25

[PROVOCAÇÕES: ERIÇAMENTOS: ATRITOS]

[ENTREVISTA COM O VAZIO]

[o vazio perguntou ao pleno por que se escreve. o pleno não soube ou não quis fecundar uma resposta.]

[chamamos deleuze, chamamos a reprodução simulatória de uma vitrine em outra vitrine numa cidade sitiada, chamamos rimbaud, lautréamont, chamamos os tuaregues e os ciganos.]

[chamamento meramente retórico.]

[só a vaziez sabe por que se escreve.]

[DOS DESTINATÁRIOS]

[o velho disse: "mas um livro é sempre uma carta para não-todos-destinatários".]

[o velho disse: "para-todos é sempre demais para o destino de um livro".]

[OS NÃO LEITORES]

[o vazio disse que gostava de provocar os não leitores com miríades baças de um texto com espinhos.]

[era o modo de dar às retinas os punhados de areia.]

[os não leitores poderiam então simular a queda no abismo.]

[a dor do texto prenhe de ilegível.]

[CANTATA MATINAL]

[na beira-página, estão os visitantes.]

[são legentes e são legíveis.]

[uns leem as páginas, outros são lidos por elas.]

[combinam-se, de um lado e outro, os povos migrantes do texto.]

[o texto é o modo mais sublime dos povoamentos.]