7.5.26

[NINHO DE HISTÓRIAS, HISTORIOLAS E HISTORIETAS]


[No embornal cheio de mínimos pedaços de papel escritos com uma, duas ou meia dúzia de palavras, achei que poderia criar uma história. Às 8 horas da segunda-feira, enfiei a mão no simpático saco de lona e de lá retirei o papel com a palavra "touca". Enfiei outra vez a mão e de lá eu trouxe outro papelucho com a palavra "camisola". Olhei para as duas palavras e fui tomado pelo desalento. Nada eu poderia criar a partir de touca e camisola, a não ser que pusesse touca na Senhora Olinta e a fizesse chegar à janela da Rua dos Girassóis vestida com a camisola listrada ou zebrada em branco e marrom. Desisti. Dois dias depois, enquanto folheava uns opúsculos portugueses editados no Porto, olhei para o embornal que repousava sobre a cômoda do gato e resolvi praticar outra vez a experiência doidivanas. Enfiei a mão. Fechei os olhos. Devagar eu trouxe do abismo um papel macio. Nele estavam grafadas as palavras "falastrão", "bigode" e "cachecol". Lendo-as, confesso que senti os impulsos tempestuosos que ocorrem quando há uma história a caminho. Pensei no Odovaldo e logo concluí que ele bem que poderia ostentar o título de falastrão. Ademais (ora vejam, quanto tempo não vinha morro abaixo a palavra ademais!), em Odovaldo o bigode cairia bem, assim como o cachecol de falsa lã, presente de amigo oculto na firma Imobiliária Os Souza. Achei que o experimento aproximava-se do sucesso. E só de pensar que, no sábado, bem cedo, assim que as cornetas do quartel soarem neste bairro chamado Viva o Povo, enfiarei outra vez a mão no embornal para explorar novas histórias, historiolas e historietas, meu coração dispara.]

[CANÇÃO DO MOÇO ESQUISITO]

[aquele era um moço avoado,
inquieto, esquisito, que andava
de um lado para o outro
sem pouso, paz ou sossego.

ele vinha de uns lances
de tempos antigos, jacarta,
helsinque, estrasburgo, 
berlim, san francisco, 
proust numa bolsa, 
beckett na outra.

esse moço trazia palavras
pescadas no poço sem fundo
da língua, ginete, charneca,
espartilho, retrós, gemebundo,
bebia absinto, dançava 
flamenco e amava o perigo.

esse moço, que agora está morto,
deixou meia dúzia de escritos
como seu testamento, e num deles
foi dito: "abaixo os larápios,
abaixo os tacanhos, 
abaixo o fascismo".]

[QUARAR OS TEXTOS]

[nesses dias que correm 
(ou não correm), 
escrever e publicar textos 
ou textículos aqui e acolá 
lembra o verbo quarar.
 
quarar a roupa. 
quarar os lençóis. 
quarar as fronhas 
e as toalhas. 
quarar as ceroulas. 

deixá-las ao sol. 
ao olho do lagarto, 
ao sobrevoo do gavião 
perdido e em círculos, 
à disposição de formigas e besouros.
 
põe-se um texto nessa pedra 
imensa à beira do rio-corrente 
das pessoas que passam, que sobem 
ou descem pela correnteza das águas.
 
aqui ponho o texto a quarar 
sobre esses pedregulhos. 
já nem espero que seja visto ou lido. 
apenas deixo-o assim ao relento, 
às intempéries.]

6.5.26

[A FRASE-CIRCO]


[sorrateira, agora há pouco
passou uma frase
engraçadinha pelo estreito
e trêmulo fundo da agulha
onde o poema seleciona
o gado-léxico, esse gado
solto pelo mundo, já longe
dos dicionários, já tomado
pelo vício de enganar e usurpar 
os textos com o traje de anarco,
mas mero lançador de dardos 
burocráticos camuflados 
com o humor de frases-circo.]

[AS CASAS]

[a primeira casa
chamava-se “casa das intempéries”.
depois veio a “casa dos que usavam
guelras”. a “casa das meninas
em doçura” sofreu a queda inexorável
em um setembro já muito distante.
seguiram-se a “casa das frases quentes”
e a “casa dos alaridos”. por fim,
quando já não mais havia livros
a escrever, veio a “casa das frases longas”.]

[DOS DIZERES NÉSCIOS]

[tantos são os dizeres 
néscios sobre o poema

que ele, em pânico, 
assume a forma

de um graveto, ou então 
esconde-se, exila-se

sob o rabo do lagarto,
ou proclama-se ágrafo

para que a palavra
um dia volte à fonte

imune às nescidades.]

[ENQUANTO CONTINUA O MORMAÇO]

— Pode ser que sim — disse o homem debruçado sobre o muro.

— E se a gente pintasse tudo de vermelho? — perguntou a mulher, na janela.

— Vermelho é cor muito atrevida — falou o homem, olhando para as nuvens.

— Mas é a cor que eu mais gosto — ela respondeu. — Sabia disto?

— Sabia, mas estão dizendo na cidade que somos doidos — proferiu o homem, depois de algum silêncio.

— Ora, que falem, cada um planta a sua doidura — ela falou, irritada.

— Doidar é melhor do que a linha reta — disse o homem.

— Bem que a gente podia fazer um baile — disse a mulher. 

[HERMENÊUTICA DA PAUSA]

[a pausa talvez seja um tecido vegetal em jardins despovoados.]

[nesse tecido vegetal, há movimentações de silêncios.]

[são pequenos silêncios que se organizam conforme as posições da lua ou do sol.]

[não há governos para esses silêncios, nem pauta de música para regências de um maestro.]

[nesse tecido que pode ser verde ou amarelecido como as folhas no outono, se dá a pausa.]

[ninguém diz, mas há indícios de sábios muito antigos aconchegados nesse tecido onde se dá a pausa.]

[quando alguém caminha pela cidade e de repente para em estados de ausência, diz-se que houve uma pausa.]

[a pausa dura o quanto for necessário para a própria pausa.]

[depois que ela ocorre, chegam os enxames.]

[os enxames podem ser de gentes, carros ou mesmo parafusos atirados de um edifício.]

[a escritura acontece dentro dessas acontecências de pausa.]

[a leitura também.]

[a pausa é o número três da vida e da morte.]

[o número três não tem nome. nem a pausa.]

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