[Mataram o meu primo em uma madrugada de julho.
Recebeu na testa a bala que era endereçada a outro.
Minha mãe veio ao quarto.
Tocou a minha cabeça.
Chamou baixinho, com voz de choro.
O dia já clareava.
Ela disse: mataram o seu primo.
Fui vê-lo.
Atravessei o largo da igreja, ainda de terra batida, muito antes de ser praça, e desci pela rua do laticínio.
Um cavaleiro subia a rua com dois latões de leite.
Eu usava um par de sapatos presente de aniversário.
O da esquerda rangia mais do que o da direita.
Tive pena de entrar com eles na poeira.
O corpo do meu primo estava na sala sobre a grade de um catre.
O caixão só chegaria mais tarde.
Vi o furo da bala pouco acima do olho esquerdo.
Um ponto negro, pequeno, que lembrava uma mosca pousada.
O assassino queria mesmo era matar o sogro do meu primo.
Anunciou que atiraria.
Naquela hora, havia pouca gente no bar da rodoviária.
Uns bêbados, algum fazendeiro, alguém que esperava o ônibus das seis horas.
Meu primo saiu detrás do balcão, deu alguns passos, ficou ao lado do sogro.
Queria levá-lo para dentro, escondê-lo.
O assassino estava muito embriagado.
Era homem nos seus cinquenta anos, afamado pelas fuzarcas e pelas bravatas.
Dizem que ele desceu de um carro de praça já disposto a tumulto.
Trazia estoque de palavrões no céu da boca.
Cambaleava.
Tropeçava.
E anunciava que atiraria, com o revólver pesado demais para mão tão trêmula.
Parece que meu primo morreu antes de cair.
Caiu de bruços.
Só algumas gotas de sangue no cimento.
Eu olhava para aquele furo de bala e não pensava nada.
Fiquei ao lado do meu tio, só um pouco atrás.
Meu tio era um homem pequenino.
Vinha de uma linhagem de marranos, eram quatro irmãos e duas irmãs.
Todos pequeninos.
Meu primo era o seu único filho.
Ele segurava o chapéu entre as mãos.
A cabeça baixa, os olhos baixos, os lábios apertados.
Ele não me disse nada.
De quando em quando, eu olhava para a sua orelha.
Era uma orelha muito grande, com lóbulo grande, a concha grande.
Meu primo era um sujeito calmo.
Falava pouco.
Ria só quando bebia.
Foi a segunda morte que vi assim de tão perto, ao alcance da mão.
A primeira foi a do meu pai.
Uns dez anos antes.
Em um mês de dezembro.
Meu pai começou a morrer pelos pés.
Minha mãe disse: os pés dele estão cada vez mais brancos.
E então ele morreu inteiramente.]