fera ferrabrás
foi-se então a fera,
de linhagem fera.
novos lá onde drummond
Bebíamos e palreávamos a gosto, mas o tom e o tema das conversas eram mesmo xingar a ditadura e os milicos reinantes. Vasculho a memória e tento mais uma vez visualizar quais eram os outros pássaros naquela mesa. Estava o compadre Antônio Barreto? O Jeferson, muito amigo da Rose, já fechara a gráfica e se aliara ao nosso motim etílico? Não sei.
Lá pelas tantas, Rose sugeriu que fôssemos encerrar a beberagem em sua casa, para lá prosseguirmos o xingatório a fardados de toda estirpe e espécie. Dali a pouco a Galeria seria mesmo fechada e a continuação da noite deveria ser mesmo em outro pouso.
Decidimos pela sugestão da Rose. Tomamos um táxi, atravessamos o túnel da Lagoinha. Ao sairmos do túnel, lá estava estacionado o temível e sinistro Carro Chocolate do Dops.
Parecia à nossa espera.
Nosso táxi foi parado. De lá, da noite vasta, da noite intangível, veio lentamente o Alemão com uma carabina já sendo enfiada janela adentro, rumo aos nossos narizes. Pediu os nossos documentos. Recém-chegado do Peru, onde passei todo o ano de 1975, eu havia perdido minha identidade no Bairro Grajaú, possivelmente dentro de outro táxi, e só portava o meu passaporte. Entreguei-o para o Alemão e já me resignara que estava definitivamente ferrado.
Mudos estávamos, mudos ficamos até que o brutamontes, com o seu corpanzil e o seu bigode que parecia retirado de uma espiga de milho, entregou-nos um a um os documentos. Nada disse, nem murmurou nelgas. Só olhou nos meus olhos naquele que imaginei ser o mais longo minuto da minha vida. Devolveu-me o passaporte e nos mandou embora.
Não é preciso dizer que usurpamos todo o uísque da Rose no que restou da noite.
Algum tempo depois, relatei o episódio para o amigo Oswaldo França Jr. na porta do Edifício Maletta. Meu relato, porém, carregava mais para o lado cômico, mas percebi que França ficara preocupado, especialmente quando me referi ao passaporte. Ex-piloto da FAB cassado pela ditadura, ele mantinha boas fontes sobre as ações do aparelho repressivo em Minas. Disse-me que iria se informar melhor.
Numa noitada de algum evento na Casa do Jornalista (hoje renomeada Casa de Jornalistas), França me chamou à varanda. Disse-me: vocês estavam sendo vigiados desde a Galeria do Ouvidor. O araponga também passou o serviço ao Dops de que iríamos para o Bairro Sagrada Família. Mais: eu era muito assemelhado com alguém que vinha sendo procurado pela patifaria do regime. E que fui salvo pelo passaporte, que desfazia a suspeita sobre a minha estampa e figura.
Lembro-me do meu querido amigo às gargalhadas ao observar a minha cara de espanto ou pânico.
Sinto enormes saudades do França. Da sua conversa, da sua risada.
Sopra com leveza a brisa que vem do Atlântico, mais precisamente da Praia do Buracão, neste bairro soteropolitano do Rio Vermelho. Brisa e luz, como que irmanadas, quase roçam o dorso do gato Dorival em sua modorra imperturbável, pétrea, em estado de imobilidade absoluta.
A memória, como já disse outro dia, poreja sua matéria sem idade, incessantemente. Lembro-me, por exemplo, de quando, ali por 1967, li Sartre em meu quarto de Belo Horizonte, à beira da então estrada de ferro Central do Brasil, com os trens da noite trepidando o modesto conjunto habitacional em que vivíamos minha mãe, meu padrasto, meu irmão caçula e eu.
Creio que o livro era A Náusea.
Vejo igualmente a folhas manuscritas com textos diversos que, preenchidas, eu logo as amarrava com barbante e guardava os pacotinhos no guarda-roupa, sabendo que jamais leria outra vez o que elas continham. Não as li nem mesmo quando, bem mais tarde, revi outra vez os pacotes que minha mãe guardara por anos e anos.
Fiz deles uma fogueira no quintal. E ainda tenho na lembrança o olhar de tristeza que minha mãe dirigiu às chamas, à fumaça que subia em direção à copa de uma mangueira.
Certas lembranças são como que se intrometer nas vísceras de um acontecimento.
Há um sinal textual que chama e convoca. Se é prosa, se é o contrabando de um poema que se camufla entre os gêneros, como no ensaio, se é meramente uma crônica simplória a arrodear o que se passou e a transgredir as noções de passado e presente, não posso saber.
Onde estará o texto que imagino neste momento, alvejado por esses raios que a memória atira sem parcimônia, sem cerimônia, sem solenidade? É bem provável que ele não exista. Mas, ao não existir, ele me seduz.
Aquele acontecimento da infância, quando na época do Natal proliferavam as formigas tanajuras pela nossa rua, e as observávamos serem pisadas pelos cascos dos cavalos? Quem, hoje em dia, pode se interessar por uma cena assim? Ninguém. Mesmo que contada com arte e engenho.
Mas confesso que assumir essa conversação com o interlocutor que há em nós pode ser deveras fascinante.
Súbito, salta da memória aquele momento em que Abel matou Jacó de dentro de um jeep, o motorista bem que tentou retirar dele o revólver da mão direita, mas Abel sacou o outro com a mão esquerda e atirou com o jeep em movimento, acertou Jacó na porta de casa. Tiro certeiro, tiro mortal. Por quê? Ora, porque Jacó, no ápice de uma discussão política, deu um tapa no rosto de Abel.
A memoria poreja. Se assemelha ao casco de um animal pré-histórico que vai minando o líquido das histórias sem qualquer filtro ou autocensura.
Vai pela rua o homem chamado Lírio, muito amigo das famílias, trabalhador em vários ofícios. Contava uns 20 e poucos anos. Mas vinha, na surdina, dedicando-se à mulher do irmão, Marco Antônio, mais velho do que ele, mais forte e como ele também muito querido pelas famílias da cidade. Ao descobrir a traição, entrou em briga feroz com Lírio. E Lírio pôs fim à vida de Marco Antônio. A facada.
Sim, a essa altura das contendas, todas as nossas posses estão reduzidas a carrosséis de imagens nos círculos e nas espirais da memória. Sim, repito, e já quase não há quem possa ouvir tais fatos. Um a um, os possíveis e eventuais interlocutores foram partindo desta para o não se sabe.
Nas prateleiras dos desejos, seria uma grande alegria saber a opinião de JMC sobre esses momentos de sinistras paisagens, com o fascismo à rédea solta. Mas JMC, grande estudioso de Proust e entendedor dessa maquinaria incessante a que damos o nome de memória, pois JMC partiu há perto de 15 anos. E não dará mais a graça de suas valiosas opiniões.
"Quem é você?" Assim é a pergunta que martela num repente por um ninguém que nos habita. A resposta: "Ora, eu pertenço às hordas dos poetas velhos".
Sim, hordas. Sem vínculos com as corporações de ofícios, com as turmas da esquina, com o reduto de etílicas voragens em bares e bodegas, e até as mesas familiares estão cada vez menores com a ausência dos que nos antecederam.
Assim, essas derradeiras travessuras de escrever sobre fatos ou acontecimentos que não serão lidos assumem a condição de apetitosos acepipes na boca septuagenária. Sejamos outra vez a criança que, a um canto, esquecida, dialoga com seres imaginários. Apenas com uma diferença no nosso caso: aos olhos de tantos, já somos também a fugidia névoa de seres fictícios.
É aqui, porém, que me sinto mais à vontade, e até espantosamente satisfeito em meio à proliferação das plataformas que as big techs desovam incessantemente para a captura e hipnose das gentes.
Estou aqui desde 2003. Vivenciei a magnifica explosão da blogosfera e acompanhei com deleite e prazer um grande número de blogs. Alguns deles ainda estão na minha lista de links, como o Teatro Anatómico, do meu fraterno Manuel Jorge Marmelo, ou o Mundo Fantasmo, do igualmente amigo Braulio Tavares.
Frequento-os.
E acompanho rotineiramente o que publicam conforme o modo que ainda prevalece na leitura desses blogs sobreviventes: um ritmo próprio, sem o apelo aflitivo das redes, a lentidão como parceira no rolar da tela, talvez o último vínculo digital com o livro impresso.
Mas creio que estamos fadados à extinção. Mais cedo ou mais tarde isto aqui vai desaparecer. Ainda agora quase ninguém em outras plataformas se dá ao trabalho de clicar em um link que o leve a um blog.
O que leem, quando leem e se é que leem, deve estar inteiro diante dos olhos. Clicar em um link é um salto ao desconhecido. E o melhor mesmo é o instantâneo do Instagram, de acordo com a lei do menor esforço.
De todas as maneiras, aqui estarei.
Leu? Louvo. Não leu? Ovas.
Hoje, mais do que nunca, boa parte de nós escreve apenas para o leitor que há em nós. Boa parte de nós, também, já aprendeu a colocar a mesa e não esperar pelos convivas.
Se alguém tocar a campainha, é claro, será recebido com honras. Se prevalecer o silêncio, comeremos as empadinhas só na companhia do gato que, no meu caso, atende pelo nome de Dorival.
Nada mais desta cena foi lembrado ao amanhecer. Apenas um rato branco, pelado, correu pelo assoalho e ficou de barriga para cima à espera de um carinho.
A visão desse rato provocou asco. O rato esfumou-se, sumiu, desapareceu da cena.
Nenhuma outra cena foi lembrada ao amanhecer.
Ele levantou-se, acariciou o gato à beira da cama, foi à cozinha com o frasco de medicamento e então começou o seu dia.