ou fora de esquadro no texto
que você publica assim tão cedo,
a manhã ainda faz borda
com a noite, nem há pássaros,
nem gentes, só você à penumbra
produz o texto que logo terá
asas em sobrevoo público.
e aí você percebe a coisa-mofo
em seu conteúdo, a forma
é calcário que se esfarela,
o tom é o tom de um velho
em abrigo de ônibus a caminho
de lugar algum, estátua ao tempo.
e não há música no seu texto,
é mais uma engrenagem de metal
em óxido, são matracas nas mãos
de um arauto louco, e, no entanto,
você o publica, solta os cordames
e deixa o barco fantasma
em sua cabotagem tão pífia.
do rádio vem o noticiário
das urgências urgentes, a morte
de um mendigo ao relento, a pústula
lancetada na moral dos políticos,
um índio abatido, os tiroteios,
a guerra civil implícita e explícita
no dia que nasce, o alarido
dos hipócritas e seus catecismos,
a sopa, a sopa do cotidiano
com os ingredientes apodrecidos.
e você martela as teclas
para o texto fora de esquadro,
fala de luas e alabastros, fala
de cimitarras e nudezes, fala
de jardins e cigarras, mesmo
que um helicóptero bélico
esteja agora em ronda
pelos céus do bairro.]















