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27.4.26
[O JEITO DE OLHAR PARA O PRIMEIRO LIVRO]
Em 1980, publiquei meu primeiro livro. Poesia, sim, senhor. Livro nascido de um projeto que levou, em 1979, cerca de 40 artistas ao Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, representantes de áreas como artes plásticas, cinema, música, dança, teatro e literatura. Na área de literatura, fomos Adão Ventura, Ronald Claver e eu. Essa trupe toda ficou no Vale em torno de 15 dias, se bem me lembro. Com muita pândega e pouco juízo.
Dei ao meu livro o título um tanto brejeiro de Cantigas de amor & outras geografias. Poemas secos, áridos, estranhos, estrambóticos, embora um deles tenha sido musicado pelo compositor Melão sob o nome de Nas águas de Araçuaí. Melão e Lery Faria (parceiro que nos deixou tão cedo) voltaram da viagem com material que renderia um LP do mais alto nível, talvez o melhor trabalho gestado por esse projeto com patrocínio do governo do Estado, em plena ditadura. O governador de Minas era Francelino Pereira.
Quarenta e cinco anos, portanto, me separam daquele primeiro livrinho. De lá para cá publiquei mais poesia, ficção, crônica, infantojuvenil, biografia, e, também, livros institucionais, estes sob encomenda. No ano seguinte, 1981, e pelas mãos do poeta Moacyr Félix e apoio do editor Ênio Silveira (me escreveu uma carta muito amável), lancei também de poesia A sagrada blasfêmia do bares, pela Editora Civilização Brasileira. Livro profano e dolorido, com muitas gralhas em sua edição.
Pouco depois, em 1983, ganhei o Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, de poesia, com Diário do mudo, publicado pela extinta Editora Comunicação, em 1984, período em que eu fazia parte da Comissão de Redação do Suplemento Literário de Minas Gerais, junto com uma equipe formada por Murilo Rubião que contava com Duílio Gomes, Jaime Prado Gouvêa, Manoel Lobato, Adão Ventura, Wander Piroli, Lucas Raposo e Sebastião Nunes, que criou uma nova e bela cara gráfica para o velho Suplemento.
Calei-me, a partir daí, por vários anos, puxado gradativamente para o jornalismo. Só voltei à cena ao ganhar o Prêmio Minas de Cultura (Guimarães Rosa), de contos, com o livro Pequeno tratado sobre as ilusões, só publicado em 2003 pela finada editora Campo das Letras, do Porto, Portugal. Em 2000, havia lançado pela Editora Dimensão o infantojuvenil Livro de recados (de menina para menina), um livro que circulou muito pelas escolas.
Mesmo calado editorialmente durante tanto tempo, mesmo enfiado de cabeça no jornalismo até o final dos anos 1990, jamais parei de escrever desde aqueles dias jovens da década de 1970. E assim continuo aqui nos altos dos meus 74 anos. E olho para o primeiro livro com imensa afeição, vejo nele o embrião ou os rudimentos ou as garatujas de uma poesia que busquei e busco durante toda a vida, embora inalcançável, embora impossível. Mas isto é assunto para outro dia.
[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO]
1.Pode um conto não contar uma história.
Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto
do leitor que lê um conto que não conta uma história.
2.A história em um conto pode estar na
borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto,
a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.
3.Quando um conto vai além do tempo que
se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos,
muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma
novela.
4.Se porventura o conto possuir uma
história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em
estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome
irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o
conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra
de gelo, em derretimento.
5.A partitura por onde navega o conto
deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão.
E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício
de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo,
com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um
leitor feliz.
6.Talvez a maior virtude de um conto seja
enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao
chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será
faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto
esse instante de comunhão extrema.
7.Assim como a profusão de rostos numa
multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se
escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única,
serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da
travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não
podem ser enumerados, por sua abundância.
8.Um conto pode ter personagens. Ou não.
Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça,
amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o
relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.
9.A função do conto é dar vida ao
minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o
cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo,
pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o
inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.
10.Um
conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um
pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a
ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita
imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício
do inacabado.
[OFENDIDOS PELO TEXTO]
[o texto é látego
ou o texto
é paina, pluma, pena?
é paina, pluma, pena?
o texto cinge
ou o texto liga?
o texto corta, abre,
rela, roça ou o texto
o texto corta, abre,
desventra
ou o texto acaricia?
quem com o texto
ou o texto acaricia?
quem com o texto
fere com o texto
será ferido, quem
será ferido, quem
com o texto
altiva será com o texto
preterido, quem
com o texto nubla
com o texto nubla
será com o texto
desaparecido? o texto
desaparecido? o texto
é dorso ou o texto
é umbigo? o texto
é reino ou o texto
é feudo? o texto
rala, rola,
rela, roça ou o texto
é ósseo, pedra,
gancho, espinho?
gancho, espinho?
o texto vara
ou o texto vira?
ou o texto vira?
o texto penetra,
entra, vaza, atravessa
entra, vaza, atravessa
ou o texto é muro,
parede, limite, fosso
sem ponte-pênsil?
sem ponte-pênsil?
o texto é arma
ou o texto é goma,
ou o texto é goma,
gosma, baba?
o texto avança
o texto avança
ou o texto recua?
o texto é nome
o texto é nome
ou o texto é água?
o texto ofende
o texto ofende
ou o texto é ofendido?
o texto é alarido
o texto é alarido
ou o texto é balbucio?
o texto é gozo
o texto é gozo
ou é guizo, sino, búzio,
bumbo? o texto vai
bumbo? o texto vai
ou o texto vem?
o texto limpa
o texto limpa
ou o texto suja?
o texto ganha
ou o texto perde?
o texto é féretro
ou o texto é boda,
ou o texto é boda,
noivo, amante,
baco? o texto
baco? o texto
em mim ou o texto neles?
o texto é visgo
o texto é visgo
ou o texto é liso, amorfo,
plano, mudo? o texto é púbis
plano, mudo? o texto é púbis
ou o texto é língua?
o texto é luto
ou o texto é pândega?
o texto brinca
ou o texto enfeza?
o texto é fezes
o texto é fezes
ou é torta, sopa,
sorvete,ambrosia?
o texto é ou o texto
não é? o texto é texto
ou o texto é texto,
texto,
texto, texto, texto,
texto, texto, texto,
texto, texto, texto?]
24.4.26
[DA SEPARAÇÃO ENTRE POEMA E POESIA]
[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema: plâncton, âmbar, abelha,
ou grãos de trigo, em pendões,
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.
penso no organismo,
no indivíduo, penso na ilha
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.
penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia
era já forma adiposa, teia-aranha.
penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.
agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.
agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]
[JARDINS E DESERTOS]
edmond jabès diz que jardim é palavra, e que deserto é escritura.
matinal, o senhor glavs vai aos canteiros do jardim observar se houve eclosão de sementes durante a noite, ou se a escritura do deserto trouxe nova caravana.
"há muito a fazer", disse o senhor glavs.
é já um homem velho este senhor glavs que, expedicionário, trata jardins e desertos como se fossem livros.
"todo livro é um pequeno coração pulsante entre os nossos dedos", ele fala.
e o eco, de algum lugar das primeiras falas, reverbera pelo jardim das palavras.
são ressonâncias de campânulas ao vento.
ou talvez o silêncio escrito.
"ou o silêncio a escrever", diz o senhor glavs.]
20.4.26
[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]
[no princípio
não era o verbo,
mas o pão de queijo.
mas o pão de queijo.
assim afirmavam gozosos
e pândegos
aqueles marinheiros.
não marinheiros de alto-mar,
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos
aqueles marinheiros.
não marinheiros de alto-mar,
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos
de navegação
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos
ali para os lados
do bairro da floresta.
bastava lançar a isca
bastava lançar a isca
de um vocábulo
que eles puxavam o anzol
que eles puxavam o anzol
das frases. e então navegavam
pelos mares da língua.
aliteravam lua linda
lábio luva leque
lábio luva leque
lépido larápio.
e faziam redondilhas.
e faziam redondilhas.
e litotes.
e puxavam do bolso
e puxavam do bolso
do paletó um limerique
de formato irlandês
em louvor a james joyce.
e depois, ao silêncio
em louvor a james joyce.
e depois, ao silêncio
que vinha
após tais simpósios,
acenavam
para quem passasse
àquela hora,
podia ser o poeta
podia ser o poeta
libério neves
a caminho de santa tereza,
podia ser o manoel lobato
rumo à sagrada família.
e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano,
espécie nova de mineiro
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.
"a vida?
a caminho de santa tereza,
podia ser o manoel lobato
rumo à sagrada família.
e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano,
espécie nova de mineiro
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.
"a vida?
ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo
dizia um deles, e de novo
aliterava porções
do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes
da namoragem com a língua.]
18.4.26
[QUATRO DA MANHÃ: PAUL VALÉRY COMEÇARÁ A ESCREVER]
[Íamos, Rubem Focs e eu, pela Rua dos Geômetras. Era por fim a noite calma e terna para os que vínhamos de perigoso embate com uns pistoleiros da Cidade Baixa. Focs levava sob o capote uma zero doze de fabricação alemã; eu mantinha no bolso do paletó a oito sete de procedência incerta. Deram-se os combates desde a hora vespertina. Eram nove contra dois. Vencemos. Aos andrajos, caminhávamos. Era vitória muito dolorida de muitas horas e tiroteios. E triste como todas as vitórias.
A Rua dos Geômetras era curta e plana e os sobradinhos de dois andares pontificavam com as suas fachadas delicadas àquela hora em que a cidade, deserta, parecia enroscar-se aos modos de um cão sem dono. Um ou outro surgia nas esquinas, gente talvez feita de bruma, sem consistência e substância de pessoa vivente. Uivavam ao longe talvez espécies caninas. Olhos de gatos apareciam em frações de minuto, aqui e ali, em algum desvão de garagem.
Por acidente, mais em fuga do que guiados por um mapa, caíramos na Rua dos Geômetras. O certo seria a Rua dos Caracóis, mais ao sul, limítrofe com o bairro dos Alfaiates. Mas estávamos ali na noite calma e terna e por ali seguiríamos até a Praça das Bolandeiras. De lá, cada um de nós tomaria o caminho de casa. A vitória doloria. Era decerto vitória muito triste. Aqueles tempos de guerra. Tempos abomináveis.
Foi quando passamos pelo número 33, diante do sobrado azul, três janelas no segundo andar, três portas no primeiro, com uns arabescos na fachada e gradis oxidados nos balcões minúsculos. Estava acesa a luz da janela do meio. Única luz na Rua dos Geômetras quando batiam as quatro horas da madrugada. Única luz como se um farol em alto-mar. Amarela, trêmula, mais tremular ainda quando o movimento de uma sombra parecia interpor-se entre o cômodo e a rua. Quem lá estivesse, não era fantasma, assim deduziu Focs em uma frase sem ponto final, frase reticensiosa nos tons baixos de alusão a mistérios.
Paramos diante do sobrado e ali fizemos uma pausa. Quem lá estivesse, merecia esse intervalo em nossa caminhada. Focs olhou-me por um instante, refletiu sobre o que fazer e foi lentamente em direção à porta que nos parecia a porta principal. Havia identificação de moradores em uma placa esmaltada. Focs leu: Paul Valéry, 2º E. Dois outros nomes dividiam com Valéry a placa: Vernon Lassale e Jacobo Trévor. Mas era, sim, o poeta que se movimentava naqueles estertores da noite. Certamente, usava roupão e pantufas. E tinha diante dele mais um caderno aberto, a pena com certeza elevada para depois se abater sobre a folha para as notas aforismáticas de mais uma jornada de trabalho.
A vitória doloria em nós. Era vitória triste daqueles tempos abomináveis. Mas seguimos caminho em passadas de intermitência, ofegantes, a ritmo muito cansado. Eram tempos abomináveis. Mas, ao nosso modo de homens rudes, saudamos em silêncio aquele poeta em sua laboriosa e grácil geometria.]
16.4.26
[ÁGUA]
em pêndulo no cair da chuva,
é a fera em caudal e correnteza,
é o remanso, calma sonhada
pelos peixes que lambem o barro,
e é o imenso, o imenso
e incomensurável do oceano.
água. ei-la no copo, ei-la
na guerba dos tuaregues pelo deserto,
a guerba feita em couro de cabra
que as cascas de acácia
ou romã curtiram por muitas luas.
água. até seu nome sacia e refresca.]
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