Em algum país, em algum continente, em alguma cidade ou vila, em algum ponto ermo nos mapas, neste momento há alguém que lê um autor ou um livro esquecido. Autores como Gerko, O Caolho; como Vicêncio Dures e Merla Vercize, e livros, por exemplo, como A arte do vapor por entre as árvores, A numerologia no casco das tartarugas ou O mágico que desafiou Lúcifer.
Sob a claridade futurista de uma luminária de aço ou sob os trêmulos e imprecisos clarões de uma vela, na sacada de um hotel de Los Angeles ou no tronco de uma árvore em Moçambique, alguém lê um livro ou um autor que o mundo esqueceu, que a lista dos mais vendidos não registrou, que os colunistas não citaram, que a moça não incluiu na roda de amigas das quintas-feiras no Café com Letras ou que jamais tiveram menção nos sabadais encontros da Livraria Quixote.
Misteriosos desígnios fizeram com que esses autores e livros fossem parar nas mãos de alguém pelo planeta afora. Todos os estudiosos do mercado livresco, todos os pomposos analistas de gêneros e tendências, todos os hermeneutas de hábitos e gostos legentes fracassaram. Pois ninguém previu que um autor como Laredo D´Orse, e seu único livro publicado, A gênese de uma borboleta quando começa o duelo, estivessem neste exato momento entre as mãos de Amanda Límere, em um escritório de Valparaíso.
Ou que os poemas de Marla Êmure, a pobre, melancólica e suburbana poeta de Boston, estejam agora mesmo sendo lidos em voz alta pelo vendedor de instrumentos odontológicos Octávio Holmes, em um pequeno restaurante de Montes Claros.
Em um casarão demolido em Bogotá, o operário José Ercílio Plaza encontrou nas vésperas de um Natal sem graça e sem posses as crônicas do padre Velasco Dulce, sobre quem jamais se escreveu uma linha sequer nos jornais colombianos. Plaza levou o volume envolto em pó e mofo para o seu quartinho no bairro El Tintal.
E ali, enquanto a natalina noite transcorria nos aforas daquele miserável bairro da capital, ele leu de ponta a ponta as pequenas historietas do padre, e as releu no dia seguinte, e depois guardou o exemplar datado de 1948 na maleta sob o catre, onde havia um rádio de pilhas, um almanaque de canções mexicanas, uma foto de Pelé e outra de Sônia Braga, além de uma imagem de Nossa Senhora de Chiquinquirá, padroeira da Colômbia.
Posso eu mesmo entrar na relação desses leitores agraciados com a súbita aparição de um livro ou de um autor perdido nos confins ou vala comum do esquecimento.
Eu vinha de Mar de Espanha em uma noite sem lua, de céu muito baixo, até que o aguaceiro em desgoverno desabou sobre o carro já perto de Juiz de Fora.
Paramos, o fotógrafo e eu. Por essa época, eu era repórter de um jornal de São Paulo metido a besta. Choviam as águas ferozes da Zona da Mata e era preciso esperar que o aguaceiro desse alguma trégua. Pedimos uma cerveja, comemos dois pastéis. Na hora de seguir viagem, vi o volume sobre a mesa ao lado. Sujo, amarfanhado, triste. Li o título: O livreiro de Pernambuco. O autor: Caio Túlio Montecorvo.