4.11.26

[ANJOS E MENINARIAS]

[os meninos da rua de cima queriam guardar luz de sol dentro de um vidro.]

[os meninos da rua de baixo queriam guardar em vidro bocados da luz da lua.]

[os meninos sem rua, ou de todas as ruas, queriam mesmo era encher o vidro com minhocas gordas.]

[o menino pedro, da rua do meio, sonhava com um sapo vermelho que só sabia dizer uma palavra.]

[era a palavra gualcalipstoia.]

[a palavra gualcalipstoia só existia no dicionário dos sapos vermelhos.]

[sapos de outras cores gostavam de palavras que derretiam na boca.]

["algum escritor aí dentro?", perguntou o menino waldo à beira do buraco.]

[era buraco grande, cabia nele um rinoceronte.]

[o menino waldo chegava à beira do buraco e perguntava: "algum escritor aí?", "nenhum?", "nem um?", o menino waldo perguntava.]

[o buraco ficava mudo.]

[o menino waldo foi embora.]

[foi então que o menino estêvão quebrou o rádio em pedacinhos.]

[queria saber se pessoas moravam dentro do rádio.]

[não encontrou ninguém.]

[e entendeu que as coisas podem não estar dentro das coisas.]

[o menino estêvão foi então à montanha e de lá olhou para o mundo inteiro.]

[viu até o polo norte.]

["olá, seu polo norte", ele disse duas vezes.]

[depois desceu da montanha e foi desaparecer no túnel do nunca mais.]

[o anjo das barbas azuis foi visitar os meninos e aprender a desentortar arames.]

[os arames eram invisíveis.]

[só meninos e anjos de barbas azuis conseguiam ver os arames ao sol.]

[um dos meninos disse que era entendido em filosofia desentortadeira.]

[o anjo de barbas azuis ria com voz muito fina.]

[os meninos então perguntaram para ele se ele tinha um violino dentro.]

30.10.26

[QUATRO DA MANHÃ: PAUL VALÉRY COMEÇARÁ A ESCREVER]

Íamos, Rubem Focs e eu, pela Rua dos Geômetras. Era por fim a noite calma e terna para os que vínhamos de perigoso embate com uns pistoleiros da Cidade Baixa. Focs levava sob o capote uma zero doze de fabricação alemã; eu mantinha no bolso do paletó a oito sete de procedência incerta. Deram-se os combates desde a hora vespertina. Eram nove contra dois. Vencemos. Aos andrajos, caminhávamos. Era vitória muito dolorida de muitas horas e tiroteios. E triste como todas as vitórias.

A Rua dos Geômetras era curta e plana e os sobradinhos de dois andares pontificavam com as suas fachadas delicadas àquela hora em que a cidade, deserta, parecia enroscar-se aos modos de um cão sem dono. Um ou outro surgia nas esquinas, gente talvez feita de bruma, sem consistência e substância de pessoa vivente. Uivavam ao longe talvez espécies caninas. Olhos de gatos apareciam em frações de minuto, aqui e ali, em algum desvão de garagem.

Por acidente, mais em fuga do que guiados por um mapa, caíramos na Rua dos Geômetras. O certo seria a Rua dos Caracóis, mais ao sul, limítrofe com o bairro dos Alfaiates. Mas estávamos ali na noite calma e terna e por ali seguiríamos até a Praça das Bolandeiras. De lá, cada um de nós tomaria o caminho de casa. A vitória doía. Era decerto vitória muito triste. Aqueles tempos de guerra. Tempos abomináveis.

Foi quando passamos pelo número 33, diante do sobrado azul, três janelas no segundo andar, três portas no primeiro, com uns arabescos na fachada e gradis oxidados nos balcões minúsculos. Estava acesa a luz da janela do meio. Única luz na Rua dos Geômetras quando batiam as quatro horas da madrugada. Única luz como se um farol em alto-mar. Amarela, trêmula, mais tremular ainda quando o movimento de uma sombra parecia interpor-se entre o cômodo e a rua. Quem lá estivesse, não era fantasma, assim deduziu Focs em uma frase sem ponto final, frase reticenciosa nos tons baixos de alusão a mistérios. 

Paramos diante do sobrado e ali fizemos uma pausa. Quem lá estivesse, merecia esse intervalo em nossa caminhada. Focs olhou-me por um instante, refletiu sobre o que fazer e foi lentamente em direção à porta que nos parecia a porta principal. Havia identificação de moradores em uma placa esmaltada. Focs leu: Paul Valéry, 2º E. Dois outros nomes dividiam com Valéry a placa: Vernon Lassale e Jacobo Trévor. Mas era, sim, o poeta que se movimentava naqueles estertores da noite. Certamente, usava roupão e pantufas. E tinha diante dele mais um caderno aberto, a pena com certeza elevada para depois se abater sobre a folha para as notas aforismáticas de mais uma jornada de trabalho. 

A vitória doía em nós. Era vitória triste daqueles tempos abomináveis. Mas seguimos caminho em passadas de intermitência, ofegantes, a ritmo muito cansado. Eram tempos abomináveis. Mas, ao nosso modo de homens rudes, saudamos em silêncio aquele poeta em sua laboriosa e grácil geometria.

24.10.26

[CHUVA NO BERIMBAU]

[agora, sim: a linha 
entrou na agulha,

a brasa soltou 
fagulha, há biblioteca

na ilha, quem cai n´água 
é que se molha, tiniu

o fio da navalha, faço
o que me dá na telha, a vida 

é um rádio de pilha, tingi 
de negro a ovelha, não 

aplaudo fogo de palha, 
aprecio o labor da abelha, 

a beleza, eu digo, 
é uma letra na folha.]

21.10.26

[A FERA DA RUA DA BAHIA]

[a fera foi vista ontem 
na rua da bahia.
fera ferrabrás 
de linhagem fera: 
garras, bocarra, ira, 
pelagem, retinas. 
ninguém ligou. 
não houve espanto, 
não houve pânico, 
ninguém ligou 
para a polícia 
borocoxô
ou mesmo 
para o governador 
coió. 
douta 
e acadêmica vida 
esta que já não se espanta. 
insípida e pernóstica
vida esta que já não eriça 
os pelos da surpresa.
foi-se então a fera, 
fera ferrabrás
de linhagem fera.
foi-se pela cidade. 
talvez tomar sorvete. 
talvez 
comprar uns trajes
novos lá onde drummond 
fez um incêndio.]

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]

17.10.26

[A ESTA HORA DA NOITE]


[a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre poesia inglesa,
ou sobre os hábitos
de walter benjamin em paris,
ou sobre a vida
de augusto dos anjos
em leopoldina, minas gerais.

um amigo disse, no tempo
em que os amigos
conversavam
a esta hora da noite:
"o rosto dos escritores
impregna-se do que escrevem,
e as rugas são traços e textos
em palimpsesto
na carne do rosto".

a esta hora da noite,
o amigo que tal coisa disse
não vive mais neste mundo,
e há o silêncio,
e há o rosto de textos
nele impregnados,
e há o buraco
das conversas
que já não acontecem
a esta hora da noite.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre o ativismo de grace paley,
ou sobre a lata
de atum que kerouac comia,
antes de morrer,
ou sobre o silêncio
entre joyce e proust
em certo banquete,
sobre os livros
que joubert jamais publicou
ou sobre a infância
de edmund jabès no cairo.

a esta hora da noite,
o telefone não toca
para a leitura do conto
recém-escrito, a bomba
de nêutrons dizimou
a esquina, veio a nuvem
de gafanhotos,
o vinho está seco no copo,
não há quem possa
conversar sobre o dilema
de um palíndromo,
ou sobre a casa
onde drummond
viveu em belo horizonte,
ali pelos lados
do bairro da floresta.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre dantas mota,
sobre os diários
de eduardo frieiro,
sobre os sonetos
de jorge de lima,
sobre a métrica de yeats
ou sobre as minúsculas
em cummings, não há sinais
de palavras intercambiantes
sobre um livro
que possa nascer
a respeito de barcos,
relógios, perfumes,
ruínas, trens
que jamais chegam,
trens que jamais partem.

a esta hora da noite,
as conversas
estão despovoadas de rosalía
de castro e antonio machado,
não há quem possa
referir-se a martim codax
e às ondas do mar de vigo,
a esta hora da noite
só há tiro e sirene, motor e uivo,
galope e abismo.]

16.10.26

[PEQUENA ANTOLOGIA DOS COMENTADORES CONTEMPORÂNEOS]

[uns se acercam dos temas e dos assuntos municiados com porretes e bacamartes, razão pela qual as suas análises lembram a trituração do vidro, os desmanches de automóveis, o desmatamento das florestas.]

[outros chegam aos temas e assuntos como se servos, como se cordeiros. são tão submissos frente ao que analisam que suas análises lembram o tempo morto, os relógios parados, as estátuas, os rios secos.]

[uns se aproximam dos temas e assuntos como se sombras, como se invisíveis, como se ventríloquos, pois jamais emitem opinião ou análise que não seja pela boca de outros.]

[outros vão aos temas e assuntos como se fígado, como se fel, como se bílis. são tão amargos, tão aziagos, que suas análises lembram os cascos de navios à deriva, o metal a formar dentes, a água ferruginosa a matar peixes.]

[uns tomam os temas e assuntos não sem antes o exercício da expressão vigiada, da fala conveniente, posto que atentos a não melindrar parentelas, chefes, amigos influentes, seja um senador, seja um tenente, seja um deputado, seja o cúmplice em negócios clandestinos.]

[outros viajam pelos temas e assuntos como se em um desfile de moda. bordam suas análises, aplicam nelas adereços e lantejoulas, costuram pontos de vista com o capricho de linhas em ouro, dão laços e nós com arremates graciosos, fabricam pompons com algodoais de assepsia.]

[uns perseguem temas e assuntos como se o cão que persegue a lebre. não importa qual tema, não importa qual assunto. soltam-se à carreira assim que um qualquer temário aponta no horizonte, e falam, e escrevem, e balbuciam, e vociferam, lançam-se ao sabor da ventania, são desprovidos de bússolas, de pontaria, a tal ponto que ao final da contenda já não sabem o que trataram ou o que discutiram.]

[outros fazem dos temas e assuntos meros pretextos para o divulgatório autobiográfico. e contam feitos, e relatam peripécias, e alinhavam bravatas, são andores do eu, pódios do eu, o ambulante eu obtuso, oblongo, adiposo e inútil.]

9.10.26

[BRINDES AO FAZER IMAGINANTE]

[ficamos assim: os livros, 
como sempre,
continuarão sendo escritos, 
os meus
e os encomendados.

o café estará pronto, 
como sempre,
às cinco em ponto, 
e o assovio
da valsa será logo às cinco e cinco.

como sempre, trarei ecumênico 
o coração,
sem hectare 
algum para o plantio da ira.

nos entroncamentos, 
como sempre, quebrarei
à esquerda. como sempre, 
virarei à esquerda, 
como sempre 
estarei à esquerda.

aos meus, 
os meus meninos 
todos, darei a constância 
diuturna e noturna 
das minhas invenções 
culinárias, 
e, mesmo áspero, áspero 
como as árvores 
do meu cerrado, 
vicejarei, por onde passo, 
um tanto 
e tanto de afetuosidade.

saúdo 
os que frequentam esta página, 
os que chegam e os que partem, 
em silêncio ou alvoroço, 
e invoco a paciência
dos que torcem 
o nariz para a poesia.

os que me conhecem, 
os de hoje ou de ontem,
sabem isto 
que roubo de mallarmé: 
tudo o que faço 
e fiz nesses meus 75
anos foi para entrar 
e caber dentro de um livro.

prescrevo 
aos espadachins ideológicos
que não se infantilizem 
na política.
e que exerçam 
sempre a autocrítica 
antes da crítica.

e reafirmo 
a minha modesta divisa:
otimismo, amigos, 
não é matéria abstrata, 
otimismo 
é o fazer de cada minuto, 
pois a mão que faz 
é a mesma mão 
que imagina, e a vida, ora, 
a vida é o fazer imaginante.]

6.10.26

[ALGUÉM PARA ESCREVER AQUELA HISTÓRIA DO COMUM DAS GENTES]

1. [a senhora margot, completados os 69 anos no último mês de abril, procura alguém para escrever suas memórias, e certamente encontrará quem as escreva, pois seu tempo foi de grandes peripécias, como ter sido aeromoça em uma companhia aérea transatlântica.]

2. [o ex-deputado agamenon procura alguém para escrever sobre um trecho delicado de sua vida, um livro que conte para os filhos, os netos, os sobrinhos, e toda a parentela, a razão de seu fracasso como político.]

3. [o engenheiro valdo teve uma súbita revelação enquanto via subir o vigésimo prédio de sua carreira de construtor, e procura alguém para escrever sobre o mistério de tão repentinamente ter chorado lágrimas torrenciais ao ver o edifício iluminado pela luz da tarde, com nuvens delicadas que iam em algodoais pelo céu cor de alumínio.]

4. [a psicanalista charlotte, franco-brasileira, procura alguém para escrever não a respeito dos casos clínicos em seu consultório, pois sobre esses ela publicou fartamente em trinta e poucos anos de carreira, mas sobre as anotações que fez em suas horas vagas, pequenas tiras de papel com o noticiário cotidiano de um pôr-do-sol, de um pássaro na janela, de uma abelha que passou, de um trinco no azulejo em formato de coração, essas coisas menores, ínfimas, mas que para elas sua destreza para a escrita jamais deu conta.]

5. [a freira josefa, latinista, tradutora de grego, missionária em pelo menos dois países africanos, procura alguém para escrever um livro no qual, anonimamente, ela possa ditar os instantes em que a sua fé, de modo inexplicável, tornou-se tão frágil, tão ameaçada, que ela temeu pelo futuro de sua entrega religiosa, entrega tão admirada pelas superioras da congregação.]

6. [diante de tantos desejos assim espraiados e acumulados, os ghost-writers da cidade, em fila, já afilam os seus lápis.] 

[O GHOST-WRITER]

Há quatro meses, se tanto, o Senhor Lamberto procurou a minha tenda de ghost-writer em busca de uma ajuda. Aflito, queria que eu escrevesse uma carta. Carta mesmo, à moda d´antanho, manuscrita a caneta tinteiro, e a ser enviada pelos Correios, muito embora a distância entre remetente e destinatário não ultrapassasse a dez quarteirões entre os bairros X e Y.

A conversa foi por telefone. Pelo tom da voz, percebi que o assunto era grave. O Senhor Lamberto vinha à minha tenda por sugestões de um ex-deputado para quem eu dera andaimes e alvenaria, rejuntes e pintura em um livro de memórias. Contente com o resultado produzido pelas minhas ferramentas, o ex-deputado de quando em quando agia de bom grado como propagandista dos meus serviços.

Esses anúncios gratuitos de boca em boca chegaram por fim aos ouvidos do Senhor Lamberto em hora mais do que apropriada de sua vida de viúvo. Muitas tentativas ele fizera de próprio punho para conceber a tal missiva. As ideias, porém, andavam em desgovernado tumulto em sua cabeça. Não se ligavam em fios de coerência. Turvavam-se em borrões pelos parágrafos, e a clareza, imperativa para o tema, sofria apagões constrangedores.

O Senhor Lamberto exigiu sigilo absoluto durante todos os capítulos de nossas tratativas: do valor que eu cobraria pela tarefa, à identidade da pessoa em quem suas palavras deveriam produzir o efeito "de um campo de girassóis como aquele do Van Gogh", assim ele disse com ênfase quase musical. Deduzi que ele poderia estar na faixa dos 80 anos. A voz era rouquenha, mas emitia-se por uma tessitura ainda vigorosa, de barítono, com pausas retóricas e reticenciais de quem já falara em público. 

Ao cabo de uma semana de idas e vindas, de acertos e erros, demos por finalizada a incumbência. Foram incontáveis leituras ao telefone do texto a caminho. Se de próprio punho o Senhor Lamberto esbarrava no enxame enlouquecido das palavras à sua volta, pelo telefone ele indicava com precisão o que entraria ou não entraria na carta, se tal vocábulo era impróprio ou inadequado aos olhos de quem o leria, se estava fora de moda ou não o tratamento a ser dado ao arremate.

Quando fui entregar o texto impresso ao Senhor Lamberto para que ele, aí, sim, fizesse a cópia manuscrita, e a remetesse ao seu destino, estranhei o silêncio em seu apartamento. Em vão, acionei o interfone do pequeno prédio de três andares em uma rua íngreme do bairro X. O funeral havia sido no dia anterior, conforme soube pelo porteiro de nome Tibério.

Trouxe de volta a carta. Tenho-a comigo, em uma pasta, como um objeto incômodo. Não sei o que fazer com essas duas laudas de palavras comovidas e igualmente tempestuosas que o Senhor Lamberto avalizou como se palavras de sua própria lavra. Não é preciso dizer que a carta é uma carta de amor. Destinada à Senhora Adelaide.  

4.10.26

[AQUELE CONTO QUE O GATO ROUBOU DO LIXO DE CORTÁZAR]



[um  mosquito. aparentemente morto. um bilhete. só uma palavra: "adeus". um ovo. colheres. cinco colheres. chaves. mais chaves. ferrugem. outro bilhete. só duas palavras: "muito quebrado". dois pães. e nada mais.] 

[a janela dá para a cidade. nuvens. ninguém na avenida.]  

[um  caderno. há  marca de sangue no canto superior esquerdo. uma xícara. um volume de poemas ingleses. cartão-postal: londres. outro cartal-postal: porto de buenos aires. marcas de dedo no vidro. a bailarina. a bailarina sentada na cadeira de vime. e nada mais.]  

[a janela dá para a cidade. só nuvens. dois homens na avenida]  

[um xale. um cachecol. um revólver ao  lado de um frasco de perfume. sirenes. richard  wagner, as valquírias, baixo, baixo, baixinho. só a bailarina ouve wagner. o  professor. a porta. o professor junto à porta. o professor. seu casaco. o livro do professor posto ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. a bailarina: modorra. e nada mais.]  

[a janela dá para a cidade. nuvens, nuvens, nuvens. avenida deserta.]  

[dois  dias  depois. anotações ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. única palavra legível: "adeus". a bailarina no alto do  teto, asas  abertas, revoos  pela  sala. o  professor rasteja. a  pele  é áspera, de crocodilo. rabo descomunal do professor-crocodilo que desliza pela sala. a bailarina voa. o professor-crocodilo rasteja. e nada mais.]  

[a  janela dá para a cidade. céu sem nuvens. as famílias vão ao circo.]

2.10.26

[A BATALHA DAS LARANJAS]


Entre 3 e 4 da manhã, veio o sonho. E o sonho era a reprodução de uma batalha das laranjas tal e qual a famosa Batalha das Laranjas em Ivrea, lá no Piemonte.

Laranjas para cá, laranjas para lá. 

Nós, os que estávamos no sonho e por conseguinte metidos na batalha onírica das laranjas recebíamos na testa oblongos petardos atirados pelo pessoal que ia em uma carroça toda enfeitada.

Retaliar tais ataques era, para nós, um sofrimento. Nossas laranjas se achavam todas murchas e nada faziam no cocuruto ou nas bochechas de nossos oponentes.

Às quatro da manhã, o sonho chegou ao fim.

Apalpei a faces a fim de notar qualquer sinal cítrico como resultado de tamanha e descomunal batalha.

Nada feito.

Minhas faces estavam limpas como o céu que se avizinhava sobre a Bahia de Todos os Santos.

[E SE WANDER PIROLI PASSASSE?]

[os arrabaldes de belo horizonte.]

[eis a praça do peixe com o linguado de plástico a se equilibrar numa vara ao tempo, para lá é o norte, para acolá é oeste, se vai morrer, sobe a rua bonfim, se vai viver, siga a via para o carlos prates.]

[futurismos tardios na rua bonfim.]

[vende-se gelo.]

[vendem-se pentes velhos, abajures sem lâmpadas, máquinas de costuras onde coser a mortalha de um mendigo que acabou de morrer.]

[ou não.]

[vivo está, sonolento talvez, o guarda vem para o diagnóstico: "é o altair", alguém diz.]

[altair sorri.]

[ressuscitou.]

[e se passasse agora o piroli a caminho da praça vaz de melo?]

[e se caísse um anjo?]

[piroli não passa e o anjo não cai.]

[são matinais os olhos nos arrabaldes de belo horizonte.]

[corações de bandoneóns ainda pulsam a noite anterior.]
 
[a sofreguidão na pele da cidade, a curva do viaduto onde dorme um cachorro.]

[e se o piroli passasse agora a caminho da praça vaz de melo?]

[e se um anjo lunático escrevesse agora a sonata dos dias agônicos?]

[há silêncio de morte na brisa de agora há pouco.] 

[sopram as ventoinhas do tempo louco.]

[de pé, altair retoma o seu calvário.]

[o brasil inteiro se esfarela em pão e mofo na rua paquequer.]

[altair agora valsa.]

[valsa a valsa do imperador.]

[altair valsa.]

[quão tristes são as alegrias nas gengivas nuas de altair.]

30.9.26

[ORA (DIREIS), LAVAR PALAVRAS]

[ora (direis), lavar palavras.
ora (direis), ensaboá-las, quarar 
as pobres em cima de pedra, depois 
enxaguá-las e torcê-las, 
anáguas silábicas tão alvas
como se quisessem aparência-hóstia.

ou quisessem condição carola, palavras
de sacristia, o tablete de anil 
para torná-las puras, virginais
senhoras ou frases em conserva.

pois que deixem nelas a crosta
do sol ou da chuva, deixem a capa 
de lodo-fungo em suas escamas, 
deixem intactas marcas, nódoas, 
manchas, fantasmas
― acúmulo de bocas que as disseram,
acúmulo de dedos que as escreveram.]

29.9.26

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures. 

É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures. 

É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam. 

É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.

A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.

Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.

Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.

É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.

Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.

Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]

25.9.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

[Caro amigo Senhor Pon: 

Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.

Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.

Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.

Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente. 

Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera. 

Una stretta di mano.  

Do seu
G.]

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]