VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA

24.4.26

[DA SEPARAÇÃO ENTRE POEMA E POESIA]

[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema:
plâncton, âmbar, abelha,
ou grãos de trigo, em pendões,
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.

penso no organismo,
no indivíduo, penso na ilha
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.

penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia
era já forma adiposa, teia-aranha.

penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.

agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.

agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]

[JARDINS E DESERTOS]

[o eco, que é a memória da voz, reverbera pelo jardim das palavras. 

edmond jabès diz que jardim é palavra, e que deserto é escritura. 

matinal, o senhor glavs vai aos canteiros do jardim observar se houve eclosão de sementes durante a noite, ou se a escritura do deserto trouxe nova caravana. 

"há muito a fazer", disse o senhor glavs. 

é já um homem velho este senhor glavs que, expedicionário, trata jardins e desertos como se fossem livros. 

"todo livro é um pequeno coração pulsante entre os nossos dedos", ele fala. 

e o eco, de algum lugar das primeiras falas, reverbera pelo jardim das palavras. 

são ressonâncias de campânulas ao vento. 

ou talvez o silêncio escrito. 

"ou o silêncio a escrever", diz  o senhor glavs.]

20.4.26

[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]

[no princípio 
não era o verbo,
mas o pão de queijo. 
assim afirmavam gozosos 
e pândegos 
aqueles marinheiros. 

não marinheiros de alto-mar, 
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos 
de navegação 
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos 
ali para os lados 
do bairro da floresta.

bastava lançar a isca 
de um vocábulo 
que eles puxavam o anzol 
das frases. e então navegavam 
pelos mares da língua. 
aliteravam lua linda 
lábio luva leque 
lépido larápio. 
e faziam redondilhas. 
e litotes. 
e puxavam do bolso 
do paletó um limerique 
de formato irlandês
em louvor a james joyce. 

e depois, ao silêncio 
que vinha 
após tais simpósios, 
acenavam 
para quem passasse 
àquela hora, 
podia ser o poeta 
libério neves 
a caminho de santa tereza, 
podia ser o manoel lobato 
rumo à sagrada família.

e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano, 
espécie nova de mineiro 
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.

"a vida? 
ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo 
aliterava porções 
do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes 
da namoragem com a língua.]

18.4.26

[QUATRO DA MANHÃ: PAUL VALÉRY COMEÇARÁ A ESCREVER]

[Íamos, Rubem Focs e eu, pela Rua dos Geômetras. Era por fim a noite calma e terna para os que vínhamos de perigoso embate com uns pistoleiros da Cidade Baixa. Focs levava sob o capote uma zero doze de fabricação alemã; eu mantinha no bolso do paletó a oito sete de procedência incerta. Deram-se os combates desde a hora vespertina. Eram nove contra dois. Vencemos. Aos andrajos, caminhávamos. Era vitória muito dolorida de muitas horas e tiroteios. E triste como todas as vitórias.

A Rua dos Geômetras era curta e plana e os sobradinhos de dois andares pontificavam com as suas fachadas delicadas àquela hora em que a cidade, deserta, parecia enroscar-se aos modos de um cão sem dono. Um ou outro surgia nas esquinas, gente talvez feita de bruma, sem consistência e substância de pessoa vivente. Uivavam ao longe talvez espécies caninas. Olhos de gatos apareciam em frações de minuto, aqui e ali, em algum desvão de garagem.

Por acidente, mais em fuga do que guiados por um mapa, caíramos na Rua dos Geômetras. O certo seria a Rua dos Caracóis, mais ao sul, limítrofe com o bairro dos Alfaiates. Mas estávamos ali na noite calma e terna e por ali seguiríamos até a Praça das Bolandeiras. De lá, cada um de nós tomaria o caminho de casa. A vitória doloria. Era decerto vitória muito triste. Aqueles tempos de guerra. Tempos abomináveis.

Foi quando passamos pelo número 33, diante do sobrado azul, três janelas no segundo andar, três portas no primeiro, com uns arabescos na fachada e gradis oxidados nos balcões minúsculos. Estava acesa a luz da janela do meio. Única luz na Rua dos Geômetras quando batiam as quatro horas da madrugada. Única luz como se um farol em alto-mar. Amarela, trêmula, mais tremular ainda quando o movimento de uma sombra parecia interpor-se entre o cômodo e a rua. Quem lá estivesse, não era fantasma, assim deduziu Focs em uma frase sem ponto final, frase reticensiosa nos tons baixos de alusão a mistérios. 

Paramos diante do sobrado e ali fizemos uma pausa. Quem lá estivesse, merecia esse intervalo em nossa caminhada. Focs olhou-me por um instante, refletiu sobre o que fazer e foi lentamente em direção à porta que nos parecia a porta principal. Havia identificação de moradores em uma placa esmaltada. Focs leu: Paul Valéry, 2º E. Dois outros nomes dividiam com Valéry a placa: Vernon Lassale e Jacobo Trévor. Mas era, sim, o poeta que se movimentava naqueles estertores da noite. Certamente, usava roupão e pantufas. E tinha diante dele mais um caderno aberto, a pena com certeza elevada para depois se abater sobre a folha para as notas aforismáticas de mais uma jornada de trabalho. 

A vitória doloria em nós. Era vitória triste daqueles tempos abomináveis. Mas seguimos caminho em passadas de intermitência, ofegantes, a ritmo muito cansado. Eram tempos abomináveis. Mas, ao nosso modo de homens rudes, saudamos em silêncio aquele poeta em sua laboriosa e grácil geometria.]

16.4.26

[ÁGUA]


[água. ei-la em quatro letras.
é a gota, é o pingo, é a lança 
em pêndulo no cair da chuva, 
é a fera em caudal e correnteza, 
é o remanso, calma sonhada 
pelos peixes que lambem o barro,
e é o imenso, o imenso 
e incomensurável do oceano.

água. ei-la no copo, ei-la
na guerba dos tuaregues pelo deserto, 
a guerba feita em couro de cabra 
que as cascas de acácia 
ou romã curtiram por muitas luas.

água. até seu nome sacia e refresca.]

15.4.26

[QUEM LERIA CONTO TÃO BREVÍSSIMO?]

[O conto era brevíssimo, era quase um suspiro de borboleta de tão fugaz, por isso avisamos aos que passavam pela Rua Torta que não se iludissem, não esperassem o acontecimento-mor da criação. 

Flaubert, ainda de touca, conversava à porta da barbearia com Coelho Neto, e Rimbaud, de bicicleta, punha língua para Dona Ordália, a Santa. 

A Rua Torta era rua-cinema ou rua-baile ou rua-circo, conforme a hora.

Avisados que o conto era brevíssimo, os passantes e andantes e transeuntes puderam deixar as ilusões dentro das sacolas. 

Só havia dúvida quanto ao leitor do conto. 

Quem seria? 

Quem poderia ler tão ligeira e cadente peça de duas linhas, se tanto? 

Onofre, sempre um leitor em voz alta desde os tempos de coroinha, mudara-se para São Paulo. 

Jardel, anticomunista espumante, conseguira posto de observador de nuvens em Brasília. 

E o Antônio? 

Antônio era caso perdido.

O conto brevíssimo luzia à claridade da manhã. 

Conversa vai, conversa vem, o alcaide da rua, Tomás, teve a ideia de trazer um autofalante daqueles de armarinhos turcos. 

José Taranto, que se passava por magistrado, trouxe um caixote de maçãs. 

Eram demasiados os cachorros na rua àquela hora. 

Floreiras nas janelas exalavam em algumas casas o perigoso odor dos pecados. 

O ex-governador coçava a verruga. 

E nós, os autores do conto brevíssimo, esticávamos cordões pela rua afora, como se linhas de telégrafo.

Dez horas da manhã e nada. 

Meio-dia e nada. 

Duas da tarde e nada. 

Quem leria o conto brevíssimo para que as ficções não minguassem como se sementes carunchadas? 

Quem seria o leitor daquela migalha de palavrotas e palavrinhas? 

Quando soaram as quatro da tarde pelo carrilhão de Dom Acácio, o poliglota, começou um tumulto na Rua Oblíqua, paralela à Rua Torta. 

Vinha a passeata das Senhoras Roxas, ia a passeata das Senhoras Sônicas. 

Ali pelo número 44, as duas porções passeantes se enfrentaram. 

Houve tiroteio de impropérios. 

Anáguas foram rasgadas. 

Coifas viuvantes foram atiradas à poeira.

Carlo Emilio Gadda, que proseava com Flaubert já à porta da Cantina, decidiu ler o conto brevíssimo. 

Gadda, embora o estilo sinuoso, era querido pelas partes divergentes. 

Fez-se silêncio. 

Os cachorros amontoaram-se em posição de sentido nas calçadas. 

Ao longe, um navio mercante soltou a fúria de seu apito. 

Mariposas risonhas pararam seus voos de fim de tarde. 

Aguardavam. 

Gadda, então, com o minúsculo papel manuscrito nas mãos gordotas, limpou o pigarro. 

Começaria a leitura. 

Silêncio. 

Pausa. 

O mundo agora estático, o mundo agora estátua. 

E então explodiu a bomba atômica.]