PAULINHO ASSUNÇÃO
16.10.26
[PEQUENA ANTOLOGIA DOS COMENTADORES CONTEMPORÂNEOS]
[outros chegam aos temas e assuntos como se servos, como se cordeiros. são tão submissos frente ao que analisam que suas análises lembram o tempo morto, os relógios parados, as estátuas, os rios secos.]
[uns se aproximam dos temas e assuntos como se sombras, como se invisíveis, como se ventríloquos, pois jamais emitem opinião ou análise que não seja pela boca de outros.]
[outros vão aos temas e assuntos como se fígado, como se fel, como se bílis. são tão amargos, tão aziagos, que suas análises lembram os cascos de navios à deriva, o metal a formar dentes, a água ferruginosa a matar peixes.]
[uns tomam os temas e assuntos não sem antes o exercício da expressão vigiada, da fala conveniente, posto que atentos a não melindrar parentelas, chefes, amigos influentes, seja um senador, seja um tenente, seja um deputado, seja o cúmplice em negócios clandestinos.]
[outros viajam pelos temas e assuntos como se em um desfile de moda. bordam suas análises, aplicam nelas adereços e lantejoulas, costuram pontos de vista com o capricho de linhas em ouro, dão laços e nós com arremates graciosos, fabricam pompons com algodoais de assepsia.]
[uns perseguem temas e assuntos como se o cão que persegue a lebre. não importa qual tema, não importa qual assunto. soltam-se à carreira assim que um qualquer temário aponta no horizonte, e falam, e escrevem, e balbuciam, e vociferam, lançam-se ao sabor da ventania, são desprovidos de bússolas, de pontaria, a tal ponto que ao final da contenda já não sabem o que trataram ou o que discutiram.]
[outros fazem dos temas e assuntos meros pretextos para o divulgatório autobiográfico. e contam feitos, e relatam peripécias, e alinhavam bravatas, são andores do eu, pódios do eu, o ambulante eu obtuso, oblongo, adiposo e inútil.]
[JARGÕES DO CÍRCULO DE LETRAS DA REPÚBLICA DO AH]
2. belo texto.
3. texto instigante.
4. apuro formal.
5. estratégia narrativa.
6. da linha cabralina.
7. despoetizado.
8. verbivocovisual tardio.
9. autoficcional audacioso.
10. na primeira pessoa.
11. explorações do espaço em branco da página.
12. enredo oculto.
13. gênero limítrofe.
14. embaralhamento de gêneros.
15. estranheza áspera.
16. ponto de vista móvel.
17. de feição drummondiana.
18. à maneira de manoel de barros.
19. impactante.
20. um soco no estômago.
21. desbocado.
22. monólogo dialógico introspectivo solar.
23. mercurial ao extremo.
24. esplendoroso bestiário.
25. labiríntico.
26. pós-borges.
27. à maneira de cesar aira.
28. machado não faria melhor.
29. croniconto.
30. atingiu a maturidade.
31. à maneira de sebald.
32. estilo próprio.
33. pronto para os prêmios do ano.
34. poética expandida.
35. frase-bukowski.
[A VOZ]
[“Nada jamais esteve e jamais estará cem por cento bem”. É o que diz, nas sombras, a voz interlocutora, a voz que é pura voz e nada mais. De repente, pressente-se a voz em seus preparativos para intervir nas conversações. Ela se aproveita das pausas, das lacunas, dos buracos entre as falas e logo emite as suas opiniões, os seus palpites, seus desacordos, seus paradoxos. A qualquer hora do dia, a qualquer hora da noite. Independentemente de quem sejam os conversadores daquele momento. Intromissões, impertinências. A voz que é pura voz e nada mais avança desde a penumbra e se materializa entre os espantados, os perplexos, os boquiabertos — os também em pânico. “Nada jamais esteve e jamais estará cem por cento bem”. De cá, do lado de cá da sombra, ouvimos a sentença proferida pela voz, ouvimos uma e mais outras vezes, depois seguimos o caminho que dá na praça e depois para o becos onde cada um de nós reside.]
15.10.26
[O CARRO CHOCOLATE DO DOPS E O ALERTA DE OSWALDO FRANÇA JR.]
Estávamos em um bar ao lado da gráfica do escritor Jeferson Ribeiro de Andrade na Galeria do Ouvidor, centro de Belo Horizonte, no final de 1975. Éramos quatro, talvez cinco, mas a memória só me elucida e esclarece um nome naquela confraria noturna: a Rose. Rose morava no Bairro Sagrada Família, conhecido à época, não sei se com razão, por ser um local de aparelhos de esquerda.
Bebíamos e palreávamos a gosto, mas o tom e o tema das conversas eram mesmo xingar a ditadura e os milicos reinantes. Vasculho a memória e tento mais uma vez visualizar quais eram os outros pássaros naquela mesa. Estava o compadre Antônio Barreto? O Jeferson, muito amigo da Rose, já fechara a gráfica e se aliara ao nosso motim etílico? Não sei.
Lá pelas tantas, Rose sugeriu que fôssemos encerrar a beberagem em sua casa, para lá prosseguirmos o xingatório a fardados de toda estirpe e espécie. Dali a pouco a Galeria seria mesmo fechada e a continuação da noite deveria ser mesmo em outro pouso.
Decidimos pela sugestão da Rose. Tomamos um táxi, atravessamos o túnel da Lagoinha. Ao sairmos do túnel, lá estava estacionado o temível e sinistro Carro Chocolate do Dops.
Parecia à nossa espera.
Nosso táxi foi parado. De lá, da noite vasta, da noite intangível, veio lentamente o Alemão com uma carabina já sendo enfiada janela adentro, rumo aos nossos narizes. Pediu os nossos documentos. Recém-chegado do Peru, onde passei todo o ano de 1975, eu havia perdido minha identidade no Bairro Grajaú, possivelmente dentro de outro táxi, e só portava o meu passaporte. Entreguei-o para o Alemão e já me resignara que estava definitivamente ferrado.
Mudos estávamos, mudos ficamos até que o brutamontes, com o seu corpanzil e o seu bigode que parecia retirado de uma espiga de milho, entregou-nos um a um os documentos. Nada disse, nem murmurou nelgas. Só olhou nos meus olhos naquele que imaginei ser o mais longo minuto da minha vida. Devolveu-me o passaporte e nos mandou embora.
Não é preciso dizer que usurpamos todo o uísque da Rose no que restou da noite.
Algum tempo depois, relatei o episódio para o amigo Oswaldo França Jr. na porta do Edifício Maletta. Meu relato, porém, carregava mais para o lado cômico, mas percebi que França ficara preocupado, especialmente quando me referi ao passaporte. Ex-piloto da FAB cassado pela ditadura, ele mantinha boas fontes sobre as ações do aparelho repressivo em Minas. Disse-me que iria se informar melhor.
Numa noitada de algum evento na Casa do Jornalista (hoje renomeada Casa de Jornalistas), França me chamou à varanda. Disse-me: vocês estavam sendo vigiados desde a Galeria do Ouvidor. O araponga também passou o serviço ao Dops de que iríamos para o Bairro Sagrada Família. Mais: eu era muito assemelhado com alguém que vinha sendo procurado pela patifaria do regime. E que fui salvo pelo passaporte, que desfazia a suspeita sobre a minha estampa e figura.
Lembro-me do meu querido amigo às gargalhadas ao observar a minha cara de espanto ou pânico.
Sinto enormes saudades do França. Da sua conversa, da sua risada.
14.10.26
[QUAL TEXTO?]
Observo que as imagens fecundantes que dançam nesse grande enigma que se chama memória, de repente, repentinamente, irrompem em um texto não programado, mas ativado pela luz da tarde, esta que vaza pelas fímbrias de uma cortina em junção com outra cortina.
Sopra com leveza a brisa que vem do Atlântico, mais precisamente da Praia do Buracão, neste bairro soteropolitano do Rio Vermelho. Brisa e luz, como que irmanadas, quase roçam o dorso do gato Dorival em sua modorra imperturbável, pétrea, em estado de imobilidade absoluta.
A memória, como já disse outro dia, poreja sua matéria sem idade, incessantemente. Lembro-me, por exemplo, de quando, ali por 1967, li Sartre em meu quarto de Belo Horizonte, à beira da então estrada de ferro Central do Brasil, com os trens da noite trepidando o modesto conjunto habitacional em que vivíamos minha mãe, meu padrasto, meu irmão caçula e eu.
Creio que o livro era A Náusea.
Vejo igualmente a folhas manuscritas com textos diversos que, preenchidas, eu logo as amarrava com barbante e guardava os pacotinhos no guarda-roupa, sabendo que jamais leria outra vez o que elas continham. Não as li nem mesmo quando, bem mais tarde, revi outra vez os pacotes que minha mãe guardara por anos e anos.
Fiz deles uma fogueira no quintal. E ainda tenho na lembrança o olhar de tristeza que minha mãe dirigiu às chamas, à fumaça que subia em direção à copa de uma mangueira.
Certas lembranças são como que se intrometer nas vísceras de um acontecimento.
Há um sinal textual que chama e convoca. Se é prosa, se é o contrabando de um poema que se camufla entre os gêneros, como no ensaio, se é meramente uma crônica simplória a arrodear o que se passou e a transgredir as noções de passado e presente, não posso saber.
Onde estará o texto que imagino neste momento, alvejado por esses raios que a memória atira sem parcimônia, sem cerimônia, sem solenidade? É bem provável que ele não exista. Mas, ao não existir, ele me seduz.
13.10.26
[JÁ SOMOS SERES FICTÍCIOS]
Se estamos já cada vez mais destinados a escrever para nós mesmos, talvez seja fato normal contarmos para nós mesmos as histórias que acumulamos ao longo da vida. Afinal, o interesse por nossas histórias é cada vez mais raro, para não dizer nulo.
Aquele acontecimento da infância, quando na época do Natal proliferavam as formigas tanajuras pela nossa rua, e as observávamos serem pisadas pelos cascos dos cavalos? Quem, hoje em dia, pode se interessar por uma cena assim? Ninguém. Mesmo que contada com arte e engenho.
Mas confesso que assumir essa conversação com o interlocutor que há em nós pode ser deveras fascinante.
Súbito, salta da memória aquele momento em que Abel matou Jacó de dentro de um jeep, o motorista bem que tentou retirar dele o revólver da mão direita, mas Abel sacou o outro com a mão esquerda e atirou com o jeep em movimento, acertou Jacó na porta de casa. Tiro certeiro, tiro mortal. Por quê? Ora, porque Jacó, no ápice de uma discussão política, deu um tapa no rosto de Abel.
A memoria poreja. Se assemelha ao casco de um animal pré-histórico que vai minando o líquido das histórias sem qualquer filtro ou autocensura.
Vai pela rua o homem chamado Lírio, muito amigo das famílias, trabalhador em vários ofícios. Contava uns 20 e poucos anos. Mas vinha, na surdina, dedicando-se à mulher do irmão, Marco Antônio, mais velho do que ele, mais forte e como ele também muito querido pelas famílias da cidade. Ao descobrir a traição, entrou em briga feroz com Lírio. E Lírio pôs fim à vida de Marco Antônio. A facada.
Sim, a essa altura das contendas, todas as nossas posses estão reduzidas a carrosséis de imagens nos círculos e nas espirais da memória. Sim, repito, e já quase não há quem possa ouvir tais fatos. Um a um, os possíveis e eventuais interlocutores foram partindo desta para o não se sabe.
Nas prateleiras dos desejos, seria uma grande alegria saber a opinião de JMC sobre esses momentos de sinistras paisagens, com o fascismo à rédea solta. Mas JMC, grande estudioso de Proust e entendedor dessa maquinaria incessante a que damos o nome de memória, pois JMC partiu há perto de 15 anos. E não dará mais a graça de suas valiosas opiniões.
"Quem é você?" Assim é a pergunta que martela num repente por um ninguém que nos habita. A resposta: "Ora, eu pertenço às hordas dos poetas velhos".
Sim, hordas. Sem vínculos com as corporações de ofícios, com as turmas da esquina, com o reduto de etílicas voragens em bares e bodegas, e até as mesas familiares estão cada vez menores com a ausência dos que nos antecederam.
Assim, essas derradeiras travessuras de escrever sobre fatos ou acontecimentos que não serão lidos assumem a condição de apetitosos acepipes na boca septuagenária. Sejamos outra vez a criança que, a um canto, esquecida, dialoga com seres imaginários. Apenas com uma diferença no nosso caso: aos olhos de tantos, já somos também a fugidia névoa de seres fictícios.
11.10.26
[SOBRE A EXTINÇÃO DOS BLOGS LITERÁRIOS]
Quase ninguém aparece atualmente neste território, a não ser robôs transcontinentais das IAs e algum visitante ou outro guiado por, talvez, uma eventual pane nos algoritmos.
É aqui, porém, que me sinto mais à vontade, e até espantosamente satisfeito em meio à proliferação das plataformas que as big techs desovam incessantemente para a captura e hipnose das gentes.
Estou aqui desde 2003. Vivenciei a magnifica explosão da blogosfera e acompanhei com deleite e prazer um grande número de blogs. Alguns deles ainda estão na minha lista de links, como o Teatro Anatómico, do meu fraterno Manuel Jorge Marmelo, ou o Mundo Fantasmo, do igualmente amigo Braulio Tavares.
Frequento-os.
E acompanho rotineiramente o que publicam conforme o modo que ainda prevalece na leitura desses blogs sobreviventes: um ritmo próprio, sem o apelo aflitivo das redes, a lentidão como parceira no rolar da tela, talvez o último vínculo digital com o livro impresso.
Mas creio que estamos fadados à extinção. Mais cedo ou mais tarde isto aqui vai desaparecer. Ainda agora quase ninguém em outras plataformas se dá ao trabalho de clicar em um link que o leve a um blog.
O que leem, quando leem e se é que leem, deve estar inteiro diante dos olhos. Clicar em um link é um salto ao desconhecido. E o melhor mesmo é o instantâneo do Instagram, de acordo com a lei do menor esforço.
De todas as maneiras, aqui estarei.
Leu? Louvo. Não leu? Ovas.
Hoje, mais do que nunca, boa parte de nós escreve apenas para o leitor que há em nós. Boa parte de nós, também, já aprendeu a colocar a mesa e não esperar pelos convivas.
Se alguém tocar a campainha, é claro, será recebido com honras. Se prevalecer o silêncio, comeremos as empadinhas só na companhia do gato que, no meu caso, atende pelo nome de Dorival.
10.10.26
[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada.
ó, música sem som
ó, mancha invisível
aqui vou eu: cavaleiro,
na planície, soprei
aqui vou eu: camelo
não venha comigo,
não venha comigo,
nômade, montanhoso
amêndoa no punho.
de john cage
9.10.26
[BRINDES AO FAZER IMAGINANTE]
continuarão sendo escritos,
e os encomendados.
o café estará pronto,
às cinco em ponto,
da valsa será logo às cinco e cinco.
como sempre, trarei ecumênico
sem hectare
nos entroncamentos,
à esquerda. como sempre,
como sempre
aos meus,
das minhas invenções
vicejarei, por onde passo,
e tanto de afetuosidade.
saúdo
os que chegam e os que partem,
dos que torcem
os que me conhecem,
sabem isto
tudo o que faço
anos foi para entrar
prescrevo
que não se infantilizem
e que exerçam
sempre a autocrítica
e reafirmo
otimismo, amigos,
otimismo
pois a mão que faz
que imagina, e a vida, ora,
a vida é o fazer imaginante.]
8.10.26
[HISTÓRIAS LIGADAS PELA NÉVOA]
Paulinho Assunção,
6.10.26
[ALGUÉM PARA ESCREVER AQUELA HISTÓRIA DO COMUM DAS GENTES]
2. [o ex-deputado agamenon procura alguém para escrever sobre um trecho delicado de sua vida, um livro que conte para os filhos, os netos, os sobrinhos, e toda a parentela, a razão de seu fracasso como político.]
3. [o engenheiro valdo teve uma súbita revelação enquanto via subir o vigésimo prédio de sua carreira de construtor, e procura alguém para escrever sobre o mistério de tão repentinamente ter chorado lágrimas torrenciais ao ver o edifício iluminado pela luz da tarde, com nuvens delicadas que iam em algodoais pelo céu cor de alumínio.]
4. [a psicanalista charlotte, franco-brasileira, procura alguém para escrever não a respeito dos casos clínicos em seu consultório, pois sobre esses ela publicou fartamente em trinta e poucos anos de carreira, mas sobre as anotações que fez em suas horas vagas, pequenas tiras de papel com o noticiário cotidiano de um pôr-do-sol, de um pássaro na janela, de uma abelha que passou, de um trinco no azulejo em formato de coração, essas coisas menores, ínfimas, mas que para elas sua destreza para a escrita jamais deu conta.]
5. [a freira josefa, latinista, tradutora de grego, missionária em pelo menos dois países africanos, procura alguém para escrever um livro no qual, anonimamente, ela possa ditar os instantes em que a sua fé, de modo inexplicável, tornou-se tão frágil, tão ameaçada, que ela temeu pelo futuro de sua entrega religiosa, entrega tão admirada pelas superioras da congregação.]
6. [diante de tantos desejos assim espraiados e acumulados, os ghost-writers da cidade, em fila, já afilam os seus lápis.]
[O GHOST-WRITER]
A conversa foi por telefone. Pelo tom da voz, percebi que o assunto era grave. O Senhor Lamberto vinha à minha tenda por sugestões de um ex-deputado para quem eu dera andaimes e alvenaria, rejuntes e pintura em um livro de memórias. Contente com o resultado produzido pelas minhas ferramentas, o ex-deputado de quando em quando agia de bom grado como propagandista dos meus serviços.
Esses anúncios gratuitos de boca em boca chegaram por fim aos ouvidos do Senhor Lamberto em hora mais do que apropriada de sua vida de viúvo. Muitas tentativas ele fizera de próprio punho para conceber a tal missiva. As ideias, porém, andavam em desgovernado tumulto em sua cabeça. Não se ligavam em fios de coerência. Turvavam-se em borrões pelos parágrafos, e a clareza, imperativa para o tema, sofria apagões constrangedores.
O Senhor Lamberto exigiu sigilo absoluto durante todos os capítulos de nossas tratativas: do valor que eu cobraria pela tarefa, à identidade da pessoa em quem suas palavras deveriam produzir o efeito "de um campo de girassóis como aquele do Van Gogh", assim ele disse com ênfase quase musical. Deduzi que ele poderia estar na faixa dos 80 anos. A voz era rouquenha, mas emitia-se por uma tessitura ainda vigorosa, de barítono, com pausas retóricas e reticenciais de quem já falara em público.
Ao cabo de uma semana de idas e vindas, de acertos e erros, demos por finalizada a incumbência. Foram incontáveis leituras ao telefone do texto a caminho. Se de próprio punho o Senhor Lamberto esbarrava no enxame enlouquecido das palavras à sua volta, pelo telefone ele indicava com precisão o que entraria ou não entraria na carta, se tal vocábulo era impróprio ou inadequado aos olhos de quem o leria, se estava fora de moda ou não o tratamento a ser dado ao arremate.
Quando fui entregar o texto impresso ao Senhor Lamberto para que ele, aí, sim, fizesse a cópia manuscrita, e a remetesse ao seu destino, estranhei o silêncio em seu apartamento. Em vão, acionei o interfone do pequeno prédio de três andares em uma rua íngreme do bairro X. O funeral havia sido no dia anterior, conforme soube pelo porteiro de nome Tibério.
Trouxe de volta a carta. Tenho-a comigo, em uma pasta, como um objeto incômodo. Não sei o que fazer com essas duas laudas de palavras comovidas e igualmente tempestuosas que o Senhor Lamberto avalizou como se palavras de sua própria lavra. Não é preciso dizer que a carta é uma carta de amor. Destinada à Senhora Adelaide.
4.10.26
[AQUELE CONTO QUE O GATO ROUBOU DO LIXO DE CORTÁZAR]
[um mosquito. aparentemente morto. um bilhete. só uma palavra: "adeus". um ovo. colheres. cinco colheres. chaves. mais chaves. ferrugem. outro bilhete. só duas palavras: "muito quebrado". dois pães. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. nuvens. ninguém na avenida.]
[um caderno. há marca de sangue no canto superior esquerdo. uma xícara. um volume de poemas ingleses. cartão-postal: londres. outro cartal-postal: porto de buenos aires. marcas de dedo no vidro. a bailarina. a bailarina sentada na cadeira de vime. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. só nuvens. dois homens na avenida]
[um xale. um cachecol. um revólver ao lado de um frasco de perfume. sirenes. richard wagner, as valquírias, baixo, baixo, baixinho. só a bailarina ouve wagner. o professor. a porta. o professor junto à porta. o professor. seu casaco. o livro do professor posto ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. a bailarina: modorra. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. nuvens, nuvens, nuvens. avenida deserta.]
[dois dias depois. anotações ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. única palavra legível: "adeus". a bailarina no alto do teto, asas abertas, revoos pela sala. o professor rasteja. a pele é áspera, de crocodilo. rabo descomunal do professor-crocodilo que desliza pela sala. a bailarina voa. o professor-crocodilo rasteja. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. céu sem nuvens. as famílias vão ao circo.]
3.10.26
[LULA: A HUMANIDADE QUE NOS RESTA]
[foto de Ricardo Stuckert]
[lula tem oitenta anos.
anda de cabeça erguida e jamais verga a espinha.
nem abaixa os olhos.
nem teme.
nem medra.
batem nele.
a cada minuto um energúmeno sai das trevas para dar a lula a morte em efígie.
lula cai e se ergue.
e segue.
segue pelo coração da história.
segue como segue um peregrino pelo deserto.
já tiraram tudo dele.
tiraram dele a voz, tiraram dele o sol e a chuva, tiraram dele as manhãs do país que ele ama como ninguém.
lula, destituído de tudo pelas garras dos zumbis descerebrados, se levanta sempre.
mais uma vez é visto nas ruas, nas praças, no cinema dos olhos de sua gente também sem medo.
sim, o medo tem medo dele.
o medo pálido do mercado e dos rentistas.
o medo tísico dos banqueiros.
o medo e o pânico dos jornalistas que venderam a alma por trinta dinheiros, o medo dos juízes mancomunados com os barões do capital.
a idiotia que viceja qual lodo, qual fungo, tem vertigens de medo de lula, esse velhote de doçura infinita com as gentes sem medo deste país.
os carolas que se armam com deus e fuzis não dormem devido ao incomensurável medo do velhote.
o olhar psicótico de marco rubio, a bufa opereta de trump, o marionetismo do clã miliciano.
todos temem o velhote, o doce e terno velhote, o épico velhote, símbolo da humanidade que ainda nos resta e que está outra vez nas ruas pelo seu país, pelo nosso país.]
[BRENDA WOLF]
Nós, os que éramos despossuídos de espanto, ficávamos na varanda. Não acreditávamos em terremotos naquele trecho do mundo. No entanto, esperávamos: pela chuva, pelas cartas, pelo vendedor de tijolos ou pela banda de música. Brenda Wolf não nos dirigia a palavra. A varanda era um país, a cozinha era outro.
Sabem os que andam sem esperança que as gotas de uma torneira soam badalos de melancolia. Encolhíamos os nossos corpos sob as mantas, puxávamos os chapéus sobre os olhos, só concedíamos às vezes a emissão de uma vogal soturna. Vínhamos de muito longe. E é bem provável que não tivéssemos um destino.
E Brenda Wolf sonhava com os terremotos. Os pés fora das sandálias, os tornozelos rijos, os cotovelos fincados no tampo da mesa e a trepidação constante, quase galope, quase os tacões de um dançarino de flamenco. Um dia quem sabe um terremoto iria aflorar sob os pés de Brenda Wolf. E o mundo inteiro despenharia pelas gargantas do abismo.]
2.10.26
[A BATALHA DAS LARANJAS]
Entre 3 e 4 da manhã, veio o sonho. E o sonho era a reprodução de uma batalha das laranjas tal e qual a famosa Batalha das Laranjas em Ivrea, lá no Piemonte.
Apalpei a faces a fim de notar qualquer sinal cítrico como resultado de tamanha e descomunal batalha.
Nada feito.
Minhas faces estavam limpas como o céu que se avizinhava sobre a Bahia de Todos os Santos.
[OS TROMBONES DA RUA ANFIBÓLIOS]
um cortázar de touca sobe a ladeira mínima da rua anfibólios. sobe e para, absorto, porque é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.
sou aquele que veio de longe, diz o cortázar de touca. cigarro aceso, cigarro apagado, assovio fino, assovio grosso, as alegrias polpudas e em cachos dos sons dos trombones da rua anfibólios.
aquelas moças que incendeiam as bandeiras, aquelas moças derrubadoras de muros. é madrugada, já soam os trombones da rua anfibólios, e as moças insubmissas ateiam fogo na cidade.
sou aquele que veio de longe, repete o cortázar de touca. em síncopes, os trombones da rua anfibólios acompanham os passos do andré de sapato novo.
o choro. o chorinho. a luz do poste. o beijo carmim. o jaguar da noite. a navalha. o chapéu borsalino. pixinguinhas que vão, pixinguinhas que vêm. é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.
a poesia não é. a poesia é o que não é. carotes de vinho amargo em prateleiras abandonadas. o sal corrói as paredes. o pai mostra ao filho a bala em um círculo a lápis na parede. tudo é adusto, tudo é sanguíneo. mas é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.
o cortázar de touca e as moças derrubadoras de muros agora em colóquio na ladeira mínima da rua anfibólios. a revolução chegará como se um gás, como se um som, como se uma chispa-faísca. os idiotas não passarão. é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.]
[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]
[Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.]
[Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.]
[Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.]
[Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano antes que a soja e a cenoura tomassem o lugar das lobeiras, das gabirobas, do caju miúdo, e o cerrado perdesse de vez aquela tortuosidade barroca vegetal para os campos monótonos das plantations.]
[Pus os pés na Praça Sete naquele princípio de tarde e fui levado ao Café Pérola. Reluzia o aço inoxidável da máquina atrás do balcão. E da torneira jorrava aos copos o ouro da beberagem com direito a gominhos flutuantes de laranja na flor das bordas. Chamei de poesia aquele instante, e trouxe pelos anos afora essa lembrança humilde, pois só a humildade é capaz de definir tão prosaica bebida.]
[De tempos em tempos, quando revisito a Praça Sete, sinto os lampejos epifânicos daquela tarde, daquele mês de março. E a laranjada do Café Pérola, relembrada, desencadeia em mim as alegrias inaugurais da juventude.]
[Como o Ignácio´s, o Café Pérola não existe mais. Do bolinho de feijão merecedor de uma ode em forma de crônica de Paulo Mendes Campos, restou a paisagem oleosa de certos espécimes muito esquisitos em balcões do centro da cidade. E a laranjada, bom, ela é agora o pó industrial a ser diluído em águas turvas.]
[E SE WANDER PIROLI PASSASSE?]
[eis a praça do peixe com o linguado de plástico a se equilibrar numa vara ao tempo, para lá é o norte, para acolá é oeste, se vai morrer, sobe a rua bonfim, se vai viver, siga a via para o carlos prates.]
[futurismos tardios na rua bonfim.]
[vende-se gelo.]
[vivo está, sonolento talvez, o guarda vem para o diagnóstico: "é o altair", alguém diz.]
[e se passasse agora o piroli a caminho da praça vaz de melo?]
[piroli não passa e o anjo não cai.]
[são matinais os olhos nos arrabaldes de belo horizonte.]
[a sofreguidão na pele da cidade, a curva do viaduto onde dorme um cachorro.]
[e se o piroli passasse agora a caminho da praça vaz de melo?]
[de pé, altair retoma o seu calvário.]
[o brasil inteiro se esfarela em pão e mofo na rua paquequer.]
[valsa a valsa do imperador.]
[quão tristes são as alegrias nas gengivas nuas de altair.]
1.10.26
[E ENTÃO COMEÇOU O DIA]
Sentou-se no canto do bar, a dois ou três metros dele. Olharam-se uma ou duas vezes. Notou que ela possuía lábios enormes. Sua blusa era azul e os cabelos negros. Aos poucos, ela se aproximava dele, ela ia arrastando a cadeira, mais e mais um pouco. Por fim, estavam juntos e se beijaram muito de leve, apenas roçando os lábios.
Nada mais desta cena foi lembrado ao amanhecer. Apenas um rato branco, pelado, correu pelo assoalho e ficou de barriga para cima à espera de um carinho.
A visão desse rato provocou asco. O rato esfumou-se, sumiu, desapareceu da cena.
Nenhuma outra cena foi lembrada ao amanhecer.
Ele levantou-se, acariciou o gato à beira da cama, foi à cozinha com o frasco de medicamento e então começou o seu dia.
30.9.26
[ORA (DIREIS), LAVAR PALAVRAS]
ora (direis), ensaboá-las, quarar
as pobres em cima de pedra, depois
enxaguá-las e torcê-las,
anáguas silábicas tão alvas
como se quisessem aparência-hóstia.
ou quisessem condição carola, palavras
de sacristia, o tablete de anil
para torná-las puras, virginais
senhoras ou frases em conserva.
pois que deixem nelas a crosta
do sol ou da chuva, deixem a capa
de lodo-fungo em suas escamas,
― acúmulo de bocas que as disseram,
acúmulo de dedos que as escreveram.]
29.9.26
[SEU GOSTO]
[seu gosto? agora percebo.
ou intuo. seu gosto é estranho
como uma guarânia tocada
na birmânia. este poema
que lhe caiu tanto ao gosto:
vôte. lembra uma camisa
volta ao mundo com manchas
sua predileção pelo raso e o plano
é de endoidecer saxofone.
que pepita de araque o seu gosto
viu nesses versinhos de ambrosia?
tudo é previsível no seu gosto:
ritmo manco, imagética turva,
léxico de arame, sintaxe de minhoca.
seu gosto? é um tatu na toca.]
[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]
26.9.26
[PONHO TUDO NO POEMA]
[ponho tudo no poema: laranjas,
alfinetes, pontos de açafrão
para o dourado espetacular,
cartas para amigos distantes
que ficaram mudos faz tempo
e não sei se responderão
a essas cartas que começam
sempre assim: olá, camarada.
sim, ponho tudo no poema:
armadilhas inoperantes, lenços
azuis, gravetos de falecidas
árvores que o tempo não poupou
e que agora se esfarelam em podre
no parque que já não é parque,
mas um descampado triste.
ponho tudo no poema: até
o que não existe, até o que
existe mas finge que não existe,
ponho tudo, logo cedo,
logo ainda escuro eu recolho
o que irá para o poema:
pedaços de um sonho feliz,
pedaços de um sonho
que sonhei com o meu país,
e que no sonho era tratado
no diminutivo, pois no sonho
meu país era muito frágil.
ponho tudo no poema: é
o meu modo de propalar
nessas esquinas que, sim,
não devemos desistir da vida.]
[O CRIME FOI EM JULHO]
Meu pai começou a morrer pelos pés.
Minha mãe disse: os pés dele estão cada vez mais brancos.
E então ele morreu inteiramente.]
[PEQUENA HISTÓRIA DE RAIOS]
[o motorista do gmc marítimo contou um dia para o menino que os raios desciam pelo cabo em dias de tempestade. a cada raio que caía o cabo dava chicotadas, se contorcia, ficava vermelho e em brasa. a gente podia sentir o cheiro de queimado.]
[depois que ouviu isto, o menino passava horas observando o cabo. imaginava a tempestade. imaginava os trovões e os relâmpagos. imaginava o que o velho motorista chamava de "hora do capeta".]
[a irmã do meio gritava em dias de chuva. a irmã do meio nunca se livrou do medo daqueles dias de chuva. e quando chovia, o menino ficava na copa, diante da escadaria, pois ali, do lado de fora, a "hora do capeta" fazia o cabo de aço dar chicotadas.]
[o menino era um menino triste. dava para pegar a tristeza desse menino na palma da mão. só algumas coisas tiravam essa tristeza do menino. uma delas era o ronco que dava o motor do gmc marítimo. o gmc marítimo era um caminhão enorme. e era azul. levava cimento para a construção de brasília.]
[um homem da udn um dia matou um homem do psd. e então um homem do psd matou outro homem da udn. e então eles se mataram durante mais de um ano até que o governador enviou um delegado para acabar com a matança.]
[o gmc marítimo um dia levou cimento para a construção de brasília e não voltou mais. nunca ninguém mais soube do gmc marítimo. nem do motorista. o pai do menino, que era dono do caminhão, ficou também triste, e a sua tristeza também dava para pegar na palma da mão.]
[vinham as tempestades e o cabo de aço chicoteava pela parede abaixo. depois abria o sol e as tanajuras apareciam. o menino gostava de pisar na bunda das tanajuras. aquela gosma amarelada. aquela banha.]
[de vez em quando o menino pensava no gmc marítimo. depois pensou menos. até que não pensou mais.]
[a tristeza de pegar na palma da mão parecia uma bolota que grudava nos dedos. o pai ficava na poltrona com a sua bolota que escorria até o assoalho. a bolota escorria e ele ouvia o carlos gardel na vitrola.]
[o menino, mais alguns anos passados, foi para são paulo. cruzou o chapadão em um ônibus também azul. o ônibus ia muito lento pelo chapadão afora. o ônibus demorava demais para furar o horizonte. demorava demais para desaparecer lá onde a vista turva e os olhos não veem. demorava demais para alcançar o relâmpago mais distante.]





















