19.2.26

[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]

[no princípio 
não era o verbo,
mas o pão de queijo. 
assim afirmavam gozosos 
e pândegos 
aqueles marinheiros. 

não marinheiros de alto-mar, 
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos 
de navegação 
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos 
ali para os lados 
do bairro da floresta.

bastava lançar a isca 
de um vocábulo 
que eles puxavam o anzol 
das frases. e então navegavam 
pelos mares da língua. 
aliteravam lua linda 
lábio luva leque 
lépido larápio. 
e faziam redondilhas. 
e litotes. 
e puxavam do bolso 
do paletó um limerique 
de formato irlandês
em louvor a james joyce. 

e depois, ao silêncio 
que vinha 
após tais simpósios, 
acenavam 
para quem passasse 
àquela hora, 
podia ser o poeta 
libério neves 
a caminho de santa tereza, 
podia ser o manoel lobato 
rumo à sagrada família.

e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano, 
espécie nova de mineiro 
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.

"a vida? 
ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo 
aliterava porções 
do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes 
da namoragem com a língua.]

18.2.26

[QUANDO PENSO EM POEMA]

[quando penso em poema, penso rua.
melhor: penso janela ou abertura, vãos

largos por onde o olhar (ou o ser) acede,
olhos como se mãos em dádivas, dáveis.

mas penso sobretudo em dia quando vem
a ideia de poema. o dia igual a casa, o dia

onde habitamos e onde vivemos, tal e qual
no poema de philip larkin. dia concerto

em céu aberto, do sol que brota ao claro
que se recolhe quando enfim se dá a noite.

o dia é todo um universo que se repete
a cada dia, mote e glosa sempre diferentes.

nele o grilo, nele o urso, nele o cavalo, tudo
súmula de um em outro, cisco no bico

dos sapatos, paletó puído de um homem
desesperançado, faca com um grito dentro.]

[GERMINAR]

[grão. um grão e outro grão. 
o milagre dos grãos. 
lançados, 
atirados, caídos. 
vazados por entre os dedos. 
saltados das espigas. 
levados pelo vento, 
ao vento. 
quase vocábulos. 
quase letras. frações 
germinativas e germinantes. 
e o campo. a pedra. 
os pedregulhos. 
e os homens. 
uns e outros. 
os muitos e os poucos. 
e a cidade. 
e então as ruas. 
e então as casas. 
e as mesas. 
e as bocas. os corpos 
e as camas. 
os líquidos e as mãos. 
e o tempo. 
os dias e as noites. 
migalhas e resíduos. 
o cisco e o meteoro. 
o giro. a dança. 
os campos magnéticos. 
as erupções, as intempéries. 
essa vida potente 
e coreográfica 
à qual 
podemos chamar de esperança.]

[O CÉU ESTELAR DE PESSOAS]

[viver é dar conta do infinito 
das gentes, esse céu estelar 
de pessoas. as toscas 
e as ásperas, as doces 
e as ternas, o bisonho
e o tacanho, o carregador 
de ódios e o peregrino
com o seu embornal pacífico.

leva-se vida inteira 
para o aprendizado
de dar conta do infinito 
das gentes. cai-se
em armadilhas, rende-se 
ao fracasso, morre-se
antes de concluída a lição 
das variedades,
intolera-se por nada, 
tolera-se com cegueira,
mas, ao fim, com a vida 
inteira à vista na lousa,
sabe-se que o diverso 
é um universo que se expande,
pessoas são grãos 
em um deserto sem fim:

viver é conhecê-las, viver 
é compreendê-las,
e com elas conviver na taba 
dessa aldeia-mundo.]

[DO DIZER SEM ARTE]

[só vale o dito, se for com arte.
se o dito for apenas dito, osso-

discurso, gogó de tribuno, passo
ao largo, pego desvio e atalho,

vou ouvir quem diz com engenho,
aquele que, até no dito-cisco,

no dito minúsculo, usa prumo,
régua e compasso, dito que reluz

o salto da rã ao lago, pois quem 
diz sem arte, ervário de vocábulos 

encaixotados, disto eu fujo, sou,
como se diz, deficiente para tal

falsário, radar eu tenho para pontos
luminosos, aquilo que o nariz de pound 

chamava "punti luminosi", pepitas
que a humana fala, de vez em quando,

planta no cascalho, e de lá a rosa
flora como samba de nelson cavaquinho.]

17.2.26

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

[IDIOMAS DA OBJETARIA]

[agradeço ao poema pelos idiomas
falados pela objetaria. eu disse objetaria:
gavetas, latas, quinas, argolas, a infinita
enciclopédia que me cerca, e me envolve,

essas estantes de coisas na luz e nas trevas,
a bola de gude, a escama do peixe, esses falares
da gravata, o sotaque do prego e do parafuso,
a entonação que o tampo da mesa produz

ao amanhecer. por esses idiomas da objetaria,
eu agradeço ao poema. só o poema arma
ao relento a poltrona imaginária das conversações
sem fim: respondo aos cumprimentos do grão

de areia, respondo às indagações do cadarço
já em desuso sobre o balaústre, ouço a música
que o caixote guardou para o crepúsculo,
eu, o gato e o cachorro somos partes desse simpósio.]