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16.3.26

[ENQUANTO VOCÊ LÊ UM LIVRO]


Do nada, a frase pulou nos olhos do leitor. Ia o leitor a passos de cágado, muito assim-assim devagarinho em sua leitura, quando a frase, do nada, pulou nos olhos dele. Pulou mesmo. Assemelhou-se (a frase saltante) a uma lagartixa branca. Ou à língua de um sapo.

Uma frase que pula ou salta nos olhos dos leitores é fenômeno raro. Ou melhor: inédito. Em sentido figurado, é claro que, havendo a sedução de parte a parte (do leitor pela frase e da frase para o leitor), há, sim, frases que tomam de assalto os olhos do leitor ou leitores que mergulham na frase como se em uma praia grega: pela beleza contida na frase, por exemplo. Ou por seu ritmo. Ou por seu mistério.

Já o fenômeno em questão merece análise mais rigorosa. A frase que pulou era de uma novela narrada em primeira pessoa com cinco personagens (dois homens, duas mulheres e um grilo falante). Não menciono o nome do autor para não haver celeumas em um meio tão sujeito a intempéries. Ela possuía (ou possui) doze palavras. Estava (ou está) na página 94 da novela. Começava (ou começa) com o eu da escrita em si e terminava (ou termina) com um advérbio de tempo.

Pois o leitor (a vítima) ia ali pela sétima palavra da frase quando sentiu a escuridão do dia ou as trevas repentinas. A frase, com as suas doze palavras aos modos das pernas de uma aranha, tomara conta dos seus olhos. Ele logo percebeu que estava à mercê de um fenômeno incontrolável. Ao mesmo tempo em que cobria a sua visão, a frase mexia, se contorcia sobre os seus olhos como uma minhoca embriagada. A frase parecia possuir ventosas. Aquelas ventosas de um polvo.

Não quero me alongar, porém. Há demasiadas crueldades à solta e não desejo disseminar mais um caso de terror. Vejo pelo lado menos lúgubre. Imagino que a frase-lagartixa ou frase-aranha fez o que fez com boas intenções. Quis a frase, por exemplo, transportar o leitor de seu estado de modorra para um estado de meditação profunda ou então assim agiu para que o seu sistema cognitivo desse algumas piruetas rumo à lucidez.

Claro, tudo pode acontecer quando estamos com o rosto enfiado nas páginas de um livro. Concordam?

9.3.26

[A LATA QUE VIROU POEMA]


[tardou 
quem sabe um século
para que a lata, ao sol, 
à chuva,
em canto analfabeto 
de um quintal sem dono, 
em fundo
de um fundo de terra 
entre taiobas
e arames, entre pneus 
e caramujos,
entre carcaças de bichos 
e flores
desbotadas, pois tardou 
um século
para que a lata, 
de seu óxido,
de sua ferrugem, 
de seus buracos,
emitisse por fim 
o som de um poema.]

[RIMAS? ORA, SÃO ENZIMAS]



[é pouco ou nada dizer que rimas
são sons que se combinam,
ou que se espelham, pares
melódicos na dança dos fonemas.

eu diria que rimas são mais 
da ordem das enzimas, 
são proteicas partículas

que nutrem as linhas superpostas 
do poema, elas agem no oco 
das sílabas, roem
o caroço que o senso comum 
impôs ao uso

da língua, reagem à química
das palavras-ovelhas, estas que, 
submissas e arrebanhadas, 
adoentam as frases

com anemia. por serem da ordem 
das enzimas, rimas, como as vejo 
e as elogio, levam ao rio
rítmico do poema a cósmica coreografia,

e nutrem, com a poética do ver, do ouvir
e do pensar, os engenhos da poesia.]

[KANT E A RAZÃO PURA NA TARDE DO BAIRRO]

[kant tomou a razão pura entre as mãos, moldou-a, agregou à massa ingredientes próprios para a goma, sovou a razão pura com esmero e vigor, e então, quando a bolota já adquiria uma consistência elástica, ele esticou a razão pura sobre a mesa, esticou-a de um canto a outro daquela mesa onde as melancolias costumavam cantar boleros e tangos.] 

[depois kant puxou a bolota da razão pura de modo que, da longa tira emborrachada, bem esticada, pudesse soar um dó maior ensolarado pela tarde do bairro.]

[e os meninos.]

[e os meninos, toda a criançada de pés no chão e narizes líquidos, toda a meninada do bairro logo pôs caras e carinhas nas janelas.]

[os meninos viram quando o dedicado kant dedilhava com o dedo mindinho a goma esticada da razão pura.]

[os meninos viram aquilo.]

[eles viram aquilo e acharam muita graça.]

[como é que o velho kant havia conseguido fabricar tal razão pura esticada sobre a mesa das melancolias?]

[parecia até uma corda de viola, pois o dó maior atiçou curiosidades na rua do meio, depois na rua de cima, depois na rua sem nome, e mais depois ainda na praça das metafísicas obscenas.]

[mulheres sem-que-fazeres logo apareceram, os aposentados deixaram o jogo de damas, poetas boquiabertos caminharam por fios incandescentes.] 

[e todos, todos os homens-vírgulas e as mulheres-reticências puseram pescocinhos e olhinhos para fora, parecia que o brasil vinha inteiro lançar olhos famintos sobre a razão pura do velho kant.]

[isto é: a razão pura esticada e musical naquela tarde de julho.]

[frio fazia, luvas e os cachecóis dançavam a dança das nuvens, o dó maior da razão pura blimblava blins-blons pelo bairro afora, e paulinho assunção, o fantasma, posicionou o estilingue em direção às vidraças.]

[foi um tiro certeiro.]

[tiro certeiro de pedra redonda na vidraça da literatura sorridente.]  

6.3.26

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

25.2.26

[ENCONTRO DE LEIBNIZ E SPINOZA EM HAIA]


[Senhor Glous, vocacionado às pesquisas inusitadas, bizarras e até mesmo inúteis, conta-me do encontro que o Senhor Gottfried Wilhelm Leibniz teve com o Senhor Baruch de Spinoza entre os dias 18 e 20 de novembro de 1676, em Haia.

Conforme pesquisou Glous, o Senhor Leibniz se achava em missão diplomática na região e achou por bem visitar Spinoza, já bastante doente, e que morreria meses depois, em fevereiro de 1677.


Antes, por ter chegado aos Países Baixos em outubro, Leibniz visitou intelectuais como o matemático e físico Huygens, o comerciante de tecidos e construtor de microscópios van Leeuwenhoek, que associou microorganismos à produção de alimentos fermentados, e também o físico e médico Ehrenfried Walther von Tschirnhaus. E então dirigiu-se a Haia para conhecer Spinoza, de quem já lera o Tratado Teológico-Político (1670) e com quem já trocara correspondência indireta.


Por dois ou três dias, salvo erro, salvo engano, os dois filósofos conversaram com gosto e verbo sobre a natureza de Deus e da substância, sobre liberdade e necessidade, sobre a relação entre corpo e alma, e, claro, sobre a obra inédita de Spinoza, a Ética, que Leibniz leu em manuscrito.


Conforme a principal fonte desse encontro, Christoph Hermann von Wolff, Leibniz ficou impressionadíssimo, mas também intrigado, com a pulga atrás da orelha: viu ali a força lógica do sistema de Spinoza, mas igualmente avistou certo perigo, pois implicava, segundo ele, uma forma de panteísmo (Deus = Natureza), o que julgava incompatível com a teologia cristã.


O bate-papo entre os dois também foi relatado pelo próprio Leibniz em um texto que se encontra conservado em Hannover.


Ao partir, Leibniz levou na bagagem um exemplar manuscrito da Ética, exemplar que ainda existe com suas próprias anotações à margem.


"Sabe-se que esse colóquio entre os dois filósofos foi um marco, pois foi daí que Leibniz, como se em um contraponto a Spinoza, criou a filosofia das mônadas e da harmonia preestabelecida", diz exultante o Senhor Glous, escandindo cada palavra de sua revivência daqueles dias.


Enquanto caminha pela tarde em Salvador, na Rua Conselheiro Pedro Luiz,  e até mesmo transborda os olhos de emoção pelo relato desses acontecimentos, Senhor Glous saúda os passantes do bairro do Rio Vermelho, como se ele próprio tivesse feito parte do famoso encontro de Haia.]

18.2.26

[QUANDO PENSO EM POEMA]

[quando penso em poema, penso rua.
melhor: penso janela ou abertura, vãos

largos por onde o olhar (ou o ser) acede,
olhos como se mãos em dádivas, dáveis.

mas penso sobretudo em dia quando vem
a ideia de poema. o dia igual a casa, o dia

onde habitamos e onde vivemos, tal e qual
no poema de philip larkin. dia concerto

em céu aberto, do sol que brota ao claro
que se recolhe quando enfim se dá a noite.

o dia é todo um universo que se repete
a cada dia, mote e glosa sempre diferentes.

nele o grilo, nele o urso, nele o cavalo, tudo
súmula de um em outro, cisco no bico

dos sapatos, paletó puído de um homem
desesperançado, faca com um grito dentro.]

16.2.26

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

3.9.25

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures. 

É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures. 

É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam. 

É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.

A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.

Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.

Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.

É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.

Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.

Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]

31.8.25

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã prenunciada, veio o texto.]

[texto assim: fiapo da roupa de um peregrino.]

[lembrei-me então da carta 
que paul celan escreveu a hans bender em 18 de maio do ano de 1960: "só mãos verdadeiras escrevem um poema verdadeiro. em princípio, não vejo nenhuma diferença entre um aperto 
de mãos e um poema".]

[e o texto veio assim: fiapo da roupa de um peregrino.] 

[não era ouro, não era ourivesaria, nada de texto-diamante à luz chegante do dia: era fiapo.]

[fiapo da roupa de um peregrino.]

[com a delicadeza que se impôs em hora tão inaugural no tempo, tratei de laçar a lápis esse indizível que jamais escreveremos.]

[modo não há de escrever o fiapo que se fez de texto na manhã prenunciada.]

[o fiapo é o indizível, é o horizonte inalcançável, é isto que nos ilude para a escrita sempre sonhada e impossível.]

28.8.25

[EDMOND JABÈS: GENEROSIDADES DO SILÊNCIO]

[o que perturba sem nenhum ruído, sem 
algaravias, o livro perturbador e perturbante, 
esse livro que por ele somos perdidamente atraídos 
(são tão poucos, são contáveis nos dedos), 

esse livro que nos retira o centro e nos lança 
às espirais da própria perturbação, esse livro 
talvez não seja um livro longo, imenso, oceânico, 
mas um livro que, mesmo ao ter mil páginas, 

é um livro de pequenas cápsulas, de pequenos grãos, 
de pequenas ilhas. 

mostro a k. e a q
um dos livros de jabès. abrimos em conjunto 
as suas páginas. lá estão as cápsulas, as frações 

e as porções do fato perturbador e perturbante. 
o que lemos nesse livro, livro que é a multiplicação 
de tantos livros num pontilhismo de tantas ilhas 
em um mapa sem nome, nos joga às margens 

da cidade. a cidade então perde o centro, e, com ela, 
passamos a habitantes do horizonte. o horizonte 
sem margens. trazemos então edmond jabès, 
ele próprio, ao nosso convívio. dele ouvimos 

a generosidade do silêncio. nele identificamos 
o silêncio ouvinte, esse silêncio pleno de ouvidos, 
silêncio pleno de olhos, silêncio pleno de peles. 
o silêncio como uma epiderme do tempo. jabès 

então caminha conosco por essa belo horizonte 
a cada olhar inventada. também ele usa sapatos 
náuticos. também ele atravessa de um lado 
e outro as alfândegas dos gêneros.]

16.8.25

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

[Caro amigo Senhor Pon: 

Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.

Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.

Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.

Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente. 

Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera. 

Una stretta di mano.  

Do seu
G.]

24.3.25

[BIBLIOTECA AURORA ARURÁ]


Hoje farei a doação para um sebo de 300 ou 400 livros, pequena fração do acervo pessoal formado no passo a passo das décadas. A maior parte seguiu em 42 caixas há dois meses para a Biblioteca Aurora Arurá, na Bahia, minúscula, simples e graciosa edificação elevada no quintalzinho da moradia amarela de Massarandupió. Este será o último endereço desses livros que nos acompanharam em Belo Horizonte a cada mudança de casa pelos bairros Pampulha, Sion, Luxemburgo e Cruzeiro. Agora compõem a Aurora Arurá, nome que surgiu em um sonho numa madrugada de outubro de 1998, na praia de Búzios, no Rio de Janeiro, durante um diálogo imaginário  com o poeta Manoel de Barros.