21.2.26

[DE REPENTE]


[na inércia quase paroquial 
de uma paisagem retilínea 
e monótona, de repente surgem,
 
tal explosão cósmica, os feixes 
de luz de um poema só matéria, só 
o tinir de um substantivo 

em dança com outro substantivo,
canto metálico de acauã ou outro
pássaro-relâmpago, súbito zunido

que costuma deixar o poeta doido.]

[ANJO CEGO DA NOITE]


[meu texto quer visitar os avisos
que a noite depositou sobre os tijolos. 
meu texto-leitor tem ânsias

por tais leituras, quer decifrar 
os avisos da noite sobre a humilde
forma de um tijolo, quais litanias

foram ali gravadas, quais vogais,
quais limeriques ou mesmo quais
canções que o anjo cego da noite

quis deixar tão cedo para nós, 
os indesistentes e portadores 
de cajados, aí pelos caminhos.]

[FUTURO-TE?]


[poesia? futuro-te? ou ilógico
ontem-te, lá antes, antes 
de antes, tal se fosse hoje-te?

lances de tempo delirante 
dar à poesia, ao mesmo tempo,
ontem-te, hoje-te e futuro-te?

em paz deixo-a galante no livro
dos livros em verbetes, assanho-
me em gozo de procurá-la

e achá-la em qualquer tempo
de depois ou de antes, melhor
sempre querê-la continuamente.]

[TEORIA LITERÁRIA]


[bastou abrir a janela 
para que a voz
 
ficasse na terceira 
pessoa, o lá fora 

em terceira pessoa, 
até os vultos do beco 

para a praça se moveram 
para a terceira pessoa.

sim, movências  da voz 
em festejos de rua, isto 

até o instante em que a ventania, 
sem voz nenhuma a não ser 

o sopro desorganizado, 
obrigasse o habitável íntimo 

ao mergulho na primeira pessoa.]

[O MANTO DO FALSO DIZER]


[do modo 
como se torce um pano,

assumo que torci a frase
o tanto que precisou

para que ela, seca
ou só úmida,

dissesse com serenidade
o que soasse 

sóbrio e civilizado.
mas o fogo

que nela persistia,
selvagem e alastrante,

queimou voraz
o manto que, 

paliativo, nela havia.
onde se lia olá,

soou o que de fato
eu quis dizer.

isto é: canalha.]

[A LUXÚRIA E O POEMA]

[e o poema impôs ao tempo a grã luxúria, este terceiro dos sete pecados capitais. e o poema 

deu viço ao que era baço, ao que era opaco, deu magnificência e exuberância

ao tempo, alegrou as nuvens, desregrou o vento em dançarolas de leitura, e o vento assim leitor

agora cúmplice do poema enamorou-se da luxúria, urra!, gritaram os marinheiros no cais,

urra!, gritaram as mulheres de azul, eia!, assim, em uníssono, os anjos sem emprego nem patrões rumaram

em desgoverno para a festa, urra!, outra vez gritaram os marinheiros e lançaram ao mar os alfabetos, eia!,

e então os potros na montanha, eia!, que a luxúria vinha com as romãs, eia!, que o poema atiçava odor de enxofre,

e as éguas, ao largo, minavam água de suas ancas, e os deuses, infantos, entravam inteiros nos tonéis de baco.]

20.2.26

[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]

[filio-me a uma escola literária
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores 
e arbustos do cerrado, essa paisagem 
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.

foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água 
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase, 
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.

dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim 
com o seu cajado,
porque os tropeços são comuns
nesse tipo de latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]

[DIZER COM SAL]

[é salutar e saudável 
que o poema
crie zonas de desconforto 
no leitor, zonas de incômodo, 
caroço a entalar
sua garganta, fogo 
a queimar seus olhos,
curto-circuito cognitivo, 
nó nos neurônios,
agulha nos nervos, chão 
que some,
derrubada dos andaimes.]

19.2.26

[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]

[no princípio 
não era o verbo,
mas o pão de queijo. 
assim afirmavam gozosos 
e pândegos 
aqueles marinheiros. 

não marinheiros de alto-mar, 
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos 
de navegação 
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos 
ali para os lados 
do bairro da floresta.

bastava lançar a isca 
de um vocábulo 
que eles puxavam o anzol 
das frases. e então navegavam 
pelos mares da língua. 
aliteravam lua linda 
lábio luva leque 
lépido larápio. 
e faziam redondilhas. 
e litotes. 
e puxavam do bolso 
do paletó um limerique 
de formato irlandês
em louvor a james joyce. 

e depois, ao silêncio 
que vinha 
após tais simpósios, 
acenavam 
para quem passasse 
àquela hora, 
podia ser o poeta 
libério neves 
a caminho de santa tereza, 
podia ser o manoel lobato 
rumo à sagrada família.

e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano, 
espécie nova de mineiro 
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.

"a vida? 
ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo 
aliterava porções 
do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes 
da namoragem com a língua.]

18.2.26

[QUANDO PENSO EM POEMA]

[quando penso em poema, penso rua.
melhor: penso janela ou abertura, vãos

largos por onde o olhar (ou o ser) acede,
olhos como se mãos em dádivas, dáveis.

mas penso sobretudo em dia quando vem
a ideia de poema. o dia igual a casa, o dia

onde habitamos e onde vivemos, tal e qual
no poema de philip larkin. dia concerto

em céu aberto, do sol que brota ao claro
que se recolhe quando enfim se dá a noite.

o dia é todo um universo que se repete
a cada dia, mote e glosa sempre diferentes.

nele o grilo, nele o urso, nele o cavalo, tudo
súmula de um em outro, cisco no bico

dos sapatos, paletó puído de um homem
desesperançado, faca com um grito dentro.]

[GERMINAR]

[grão. um grão e outro grão. 
o milagre dos grãos. 
lançados, 
atirados, caídos. 
vazados por entre os dedos. 
saltados das espigas. 
levados pelo vento, 
ao vento. 
quase vocábulos. 
quase letras. frações 
germinativas e germinantes. 
e o campo. a pedra. 
os pedregulhos. 
e os homens. 
uns e outros. 
os muitos e os poucos. 
e a cidade. 
e então as ruas. 
e então as casas. 
e as mesas. 
e as bocas. os corpos 
e as camas. 
os líquidos e as mãos. 
e o tempo. 
os dias e as noites. 
migalhas e resíduos. 
o cisco e o meteoro. 
o giro. a dança. 
os campos magnéticos. 
as erupções, as intempéries. 
essa vida potente 
e coreográfica 
à qual 
podemos chamar de esperança.]

[O CÉU ESTELAR DE PESSOAS]

[viver é dar conta do infinito 
das gentes, esse céu estelar 
de pessoas. as toscas 
e as ásperas, as doces 
e as ternas, o bisonho
e o tacanho, o carregador 
de ódios e o peregrino
com o seu embornal pacífico.

leva-se vida inteira 
para o aprendizado
de dar conta do infinito 
das gentes. cai-se
em armadilhas, rende-se 
ao fracasso, morre-se
antes de concluída a lição 
das variedades,
intolera-se por nada, 
tolera-se com cegueira,
mas, ao fim, com a vida 
inteira à vista na lousa,
sabe-se que o diverso 
é um universo que se expande,
pessoas são grãos 
em um deserto sem fim:

viver é conhecê-las, viver 
é compreendê-las,
e com elas conviver na taba 
dessa aldeia-mundo.]

[DO DIZER SEM ARTE]

[só vale o dito, se for com arte.
se o dito for apenas dito, osso-

discurso, gogó de tribuno, passo
ao largo, pego desvio e atalho,

vou ouvir quem diz com engenho,
aquele que, até no dito-cisco,

no dito minúsculo, usa prumo,
régua e compasso, dito que reluz

o salto da rã ao lago, pois quem 
diz sem arte, ervário de vocábulos 

encaixotados, disto eu fujo, sou,
como se diz, deficiente para tal

falsário, radar eu tenho para pontos
luminosos, aquilo que o nariz de pound 

chamava "punti luminosi", pepitas
que a humana fala, de vez em quando,

planta no cascalho, e de lá a rosa
flora como samba de nelson cavaquinho.]

17.2.26

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

[IDIOMAS DA OBJETARIA]

[agradeço ao poema pelos idiomas
falados pela objetaria. eu disse objetaria:
gavetas, latas, quinas, argolas, a infinita
enciclopédia que me cerca, e me envolve,

essas estantes de coisas na luz e nas trevas,
a bola de gude, a escama do peixe, esses falares
da gravata, o sotaque do prego e do parafuso,
a entonação que o tampo da mesa produz

ao amanhecer. por esses idiomas da objetaria,
eu agradeço ao poema. só o poema arma
ao relento a poltrona imaginária das conversações
sem fim: respondo aos cumprimentos do grão

de areia, respondo às indagações do cadarço
já em desuso sobre o balaústre, ouço a música
que o caixote guardou para o crepúsculo,
eu, o gato e o cachorro somos partes desse simpósio.]

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

[as tardes no suplemento literário eram tardes lépides, víssilas, larúnias, essas palavras que não existem.]

[tarde boa era tarde cortázica.]

[de quando em quando, uma tarde quintero, o ednódio, ou uma tarde dyonélio, o machado, ou uma tarde caio fernando abreu.]

[a pasta de poemas dera crias durante a noite.]

[pintainhos novos eclodiam desde barbacena, juiz de fora, maceió, manaus.]

[poema inédito de max martins, e, de amparo, comparecia o ainda menino marçal aquino.]

[manoel lobato aplicava farmacopeias na pasta de ficções.]

[jaime sugeria guilhotina e cepo para um conto pó de arroz.] 

[quem sabe, na contracapa, um poema do novíssimo ricardo aleixo?]

[piroli não veio.]

[há semana e tanto que piroli não vem.]

[mas o duílio chega, ofega, agita-se.]

[cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.]

[é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?]

[mas deus, federal, universal, orbital, deus não respondia.]

[na poltrona, o lugar de honra ainda aguarda por emílio moura.]

[dona maria helena anuncia a chegada de libério.]

[trouxe poema inédito e nos oferece cigarrinho de palha goiano.]

[libério é um monge feito de substantivos perfeitos.]

[adão está ao telefone.]

[há hora e meia que adão está ao telefone.]

[o poeta fala e ri, fala e pisca para o jaime.]

["é moça", diz manoel lobato.]

["é musa", digo eu.]

[os poemas concordam comigo.]

[a tarde agora está ridente, peralta, travessa.]

[branca veio rir conosco.]

[murilo foi ao palácio.]

[e se o piroli chegasse?]

[chega o bley barbosa, e, com ele, o henry corrêa de araújo.]

[vai chover para os lados do pelicano.]

[lobato noticia: "tem conto muito bom da lucienne samôr".]

[duílio diz: "vai para a página central".]

[quem há de contestar?]

[fecha-se a edição.]

[chove.]

[mesóclises passeiam pela avenida augusto de lima.]

[um velho modernista com um guarda-chuva traz um poema 
em francês.]

[pobres de nós.]

[quem nos salvará do albatroz?]

[chove.]

[lá vai embora o manoel lobato.]

[a vida?]

[a vida é dúctil, excelsa, ebúrnea.]

[chove manga.]

[há conclave no pelicano.]

[e o vicente huidobro, e o lezama lima?]

[adão está outra vez ao telefone, ri e fala, ri e pisca para o jaime.]

["é musa", digo eu.]

[é que tudo na vida nasceu para caber dentro de um poema.]

[ÓPERA EM SILÊNCIO]

[na redonda noite, 
os cavalos
azuis. a lesma. 
os vidrilhos
da luz. o calmo 
antúrio e a nobre
avenca. 

e os cartógrafos. 
seus mapas
por onde a chama 
da vela diz:
"eis o país de lá", 
"eis as cidades
que flutuam 
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu. 
a espada.

há o baú 
com os papéis tristes.
substantivados abandonos, 
goivas de lacerar 
as saudades, o corpo
em seu litígio perene 
pois potro
sem doma, sem rédeas. 

o corpo ágrafo 
destituído de palavras.
o corpo em selvageria 
úmida. a casa. o lodo. 
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham 
com suas tochas incendiárias.

tudo é calma sobre o fio 
da lâmina. ela agora dorme. 
a nudez exposta.
o lago que se formou 
junto à cama.

lá fora, os cavalos azuis. 
lá fora a madrugada 
pendente, pêndulo 
das noites baixas, 
rentes ao chão.
as noites rastejantes, 
tapete em trevas.

e os apitos. 
ao largo as barcaças, 
os marinheiros 
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos, 
as velas piratas.

e a trempe. 
as brasas dormidas. 
hora de macerar as ervas, 
hora de chamar assim o dia: 
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares 
no pescoço. o dia 
com os seus cavalos 
vermelhos.]

16.2.26

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

7.2.26

[A FLOR VIAJANTE]

[isabel botas negras achou a flor ao pé de uma árvore na rua trifana. pego-a. acariciou a flor entre os esmaltes cor de marte e foi pela rua como se levasse um pequeno anjo.

era flor minúscula, mirrada, já um pouco murcha, flor sem nome das espécies de flores em estado de mendicância, flor sem teto e sem jardim nas dobras da cidade.

isabel cruzou a afonso pena com a flor entre os dedos, desceu com suas bravas botas negras para o vale do anchieta, alcançou o carmo, seguiu pela outono, estava agora na grão-mogol, ela e a flor, flor-irmã nas dobras áridas da cidade.

mas os tratados de economia não incluíram tal acontecimento em seus gráficos de curvas apocalípticas. o senador não incorporou tal fato ao relatório das vicissitudes da república. homens de terno permaneceram assépticos e imunes à flor que isabel levava: flor-irmã, flor-amiga, a ínfima flor sem nome pelas bordas toscas da cidade.]

31.1.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]

26.1.26

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.


24.1.26

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, 
sua sombra.

seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira 
ao vento.

tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, 
seu murmúrio.

sua aorta está vazia. 

sua horta, 
sua praga.

tudo está vazio.

o livro que você lê 
está vazio.

letreiros da imensa avenida, 
edifícios 
da grande cidade.

tudo está vazio.

seu lápis não tem grafite, 
sua caneta 
não tem tinta.

tudo está vazio.

seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, 
seu gesto 
performático.

tudo está vazio.

seus dedos, seu teclado, 
sua memória.

seu chip está vazio.
 
sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa 
de valores.

tudo está vazio.

seu monólogo em rede, 
seu seguidor 
e seu seguido.

tudo está vazio.

sua metáfora, sua curva 
figurativa, 
suas volutas significantes.

tudo está vazio.

mas o poema, rebelde, 
nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão 
submissa, 
o poema, sol a pino, 
cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]

22.1.26

[METODOLOGIA PARA ERIÇAMENTO DE FRASES]

[... ela disse: "narciso não tem lápis, e os rostos não escrevem".]

[... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".]

[...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".]

[... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".]

[... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".]

[... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".]

[... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".]

[... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".]

[... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".]

[... ele disse: "e então, naquela manhã, surgiu murilo rubião na paisagem, com sacola de mercado e os lentos passos dentro de tênis azuis".]

[... ele dizia: "tarde, muito tarde, descobri que aquele poeta alto e magro, em dissipação na paisagem, não era emílio moura."]

[... ela disse: "é claro que o texto foi lido, e se nada disseram ou nada dizem é porque a moita é o mais confortável lugar da não-fala".]

[... ela disse: "somos todos postes que falam ininteligíveis monólogos nos ouvidos de outros postes".]

[... ele disse: "a interlocução foi esfarelada".]

[... ela dizia: "que triste a tal poesia que se quer unânime".]

[... ela dizia: "o réptil, sub-reptício, sem rumor e sem ruído, comete a fraude da falsa camuflagem".]

[... ele dizia: "é admirável a arte de não ser visto na multidão".]

[... ele dizia: "não há prazer algum em fazer o que todos fazem, o verbo fazer deve sempre ser verbo desbravador".]

[... ela dizia: "alguma coisa se movimenta no mundo quando ocorre um ato de desobediência".]

[... ela dizia: "literatura não é enturmação, é sempre dissidência".]

[... ela dizia: "escrever é dependurar palavras em varais ao tempo. quem passa lê. ou não lê".]

[... ele disse: "desobedecer é o verbo mais importante de uma língua".]

[... ela disse: "o caracol também poderia se chamar walter. por entre folhas, gravetos, ciscos, tinha também o seu livro das passagens".]

[... ela dizia: "aquelas chuvas oblíquas, aqueles ventos em curva, aqueles homenzinhos de cachecol em suas esquinas fantasmas".]

[... ela disse: "tantos lápis, tantos cadernos, e todas essas palavras em greve de fome".]

[... ele disse: "a província e os provincianos sempre ensinam que o sujeito deve cultuar a baixa autoestima".]

[... ela disse: "os intuitivos e os autodidatas foram banidos da tribo".]

[... ele disse: "leem os mesmos autores, comentam os mesmos livros, frequentam os mesmos lugares e olham para a mesma direção".]

[... ele disse, e ali eram os arrabaldes, ali onde as reminiscências de tangos velhos: "o país fodeu-se".]

[... ela dizia: "se há felicidade, talvez ela esteja no convívio com os bichos, esses mesmos que dão importância até na queda de uma folha seca".]

17.1.26

[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio. 

Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas. 

Coisas que eclodiam.

Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância. 

Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera.

Sentiu-se bem. 

Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo. 

Apenas sentiu-se bem, como se uma alegria esvoaçante, de asas vivazes e ágeis, tocasse diariamente a sua porta. 

Recebia essa visitante. Oferecia-lhe a sala. Deixava que essa alegria alada pousasse no escritório ao lado de caixinhas de madrepérola, minúsculas latas, objetos dispostos em uma gramática lúdica.

A infância, por obra e graça da prescrição diária, então renascia nesses labirintos de objetos que a idade foi acumulando entre cadernos, livros, lápis, retratos, flâmulas e recortes. 

Retornavam folguedos, travessuras, espantos, cheiro de terra.

E uma vontade desmesurada de música passou a predominar em seus dias. Tanto que, muitas vezes, sob os olhares interrogantes da família, ele cantarolava feito um doidinho manso.]

4.1.26

[O FIO E O TIGRE AZUL]

[era só um fio. 
começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais. 
era só um fio

na paisagem que a cidade 
expunha ao ocaso, luzes 
trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres 
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los 
do tigre azul.

o fio único desafiava 
os tratados de filosofia, 
os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio 
que começava na ponta
leste e vinha como se serpente 

até a ponta oeste, e prosseguia, 
mais e mais ele prosseguia, 
um fio desejante 
de não ter jamais um fim
atravessava a cidade 
em seu ocaso triste, 
de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico 
com o tigre azul.]

27.12.25

[ELA DISSE; ELE DISSE]

[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".]

***

[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]

***

[ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".]

***

[ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe sílaba a sílaba, evocações de uma raiz longínqua, enunciações de uma noite árabe. mas igualmente eu a admiro pelo que ela contém enquanto utensílio, lá onde podem ser maceradas as ervas e as especiarias, conteúdo de misturações secretas, isto que, nas palavras, dá-se o nome de imagem-âmbar".]

***

[ele disse: "amiúde penso em coisas muito desajeitadas para os dias de hoje. por exemplo: o que deixa uma palavra no leitor assim que é lida. refiro-me, por exemplo, à palavra cavalo. quando lida, e vista, pois ler é também uma forma de olhar, o que a palavra cavalo deixa no leitor? deixa crinas ao vento, cascos sobre pedregulhos, o galope em desgoverno para um rumo desconhecido? ou a palavra cavalo deixa no leitor uma cena de quietude? o cavalo quieto, à noite, noite sem lua, noite sem vento, o cavalo ali, a um canto do pasto, a cabeça baixa, os olhos sonolentos, as bandas das crinas caídas ao longo da tábua do pescoço, o focinho pendente, as ventas apaziguadas, os olhos como se refletissem sobre assuntos que jamais saberemos".]

***

[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]

***

[ele disse: “coitada da leitura, e mesmo da literatura, com a militância do bom mocismo carola”.]

***

[ele disse: “uma frase ou dito aos modos de clarice já é o bastante para fazer de um texto um pavão com os seus penachos. e uma frase solta retirada de rosa é o bastante para fazer do citador um pavoneante filósofo”.]

***

[ele disse: “grande parte da poesia hoje publicada não passa de arroz que gruda, de doce que desanda, de bolo que sola, de pipoca que não pula”.]

***

[ele disse: "anuncio ao mundo que acabei de arrancar de mim um pedaço de palavra. não doeu".]

***


9.12.25

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, 
mas o saber esvaiu-se, areia 
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, 
água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, 
eu disse, e repito, sabia, 
mas o saber que eu sabia 
em vapor se fez, um outro saber, 
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber 
apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber 
qual estranho, qual bicho 
sem nome. 
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, 
ele vem,
puxamos a cadeira, 
deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, 
solto verbos amigáveis, 
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa 
das que honram 
as amizades, 
isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez 
o destino leve o visitante, 
mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, 
e outra vez
vão ceder o lugar 
para novos saberes chegantes.]