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19.4.26

[DIÁRIO DE VICENTE ALARAN]

[Abderrahmane Ualibo, o torna-viagem, o sem-pátria, dado a se camuflar em noites secretas no corpo de personagens, diz, em um de seus diários jamais publicados: "Escrever é apenas inseminação verbal".]

[Joseph Joubert (1754-1824), aquele que jamais teve um livro publicado em vida. Não será esta a mais fulgurante condição para um escritor hoje?]

[A vulgarização do fragmento. A vulgarização da "história curta". A vulgarização do aforismo. E, ao contrário, em outro extremo, o grande mito do livro imenso, do livro-rio, o lugar-comum do livro que "fica em pé".]

[À beira dos 75 anos, tempo de repetir Drummond: nenhum problema resolvido, sequer colocado. Mas a folha em branco, à espera do lápis, é o paraíso.]

[Aquela frase de Borges (algo irônica, algo sarcástica) de apoiar na Argentina um candidato certamente incapaz de vitória: "gosto das causas perdidas" (em versão livre, de memória). Pois a literatura talvez seja isto, hoje. E eu repito Borges: gosto das causas perdidas.]

[Desventurado mineiro velho em Paris: feito de ficções, envolto em ficções, preso às teias das ficções.]

[Muitas vezes penso (penso nisto cada vez mais amiúde): serei um homem feito de palavras, vindo do pó das palavras, a caminho do pó das palavras?]

[Fui hoje cedo ao cemitério de Montparnasse. Fiquei longos minutos diante do túmulo de Samuel Beckett.]

[Minha tentativa de escrever o capítulo 10 na manhã de hoje fracassou. Fui atraído pela movimentação do carro da limpeza pela minha rua. Distraí. Deixei o lápis sobre o caderno e fui caminhar.]

[Ontem, na Rue Pascal, entendi de fato o que era uma epifania (mas epifania pagã, terrena), ao ver o vulto de um Cortázar que não era Cortázar, mas um jornaleiro muito velho que entrava por um túnel do tempo.]

[Não poderei levar de Paris a Diamantina a encomenda do meu tio Onofre. Pediu-me ele um vidrinho com um pouco das águas do Sena. Certamente a companhia aérea não permitirá que eu transporte essa "porção de memória líquida", segunda a definição de um velho estudante do Caraça.]

[Vicente Alaran. Juliette sempre achou graça no meu sobrenome. Alaran. Alaran. Ela repete e ri. Juliette, que não é a Binoche, trabalha em um hotel da Rue Amelot, no Marais. É de Nice. Tentou a carreira de atriz. Não deu certo. Alaran, Alaran. Ela repete e ri. Alaran, eu lhe digo, é um alarido falado musicalmente.]

["Em um voo noturno da antiga Vasp, São Paulo-Bruxelas, classe econômica, dissimulado e espremido nas poltronas centrais com a mulher e os quatro filhos, o agente começava a missão que lhe manteria 12 anos na Europa e faria dele um dos homens mais importantes dos serviços secretos europeus." (Trecho do capítulo 9, não aproveitado por sua fraqueza estilística.)]

[O capítulo 17, fracassado, e rasgado, começava assim: "A Organização Petúnia Negra, de nome tão exótico, poderia ter saído de um livro de Roberto Drummond, não fosse a sua especialidade espionar alta funcionária governamental em Bruxelas, por meio do agente ...".]

[Achei, no meio de uma agenda, um provérbio (Zocco Chico Proverb) que copiei de um livro do qual já não me lembro, que diz (e dá calafrios pelo que diz): If you are my enemy / I kill you for money / If you are my friend / I kill you for nothing.]

[O livro era assim: capítulo um, favor voltar ao pré-capítulo.]

[Tive certa vez a arrogância de reclamar da falta de um hífen entre Jean e Paul no túmulo de Jean-Paul Sartre em Montparnasse.]

[No alto da serra da Paraúna. Quase dá para tocar o céu. Viajo segunda para o Brasil. Saudades da minha Diamantina. Um velho argumento para um roteiro jamais concluído, rascunhado em um cartão de embarque, parece-me hoje decididamente risível: "Mineiro em Paris, natural de Diamantina, torna-se agente secreto".]

[Edmond Jabès. Nas travessias de Paris, de metrô, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, suas notações interrompidas, suas notações-caminhantes, escritório móvel pelos subterrâneos da cidade. Por fim, a construção de uma obra em fragmentos circulares.]

[En el sur de la rosa se ha quedado un pájaro detenido. Lezama escreveu isto. Devagar, olho para o sul da rosa. Um sul rosal-rosalino em rosáceas. Mas não quero o pássaro preso. Solto-o.]

[Originário do que chamo de "barroco solar", em contraposição ao "barroco lunar" (o primeiro festivo, profano, báquico, aberto, leve, o outro circunspecto, sacro, pesado), talvez eu encontre na figura da vertigem a definição melhor para o prazer da leitura. Ler como se o texto representasse o salto do acrobata no circo. Sem rede para protegê-lo.]

[Jamais dei uma entrevista; penso que jamais darei uma entrevista. Não por arrogância, mas por temor. O temor de dar à resposta (e às respostas) a condição de pedra, de petrificação. Como um fervoroso do inconcluso, do inacabado, toda resposta (pelo próprio significado do termo resposta) seria vã tentativa de arremate ao que sempre é irrematável.]

[Ne frustra vixisse videar ("Não me deixe parecer ter vivido em vão"), teria dito o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) a Johannes Kepler, pouco antes de morrer, ao que tudo indica, por envenenamento. Entre os feitos de Brahe, por 485 dias, ele observou detalhadamente a supernova que brilhou na constelação Cassiopeia em 1572, e publicou, mais tarde, em 1573, o relato dessa observação no livro De nova stella. Mas o conto, na minha opinião, deve começar de outro modo: pelas próteses que Brahe usava ao ter perdido uma parte do nariz em um duelo. Aí começa a literatura, penso eu aqui na beira do Sena, às vésperas de me despedir de Paris.]

[Sempre penso em quem seria e como era o Falso Geber, o alquimista medieval espanhol que primeiro descreveu o ácido sulfúrico, o autor de obras como Summa perfectiones magisterii, Liber fomacum, De investigatione perfectionis, De inventione veritatis. Leio por aqui e acolá para não confundi-lo com o alquimista árabe Geber (Jabir Ibn Hayyan), este, entre tantas descobertas, criador do alambique de modo a destilar o travesso espírito do vinho, ou al kohl. Mas penso no Falso Geber pelo mistério que o cerca, por seu anonimato, penso nele como matéria de simulacro, como matéria de ficção.]

[Deveras curioso que o médico Jan Baptista van Helmont (1579-1644) tenha batizado os ares de caos. Ainda agora, um redemoinho muito à maneira daquele que Riobaldo cismou ter visto com o demo dentro girou na minha esquina, tão caótico quanto uma dança luciferina.]

[Cada vez mais rio do bico dos meus sapatos. E digo: "Ó, sapatos, destituídos de filosofia".]

[O romance de Durst e Lila aconteceu exatamente naqueles dez dias abolidos pela Igreja Católica em 1582, para dar origem ao calendário gregoriano, ou seja, de 4 de outubro, pulou-se para 15 de outubro. Problema do papa Gregório XIII, porque Durst e Lila se fecharam em uma alcova do Castelo Jerst, da Bavária, exatamente nesses dias roubados do tempo por sugestão do astrônomo Christoph Clavius. Foram dez dias de um romance que, à época, conforme certos peregrinos desbocados, fez cair mamona de tão quente.]

[Caderno 1: Oito anos e 184 dias em Paris. Despeço-me, por fim.]

[Caderno 2: Amanhã, assumo novo posto de trabalho no Porto. O velho sonho de estar à beira do Douro.]

[Há pouco, enquanto observava o dorso das águas à luz da tarde, um grilo pousou em um pedregulho à beira do Douro. Um grilo verde. Muito magro e janota. Desengonçado, fora de lugar e expressando certo incômodo. Acho que nenhum portuense notou esse grilo verde à beira do rio. Creio que me olhava. Não sou especialista em olhares de grilos. Jamais poderei saber se, como eu, um grilo pode ser míope, se vê o mundo assim ou daquele modo. Mas não achei um despropósito deduzir que o grilo me olhava. Talvez quisesse conversa. Talvez quisesse dizer boa tarde em idioma de grilo, talvez desejasse um comentário sobre o tempo nublado. Nada disse. Nem ele, nem eu. Logo o grilo voou. Mas pode ser que nada disto tenha acontecido.]

[Ainda há pouco, passei pelo As Sogras, na Campo dos Mártires da Pátria. Não entrei, porém. Virei a esquina e segui pela Rua Caldeireiros em busca da tipografia que me foi indicada por Abderrahmane Ualibo. É bem provável que eu edite a noveleta aqui no Porto. Mas a editarei à moda antiga, não mais do que 50 exemplares compostos e rodados em prensa obsoleta, a caminho do desaparecimento. Faz bem esse tipo de gesto produtor de tais contrastes. Praticar o que já quase não existe ou está em vias de se tornar névoa. Depois beberei à beira-Douro uns bons tragos de Porca de Murça, em homenagem à edição destinada ao fracasso. O que são os livros senão esses fracassos acumulados?]

18.4.26

[QUATRO DA MANHÃ: PAUL VALÉRY COMEÇARÁ A ESCREVER]

[Íamos, Rubem Focs e eu, pela Rua dos Geômetras. Era por fim a noite calma e terna para os que vínhamos de perigoso embate com uns pistoleiros da Cidade Baixa. Focs levava sob o capote uma zero doze de fabricação alemã; eu mantinha no bolso do paletó a oito sete de procedência incerta. Deram-se os combates desde a hora vespertina. Eram nove contra dois. Vencemos. Aos andrajos, caminhávamos. Era vitória muito dolorida de muitas horas e tiroteios. E triste como todas as vitórias.

A Rua dos Geômetras era curta e plana e os sobradinhos de dois andares pontificavam com as suas fachadas delicadas àquela hora em que a cidade, deserta, parecia enroscar-se aos modos de um cão sem dono. Um ou outro surgia nas esquinas, gente talvez feita de bruma, sem consistência e substância de pessoa vivente. Uivavam ao longe talvez espécies caninas. Olhos de gatos apareciam em frações de minuto, aqui e ali, em algum desvão de garagem.

Por acidente, mais em fuga do que guiados por um mapa, caíramos na Rua dos Geômetras. O certo seria a Rua dos Caracóis, mais ao sul, limítrofe com o bairro dos Alfaiates. Mas estávamos ali na noite calma e terna e por ali seguiríamos até a Praça das Bolandeiras. De lá, cada um de nós tomaria o caminho de casa. A vitória doloria. Era decerto vitória muito triste. Aqueles tempos de guerra. Tempos abomináveis.

Foi quando passamos pelo número 33, diante do sobrado azul, três janelas no segundo andar, três portas no primeiro, com uns arabescos na fachada e gradis oxidados nos balcões minúsculos. Estava acesa a luz da janela do meio. Única luz na Rua dos Geômetras quando batiam as quatro horas da madrugada. Única luz como se um farol em alto-mar. Amarela, trêmula, mais tremular ainda quando o movimento de uma sombra parecia interpor-se entre o cômodo e a rua. Quem lá estivesse, não era fantasma, assim deduziu Focs em uma frase sem ponto final, frase reticensiosa nos tons baixos de alusão a mistérios. 

Paramos diante do sobrado e ali fizemos uma pausa. Quem lá estivesse, merecia esse intervalo em nossa caminhada. Focs olhou-me por um instante, refletiu sobre o que fazer e foi lentamente em direção à porta que nos parecia a porta principal. Havia identificação de moradores em uma placa esmaltada. Focs leu: Paul Valéry, 2º E. Dois outros nomes dividiam com Valéry a placa: Vernon Lassale e Jacobo Trévor. Mas era, sim, o poeta que se movimentava naqueles estertores da noite. Certamente, usava roupão e pantufas. E tinha diante dele mais um caderno aberto, a pena com certeza elevada para depois se abater sobre a folha para as notas aforismáticas de mais uma jornada de trabalho. 

A vitória doloria em nós. Era vitória triste daqueles tempos abomináveis. Mas seguimos caminho em passadas de intermitência, ofegantes, a ritmo muito cansado. Eram tempos abomináveis. Mas, ao nosso modo de homens rudes, saudamos em silêncio aquele poeta em sua laboriosa e grácil geometria.]

17.4.26

[VOCÊ NEM SABE O QUE LHE CAI DA NOITE]

[assim com a mão em côncavo,
mas não em súplica, aparo as gotas

que da noite caem. não sei se água, 
não sei se luz, não sei se estrela
 
ou qualquer luzeiro líquido, só
sei que aparo essas gotas, são quase

sílabas ou quase letras, pois,
ao ter plena a mão que as recebe,

sinto a indisfarçável presença do poema.]

16.4.26

[ÁGUA]


[água. ei-la em quatro letras.
é a gota, é o pingo, é a lança 
em pêndulo no cair da chuva, 
é a fera em caudal e correnteza, 
é o remanso, calma sonhada 
pelos peixes que lambem o barro,
e é o imenso, o imenso 
e incomensurável do oceano.

água. ei-la no copo, ei-la
na guerba dos tuaregues pelo deserto, 
a guerba feita em couro de cabra 
que as cascas de acácia 
ou romã curtiram por muitas luas.

água. até seu nome sacia e refresca.]

[LOUVAÇÕES À GOIVA]

[gosto da palavra goiva.
louvo a palavra goiva.
com a ideia de goiva,
com o fio cortante da goiva,
eu escavo a letra.

o que há com a pose do poeta
que não corta a graxa ou a banha
das aortas do poema? só pose
e gula, só pose e garganta,
só gogó 
e falares com protuberância?

a goiva ensina o lavrar diário:
escavar a matéria à sua máxima
economia. lascas de gordura seca,
essa banha milenar que apodrece
a palavra, essa nata, tudo isto
a goiva retira 
para o bem das substâncias.

a goiva ainda ensina: 
"só a obra inquire a obra, 
e todo o resto 
é falação humana".]

15.4.26

[QUEM LERIA CONTO TÃO BREVÍSSIMO?]

[O conto era brevíssimo, era quase um suspiro de borboleta de tão fugaz, por isso avisamos aos que passavam pela Rua Torta que não se iludissem, não esperassem o acontecimento-mor da criação. 

Flaubert, ainda de touca, conversava à porta da barbearia com Coelho Neto, e Rimbaud, de bicicleta, punha língua para Dona Ordália, a Santa. 

A Rua Torta era rua-cinema ou rua-baile ou rua-circo, conforme a hora.

Avisados que o conto era brevíssimo, os passantes e andantes e transeuntes puderam deixar as ilusões dentro das sacolas. 

Só havia dúvida quanto ao leitor do conto. 

Quem seria? 

Quem poderia ler tão ligeira e cadente peça de duas linhas, se tanto? 

Onofre, sempre um leitor em voz alta desde os tempos de coroinha, mudara-se para São Paulo. 

Jardel, anticomunista espumante, conseguira posto de observador de nuvens em Brasília. 

E o Antônio? 

Antônio era caso perdido.

O conto brevíssimo luzia à claridade da manhã. 

Conversa vai, conversa vem, o alcaide da rua, Tomás, teve a ideia de trazer um autofalante daqueles de armarinhos turcos. 

José Taranto, que se passava por magistrado, trouxe um caixote de maçãs. 

Eram demasiados os cachorros na rua àquela hora. 

Floreiras nas janelas exalavam em algumas casas o perigoso odor dos pecados. 

O ex-governador coçava a verruga. 

E nós, os autores do conto brevíssimo, esticávamos cordões pela rua afora, como se linhas de telégrafo.

Dez horas da manhã e nada. 

Meio-dia e nada. 

Duas da tarde e nada. 

Quem leria o conto brevíssimo para que as ficções não minguassem como se sementes carunchadas? 

Quem seria o leitor daquela migalha de palavrotas e palavrinhas? 

Quando soaram as quatro da tarde pelo carrilhão de Dom Acácio, o poliglota, começou um tumulto na Rua Oblíqua, paralela à Rua Torta. 

Vinha a passeata das Senhoras Roxas, ia a passeata das Senhoras Sônicas. 

Ali pelo número 44, as duas porções passeantes se enfrentaram. 

Houve tiroteio de impropérios. 

Anáguas foram rasgadas. 

Coifas viuvantes foram atiradas à poeira.

Carlo Emilio Gadda, que proseava com Flaubert já à porta da Cantina, decidiu ler o conto brevíssimo. 

Gadda, embora o estilo sinuoso, era querido pelas partes divergentes. 

Fez-se silêncio. 

Os cachorros amontoaram-se em posição de sentido nas calçadas. 

Ao longe, um navio mercante soltou a fúria de seu apito. 

Mariposas risonhas pararam seus voos de fim de tarde. 

Aguardavam. 

Gadda, então, com o minúsculo papel manuscrito nas mãos gordotas, limpou o pigarro. 

Começaria a leitura. 

Silêncio. 

Pausa. 

O mundo agora estático, o mundo agora estátua. 

E então explodiu a bomba atômica.]