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6.5.26

[A FRASE-CIRCO]


[sorrateira, agora há pouco
passou uma frase
engraçadinha pelo estreito
e trêmulo fundo da agulha
onde o poema seleciona
o gado-léxico, esse gado
solto pelo mundo, já longe
dos dicionários, já tomado
pelo vício de enganar e usurpar 
os textos com o traje de anarco,
mas mero lançador de dardos 
burocráticos camuflados 
com o humor de frases-circo.]

[AS CASAS]

[a primeira casa
chamava-se “casa das intempéries”.
depois veio a “casa dos que usavam
guelras”. a “casa das meninas
em doçura” sofreu a queda inexorável
em um setembro já muito distante.
seguiram-se a “casa das frases quentes”
e a “casa dos alaridos”. por fim,
quando já não mais havia livros
a escrever, veio a “casa das frases longas”.]

[DOS DIZERES NÉSCIOS]

[tantos são os dizeres 
néscios sobre o poema

que ele, em pânico, 
assume a forma

de um graveto, ou então 
esconde-se, exila-se

sob o rabo do lagarto,
ou proclama-se ágrafo

para que a palavra
um dia volte à fonte

imune às nescidades.]

[ENQUANTO CONTINUA O MORMAÇO]

— Pode ser que sim — disse o homem debruçado sobre o muro.

— E se a gente pintasse tudo de vermelho? — perguntou a mulher, na janela.

— Vermelho é cor muito atrevida — falou o homem, olhando para as nuvens.

— Mas é a cor que eu mais gosto — ela respondeu. — Sabia disto?

— Sabia, mas estão dizendo na cidade que somos doidos — proferiu o homem, depois de algum silêncio.

— Ora, que falem, cada um planta a sua doidura — ela falou, irritada.

— Doidar é melhor do que a linha reta — disse o homem.

— Bem que a gente podia fazer um baile — disse a mulher. 

[HERMENÊUTICA DA PAUSA]

[a pausa talvez seja um tecido vegetal em jardins despovoados.]

[nesse tecido vegetal, há movimentações de silêncios.]

[são pequenos silêncios que se organizam conforme as posições da lua ou do sol.]

[não há governos para esses silêncios, nem pauta de música para regências de um maestro.]

[nesse tecido que pode ser verde ou amarelecido como as folhas no outono, se dá a pausa.]

[ninguém diz, mas há indícios de sábios muito antigos aconchegados nesse tecido onde se dá a pausa.]

[quando alguém caminha pela cidade e de repente para em estados de ausência, diz-se que houve uma pausa.]

[a pausa dura o quanto for necessário para a própria pausa.]

[depois que ela ocorre, chegam os enxames.]

[os enxames podem ser de gentes, carros ou mesmo parafusos atirados de um edifício.]

[a escritura acontece dentro dessas acontecências de pausa.]

[a leitura também.]

[a pausa é o número três da vida e da morte.]

[o número três não tem nome. nem a pausa.]

5.5.26

[OS BLOGUES LITERÁRIOS SÃO CAUSA PERDIDA; APRECIO AS CAUSAS PERDIDAS]

[liguei o dia 
com um chamamento.
não chamei a luz,
chamei o silêncio.]

&&&&&&

[envelhecer com as palavras.
e remoçar-se com elas.]

&&&&&&

[em tonalidades irregulares,
mosaicos com múltiplas
tesselas,
dou à escritura a sua mais bela
paisagem,
essa dança de calhaus de pedra,
essas migalhas redistribuídas,
lascas
em combinação e liga.]

&&&&&&

[toda promessa
é elástica:
ora encolhe,
ora espicha.
espicha menos
do que encolhe,
some mais
do que aparenta.]

&&&&&&

[palavras órfãs
são palavras
que perderam a música.]

&&&&&&

[pelo tamanho
da letra
eu meço
o que é da ordem
do grito
ou da ordem
do silêncio.]

&&&&&&

[as exigências
do paladar devem ser
as mesmas exigências
do olho
que lê.]

&&&&&&

[os blogues literários
são causa perdida;
eu aprecio
as causas perdidas.]

&&&&&&

[a fricção dos casulos não produz a faísca
do metal quando em fricção com a pedra.
os casulos, esses guetos, guardam neles
apenas louvor ao isolamento.]

&&&&&&

[vendo o meu peixe
porque,
se depender dos outros,
ele apodrece.]

&&&&&&

[aqui vos trago
a semente,
a vogal,
o casulo,
a noz
e a esperança descalça.]

&&&&&&

[com olho-espinho,
com boca
de entojo,
nenhum leitor
entra no livro.
a porta do livro
requer fome,
a porta do livro
requer apetite.]

&&&&&&

[mas que triste
pessoa é esta
tão despossuída
de poesia?]

&&&&&&

[quando a política
vai para o fígado,
a inteligência
vai para o exílio.]

&&&&&&

[essas dobras do poema,
tecido de costura interna,
esse esconderijo,
lâmina na bainha,
dedos dentro da luva,
bolso falso,
botão sem casa,
duelo sem arma,
tempestade de areia
sobre um oásis
inexistente.]

&&&&&&

ele disse: "eu sinto
uma alegria
dos diabos quando acordo
e vejo que a biblioteca
ainda está lá".]

&&&&&&

[ia pela vida
a explodir as válvulas
das panelas literárias.]

[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]

[o velho disse:

− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.

− há uma zona de fricção
entre um e outro.

− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não-saber
que explora as múltiplas possibilidades.

− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.

− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.

− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.

− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.

− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.

− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]

[AO LARGO DO MAR DO RIO VERMELHO]

 

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