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27.2.26

[O VELHO POETA DA LANCHONETE NACIONAL]


[Havia na Rua Goiás, com uma porta que dava para a praça Alberto Deodato, quase esquina com Rua da Bahia, um estabelecimento chamado Lanchonete Nacional.]

[Pelo estilo, era remanescente de uma Belo Horizonte ainda com aura que vinha lá do Bar do Ponto, lá do modernismo mineiro, lá das empadinhas e dos bolinhos de feijão.] 

[Na praça, mínima praça, havia também o Cine Metrópole, em local da antiga casa de ópera dos tempos dos tenores, contraltos e arrebóis. E cheiro de manacás. Mesma praça onde hoje pontificam as figuras em bronze de Drummond e Pedro Nava.]

[Às cinco em ponto da tarde (como no poema de García Lorca), o poeta, já idoso naquela metade da década de 1970, sentou-se em uma mesinha central, encostado em uma pilastra com espelhos, bem próxima do balcão. Pediu um copo de leite frio e um misto quente.]

[Longos bigodes possuía esse poeta já muito cansado, adoentado, um tanto melancólico.]

[Exibia vistosos olhos cor de argila, aquela argila verdete, enquanto olhava lentamente para um lado e outro naquele momento em que a Lanchonete Nacional estava praticamente vazia.]

[O poeta pensava em Goethe e na Elegia de Marienbad, poema que o autor do Fausto começou a escrever em 5 de setembro de 1823 sob o clima devastador da paixão não correspondida por Ulrike von Levetzow, de 17 anos. Goethe, à época, tinha 73.]

[De resto, é uma história conhecida.]

[Mas o poeta, com o seu lanche de final da tarde, parecia tomado pela cena de Goethe na sua viagem de volta para Weimar, compondo a primeira versão do poema.]

[Lá como cá, na estrada para Weimar e em Belo Horizonte, sincronizava-se a melancolia de um e outro por meio de um acontecimento com algum grau de semelhança nos descaminhos entre velhice e juventude.]

[Um pouco mais tarde, já no princípio da noite, o poeta levantou-se e desapareceu minúsculo pela Rua da Bahia afora.]

[Quero crer, porém, que foi ali, naquela mesa e naquele instante de um final de tarde na cidade de Belo Horizonte, que outra elegia com tema similar à Elegia de Marienbad começou a nascer, e cujo título, se não me falha a memória, aludia ao nome de Diamantina.]

[VOCÊ NEM SABE O QUE LHE CAI DA NOITE]

[assim com a mão em côncavo,
mas não em súplica, aparo as gotas
que da noite caem. não sei se água, 
não sei se luz, não sei se estrela 
ou qualquer luzeiro líquido, só
sei que aparo essas gotas, são quase
sílabas ou quase letras, pois,
ao ter plena a mão que as recebe,
sinto a indisfarçável presença do poema.]

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]

26.2.26

[INVOCAÇÃO À DEUSA DA ESCRITA]

[que não me conceda a escrita fácil, ligeira ou preguiçosa, a que não seja proveniente do trabalho, unicamente do trabalho, trabalho contínuo, incansável, diuturno e noturno, na ourivesaria das palavras.]

[que não me deixe cair nos círculos viciosos e enganadores da inspiração.]

[afaste-me das palavras gastas, palavras acostumadas às frases do senso comum, palavras deterioradas pelo uso negligente e efêmero, palavras clivadas entre intenção e ato.]

[conceda-me o verbo novo, sempre novo, como as manhãs de cada dia novo.]

[conceda-me o acesso ao reino das palavras inventadas, brincantes, palavras que o povo constrói de janela a janela, de rua a rua, na vida comunal dos bairros.]

[se poema, que ele rebrilhe ao sol como se lâmina afiada.]

[se conto, que ele provoque espanto, encantamento, e dê aos leitores o súbito e benéfico terremoto da vida em movimento.]

[se ensaio, que ele possua a amêndoa do conceito desencadeador de mundos inaugurais para a vida dos homens.]

[conceda-me estradas e desvios que não me levem à ira, ao ódio, nem deixe que as palavras que me ocorram estejam contaminadas pelo belicismo destruidor.]

[não deixe que o espaço territorial da folha em branco seja assemelhado a campos de treinamento dos senhores da guerra.]

[conceda-me a leveza, conceda-me a delicadeza, conceda-me a elegância como bússola estética e estrela-guia.]

[não me deixe cair nas armadilhas do preconceito estético, poético, filosófico, político ou ideológico.]

[conceda-me a alegria permanente diante da folha em branco e a subversão constante dos tempos verbais.]

[não deixe que as minhas palavras estejam subnutridas de música.]

[ilumine-me às obras do passado e faça o meu coração se abrir às obras do presente.]

[não deixe que a palavra trabalhador esteja separada e dissociada do ato de escrever.]

[e que este seu modesto servidor, paulinho assunção chamado, um pobre homem das beiras do córrego da confusão, não se submeta à ordem dos tecnicismos estéreis, predadores, anti-humanistas e inimigos da criação e dos inventos.]

25.2.26

[ENCONTRO DE LEIBNIZ E SPINOZA EM HAIA]


[Senhor Glous, vocacionado às pesquisas inusitadas, bizarras e até mesmo inúteis, conta-me do encontro que o Senhor Gottfried Wilhelm Leibniz teve com o Senhor Baruch de Spinoza entre os dias 18 e 20 de novembro de 1676, em Haia.

Conforme pesquisou Glous, o Senhor Leibniz se achava em missão diplomática na região e achou por bem visitar Spinoza, já bastante doente, e que morreria meses depois, em fevereiro de 1677.


Antes, por ter chegado aos Países Baixos em outubro, Leibniz visitou intelectuais como o matemático e físico Huygens, o comerciante de tecidos e construtor de microscópios van Leeuwenhoek, que associou microorganismos à produção de alimentos fermentados, e também o físico e médico Ehrenfried Walther von Tschirnhaus. E então dirigiu-se a Haia para conhecer Spinoza, de quem já lera o Tratado Teológico-Político (1670) e com quem já trocara correspondência indireta.


Por dois ou três dias, salvo erro, salvo engano, os dois filósofos conversaram com gosto e verbo sobre a natureza de Deus e da substância, sobre liberdade e necessidade, sobre a relação entre corpo e alma, e, claro, sobre a obra inédita de Spinoza, a Ética, que Leibniz leu em manuscrito.


Conforme a principal fonte desse encontro, Christoph Hermann von Wolff, Leibniz ficou impressionadíssimo, mas também intrigado, com a pulga atrás da orelha: viu ali a força lógica do sistema de Spinoza, mas igualmente avistou certo perigo, pois implicava, segundo ele, uma forma de panteísmo (Deus = Natureza), o que julgava incompatível com a teologia cristã.


O bate-papo entre os dois também foi relatado pelo próprio Leibniz em um texto que se encontra conservado em Hannover.


Ao partir, Leibniz levou na bagagem um exemplar manuscrito da Ética, exemplar que ainda existe com suas próprias anotações à margem.


"Sabe-se que esse colóquio entre os dois filósofos foi um marco, pois foi daí que Leibniz, como se em um contraponto a Spinoza, criou a filosofia das mônadas e da harmonia preestabelecida", diz exultante o Senhor Glous, escandindo cada palavra de sua revivência daqueles dias.


Enquanto caminha pela tarde em Salvador, na Rua Conselheiro Pedro Luiz,  e até mesmo transborda os olhos de emoção pelo relato desses acontecimentos, Senhor Glous saúda os passantes do bairro do Rio Vermelho, como se ele próprio tivesse feito parte do famoso encontro de Haia.]

23.2.26

[SIGNOR FRAGOLINO E A SUA BICICLETA]


Meu filho contou-me a história, que teria sido assim: 


Que Signor Fragolino, com as mãos já trêmulas, abriu um pouco a cortina da sala naquela manhã de fevereiro e percebeu que o tempo, pouco a pouco, melhorava em sua querida Ravenna. As nuvens já não estavam tão pesadas e escuras como na semana anterior, e o sol, mesmo tímido, iluminava em rebrilhos os telhados do centro velho. O termômetro marcava 13 graus.


Muito devagar, frágil e arrastando as pantufas, Signor Fragolino aproximou-se da mesa da cozinha. Ali, pelas mãos afetuosas e sexagenárias da sobrinha Alda, já o esperavam sobre a toalha vermelha de bolinhas brancas o caneco de café, as fatias de pão, o pote de manteiga Galbani e o prato com o queijo Squacquerone. Signor Fragolino havia completado exatos 115 anos no final de janeiro e vivia apenas com a Signora Alda, viúva de outro combatente histórico da Resistência Italiana na região de Ravenna, o Signor Gildo.


Aquele era um dia especial na longa e aventurosa vida do Signor Fragolino. Especial e doloroso, dada a decisão que tomara com grande e sofrido esforço alguns dias atrás: vender a sua amada Bianca, a bicicleta que lhe servira desde os anos 1940 quando juntou-se à 28ª Brigada Garibaldi, liderada por Arrigo Boldrini, o famoso Bulow, como era o seu codinome, no combate ao nazifascismo. 


Ali na cozinha, curvado sobre a mesa, Signor Fragolino fechava os olhinhos castanhos e tentava reviver as suas peripécias junto com os demais partigiani por toda a Emilia-Romagna, mas, especialmente, a partir da Isola degli Spinaroni, uma ilha existente lá pelas lagoas ao norte de Ravenna, que servia tanto como refúgio quanto centro de comando da luta antifascista.


Signor Fragolino terminou o café e olhou demoradamente para a sobrinha Alda. Com ajuda dela, iria daí a pouco à loja Il Baule dei Ricordi, onde o dono, Signor Alberto, prometera receber Bianca para revenda com única condição e exigência: que o comprador da bicicleta cuidasse dela com o mesmo zelo com que fora cuidada desde quando, no vigor da idade e destemido combatente, cantara Bella Ciao pilotando Bianca pelas trilhas mais secretas do norte da cidade.


Agasalhado com o velho capote e com a boina vermelha antifascista, o pescocinho protegido pelo cachecol de lã que a mulher, Signora Natalia, tecera por noites e noites de inverno antes de falecer aos 84 anos, lá foram pelas ruas de Ravenna o Signor Fragolino, a Signora Alda e a velha Bianca. A bicicleta era levada como se fosse uma criança: cada um, carinhosamente, segurava uma das pontas do guidão. 


Ao avistar a loja, Signor Fragolino suspirou e puxou lentamente o lencinho vermelho do bolso do capote. Suspirou outra vez  e enxugou uma lágrima. De lá, Signor Alberto, com os seus bigodões negros, acenou com o estardalhaço de sempre, famoso entre os moradores de Ravenna. Mas aquele aceno, em tudo amigável, doeu ainda mais no coração do Signore Fragolino. É que terminava ali a sua história com Bianca. 


Pouco depois, cantarolando Bella Ciao baixinho em louvor aos tempos históricos e heroicos, ele voltou para casa amparado pela sobrinha Alda. Morreu no dia seguinte, com 115 anos e quinze dias.


Menos de um mês depois, a bicicleta Bianca encontrou um novo dono à altura da exigência assinalada pelo Signor Fragolino: Tomás, francês de nascimento, mas internacionalista com porções brasileiras, mexicanas e italianas, comprou a velha Bianca e se deixou guiar por ela pelas ruas seculares de Ravenna: livre, sem rumo, deliciosamente sem rumo como um travesso passarinho.


21.2.26

[FUTURO-TE?]


[poesia? futuro-te? ou ilógico
ontem-te, lá antes, antes 
de antes, tal se fosse hoje-te?

lances de tempo delirante 
dar à poesia, ao mesmo tempo,
ontem-te, hoje-te e futuro-te?

em paz deixo-a galante no livro
dos livros em verbetes, assanho-
me em gozo de procurá-la

e achá-la em qualquer tempo
de depois ou de antes, melhor
sempre querê-la continuamente.]

20.2.26

[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]

[filio-me a uma escola literária
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores 
e arbustos do cerrado, essa paisagem 
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.

foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água 
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase, 
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.

dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim 
com o seu cajado,
porque os tropeços são comuns
nesse tipo de latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]

18.2.26

[QUANDO PENSO EM POEMA]

[quando penso em poema, penso rua.
melhor: penso janela ou abertura, vãos

largos por onde o olhar (ou o ser) acede,
olhos como se mãos em dádivas, dáveis.

mas penso sobretudo em dia quando vem
a ideia de poema. o dia igual a casa, o dia

onde habitamos e onde vivemos, tal e qual
no poema de philip larkin. dia concerto

em céu aberto, do sol que brota ao claro
que se recolhe quando enfim se dá a noite.

o dia é todo um universo que se repete
a cada dia, mote e glosa sempre diferentes.

nele o grilo, nele o urso, nele o cavalo, tudo
súmula de um em outro, cisco no bico

dos sapatos, paletó puído de um homem
desesperançado, faca com um grito dentro.]

[GERMINAR]

[grão. um grão e outro grão. 
o milagre dos grãos. 
lançados, 
atirados, caídos. 
vazados por entre os dedos. 
saltados das espigas. 
levados pelo vento, 
ao vento. 
quase vocábulos. 
quase letras. frações 
germinativas e germinantes. 
e o campo. a pedra. 
os pedregulhos. 
e os homens. 
uns e outros. 
os muitos e os poucos. 
e a cidade. 
e então as ruas. 
e então as casas. 
e as mesas. 
e as bocas. os corpos 
e as camas. 
os líquidos e as mãos. 
e o tempo. 
os dias e as noites. 
migalhas e resíduos. 
o cisco e o meteoro. 
o giro. a dança. 
os campos magnéticos. 
as erupções, as intempéries. 
essa vida potente 
e coreográfica 
à qual 
podemos chamar de esperança.]

17.2.26

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

[ÓPERA EM SILÊNCIO]

[na redonda noite, 
os cavalos
azuis. a lesma. 
os vidrilhos
da luz. o calmo 
antúrio e a nobre
avenca. 

e os cartógrafos. 
seus mapas
por onde a chama 
da vela diz:
"eis o país de lá", 
"eis as cidades
que flutuam 
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu. 
a espada.

há o baú 
com os papéis tristes.
substantivados abandonos, 
goivas de lacerar 
as saudades, o corpo
em seu litígio perene 
pois potro
sem doma, sem rédeas. 

o corpo ágrafo 
destituído de palavras.
o corpo em selvageria 
úmida. a casa. o lodo. 
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham 
com suas tochas incendiárias.

tudo é calma sobre o fio 
da lâmina. ela agora dorme. 
a nudez exposta.
o lago que se formou 
junto à cama.

lá fora, os cavalos azuis. 
lá fora a madrugada 
pendente, pêndulo 
das noites baixas, 
rentes ao chão.
as noites rastejantes, 
tapete em trevas.

e os apitos. 
ao largo as barcaças, 
os marinheiros 
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos, 
as velas piratas.

e a trempe. 
as brasas dormidas. 
hora de macerar as ervas, 
hora de chamar assim o dia: 
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares 
no pescoço. o dia 
com os seus cavalos 
vermelhos.]

16.2.26

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

24.1.26

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, 
sua sombra.

seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira 
ao vento.

tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, 
seu murmúrio.

sua aorta está vazia. 

sua horta, 
sua praga.

tudo está vazio.

o livro que você lê 
está vazio.

letreiros da imensa avenida, 
edifícios 
da grande cidade.

tudo está vazio.

seu lápis não tem grafite, 
sua caneta 
não tem tinta.

tudo está vazio.

seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, 
seu gesto 
performático.

tudo está vazio.

seus dedos, seu teclado, 
sua memória.

seu chip está vazio.
 
sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa 
de valores.

tudo está vazio.

seu monólogo em rede, 
seu seguidor 
e seu seguido.

tudo está vazio.

sua metáfora, sua curva 
figurativa, 
suas volutas significantes.

tudo está vazio.

mas o poema, rebelde, 
nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão 
submissa, 
o poema, sol a pino, 
cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]

17.1.26

[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio. 

Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas. 

Coisas que eclodiam.

Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância. 

Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera.

Sentiu-se bem. 

Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo. 

Apenas sentiu-se bem, como se uma alegria esvoaçante, de asas vivazes e ágeis, tocasse diariamente a sua porta. 

Recebia essa visitante. Oferecia-lhe a sala. Deixava que essa alegria alada pousasse no escritório ao lado de caixinhas de madrepérola, minúsculas latas, objetos dispostos em uma gramática lúdica.

A infância, por obra e graça da prescrição diária, então renascia nesses labirintos de objetos que a idade foi acumulando entre cadernos, livros, lápis, retratos, flâmulas e recortes. 

Retornavam folguedos, travessuras, espantos, cheiro de terra.

E uma vontade desmesurada de música passou a predominar em seus dias. Tanto que, muitas vezes, sob os olhares interrogantes da família, ele cantarolava feito um doidinho manso.]

4.1.26

[O FIO E O TIGRE AZUL]

[era só um fio. 
começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais. 
era só um fio

na paisagem que a cidade 
expunha ao ocaso, luzes 
trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres 
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los 
do tigre azul.

o fio único desafiava 
os tratados de filosofia, 
os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio 
que começava na ponta
leste e vinha como se serpente 

até a ponta oeste, e prosseguia, 
mais e mais ele prosseguia, 
um fio desejante 
de não ter jamais um fim
atravessava a cidade 
em seu ocaso triste, 
de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico 
com o tigre azul.]

9.12.25

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, 
mas o saber esvaiu-se, areia 
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, 
água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, 
eu disse, e repito, sabia, 
mas o saber que eu sabia 
em vapor se fez, um outro saber, 
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber 
apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber 
qual estranho, qual bicho 
sem nome. 
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, 
ele vem,
puxamos a cadeira, 
deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, 
solto verbos amigáveis, 
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa 
das que honram 
as amizades, 
isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez 
o destino leve o visitante, 
mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, 
e outra vez
vão ceder o lugar 
para novos saberes chegantes.]

4.12.25

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

[o livro dos presságios, 
aberto em dia errado, anunciava 
o barco para a tarde, a horas tantas, 
entre o dia e a noite, e seria 
um barco iluminado, 
traria tochas na proa, e ele 
embicaria porto adentro, dois
 
marinheiros o conduziriam ao cais, 
ambos cegos, joão 
era o nome de um, jarbas 
era o nome de outro, 
e as cordas e os cordames, 
os nós e os laços dos velames 
penderiam do mastro, 
no convés o resto de peixes, 
a tinta azul que grafava o casco,
 
"ilusões invictas" 
era o nome desse barco 
anunciado para a tarde, 
isto conforme o livro 
dos presságios, livro 
aberto em dia errado, 
pois previa para hoje 
o que de fato seria ontem, 

equívocos de mãos 
no desgoverno de um lapso, 
mas eis que a tarde 
apagava luzes, mas eis 
que a noite abria as portas 
para novo expediente, 
mas eis que a roda 
dos calendários girou 
com o súbito de um vento, 
mas eis que a barra 
tingia-se de um fogo, 

e então viu-se o clarão 
das tochas na proa, 
joão e jarbas acenaram 
suas mãos de sal, 
e o barco de hoje, que era 
o de ontem, entrou no porto.]

30.11.25

[A ESTA HORA DA NOITE]


[a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre poesia inglesa,
ou sobre os hábitos
de walter benjamin em paris,
ou sobre a vida
de augusto dos anjos
em leopoldina, minas gerais.

um amigo disse, no tempo
em que os amigos
conversavam
a esta hora da noite:
"o rosto dos escritores
impregna-se do que escrevem,
e as rugas são traços e textos
em palimpsesto
na carne do rosto".

a esta hora da noite,
o amigo que tal coisa disse
não vive mais neste mundo,
e há o silêncio,
e há o rosto de textos
nele impregnados,
e há o buraco
das conversas
que já não acontecem
a esta hora da noite.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre o ativismo de grace paley,
ou sobre a lata
de atum que kerouac comia,
antes de morrer,
ou sobre o silêncio
entre joyce e proust
em certo banquete,
sobre os livros
que joubert jamais publicou
ou sobre a infância
de edmund jabès no cairo.

a esta hora da noite,
o telefone não toca
para a leitura do conto
recém-escrito, a bomba
de nêutrons dizimou
a esquina, veio a nuvem
de gafanhotos,
o vinho está seco no copo,
não há quem possa
conversar sobre o dilema
de um palíndromo,
ou sobre a casa
onde drummond
viveu em belo horizonte,
ali pelos lados
do bairro da floresta.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre dantas mota,
sobre os diários
de eduardo frieiro,
sobre os sonetos
de jorge de lima,
sobre a métrica de yeats
ou sobre as minúsculas
em cummings, não há sinais
de palavras intercambiantes
sobre um livro
que possa nascer
a respeito de barcos,
relógios, perfumes,
ruínas, trens
que jamais chegam,
trens que jamais partem.

a esta hora da noite,
as conversas
estão despovoadas de rosalía
de castro e antonio machado,
não há quem possa
referir-se a martim codax
e às ondas do mar de vigo,
a esta hora da noite
só há tiro e sirene, motor e uivo,
galope e abismo.]

3.9.25

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures. 

É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures. 

É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam. 

É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.

A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.

Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.

Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.

É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.

Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.

Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]

31.8.25

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã prenunciada, veio o texto.]

[texto assim: fiapo da roupa de um peregrino.]

[lembrei-me então da carta 
que paul celan escreveu a hans bender em 18 de maio do ano de 1960: "só mãos verdadeiras escrevem um poema verdadeiro. em princípio, não vejo nenhuma diferença entre um aperto 
de mãos e um poema".]

[e o texto veio assim: fiapo da roupa de um peregrino.] 

[não era ouro, não era ourivesaria, nada de texto-diamante à luz chegante do dia: era fiapo.]

[fiapo da roupa de um peregrino.]

[com a delicadeza que se impôs em hora tão inaugural no tempo, tratei de laçar a lápis esse indizível que jamais escreveremos.]

[modo não há de escrever o fiapo que se fez de texto na manhã prenunciada.]

[o fiapo é o indizível, é o horizonte inalcançável, é isto que nos ilude para a escrita sempre sonhada e impossível.]