18.8.26

[O MÁGICO DA RUA TRIFANA]


Naquela noite, disseram que no trecho da rua Trifana a poucos metros da Pirapetinga, lado direito, ocorriam fatos inacreditáveis. Por exemplo, coelhos que saíam aos montes da cabeça de um homem de boné cinzento.

Há pouco, três transeuntes subiram lentamente a Trifana, e estavam muito alegres esses três peregrinos notívagos como que desgarrados de outros bandos de notívagos na noite belo-horizontina. Um era arquiteto, os dois outros poetas. Um, aliás, poeta-letrista que trouxera o talento do norte de Minas para a epopeia musical das esquinas da cidade.

Tocaram o interfone. De lá, soou a voz doce e afetuosa que lhes abria passagem e entrada. Degrau por degrau, os pés desses três peregrinos subiram pesados de vão em vão pela escadaria até que, chegantes, foram recebidos pelo imenso sorriso de um menino que vivia dentro de um mágico.

O apartamento era de um aconchego que parecia abraços lançados aos visitantes. No centro da sala, uma mesa toda em madeira lavrada, antiga, com um porta-joias prateado onde estava grafado os serviços diplomáticos prestados pelo dono da casa na embaixada brasileira em Madri. Ao lado do porta-joias, um vidro de cristal bem abastecido de uísque. 

Prosearam à vontade pela noite adentro e afora. O mágico, de quando em quando, como que tomado pelo espírito da fuzarca, lia em voz alta trechos de sua obra. Ou então alguns parágrafos dos seus contos que a tradutora Pavla Lidmilová vertera para o tcheco. Tradução que nem ele entendia e muito menos os gargalhantes peregrinos ali sentados à sua volta, como que acomodados sobre o tapete voador movido a farto uísque.

Veio então a madrugada e a tertúlia pândega chegou ao fim com as despedidas altissonantes de anfitrião e visitantes. O mágico, com certeza, de seu andar, ouvia muito bem as gargalhadas dos três amigos Trifana acima, a caminho da Afonso Pena. E se um anjo boêmio por ali passasse e os visse seria capaz de avisar ao senhor dos céus e dos tempos que eles iam em paz absoluta pela rua. 


[ESCRITORES ESTÁVEIS, ESCRITORES ITINERANTES]

[bruce chatwin, em uma torre na toscanafala sobre dois tipos de escritores: os estáveis, em casa, em suas bibliotecas, em seus quartos (flaubert, proust), e os itinerantes, os rueiros, os sem pouso (hemingway, gogol, melville), uns do lado dentro, outros do lado de fora, uns na sagrada torre, outros ao nível do chão, uns em domicílio, outros em trânsito.]

penso que é boa essa reflexão de chatwin, e é melhor porque sou da espécie híbrida, talvez anfíbia, ora estou no quieto cômodo dessa baiana morada, ora andarilho sem destino no ir pela cidade de salvador, os próprios pés tornados escreventes, o escrever a caminho, sempre a caminho.

até que, páginas e mais páginas escritas nas folhas invisíveis, ao meu tugúrio retorno, e ali refaço o que talvez já não mereça ser refeito, pois a literatura não é nada, é só uma fração da estrada, é só um mísero intervalo do rumor orquestral que a vida ressoa: flor metálica de uma corda de banjo.]

17.8.26

[OS ESQUISITOS, COMO NÓS, À BEIRA DO DOURO]

["Nenhum de nós recorda o texto da lei que obriga a recolher folhas secas", diz Julio Cortázar ali pela página 129 de A volta ao dia em oitenta mundos, quarta edição da Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, outubro de 1968. Ndalu, que é versado nesses temas um tanto em desuso, e é capaz de paradas súbitas na rua ao ter o olhar atraído para uma pedra, um besouro morto ou um papel com letrinhas manuscritas, propôs a Jorge um jogo enquanto caminhávamos pela manhã à beira do Douro. 

Vínhamos de Dublin, fizemos uma parada de dois dias no Porto, mas o nosso destino era mesmo Havana, pois ali, naquele mês de agosto, participaríamos do XX Encontro dos Livros e Personagens Inexistentes. "O jogo consiste em ativar em nós o fervor para a esquisitice", explicou Ndalu. 

Soprava do Douro um ventinho travesso e mefistofélico. Caminhávamos lentamente e descompromissados. E havia como que um ritmo frásico de lerdo e preguiçoso soneto em nossos pés. Em meu bolso, o bolso direito da camisa, palpitava uma carta que recebera do professor baiano Otto com 22 sugestões para livros e personagens inexistentes. Uma carta que, confesso, seria de utilidade imensa no encontro cubano. 

Ndalu, então, explicitou um pouco mais o jogo ativador de esquisitices, que seria uma espécie de circuito cerebral inexplorado, posto que marginal à ordem do comum e do usual naqueles dias em curso pelo mundo. Esquisitar seria o verbo maestro nesse jogo que a visão do Douro instigava, que os passos de caminhantes sem pressa estimulavam, que a perspectiva da travessia atlântica dali a dois dias motivava.

Éramos três amigos irmanados pelos livros e pelas histórias. A invenção de fábulas nos unira ao longo dos anos, e éramos capazes de engenhosas viagens, ora Bagdá, ora Minsk, ora Manaus, ora Praga, mesmo que na quietude de não sair do lugar. E jogávamos o jogo proposto por Ndalu. Lançávamos em voz alta hipotéticas concepções sobre a frase de Cortázar sobre as folhas secas. Dizíamos palíndromos às moças que passavam àquela hora da manhã, ou então tecíamos elogios aos chapéus dos senhores que, como nós, iam e vinham, à beira-Douro. As moças, sob ação palindrômica, sorriam; os senhores, com a sisudez destoante com a luz matinal, trancavam ainda mais os semblantes. 

Até que vimos, adiante, ungido por um prisma de luz, um menino. Soubemos, depois, que se tratava do Menino Recolhedor de Folhas. Virtuose no ofício, ele dispunha as folhas secas em estantes dentro de um caixote. Parecia uma biblioteca de livros sem títulos e sem personagens. Mas era coisa tão bonita de se ver que mereceu de nós saudações e vivas ecoantes-altissonantes pela manhã portuense.]

13.8.26

[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]

[o poema-documentário começa nos próprios óculos de mário: é ali, pela redondez das lentes, que se dará

o fenômeno dos vidrilhos, aliterado fenômeno a se reproduzir ressoante por maravilhas e brilhos da noite.

diz pedro nava que mário de repente debandou-se do grupo, foi para a sacada do grande hotel, contemplou o estilo 

flamejante e manuelino do conselho deliberativo, rua da bahia com avenida paraopeba, ali onde, adusto e áspero

pela rigidez e a monotonia, eleva-se hoje o edifício malleta. e então o poema-documentário volta aos óculos

de mário, e pela redondez das lentes com faíscas nas hastes, flagra outra vez o fenômeno dos vidrilhos, a combustão 

de luzes na noite de belo horizonte, o sonar de mário capta frequências acústicas, seu radar recebe ondas eletromagnéticas.

com letreiros diante da câmera, o poema, que é documentário, exibe as seguintes frases: "ah, o brasil da república velha;

ah, a belo horizonte das magnólias; ah, o barnabé em pânico com o ovo do novo que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,

o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah, o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos do partido republicano mineiro". corte.

volta-se a câmera para os óculos de mário, "holofotes que varrem a noite", diz nava. corte. fusão de imagens dos óculos de mário

com os óculos do poeta sem nome. é o ano de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, chove, dói no horizonte a dor de um mendigo 

bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos de sangue, eis o poeta sem nome, turvas lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]

[COISA DO POEMA, COISA DO PENSAMENTO]

[a dialética espiralante, 
em espirais, com a tríade 
tese, antítese e síntese 
em deslizamento 
ao redor do objeto-ideia, 
revisitação constante 
das faces do objeto-ideia, 
cada momento 
outro momento, 
cada vinco 
outro vinco, cada rasura 
outra rasura, 
cada traço 
outro traço, cada dobra 
outra dobra, 
isto é coisa do poema 
e é também coisa 
do pensamento. 

desformalizar, desformular 
e deformar cada passagem 
com a operação da tríade 
em constante movimento 
acima e abaixo, para um lado 
e outro, isto é coisa 
do poema e é também coisa 
do pensamento. 

destituir a tríade tese, 
antítese e síntese 
de sua propensão 
a criar binarismos, 
mesmo que, a contragosto
para ela, mesmo 
que um desconforto 
para a sua já viciada 
rigidez, isto é coisa 
do poema 
e é também coisa 
do pensamento.]

11.8.26

[O QUE VEM DEPOIS DO SE]


“(...)
 
... Jeff Morton, morador dos arredores de Londres, envia-me uma pergunta sobre a qual passei todas as horas do dia sem encontrar para ela uma resposta. Tradutor para o inglês de Os doces cílios de Marilyn Monroe, esta novela de tanto vigor e frescor do jovem escritor brasileiro Antônio Frelobé, inventor de uma fundamental cadeira de balanço para leituras de longo curso, Morton quer saber de mim se... (...).

Se. Não tenho modos de encontrar a resposta. Alonguei o meu dia, caminhei em volta da casa, chamei duas vezes o Manuel Jorge Marmelo no Porto, para uma consulta, saí à rua para um sorvete e, mais tarde, para dois chopes. Em vão. Não consegui resposta para a pergunta que me fez o inventivo Morton, este inglês pacífico, colecionador de tampinhas de garrafa e usuário de enormes sapatos, quase galochas.

Se. Morton quer saber de mim se. Se, não sei. Não posso saber. Minhas estantes não têm a frase continuadora do se, meus livros se negam a contar algo além das reticências.

Sou homem pequeno, meço poucos palmos de altitude. Jamais neva sobre o meu chapéu. Ando devagar, pendo o corpo para o lado esquerdo e dou, a cada cinco passos, dois ou três tapinhas no bolso da calça onde guardo a minha carteira de dinheiro — tudo para saber se a minha carteira não fugiu.

Certa vez, já faz muito tempo, chamaram-me de poeta. Nesse dia tal eu acreditei, mas fui devagar percebendo que a poesia não me visita nem nunca me visitou, e as musas, excêntricas, voltam para outro lado o rosto quando da minha passagem. Amanheço muitas vezes triste, pássaro de asas caídas. E só no decorrer do dia vou apanhando, aqui e ali, gotinhas de felicidade.

E agora vem o inglês Jeff Morton querer saber de mim se...”

9.8.26

[ALARIDO DAS ÁGUAS]

[Esse alarido das águas que descem pelas calhas do edifício, orquestral e borbulhante música pelo meio da tarde, esse gotejo de rememorações, gotas e gotas, pingos e mais pingos, manancial que a chuva recente fez se assemelhar a um ribeiro, tudo isto que ouço e que traz pouco a pouco a infância, é a própria infância que decide reviver nessas reverberações intermináveis da água que cai do telhado para as calhas, das calhas para as galerias, constante movimento, insaciável movimento, intermitente ruído de bolhas, protuberâncias de gotas, florações de pingos, riacho pelos labirintos de concreto até sumir pelos subterrâneos da cidade.]

7.8.26

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]