23.2.26
[LEITURIA, LEITORIA. LIÇÕES DE LER]
[júbilo? gozo?]
[é jubiloso o caminho que vai de letra em letra, fração de vocábulos, infinitude letral, sandálias de percorrer o que vogal, o que consoante, o que som, o que ritmo. soar, ressoar, ecoar, a ressonância dos pés do peregrino nos rochedos ou na praia dos textos.]
[é gozoso o caminho dessa percorrência, dessa vagância, vagabundagens do olho sobre as letras, orgásmica figura, ler pelo gozo de ler, essa ócia, feminino de ócio, essa risa, feminino de riso.]
[leituria, posto que da leitura, essa aventura, as amanhecências da página, as noturnidades da página, corpo-biblioteca, a revolução que começa sempre e não acaba nunca.]
[leitoria, posto que do leitor, esse esmo de pessoa, meninozinho estrangeiro, migrante de letra em letra, refugiado sem país ou terra, nômade pelas dunas das palavras, ateador de fogo das significâncias.]
[(in)sei de mim quando leio, praticância da leituria, o (in)saber para dentro, o (in)saber das dessabências, nau desconhecida pelo mar sem nome do intramundo, eis-me em júbilo, eis-me em gozo de ler.]
[(in)sei de mim quando-e-enquanto leitor, militância da leitoria, andante cavaleiro pelo (in)livro, pelo (in)texto, oceano interior das naus alegres, alegrumes de peregrino sem nada, nadificado pela nudez leitora, eis a terra à vista, eis o promontório, eis o istmo, lá onde o pataxó cultiva estrelas, lá onde o maxacali pastoreia o gume do raio em queda.]
[leituria, melhor do que escrever; leitoria, melhor do que a escrituraria.]
[júbilo? gozo? mais: é o espanto que farfalha, o encantamento que boquiaberta, o susto que transvira a linha, o terremoto a cada livro, cântico dos cânticos a cada palavra.]
[SIGNOR FRAGOLINO E A SUA BICICLETA]
Meu filho contou-me a história, que teria sido assim:
Que Signor Fragolino, com as mãos já trêmulas, abriu um pouco a cortina da sala naquela manhã de fevereiro e percebeu que o tempo, pouco a pouco, melhorava em sua querida Ravenna. As nuvens já não estavam tão pesadas e escuras como na semana anterior, e o sol, mesmo tímido, iluminava em rebrilhos os telhados do centro velho. O termômetro marcava 13 graus.
Muito devagar, frágil e arrastando as pantufas, Signor Fragolino aproximou-se da mesa da cozinha. Ali, pelas mãos afetuosas e sexagenárias da sobrinha Alda, já o esperavam sobre a toalha vermelha de bolinhas brancas o caneco de café, as fatias de pão, o pote de manteiga Galbani e o prato com o queijo Squacquerone. Signor Fragolino havia completado exatos 115 anos no final de janeiro e vivia apenas com a Signora Alda, viúva de outro combatente histórico da Resistência Italiana na região de Ravenna, o Signor Gildo.
Aquele era um dia especial na longa e aventurosa vida do Signor Fragolino. Especial e doloroso, dada a decisão que tomara com grande e sofrido esforço alguns dias atrás: vender a sua amada Bianca, a bicicleta que lhe servira desde os anos 1940 quando juntou-se à 28ª Brigada Garibaldi, liderada por Arrigo Boldrini, o famoso Bulow, como era o seu codinome, no combate ao nazifascismo.
Ali na cozinha, curvado sobre a mesa, Signor Fragolino fechava os olhinhos castanhos e tentava reviver as suas peripécias junto com os demais partigiani por toda a Emilia-Romagna, mas, especialmente, a partir da Isola degli Spinaroni, uma ilha existente lá pelas lagoas ao norte de Ravenna, que servia tanto como refúgio quanto centro de comando da luta antifascista.
Signor Fragolino terminou o café e olhou demoradamente para a sobrinha Alda. Com ajuda dela, iria daí a pouco à loja Il Baule dei Ricordi, onde o dono, Signor Alberto, prometera receber Bianca para revenda com única condição e exigência: que o comprador da bicicleta cuidasse dela com o mesmo zelo com que fora cuidada desde quando, no vigor da idade e destemido combatente, cantara Bella Ciao pilotando Bianca pelas trilhas mais secretas do norte da cidade.
Agasalhado com o velho capote e com a boina vermelha antifascista, o pescocinho protegido pelo cachecol de lã que a mulher, Signora Natalia, tecera por noites e noites de inverno antes de falecer aos 84 anos, lá foram pelas ruas de Ravenna o Signor Fragolino, a Signora Alda e a velha Bianca. A bicicleta era levada como se fosse uma criança: cada um, carinhosamente, segurava uma das pontas do guidão.
Ao avistar a loja, Signor Fragolino suspirou e puxou lentamente o lencinho vermelho do bolso do capote. Suspirou outra vez e enxugou uma lágrima. De lá, Signor Alberto, com os seus bigodões negros, acenou com o estardalhaço de sempre, famoso entre os moradores de Ravenna. Mas aquele aceno, em tudo amigável, doeu ainda mais no coração do Signore Fragolino. É que terminava ali a sua história com Bianca.
Pouco depois, cantarolando Bella Ciao baixinho em louvor aos tempos históricos e heroicos, ele voltou para casa amparado pela sobrinha Alda. Morreu no dia seguinte, com 115 anos e quinze dias.
Menos de um mês depois, a bicicleta Bianca encontrou um novo dono à altura da exigência assinalada pelo Signor Fragolino: Tomás, francês de nascimento, mas internacionalista com porções brasileiras, mexicanas e italianas, comprou a velha Bianca e se deixou guiar por ela pelas ruas seculares de Ravenna: livre, sem rumo, deliciosamente sem rumo como um travesso passarinho.
21.2.26
[DE REPENTE]
tal explosão cósmica, os feixes
de luz de um poema só matéria, só
o tinir de um substantivo
em dança com outro substantivo,
canto metálico de acauã ou outro
pássaro-relâmpago, súbito zunido
que costuma deixar o poeta doido.]
[ANJO CEGO DA NOITE]
[meu texto quer visitar os avisos
que a noite depositou sobre os tijolos.
meu texto-leitor tem ânsias
por tais leituras, quer decifrar
os avisos da noite sobre a humilde
forma de um tijolo, quais litanias
foram ali gravadas, quais vogais,
quais limeriques ou mesmo quais
canções que o anjo cego da noite
quis deixar tão cedo para nós,
os indesistentes e portadores
de cajados, aí pelos caminhos.]
[FUTURO-TE?]
lances de tempo delirante
dar à poesia, ao mesmo tempo,
ontem-te, hoje-te e futuro-te?
em paz deixo-a galante no livro
dos livros em verbetes, assanho-
me em gozo de procurá-la
e achá-la em qualquer tempo
de depois ou de antes, melhor
sempre querê-la continuamente.]
[TEORIA LITERÁRIA]
ficasse na terceira
em terceira pessoa,
até os vultos do beco
para a terceira pessoa.
em festejos de rua, isto
sem voz nenhuma a não ser
obrigasse o habitável íntimo
ao mergulho na primeira pessoa.]
[O MANTO DO FALSO DIZER]
assumo que torci a frase
o tanto que precisou
para que ela, seca
ou só úmida,
dissesse com serenidade
o que soasse
sóbrio e civilizado.
mas o fogo
que nela persistia,
selvagem e alastrante,
queimou voraz
o manto que,
paliativo, nela havia.
onde se lia olá,
soou o que de fato
eu quis dizer.
isto é: canalha.]
[A LUXÚRIA E O POEMA]
deu viço ao que era baço, ao que era opaco, deu magnificência e exuberância
ao tempo, alegrou as nuvens, desregrou o vento em dançarolas de leitura, e o vento assim leitor
agora cúmplice do poema enamorou-se da luxúria, urra!, gritaram os marinheiros no cais,
urra!, gritaram as mulheres de azul, eia!, assim, em uníssono, os anjos sem emprego nem patrões rumaram
em desgoverno para a festa, urra!, outra vez gritaram os marinheiros e lançaram ao mar os alfabetos, eia!,
e então os potros na montanha, eia!, que a luxúria vinha com as romãs, eia!, que o poema atiçava odor de enxofre,
e as éguas, ao largo, minavam água de suas ancas, e os deuses, infantos, entravam inteiros nos tonéis de baco.]
20.2.26
[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores
e arbustos do cerrado, essa paisagem
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.
foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase,
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.
dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim
porque os tropeços são comuns
nesse tipo de latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]
[DIZER COM SAL]
que o poema
crie zonas de desconforto
no leitor, zonas de incômodo,
caroço a entalar
sua garganta, fogo
a queimar seus olhos,
curto-circuito cognitivo,
nó nos neurônios,
agulha nos nervos, chão
que some,
derrubada dos andaimes.]
19.2.26
[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]
mas o pão de queijo.
aqueles marinheiros.
não marinheiros de alto-mar,
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos
bastava lançar a isca
que eles puxavam o anzol
lábio luva leque
e faziam redondilhas.
e puxavam do bolso
em louvor a james joyce.
e depois, ao silêncio
podia ser o poeta
a caminho de santa tereza,
podia ser o manoel lobato
rumo à sagrada família.
e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano,
espécie nova de mineiro
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.
"a vida?
dizia um deles, e de novo
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes
18.2.26
[QUANDO PENSO EM POEMA]
[GERMINAR]
o milagre dos grãos.
lançados,
atirados, caídos.
vazados por entre os dedos.
saltados das espigas.
levados pelo vento,
ao vento.
quase vocábulos.
quase letras. frações
germinativas e germinantes.
e o campo. a pedra.
os pedregulhos.
e os homens.
uns e outros.
os muitos e os poucos.
e a cidade.
e então as ruas.
e então as casas.
e as mesas.
e as bocas. os corpos
e as camas.
os líquidos e as mãos.
e o tempo.
os dias e as noites.
migalhas e resíduos.
o cisco e o meteoro.
o giro. a dança.
os campos magnéticos.
as erupções, as intempéries.
essa vida potente
e coreográfica
à qual
podemos chamar de esperança.]
[O CÉU ESTELAR DE PESSOAS]
das gentes, esse céu estelar
de pessoas. as toscas
e as ásperas, as doces
e as ternas, o bisonho
e o tacanho, o carregador
de ódios e o peregrino
com o seu embornal pacífico.
leva-se vida inteira
para o aprendizado
de dar conta do infinito
das gentes. cai-se
em armadilhas, rende-se
ao fracasso, morre-se
antes de concluída a lição
das variedades,
intolera-se por nada,
tolera-se com cegueira,
mas, ao fim, com a vida
inteira à vista na lousa,
sabe-se que o diverso
é um universo que se expande,
pessoas são grãos
em um deserto sem fim:
viver é conhecê-las, viver
é compreendê-las,
e com elas conviver na taba
dessa aldeia-mundo.]
[DO DIZER SEM ARTE]
se o dito for apenas dito, osso-
discurso, gogó de tribuno, passo
ao largo, pego desvio e atalho,
vou ouvir quem diz com engenho,
aquele que, até no dito-cisco,
no dito minúsculo, usa prumo,
régua e compasso, dito que reluz
o salto da rã ao lago, pois quem
diz sem arte, ervário de vocábulos
encaixotados, disto eu fujo, sou,
como se diz, deficiente para tal
falsário, radar eu tenho para pontos
luminosos, aquilo que o nariz de pound
chamava "punti luminosi", pepitas
que a humana fala, de vez em quando,
planta no cascalho, e de lá a rosa
flora como samba de nelson cavaquinho.]
17.2.26
[A NATUREZA E O PENSAR]
quero dizer, o redemoinho
e o gafanhoto, a pedra e o graveto,
a chuva e o terremoto.
não ponho pressa em mim
para pensar o rio, seus remansos,
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,
esse rio que ponho no pensamento
para melhor pensá-lo, pois um rio
é sempre dois rios, uma coisa
é sempre duas coisas,
a que está fora e a que está dentro,
são campos magnéticos, circuitos
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,
ao ser pensada, ganha a consistência
de ser a mesma e ser diversa, pois
pensar é uma moenda, pensamento
é aquilo que engenha, se penso
a coisa, e penso a natureza, a mesma
coisa logo se inventa, basta pensar
para que outro mundo venha,
por isso chego à natureza
como um peregrino, ando com patas
de felino, lento eu giro o que eu vejo
em suave rodopio, não corro, aprendo
com a modorra do cachorro,
aprendo com a sonolência do cavalo,
alio-me à força dispersiva que leva
o cisco em ventania. se não entendo,
espero, e se me espanto, alegro-me.]
[IDIOMAS DA OBJETARIA]
falados pela objetaria. eu disse objetaria:
gavetas, latas, quinas, argolas, a infinita
enciclopédia que me cerca, e me envolve,
essas estantes de coisas na luz e nas trevas,
a bola de gude, a escama do peixe, esses falares
da gravata, o sotaque do prego e do parafuso,
a entonação que o tampo da mesa produz
ao amanhecer. por esses idiomas da objetaria,
eu agradeço ao poema. só o poema arma
ao relento a poltrona imaginária das conversações
sem fim: respondo aos cumprimentos do grão
de areia, respondo às indagações do cadarço
já em desuso sobre o balaústre, ouço a música
que o caixote guardou para o crepúsculo,
eu, o gato e o cachorro somos partes desse simpósio.]
[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]
[tarde boa era tarde cortázica.]
[de quando em quando, uma tarde quintero, o ednódio, ou uma tarde dyonélio, o machado, ou uma tarde caio fernando abreu.]
[a pasta de poemas dera crias durante a noite.]
[manoel lobato aplicava farmacopeias na pasta de ficções.]
[piroli não veio.]
[na poltrona, o lugar de honra ainda aguarda por emílio moura.]
[trouxe poema inédito e nos oferece cigarrinho de palha goiano.]
[adão está ao telefone.]
[a tarde agora está ridente, peralta, travessa.]
[murilo foi ao palácio.]
[vai chover para os lados do pelicano.]
[lobato noticia: "tem conto muito bom da lucienne samôr".]
[quem há de contestar?]
[chove.]
em francês.]
[chove.]
[a vida?]
[e o vicente huidobro, e o lezama lima?]
[adão está outra vez ao telefone, ri e fala, ri e pisca para o jaime.]
[ÓPERA EM SILÊNCIO]
os cavalos
azuis. a lesma.
os vidrilhos
da luz. o calmo
antúrio e a nobre
avenca.
e os cartógrafos.
seus mapas
por onde a chama
da vela diz:
"eis o país de lá",
"eis as cidades
que flutuam
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu.
a espada.
há o baú
com os papéis tristes.
substantivados abandonos,
goivas de lacerar
as saudades, o corpo
em seu litígio perene
pois potro
sem doma, sem rédeas.
o corpo ágrafo
destituído de palavras.
o corpo em selvageria
úmida. a casa. o lodo.
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham
com suas tochas incendiárias.
tudo é calma sobre o fio
da lâmina. ela agora dorme.
a nudez exposta.
o lago que se formou
junto à cama.
lá fora, os cavalos azuis.
lá fora a madrugada
pendente, pêndulo
das noites baixas,
rentes ao chão.
as noites rastejantes,
tapete em trevas.
e os apitos.
ao largo as barcaças,
os marinheiros
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos,
as velas piratas.
e a trempe.
as brasas dormidas.
hora de macerar as ervas,
hora de chamar assim o dia:
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares
no pescoço. o dia
com os seus cavalos
vermelhos.]
16.2.26
[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]
"pallaksch",
nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó
a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan
também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro
"pallaksch", murmuro as desdobras
sem dobras do que indefine,
mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,
intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar
desconhecido, intuo esse pássaro,
não é do sim, não é do não,
mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]
7.2.26
[A FLOR VIAJANTE]
era flor minúscula, mirrada, já um pouco murcha, flor sem nome das espécies de flores em estado de mendicância, flor sem teto e sem jardim nas dobras da cidade.
isabel cruzou a afonso pena com a flor entre os dedos, desceu com suas bravas botas negras para o vale do anchieta, alcançou o carmo, seguiu pela outono, estava agora na grão-mogol, ela e a flor, flor-irmã nas dobras áridas da cidade.
mas os tratados de economia não incluíram tal acontecimento em seus gráficos de curvas apocalípticas. o senador não incorporou tal fato ao relatório das vicissitudes da república. homens de terno permaneceram assépticos e imunes à flor que isabel levava: flor-irmã, flor-amiga, a ínfima flor sem nome pelas bordas toscas da cidade.]
31.1.26
[O PENSAMENTO E A POESIA]
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.
essas porções que a noite
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa
e a desordem.]
26.1.26
[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]
24.1.26
[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]
sua sombra.
ao vento.
seu murmúrio.
sua horta,
sua praga.
está vazio.
edifícios
da grande cidade.
sua caneta
não tem tinta.
seu enchimento-espantalho,
seu gesto
performático.
sua memória.
sua vaidade,
seu sucesso, sua bolsa
de valores.
seu seguidor
e seu seguido.
figurativa,
suas volutas significantes.
nega o ato
o poema, sol a pino,
da janela-bruma.]
22.1.26
[METODOLOGIA PARA ERIÇAMENTO DE FRASES]
[... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".]
[...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".]
[... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".]
[... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".]
[... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".]
[... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".]
[... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".]
[... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".]
[... ele disse: "e então, naquela manhã, surgiu murilo rubião na paisagem, com sacola de mercado e os lentos passos dentro de tênis azuis".]
[... ele dizia: "tarde, muito tarde, descobri que aquele poeta alto e magro, em dissipação na paisagem, não era emílio moura."]
[... ela disse: "é claro que o texto foi lido, e se nada disseram ou nada dizem é porque a moita é o mais confortável lugar da não-fala".]
[... ela disse: "somos todos postes que falam ininteligíveis monólogos nos ouvidos de outros postes".]
[... ele disse: "a interlocução foi esfarelada".]
[... ela dizia: "que triste a tal poesia que se quer unânime".]
[... ela dizia: "o réptil, sub-reptício, sem rumor e sem ruído, comete a fraude da falsa camuflagem".]
[... ele dizia: "é admirável a arte de não ser visto na multidão".]
[... ele dizia: "não há prazer algum em fazer o que todos fazem, o verbo fazer deve sempre ser verbo desbravador".]
[... ela dizia: "alguma coisa se movimenta no mundo quando ocorre um ato de desobediência".]
[... ela dizia: "literatura não é enturmação, é sempre dissidência".]
[... ela dizia: "escrever é dependurar palavras em varais ao tempo. quem passa lê. ou não lê".]
[... ele disse: "desobedecer é o verbo mais importante de uma língua".]
[... ela disse: "o caracol também poderia se chamar walter. por entre folhas, gravetos, ciscos, tinha também o seu livro das passagens".]
[... ela dizia: "aquelas chuvas oblíquas, aqueles ventos em curva, aqueles homenzinhos de cachecol em suas esquinas fantasmas".]
[... ela disse: "tantos lápis, tantos cadernos, e todas essas palavras em greve de fome".]
[... ele disse: "a província e os provincianos sempre ensinam que o sujeito deve cultuar a baixa autoestima".]
[... ela disse: "os intuitivos e os autodidatas foram banidos da tribo".]
[... ele disse: "leem os mesmos autores, comentam os mesmos livros, frequentam os mesmos lugares e olham para a mesma direção".]
[... ele disse, e ali eram os arrabaldes, ali onde as reminiscências de tangos velhos: "o país fodeu-se".]
[... ela dizia: "se há felicidade, talvez ela esteja no convívio com os bichos, esses mesmos que dão importância até na queda de uma folha seca".]















