17.2.26

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

[IDIOMAS DA OBJETARIA]

[agradeço ao poema pelos idiomas
falados pela objetaria. eu disse objetaria:
gavetas, latas, quinas, argolas, a infinita
enciclopédia que me cerca, e me envolve,

essas estantes de coisas na luz e nas trevas,
a bola de gude, a escama do peixe, esses falares
da gravata, o sotaque do prego e do parafuso,
a entonação que o tampo da mesa produz

ao amanhecer. por esses idiomas da objetaria,
eu agradeço ao poema. só o poema arma
ao relento a poltrona imaginária das conversações
sem fim: respondo aos cumprimentos do grão

de areia, respondo às indagações do cadarço
já em desuso sobre o balaústre, ouço a música
que o caixote guardou para o crepúsculo,
eu, o gato e o cachorro somos partes desse simpósio.]

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

[as tardes no suplemento literário eram tardes lépides, víssilas, larúnias, essas palavras que não existem.]

[tarde boa era tarde cortázica.]

[de quando em quando, uma tarde quintero, o ednódio, ou uma tarde dyonélio, o machado, ou uma tarde caio fernando abreu.]

[a pasta de poemas dera crias durante a noite.]

[pintainhos novos eclodiam desde barbacena, juiz de fora, maceió, manaus.]

[poema inédito de max martins, e, de amparo, comparecia o ainda menino marçal aquino.]

[manoel lobato aplicava farmacopeias na pasta de ficções.]

[jaime sugeria guilhotina e cepo para um conto pó de arroz.] 

[quem sabe, na contracapa, um poema do novíssimo ricardo aleixo?]

[piroli não veio.]

[há semana e tanto que piroli não vem.]

[mas o duílio chega, ofega, agita-se.]

[cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.]

[é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?]

[mas deus, federal, universal, orbital, deus não respondia.]

[na poltrona, o lugar de honra ainda aguarda por emílio moura.]

[dona maria helena anuncia a chegada de libério.]

[trouxe poema inédito e nos oferece cigarrinho de palha goiano.]

[libério é um monge feito de substantivos perfeitos.]

[adão está ao telefone.]

[há hora e meia que adão está ao telefone.]

[o poeta fala e ri, fala e pisca para o jaime.]

["é moça", diz manoel lobato.]

["é musa", digo eu.]

[os poemas concordam comigo.]

[a tarde agora está ridente, peralta, travessa.]

[branca veio rir conosco.]

[murilo foi ao palácio.]

[e se o piroli chegasse?]

[chega o bley barbosa, e, com ele, o henry corrêa de araújo.]

[vai chover para os lados do pelicano.]

[lobato noticia: "tem conto muito bom da lucienne samôr".]

[duílio diz: "vai para a página central".]

[quem há de contestar?]

[fecha-se a edição.]

[chove.]

[mesóclises passeiam pela avenida augusto de lima.]

[um velho modernista com um guarda-chuva traz um poema 
em francês.]

[pobres de nós.]

[quem nos salvará do albatroz?]

[chove.]

[lá vai embora o manoel lobato.]

[a vida?]

[a vida é dúctil, excelsa, ebúrnea.]

[chove manga.]

[há conclave no pelicano.]

[e o vicente huidobro, e o lezama lima?]

[adão está outra vez ao telefone, ri e fala, ri e pisca para o jaime.]

["é musa", digo eu.]

[é que tudo na vida nasceu para caber dentro de um poema.]

[ÓPERA EM SILÊNCIO]

[na redonda noite, 
os cavalos
azuis. a lesma. 
os vidrilhos
da luz. o calmo 
antúrio e a nobre
avenca. 

e os cartógrafos. 
seus mapas
por onde a chama 
da vela diz:
"eis o país de lá", 
"eis as cidades
que flutuam 
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu. 
a espada.

há o baú 
com os papéis tristes.
substantivados abandonos, 
goivas de lacerar 
as saudades, o corpo
em seu litígio perene 
pois potro
sem doma, sem rédeas. 

o corpo ágrafo 
destituído de palavras.
o corpo em selvageria 
úmida. a casa. o lodo. 
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham 
com suas tochas incendiárias.

tudo é calma sobre o fio 
da lâmina. ela agora dorme. 
a nudez exposta.
o lago que se formou 
junto à cama.

lá fora, os cavalos azuis. 
lá fora a madrugada 
pendente, pêndulo 
das noites baixas, 
rentes ao chão.
as noites rastejantes, 
tapete em trevas.

e os apitos. 
ao largo as barcaças, 
os marinheiros 
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos, 
as velas piratas.

e a trempe. 
as brasas dormidas. 
hora de macerar as ervas, 
hora de chamar assim o dia: 
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares 
no pescoço. o dia 
com os seus cavalos 
vermelhos.]

16.2.26

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

7.2.26

[A FLOR VIAJANTE]

[isabel botas negras achou a flor ao pé de uma árvore na rua trifana. pego-a. acariciou a flor entre os esmaltes cor de marte e foi pela rua como se levasse um pequeno anjo.

era flor minúscula, mirrada, já um pouco murcha, flor sem nome das espécies de flores em estado de mendicância, flor sem teto e sem jardim nas dobras da cidade.

isabel cruzou a afonso pena com a flor entre os dedos, desceu com suas bravas botas negras para o vale do anchieta, alcançou o carmo, seguiu pela outono, estava agora na grão-mogol, ela e a flor, flor-irmã nas dobras áridas da cidade.

mas os tratados de economia não incluíram tal acontecimento em seus gráficos de curvas apocalípticas. o senador não incorporou tal fato ao relatório das vicissitudes da república. homens de terno permaneceram assépticos e imunes à flor que isabel levava: flor-irmã, flor-amiga, a ínfima flor sem nome pelas bordas toscas da cidade.]

31.1.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]