Eu gostava muito do poeta e ensaísta Affonso Ávila. Não me refiro apenas à sua obra, em tudo genial, mas à pessoa, ao ser humano.
Conversei duas vezes mais longamente com Affonso: uma, quando viajamos no Fiat da arquiteta Selma Miranda desde Itaverava a Catas Altas da Noruega, e fizemos um pernoite numa pousadinha à beira do rio Piranga sob o frio cortante de junho ali na Minas profunda.
A outra vez foi quando o entrevistei para o livro que eu escrevia sobre o nosso amigo comum Fritz Teixeira de Salles. À época da entrevista, sua companheira, a sempre saudosa querida poeta e ensaísta Laís Corrêa de Araújo, falecera alguns anos antes, em 2006.
E foi ali, na sala da famosa Rua Cristina, 1300, que Affonso definiu certeiramente Fritz: "Era um comunista lírico", ele disse. Tão certeira era a definição que a usei como título do seu depoimento no livro editado pela Conceito Editorial, sob a batuta de José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião.
Para a minha alegria, a conversa acabou extrapolando (e muito) o motivo principal de retratar o "Quixote Inesquecível", como escreveu Drummond em uma crônica-homenagem a Fritz no JB. E foi, com certeza, o dia em que mais saborosamente ouvi Affonso como pensador e poeta, o Affonso dos pioneiríssimos estudos sobre o Barroco, o Affonso da inquebrantável abertura para o novo, para as descobertas do novo.
Ainda agora, lembrando-me disto nesta tarde de sábado, recordo-me também da primeira vez que o encontrei lá pelos idos de 1980: foi no prédio onde funcionou a Fundação João Pinheiro, na avenida homônima. Fui visitá-lo como repórter e a pauta era sobre a Revista Barroco, que ele fundou.
Salve, Affonso, eu digo efusivo desde Salvador, mirando a foto dele ainda bem jovem diante da casa onde nasceu Gregório de Matos e que é capa do seu livro Barrocolagens.



