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7.3.26

[PARA SALVAR A EXUBERÂNCIA]

[era preciso salvar a exuberância de certos martírios que a vitimavam e entristeciam.] 

[a exuberância: da pedra, do mar, do cesto ao sol, do peixe, do camelo na solidão do deserto, da mulher que nutria o espanto diante da janela matinal.] 

[os martírios que vitimavam a exuberância eram, por exemplo, os ventos cruzados.] 

[os ventos que trazem em seu interior revolutivo o desnorteio, a incongruência de rumos, o escoiceamento dos potros.] 

[ao descerem sobre a exuberância, esses ventos cruzados submetiam a exuberância ao martírio de fenecer e murchar.] 

[por isso, era preciso salvar a exuberância.] 

[então os velhos se reuniam à tarde e emitiam palavras redondas para anteparo à ação dos ventos cruzados sobre a exuberância.] 

[os velhos eram muito velhos.] 

[aquelas mãos já quase adobe.] 

[aqueles olhos já minerais.] 

[e aquela calma dos grandes guerreiros sem armas e sem ódios.] 

[era quase um tratado sobre o equilíbrio do mundo.] 

[era quase um louvor aos engenhos da paciência.] 

[tudo para salvar a exuberância dos martírios que a vitimavam e entristeciam.]

6.3.26

[SERRA DA SAUDADE]

[entre o lado de cá 
de mim e o lado 
acolá de mim, 
existe a serra da saudade. 

no meio do caminho 
não tinha uma pedra, 
tinha a serra da saudade. 

entre o lado cá e o lado acolá, 
o lado aqui 
e o lado lá 
— sempre tinha no meio 
a serra da saudade. 

o lado que começa 
e o lado que termina, 
o lado que vem e o lado 
que vai, uma parte 
de mim fica do lado de lá, 
outra parte de mim 
fica do lado de cá. 

no meio, a serra da saudade. 

são gonçalo do pará, 
araújos, moema, 
serra da saudade. 

eu, eles, você, 
os que se foram 
e os que chegaram, 
serra da saudade. 

o menino, o rapaz, 
o homem, 
serra da saudade. 

no meio do meu caminho 
tinha uma serra da saudade. 

o navio no porto 
estava do lado de lá 
da serra da saudade. 

o expresso 2222 
estava do lado de lá 
da serra da saudade. 

pasárgada 
estava do lado de lá 
da serra da saudade. 

outubro 
estava do lado de lá 
da serra da saudade. 

botas de sete léguas 
para a travessia 
da serra da saudade. 

carabinas para a travessia 
da serra da saudade. 

asas para a travessia 
da serra da saudade. 

do sertão ao mar, 
tinha a serra da saudade 
— o áspero, 
o duro, o escuro, 
a lâmina, o aço, o cacto, 
o espinho, o horizonte 
do lado de lá 
da serra da saudade.] 

[QUANDO VOCÊ NASCEU, EU JÁ NÃO VIVIA EM CÓRDOBA]

[quando você nasceu, eu já não vivia
em córdoba, isto é, eu tinha feito
já a dobra, tinha virado a esquina
da fronteira, tinha sumido pelas bandas
de entre ríos, e você, poeta agora
em río cuarto ou talvez villa maría,
risonha, esse seu cabelo ruivo, 
seu sobrenome italiano, você ainda
não povoava o mundo, não viu o meu 
tempo de vagabundo, era mil novecentos
e setenta e três, aquele tempo montonero,
de ferreyra eu ia a pé pela ruta nueve,
aquele meu ser andarilho 
com duas rosas rojas em cada mão 
para viviana, que era de rafaela, santa fé,
mas morava na calle caseros.]

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

5.3.26

[LIVROS E AUTORES ESQUECIDOS]

Em algum país, em algum continente, em alguma cidade ou vila, em algum ponto ermo nos mapas, neste momento há alguém que lê um autor ou um livro esquecido. Autores como Gerko, O Caolho; como Vicêncio Dures e Merla Vercize, e livros, por exemplo, como A arte do vapor por entre as árvores, A numerologia no casco das tartarugas ou O mágico que desafiou Lúcifer

Sob a claridade futurista de uma luminária de aço ou sob os trêmulos e imprecisos clarões de uma vela, na sacada de um hotel de Los Angeles ou no tronco de uma árvore em Moçambique, alguém lê um livro ou um autor que o mundo esqueceu, que a lista dos mais vendidos não registrou, que os colunistas não citaram, que a moça não incluiu na roda de amigas das quintas-feiras no Café com Letras ou que jamais tiveram menção nos sabadais encontros da Livraria Quixote.

Misteriosos desígnios fizeram com que esses autores e livros fossem parar nas mãos de alguém pelo planeta afora. Todos os estudiosos do mercado livresco, todos os pomposos analistas de gêneros e tendências, todos os hermeneutas de hábitos e gostos legentes fracassaram. Pois ninguém previu que um autor como Laredo D´Orse, e seu único livro publicado, A gênese de uma borboleta quando começa o duelo, estivessem neste exato momento entre as mãos de Amanda Límere, em um escritório de Valparaíso. 

Ou que os poemas de Marla Êmure, a pobre, melancólica e suburbana poeta de Boston, estejam agora mesmo sendo lidos em voz alta pelo vendedor de instrumentos odontológicos Octávio Holmes, em um pequeno restaurante de Montes Claros. 

Em um casarão demolido em Bogotá, o operário José Ercílio Plaza encontrou nas vésperas de um Natal sem graça e sem posses as crônicas do padre Velasco Dulce, sobre quem jamais se escreveu uma linha sequer nos jornais colombianos. Plaza levou o volume envolto em pó e mofo para o seu quartinho no bairro El Tintal. 

E ali, enquanto a natalina noite transcorria nos aforas daquele miserável bairro da capital, ele leu de ponta a ponta as pequenas historietas do padre, e as releu no dia seguinte, e depois guardou o exemplar datado de 1948 na maleta sob o catre, onde havia um rádio de pilhas, um almanaque de canções mexicanas, uma  foto de Pelé e outra de Sônia Braga, além de uma imagem de Nossa Senhora de Chiquinquirá, padroeira da Colômbia. 

Posso eu mesmo entrar na relação desses leitores agraciados com a súbita aparição de um livro ou de um autor perdido nos confins ou vala comum do esquecimento. 

Eu vinha de Mar de Espanha em uma noite sem lua, de céu muito baixo, até que o aguaceiro em desgoverno desabou sobre o carro já perto de Juiz de Fora. 

Paramos, o fotógrafo e eu. Por essa época, eu era repórter de um jornal de São Paulo metido a besta. Choviam as águas ferozes da Zona da Mata e era preciso esperar que o aguaceiro desse alguma trégua. Pedimos uma cerveja, comemos dois pastéis. Na hora de seguir viagem, vi o volume sobre a mesa ao lado. Sujo, amarfanhado, triste. Li o título: O livreiro de Pernambuco. O autor: Caio Túlio Montecorvo. 

27.2.26

[O VELHO POETA DA LANCHONETE NACIONAL]


[Havia na Rua Goiás, com uma porta que dava para a praça Alberto Deodato, quase esquina com Rua da Bahia, um estabelecimento chamado Lanchonete Nacional.]

[Pelo estilo, era remanescente de uma Belo Horizonte ainda com aura que vinha lá do Bar do Ponto, lá do modernismo mineiro, lá das empadinhas e dos bolinhos de feijão.] 

[Na praça, mínima praça, havia também o Cine Metrópole, em local da antiga casa de ópera dos tempos dos tenores, contraltos e arrebóis. E cheiro de manacás. Mesma praça onde hoje pontificam as figuras em bronze de Drummond e Pedro Nava.]

[Às cinco em ponto da tarde (como no poema de García Lorca), o poeta, já idoso naquela metade da década de 1970, sentou-se em uma mesinha central, encostado em uma pilastra com espelhos, bem próxima do balcão. Pediu um copo de leite frio e um misto quente.]

[Longos bigodes possuía esse poeta já muito cansado, adoentado, um tanto melancólico.]

[Exibia vistosos olhos cor de argila, aquela argila verdete, enquanto olhava lentamente para um lado e outro naquele momento em que a Lanchonete Nacional estava praticamente vazia.]

[O poeta pensava em Goethe e na Elegia de Marienbad, poema que o autor do Fausto começou a escrever em 5 de setembro de 1823 sob o clima devastador da paixão não correspondida por Ulrike von Levetzow, de 17 anos. Goethe, à época, tinha 73.]

[De resto, é uma história conhecida.]

[Mas o poeta, com o seu lanche de final da tarde, parecia tomado pela cena de Goethe na sua viagem de volta para Weimar, compondo a primeira versão do poema.]

[Lá como cá, na estrada para Weimar e em Belo Horizonte, sincronizava-se a melancolia de um e outro por meio de um acontecimento com algum grau de semelhança nos descaminhos entre velhice e juventude.]

[Um pouco mais tarde, já no princípio da noite, o poeta levantou-se e desapareceu minúsculo pela Rua da Bahia afora.]

[Quero crer, porém, que foi ali, naquela mesa e naquele instante de um final de tarde na cidade de Belo Horizonte, que outra elegia com tema similar à Elegia de Marienbad começou a nascer, e cujo título, se não me falha a memória, aludia ao nome de Diamantina.]

[VOCÊ NEM SABE O QUE LHE CAI DA NOITE]

[assim com a mão em côncavo,
mas não em súplica, aparo as gotas
que da noite caem. não sei se água, 
não sei se luz, não sei se estrela 
ou qualquer luzeiro líquido, só
sei que aparo essas gotas, são quase
sílabas ou quase letras, pois,
ao ter plena a mão que as recebe,
sinto a indisfarçável presença do poema.]

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]

26.2.26

[INVOCAÇÃO À DEUSA DA ESCRITA]

[que não me conceda a escrita fácil, ligeira ou preguiçosa, a que não seja proveniente do trabalho, unicamente do trabalho, trabalho contínuo, incansável, diuturno e noturno, na ourivesaria das palavras.]

[que não me deixe cair nos círculos viciosos e enganadores da inspiração.]

[afaste-me das palavras gastas, palavras acostumadas às frases do senso comum, palavras deterioradas pelo uso negligente e efêmero, palavras clivadas entre intenção e ato.]

[conceda-me o verbo novo, sempre novo, como as manhãs de cada dia novo.]

[conceda-me o acesso ao reino das palavras inventadas, brincantes, palavras que o povo constrói de janela a janela, de rua a rua, na vida comunal dos bairros.]

[se poema, que ele rebrilhe ao sol como se lâmina afiada.]

[se conto, que ele provoque espanto, encantamento, e dê aos leitores o súbito e benéfico terremoto da vida em movimento.]

[se ensaio, que ele possua a amêndoa do conceito desencadeador de mundos inaugurais para a vida dos homens.]

[conceda-me estradas e desvios que não me levem à ira, ao ódio, nem deixe que as palavras que me ocorram estejam contaminadas pelo belicismo destruidor.]

[não deixe que o espaço territorial da folha em branco seja assemelhado a campos de treinamento dos senhores da guerra.]

[conceda-me a leveza, conceda-me a delicadeza, conceda-me a elegância como bússola estética e estrela-guia.]

[não me deixe cair nas armadilhas do preconceito estético, poético, filosófico, político ou ideológico.]

[conceda-me a alegria permanente diante da folha em branco e a subversão constante dos tempos verbais.]

[não deixe que as minhas palavras estejam subnutridas de música.]

[ilumine-me às obras do passado e faça o meu coração se abrir às obras do presente.]

[não deixe que a palavra trabalhador esteja separada e dissociada do ato de escrever.]

[e que este seu modesto servidor, paulinho assunção chamado, um pobre homem das beiras do córrego da confusão, não se submeta à ordem dos tecnicismos estéreis, predadores, anti-humanistas e inimigos da criação e dos inventos.]

25.2.26

[ENCONTRO DE LEIBNIZ E SPINOZA EM HAIA]


[Senhor Glous, vocacionado às pesquisas inusitadas, bizarras e até mesmo inúteis, conta-me do encontro que o Senhor Gottfried Wilhelm Leibniz teve com o Senhor Baruch de Spinoza entre os dias 18 e 20 de novembro de 1676, em Haia.

Conforme pesquisou Glous, o Senhor Leibniz se achava em missão diplomática na região e achou por bem visitar Spinoza, já bastante doente, e que morreria meses depois, em fevereiro de 1677.


Antes, por ter chegado aos Países Baixos em outubro, Leibniz visitou intelectuais como o matemático e físico Huygens, o comerciante de tecidos e construtor de microscópios van Leeuwenhoek, que associou microorganismos à produção de alimentos fermentados, e também o físico e médico Ehrenfried Walther von Tschirnhaus. E então dirigiu-se a Haia para conhecer Spinoza, de quem já lera o Tratado Teológico-Político (1670) e com quem já trocara correspondência indireta.


Por dois ou três dias, salvo erro, salvo engano, os dois filósofos conversaram com gosto e verbo sobre a natureza de Deus e da substância, sobre liberdade e necessidade, sobre a relação entre corpo e alma, e, claro, sobre a obra inédita de Spinoza, a Ética, que Leibniz leu em manuscrito.


Conforme a principal fonte desse encontro, Christoph Hermann von Wolff, Leibniz ficou impressionadíssimo, mas também intrigado, com a pulga atrás da orelha: viu ali a força lógica do sistema de Spinoza, mas igualmente avistou certo perigo, pois implicava, segundo ele, uma forma de panteísmo (Deus = Natureza), o que julgava incompatível com a teologia cristã.


O bate-papo entre os dois também foi relatado pelo próprio Leibniz em um texto que se encontra conservado em Hannover.


Ao partir, Leibniz levou na bagagem um exemplar manuscrito da Ética, exemplar que ainda existe com suas próprias anotações à margem.


"Sabe-se que esse colóquio entre os dois filósofos foi um marco, pois foi daí que Leibniz, como se em um contraponto a Spinoza, criou a filosofia das mônadas e da harmonia preestabelecida", diz exultante o Senhor Glous, escandindo cada palavra de sua revivência daqueles dias.


Enquanto caminha pela tarde em Salvador, na Rua Conselheiro Pedro Luiz,  e até mesmo transborda os olhos de emoção pelo relato desses acontecimentos, Senhor Glous saúda os passantes do bairro do Rio Vermelho, como se ele próprio tivesse feito parte do famoso encontro de Haia.]

23.2.26

[SIGNOR FRAGOLINO E A SUA BICICLETA]


Meu filho contou-me a história, que teria sido assim: 


Que Signor Fragolino, com as mãos já trêmulas, abriu um pouco a cortina da sala naquela manhã de fevereiro e percebeu que o tempo, pouco a pouco, melhorava em sua querida Ravenna. As nuvens já não estavam tão pesadas e escuras como na semana anterior, e o sol, mesmo tímido, iluminava em rebrilhos os telhados do centro velho. O termômetro marcava 13 graus.


Muito devagar, frágil e arrastando as pantufas, Signor Fragolino aproximou-se da mesa da cozinha. Ali, pelas mãos afetuosas e sexagenárias da sobrinha Alda, já o esperavam sobre a toalha vermelha de bolinhas brancas o caneco de café, as fatias de pão, o pote de manteiga Galbani e o prato com o queijo Squacquerone. Signor Fragolino havia completado exatos 115 anos no final de janeiro e vivia apenas com a Signora Alda, viúva de outro combatente histórico da Resistência Italiana na região de Ravenna, o Signor Gildo.


Aquele era um dia especial na longa e aventurosa vida do Signor Fragolino. Especial e doloroso, dada a decisão que tomara com grande e sofrido esforço alguns dias atrás: vender a sua amada Bianca, a bicicleta que lhe servira desde os anos 1940 quando juntou-se à 28ª Brigada Garibaldi, liderada por Arrigo Boldrini, o famoso Bulow, como era o seu codinome, no combate ao nazifascismo. 


Ali na cozinha, curvado sobre a mesa, Signor Fragolino fechava os olhinhos castanhos e tentava reviver as suas peripécias junto com os demais partigiani por toda a Emilia-Romagna, mas, especialmente, a partir da Isola degli Spinaroni, uma ilha existente lá pelas lagoas ao norte de Ravenna, que servia tanto como refúgio quanto centro de comando da luta antifascista.


Signor Fragolino terminou o café e olhou demoradamente para a sobrinha Alda. Com ajuda dela, iria daí a pouco à loja Il Baule dei Ricordi, onde o dono, Signor Alberto, prometera receber Bianca para revenda com única condição e exigência: que o comprador da bicicleta cuidasse dela com o mesmo zelo com que fora cuidada desde quando, no vigor da idade e destemido combatente, cantara Bella Ciao pilotando Bianca pelas trilhas mais secretas do norte da cidade.


Agasalhado com o velho capote e com a boina vermelha antifascista, o pescocinho protegido pelo cachecol de lã que a mulher, Signora Natalia, tecera por noites e noites de inverno antes de falecer aos 84 anos, lá foram pelas ruas de Ravenna o Signor Fragolino, a Signora Alda e a velha Bianca. A bicicleta era levada como se fosse uma criança: cada um, carinhosamente, segurava uma das pontas do guidão. 


Ao avistar a loja, Signor Fragolino suspirou e puxou lentamente o lencinho vermelho do bolso do capote. Suspirou outra vez  e enxugou uma lágrima. De lá, Signor Alberto, com os seus bigodões negros, acenou com o estardalhaço de sempre, famoso entre os moradores de Ravenna. Mas aquele aceno, em tudo amigável, doeu ainda mais no coração do Signore Fragolino. É que terminava ali a sua história com Bianca. 


Pouco depois, cantarolando Bella Ciao baixinho em louvor aos tempos históricos e heroicos, ele voltou para casa amparado pela sobrinha Alda. Morreu no dia seguinte, com 115 anos e quinze dias.


Menos de um mês depois, a bicicleta Bianca encontrou um novo dono à altura da exigência assinalada pelo Signor Fragolino: Tomás, francês de nascimento, mas internacionalista com porções brasileiras, mexicanas e italianas, comprou a velha Bianca e se deixou guiar por ela pelas ruas seculares de Ravenna: livre, sem rumo, deliciosamente sem rumo como um travesso passarinho.


21.2.26

[FUTURO-TE?]


[poesia? futuro-te? ou ilógico
ontem-te, lá antes, antes 
de antes, tal se fosse hoje-te?

lances de tempo delirante 
dar à poesia, ao mesmo tempo,
ontem-te, hoje-te e futuro-te?

em paz deixo-a galante no livro
dos livros em verbetes, assanho-
me em gozo de procurá-la

e achá-la em qualquer tempo
de depois ou de antes, melhor
sempre querê-la continuamente.]

20.2.26

[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]

[filio-me a uma escola literária
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores 
e arbustos do cerrado, essa paisagem 
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.

foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água 
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase, 
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.

dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim 
com o seu cajado,
porque os tropeços são comuns
nesse tipo de latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]

18.2.26

[QUANDO PENSO EM POEMA]

[quando penso em poema, penso rua.
melhor: penso janela ou abertura, vãos

largos por onde o olhar (ou o ser) acede,
olhos como se mãos em dádivas, dáveis.

mas penso sobretudo em dia quando vem
a ideia de poema. o dia igual a casa, o dia

onde habitamos e onde vivemos, tal e qual
no poema de philip larkin. dia concerto

em céu aberto, do sol que brota ao claro
que se recolhe quando enfim se dá a noite.

o dia é todo um universo que se repete
a cada dia, mote e glosa sempre diferentes.

nele o grilo, nele o urso, nele o cavalo, tudo
súmula de um em outro, cisco no bico

dos sapatos, paletó puído de um homem
desesperançado, faca com um grito dentro.]

[GERMINAR]

[grão. um grão e outro grão. 
o milagre dos grãos. 
lançados, 
atirados, caídos. 
vazados por entre os dedos. 
saltados das espigas. 
levados pelo vento, 
ao vento. 
quase vocábulos. 
quase letras. frações 
germinativas e germinantes. 
e o campo. a pedra. 
os pedregulhos. 
e os homens. 
uns e outros. 
os muitos e os poucos. 
e a cidade. 
e então as ruas. 
e então as casas. 
e as mesas. 
e as bocas. os corpos 
e as camas. 
os líquidos e as mãos. 
e o tempo. 
os dias e as noites. 
migalhas e resíduos. 
o cisco e o meteoro. 
o giro. a dança. 
os campos magnéticos. 
as erupções, as intempéries. 
essa vida potente 
e coreográfica 
à qual 
podemos chamar de esperança.]

17.2.26

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

[ÓPERA EM SILÊNCIO]

[na redonda noite, 
os cavalos
azuis. a lesma. 
os vidrilhos
da luz. o calmo 
antúrio e a nobre
avenca. 

e os cartógrafos. 
seus mapas
por onde a chama 
da vela diz:
"eis o país de lá", 
"eis as cidades
que flutuam 
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu. 
a espada.

há o baú 
com os papéis tristes.
substantivados abandonos, 
goivas de lacerar 
as saudades, o corpo
em seu litígio perene 
pois potro
sem doma, sem rédeas. 

o corpo ágrafo 
destituído de palavras.
o corpo em selvageria 
úmida. a casa. o lodo. 
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham 
com suas tochas incendiárias.

tudo é calma sobre o fio 
da lâmina. ela agora dorme. 
a nudez exposta.
o lago que se formou 
junto à cama.

lá fora, os cavalos azuis. 
lá fora a madrugada 
pendente, pêndulo 
das noites baixas, 
rentes ao chão.
as noites rastejantes, 
tapete em trevas.

e os apitos. 
ao largo as barcaças, 
os marinheiros 
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos, 
as velas piratas.

e a trempe. 
as brasas dormidas. 
hora de macerar as ervas, 
hora de chamar assim o dia: 
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares 
no pescoço. o dia 
com os seus cavalos 
vermelhos.]

16.2.26

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

24.1.26

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, 
sua sombra.

seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira 
ao vento.

tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, 
seu murmúrio.

sua aorta está vazia. 

sua horta, 
sua praga.

tudo está vazio.

o livro que você lê 
está vazio.

letreiros da imensa avenida, 
edifícios 
da grande cidade.

tudo está vazio.

seu lápis não tem grafite, 
sua caneta 
não tem tinta.

tudo está vazio.

seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, 
seu gesto 
performático.

tudo está vazio.

seus dedos, seu teclado, 
sua memória.

seu chip está vazio.
 
sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa 
de valores.

tudo está vazio.

seu monólogo em rede, 
seu seguidor 
e seu seguido.

tudo está vazio.

sua metáfora, sua curva 
figurativa, 
suas volutas significantes.

tudo está vazio.

mas o poema, rebelde, 
nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão 
submissa, 
o poema, sol a pino, 
cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]

17.1.26

[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio. 

Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas. 

Coisas que eclodiam.

Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância. 

Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera.

Sentiu-se bem. 

Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo. 

Apenas sentiu-se bem, como se uma alegria esvoaçante, de asas vivazes e ágeis, tocasse diariamente a sua porta. 

Recebia essa visitante. Oferecia-lhe a sala. Deixava que essa alegria alada pousasse no escritório ao lado de caixinhas de madrepérola, minúsculas latas, objetos dispostos em uma gramática lúdica.

A infância, por obra e graça da prescrição diária, então renascia nesses labirintos de objetos que a idade foi acumulando entre cadernos, livros, lápis, retratos, flâmulas e recortes. 

Retornavam folguedos, travessuras, espantos, cheiro de terra.

E uma vontade desmesurada de música passou a predominar em seus dias. Tanto que, muitas vezes, sob os olhares interrogantes da família, ele cantarolava feito um doidinho manso.]

4.1.26

[O FIO E O TIGRE AZUL]

[era só um fio. 
começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais. 
era só um fio

na paisagem que a cidade 
expunha ao ocaso, luzes 
trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres 
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los 
do tigre azul.

o fio único desafiava 
os tratados de filosofia, 
os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio 
que começava na ponta
leste e vinha como se serpente 

até a ponta oeste, e prosseguia, 
mais e mais ele prosseguia, 
um fio desejante 
de não ter jamais um fim
atravessava a cidade 
em seu ocaso triste, 
de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico 
com o tigre azul.]

9.12.25

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, 
mas o saber esvaiu-se, areia 
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, 
água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, 
eu disse, e repito, sabia, 
mas o saber que eu sabia 
em vapor se fez, um outro saber, 
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber 
apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber 
qual estranho, qual bicho 
sem nome. 
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, 
ele vem,
puxamos a cadeira, 
deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, 
solto verbos amigáveis, 
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa 
das que honram 
as amizades, 
isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez 
o destino leve o visitante, 
mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, 
e outra vez
vão ceder o lugar 
para novos saberes chegantes.]

4.12.25

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

[o livro dos presságios, 
aberto em dia errado, anunciava 
o barco para a tarde, a horas tantas, 
entre o dia e a noite, e seria 
um barco iluminado, 
traria tochas na proa, e ele 
embicaria porto adentro, dois
 
marinheiros o conduziriam ao cais, 
ambos cegos, joão 
era o nome de um, jarbas 
era o nome de outro, 
e as cordas e os cordames, 
os nós e os laços dos velames 
penderiam do mastro, 
no convés o resto de peixes, 
a tinta azul que grafava o casco,
 
"ilusões invictas" 
era o nome desse barco 
anunciado para a tarde, 
isto conforme o livro 
dos presságios, livro 
aberto em dia errado, 
pois previa para hoje 
o que de fato seria ontem, 

equívocos de mãos 
no desgoverno de um lapso, 
mas eis que a tarde 
apagava luzes, mas eis 
que a noite abria as portas 
para novo expediente, 
mas eis que a roda 
dos calendários girou 
com o súbito de um vento, 
mas eis que a barra 
tingia-se de um fogo, 

e então viu-se o clarão 
das tochas na proa, 
joão e jarbas acenaram 
suas mãos de sal, 
e o barco de hoje, que era 
o de ontem, entrou no porto.]