[APARIÇÃO DE UM GAFANHOTO]
[De repente, saltou um gafanhoto para a página do dicionário. Que espécie de gafanhoto era aquele? Era o peregrino, uma das pragas do Egito, ou era um gafanhoto-soldado? Ou era um gafanhoto filólogo, gafanhoto legente, por escolher para pouso a página em que o dicionário exibia o verbete livro? Misteriosa e estranha quietude ele possuía. Não se movia. Nenhum movimento nas pernas, nas antenas, nos olhos. Imóvel ficou sobre a página, e parecia um ser tomado pelo transe. Ou talvez meditasse sobre o verbete livro, fizesse no verbete uma incursão semiótica, talvez quisesse exercitar-se nas artes hermenêuticas. Embora ele fosse intruso e invasor, achei prudente e elegante cumprimentá-lo. Dizer: "Bom dia, Senhor Gafanhoto". Ou então, caso minha ignorância gafanhotal não fosse incapaz de distinguir se macho ou fêmea, dizer: "Bom dia, Senhora Gafanhota". Mas não disse. Contive-me. E se ele se irritasse? E se ele assumisse a milenar genética de sua linhagem e convoc...















