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16.4.26

[LOUVAÇÕES À GOIVA]

[gosto da palavra goiva.
louvo a palavra goiva.
com a ideia de goiva,
com o fio cortante da goiva,
eu escavo a letra.

o que há com a pose do poeta
que não corta a graxa ou a banha
das aortas do poema? só pose
e gula, só pose e garganta,
só gogó 
e falares com protuberância?

a goiva ensina o lavrar diário:
escavar a matéria à sua máxima
economia. lascas de gordura seca,
essa banha milenar que apodrece
a palavra, essa nata, tudo isto
a goiva retira 
para o bem das substâncias.

a goiva ainda ensina: 
"só a obra inquire a obra, 
e todo o resto 
é falação humana".]

15.4.26

[DESPERDÍCIO DE PALAVRAS]


Diz o Senhor Glous que o mundo nunca desperdiçou tanto palavras escritas como agora. Certo é que as palavras que vão por aí afora, enviadas ao vento pela oralidade, já renderam até provérbios na antiguidade clássica. As palavras escritas, porém, nesta altura das iniquidades mundiais, logram agora alcançar os píncaros dos monturos inúteis.

Senhor Glous não enumera apenas as palavras gravadas e impressas em livros. Refere-se ao incontável elenco de lugares onde os dedos humanos, como se tomados pela tarantela ou pela doença de São Guido, teclam e teclam, escrevem e escrevem, isto é, jorram incessantemente a panaceia letral em busca de leitores. "E creio até que boa parte desses boquirrotos gráficos já não procura nem leitores", diz o Senhor Glous.

Blogs como este, por exemplo, segundo afirma o Senhor Glous com a concordância cem por cento deste teclador que vos escreve, pois, sim, blogs como este revelam o grau de tragédia a que chegou o desperdício. "Ninguém lê um blog nesses dias de contumácia escrevetória", ele declara. 

Claro que, envergonhado, não lhe perguntei sobre o significado da expressão "contumácia escrevetória". Mas cá, em minha intimidade esburacada, sabedor do fato de que ninguém lê mesmo o que aqui se escreve, relacionei a expressão "contumácia escrevetória" com "vexatória". E, feito isto, me enrosquei feito um cão sem dono em minha própria vergonha.

Ponto.


[QUEM LERIA CONTO TÃO BREVÍSSIMO?]

[O conto era brevíssimo, era quase um suspiro de borboleta de tão fugaz, por isso avisamos aos que passavam pela Rua Torta que não se iludissem, não esperassem o acontecimento-mor da criação. 

Flaubert, ainda de touca, conversava à porta da barbearia com Coelho Neto, e Rimbaud, de bicicleta, punha língua para Dona Ordália, a Santa. 

A Rua Torta era rua-cinema ou rua-baile ou rua-circo, conforme a hora.

Avisados que o conto era brevíssimo, os passantes e andantes e transeuntes puderam deixar as ilusões dentro das sacolas. 

Só havia dúvida quanto ao leitor do conto. 

Quem seria? 

Quem poderia ler tão ligeira e cadente peça de duas linhas, se tanto? 

Onofre, sempre um leitor em voz alta desde os tempos de coroinha, mudara-se para São Paulo. 

Jardel, anticomunista espumante, conseguira posto de observador de nuvens em Brasília. 

E o Antônio? 

Antônio era caso perdido.

O conto brevíssimo luzia à claridade da manhã. 

Conversa vai, conversa vem, o alcaide da rua, Tomás, teve a ideia de trazer um autofalante daqueles de armarinhos turcos. 

José Taranto, que se passava por magistrado, trouxe um caixote de maçãs. 

Eram demasiados os cachorros na rua àquela hora. 

Floreiras nas janelas exalavam em algumas casas o perigoso odor dos pecados. 

O ex-governador coçava a verruga. 

E nós, os autores do conto brevíssimo, esticávamos cordões pela rua afora, como se linhas de telégrafo.

Dez horas da manhã e nada. 

Meio-dia e nada. 

Duas da tarde e nada. 

Quem leria o conto brevíssimo para que as ficções não minguassem como se sementes carunchadas? 

Quem seria o leitor daquela migalha de palavrotas e palavrinhas? 

Quando soaram as quatro da tarde pelo carrilhão de Dom Acácio, o poliglota, começou um tumulto na Rua Oblíqua, paralela à Rua Torta. 

Vinha a passeata das Senhoras Roxas, ia a passeata das Senhoras Sônicas. 

Ali pelo número 44, as duas porções passeantes se enfrentaram. 

Houve tiroteio de impropérios. 

Anáguas foram rasgadas. 

Coifas viuvantes foram atiradas à poeira.

Carlo Emilio Gadda, que proseava com Flaubert já à porta da Cantina, decidiu ler o conto brevíssimo. 

Gadda, embora o estilo sinuoso, era querido pelas partes divergentes. 

Fez-se silêncio. 

Os cachorros amontoaram-se em posição de sentido nas calçadas. 

Ao longe, um navio mercante soltou a fúria de seu apito. 

Mariposas risonhas pararam seus voos de fim de tarde. 

Aguardavam. 

Gadda, então, com o minúsculo papel manuscrito nas mãos gordotas, limpou o pigarro. 

Começaria a leitura. 

Silêncio. 

Pausa. 

O mundo agora estático, o mundo agora estátua. 

E então explodiu a bomba atômica.]