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12.4.26

[OS BANIDOS DAS EMENTAS DOS CURSOS DE LETRAS ESTÃO AGORA NO BAR 39]

[os banidos das ementas dos cursos de letras estão agora no bar 39, ali onde degolam-se cotovias.]

[há um cansaço nas horas.]


[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]


[há um cansaço nas horas.]


[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]


[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]


[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]


[por que ainda choram os cavaquinhos?]


[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]


[mangas apodrecem no beco.]


[jakobson não virá hoje.]


[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]


["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]


[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]


[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]


[o bar 39 aderna.]


[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]


[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]


[fala-se turco no recanto sul.]


[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]

[SE É PAPEL, AO PÓ RETORNARÁ]



As dez caixas com a obra inédita do escritor ficaram um largo tempo empilhadas no escritório da Casa Cinza: cadernos, blocos, folhas soltas dentro de pastas, ora manuscritas, ora impressas e encadernadas.


Largo tempo, conforme bem entendem leitores de ficção indomável, pode ser o simbolismo mais apropriado para um ano, dois, três. Etc.

Até quando bateu as botas, o escritor viveu no escritório da Casa Cinza.

Ali chegava às seis da manhã; de lá saía quando os passarinhos e as galinhas se recolhiam ao mutismo da noite.

Quando a Casa Cinza foi vendida, um dos filhos levou as caixas para o sítio.

Quando o sítio foi vendido, um neto do escritor levou as caixas para um depósito que a família ainda possuía no bairro das Laranjeiras Baixas.

Mais um largo tempo as caixas com a obra inédita do escritor ali permaneceram. 

Até que uma das netas, a Corália, que estudava Letras no interior, propôs que a Universidade na capital abrigasse a obra inédita do escritor.

O professor Vanúsio Montes, responsável pela Arquivística Geral das Letras Locais, foi consultado. 

Analisou-se o papelório. 

Duas reuniões foram feitas com a Coordenação Semiótica de Obras Inéditas. 

Chegaram as férias natalinas.

No ano seguinte, outra reunião foi convocada para o veredito.

O professor Vanúsio Montes falou 45 minutos e quatro segundos. 

Todos os membros da Coordenação ouviram a douta explanação do professor.

Ele discorreu sobre a guarda de documentos, e falava em tom de violoncelo, muito solene, e com a aura da autoridade sobre o cocuruto.

Ao final, lavrou a sentença.

As dez caixas com a obra inédita do escritor não possuíam porte para ser integradas à Arquivística Geral das Letras Locais.

Lamentavelmente não atendiam aos apelos da posteridade, ele disse, com o rosto choroso de um poeta que declama um soneto.

Morria ali o intento da neta Corália de ver a obra inédita do avô protegida pela Universidade.

O novo plano diretor do prefeito Alírio Sultão incluía, na página 88, a remodelação urbanística do bairro das Laranjeiras Baixas.

Em outras palavras, casarões como o que abrigava o depósito seriam postos à terra para permitir novos viadutos ao modo de nó borromeano.

Na primeira segunda-feira de um mês de julho, inacreditavelmente quente, uma escavadeira surgiu na manhã e começou o seu trabalho de hecatombe.

Quem passou pelo bairro, certamente viu caixas de papelão entre os dentes da escavadeira.

Junto com carcaças de fogões e geladeiras, roupeiros do tempo da Revolução de 30, virabrequins e pneus, as caixas com a obra inédita do escritor foram descartadas dentro de caçambas. 

Mais tarde, despejadas no aterro sanitário da próspera cidade de Alírio Sultão.

Por um certo tempo, era comum o vento espalhar entre urubus folgazões a letra miúda que o escritor aperfeiçoara com lápis apontados a canivete.

Depois, vocês sabem, tudo aquilo virou pó, pois o que é papel um dia retornará inexoravelmente ao pó.

[QUEM LERIA CONTO TÃO BREVÍSSIMO?]

[O conto era brevíssimo, era quase um suspiro de borboleta de tão fugaz, por isso avisamos aos que passavam pela Rua Torta que não se iludissem, não esperassem o acontecimento-mor da criação. 

Flaubert, ainda de touca, conversava à porta da barbearia com Coelho Neto, e Rimbaud, de bicicleta, punha língua para Dona Ordália, a Santa. 

A Rua Torta era rua-cinema ou rua-baile ou rua-circo, conforme a hora.

Avisados que o conto era brevíssimo, os passantes e andantes e transeuntes puderam deixar as ilusões dentro das sacolas. 

Só havia dúvida quanto ao leitor do conto. 

Quem seria? 

Quem poderia ler tão ligeira e cadente peça de duas linhas, se tanto? 

Onofre, sempre um leitor em voz alta desde os tempos de coroinha, mudara-se para São Paulo. 

Jardel, anticomunista espumante, conseguira posto de observador de nuvens em Brasília. 

E o Antônio? 

Antônio era caso perdido.

O conto brevíssimo luzia à claridade da manhã. 

Conversa vai, conversa vem, o alcaide da rua, Tomás, teve a ideia de trazer um autofalante daqueles de armarinhos turcos. 

José Taranto, que se passava por magistrado, trouxe um caixote de maçãs. 

Eram demasiados os cachorros na rua àquela hora. 

Floreiras nas janelas exalavam em algumas casas o perigoso odor dos pecados. 

O ex-governador coçava a verruga. 

E nós, os autores do conto brevíssimo, esticávamos cordões pela rua afora, como se linhas de telégrafo.

Dez horas da manhã e nada. 

Meio-dia e nada. 

Duas da tarde e nada. 

Quem leria o conto brevíssimo para que as ficções não minguassem como se sementes carunchadas? 

Quem seria o leitor daquela migalha de palavrotas e palavrinhas? 

Quando soaram as quatro da tarde pelo carrilhão de Dom Acácio, o poliglota, começou um tumulto na Rua Oblíqua, paralela à Rua Torta. 

Vinha a passeata das Senhoras Roxas, ia a passeata das Senhoras Sônicas. 

Ali pelo número 44, as duas porções passeantes se enfrentaram. 

Houve tiroteio de impropérios. 

Anáguas foram rasgadas. 

Coifas viuvantes foram atiradas à poeira.

Carlo Emilio Gadda, que proseava com Flaubert já à porta da Cantina, decidiu ler o conto brevíssimo. 

Gadda, embora o estilo sinuoso, era querido pelas partes divergentes. 

Fez-se silêncio. 

Os cachorros amontoaram-se em posição de sentido nas calçadas. 

Ao longe, um navio mercante soltou a fúria de seu apito. 

Mariposas risonhas pararam seus voos de fim de tarde. 

Aguardavam. 

Gadda, então, com o minúsculo papel manuscrito nas mãos gordotas, limpou o pigarro. 

Começaria a leitura. 

Silêncio. 

Pausa. 

O mundo agora estático, o mundo agora estátua. 

E então explodiu a bomba atômica.]

1.4.26

[OS INVASORES DE SINGAPURA]


Há dias tenho percebido a visitação obsessiva e volumosa a este blog de robôs procedentes de Singapore. Pelo que pesquisei aqui e acolá, essas incursões, digamos, sem rosto e sem corpo, se devem a gente (será que de carne e osso?) ministrando aulinha de treinamento para a comunidade das inteligências artificiais. Ou seja: esses bots visitam a esmo ou às cegas tudo o que lhes passa diante dos narizes, se é que possuem narizes.  

Não sei o que este blog pode ensinar a tais cacholas de circuitos algorítmicos lá para as bandas de Singapura. O que aqui se publica desde 2003 já não interessa nem mesmo a outros blogueiros igualmente anacrônicos como este que aqui vos fala. O que buscam essas tampinhas de latão? Buscam a lírica desventrada deste velho poeta que, há muito, já deveria ter dependurado as pantufas? Quanta perda de tempo. 

Sugiro a esse "pessoal" que busque alimento mais propício para os estômagos robóticos. Fiquem lá com os doidos do mundo, como Trump, Netanyahu e outros mequetrefes de uma figa. Deixem-me em paz.

30.9.25

[UM CONTO CONJUGAL]

[kátia gisele plantou o marido em um canteiro de alfaces.]

[o marido de kátia gisele demorou para crescer, mas kátia gisele armazenava farto estoque de paciência.]

[kátia gisele esperou, trocou várias vezes de avental, lustrou muitas vezes as lentes dos óculos na ponta do nariz.]

[as horas, os dias, as semanas, os meses: choveu, fez sol, nasceram dentes no menino mais novo.]

[na vizinhança, maridos cresciam e brotavam em canteiros diversos: de couve, abóbora, acelga, jiló.]

[kátia gisele punha guarânias na vitrola, sonhava com olavo bilac.]

[na passagem de uma lua para outra lua, o marido de kátia gisele brotou.]

[em questão de horas, surgiu folhudo, robusto, esponjoso, entre alfaces verdejantes.]

[em êxtase, kátia gisele regava o marido com as gotículas de um regador de bico em riste.]

[o brasil já ia longe, para os lados do último deserto da finisterra, quando kátia gisele notou sustância e substância no marido.]

[comeu-o em um tarde de domingo, junto com as amigas márcia regina e leonora eustáquia.]