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25.2.26

[O FALSO GEBER]


[Sempre penso em quem seria e como era o Falso Geber, o alquimista medieval espanhol que primeiro descreveu o ácido sulfúrico, o autor de obras como Summa perfectiones magisterii, Liber fomacum, De investigatione perfectionis, De inventione veritatis. Alguns o associam a Paulo de Taranto, um franciscano também espanhol do século 13.

Leio por aqui e acolá pedidos de cautela para não confundi-lo com o alquimista árabe Geber (Jabir Ibn Hayyan), este, entre tantas descobertas, criador do alambique de modo a destilar o travesso espírito do vinho, ou al kohl. Mas penso no Falso Geber pelo mistério que o cerca, por seu anonimato, penso nele como matéria de simulacro, como matéria de ficção.]

[QUANDO COMEÇAR O CONTO]


[Ne frustra vixisse videar ("Não me deixe parecer ter vivido em vão"), teria dito o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) a Johannes Kepler, pouco antes de morrer, ao que tudo indica, por envenenamento. Entre os feitos de Brahe, por 485 dias, ele observou detalhadamente a supernova que brilhou na constelação Cassiopeia em 1572, e publicou, mais tarde, em 1573, o relato dessa observação no livro De nova stella

Mas o conto, na minha opinião, se for escrito, se for realmente escrito, deve começar de outro modo: pelas próteses que Brahe usava ao ter perdido uma parte do nariz em um duelo. Aí começa a literatura, penso eu aqui na beira do rio Lucaia, nesta cidade da Bahia.]

[ENCONTRO DE LEIBNIZ E SPINOZA EM HAIA]


[Senhor Glous, vocacionado às pesquisas inusitadas, bizarras e até mesmo inúteis, conta-me do encontro que o Senhor Gottfried Wilhelm Leibniz teve com o Senhor Baruch de Spinoza entre os dias 18 e 20 de novembro de 1676, em Haia.

Conforme pesquisou Glous, o Senhor Leibniz se achava em missão diplomática na região e achou por bem visitar Spinoza, já bastante doente, e que morreria meses depois, em fevereiro de 1677.


Antes, por ter chegado aos Países Baixos em outubro, Leibniz visitou intelectuais como o matemático e físico Huygens, o comerciante de tecidos e construtor de microscópios van Leeuwenhoek, que associou microorganismos à produção de alimentos fermentados, e também o físico e médico Ehrenfried Walther von Tschirnhaus. E então dirigiu-se a Haia para conhecer Spinoza, de quem já lera o Tratado Teológico-Político (1670) e com quem já trocara correspondência indireta.


Por dois ou três dias, salvo erro, salvo engano, os dois filósofos conversaram com gosto e verbo sobre a natureza de Deus e da substância, sobre liberdade e necessidade, sobre a relação entre corpo e alma, e, claro, sobre a obra inédita de Spinoza, a Ética, que Leibniz leu em manuscrito.


Conforme a principal fonte desse encontro, Christoph Hermann von Wolff, Leibniz ficou impressionadíssimo, mas também intrigado, com a pulga atrás da orelha: viu ali a força lógica do sistema de Spinoza, mas igualmente avistou certo perigo, pois implicava, segundo ele, uma forma de panteísmo (Deus = Natureza), o que julgava incompatível com a teologia cristã.


O bate-papo entre os dois também foi relatado pelo próprio Leibniz em um texto que se encontra conservado em Hannover.


Ao partir, Leibniz levou na bagagem um exemplar manuscrito da Ética, exemplar que ainda existe com suas próprias anotações à margem.


"Sabe-se que esse colóquio entre os dois filósofos foi um marco, pois foi daí que Leibniz, como se em um contraponto a Spinoza, criou a filosofia das mônadas e da harmonia preestabelecida", diz exultante o Senhor Glous, escandindo cada palavra de sua revivência daqueles dias.


Enquanto caminha pela tarde em Salvador, na Rua Conselheiro Pedro Luiz,  e até mesmo transborda os olhos de emoção pelo relato desses acontecimentos, Senhor Glous saúda os passantes do bairro do Rio Vermelho, como se ele próprio tivesse feito parte do famoso encontro de Haia.]

[O PÉ]


[Quando chegamos, o pé, sozinho, dentro de um muito usado sapato branco, já se encontrava sobre a mesa de número 86, vizinha à nossa, a 85. Parecia um pé cortado de véspera, parecia ainda guardar a tristeza dos pés que são cortados um pouco antes, algumas horas antes, aquela tristeza surgida de uma resignação, a tristeza de não mais serem parte de um todo, pé renegado, agora sem serventia, não mais caminhante, não mais flâneur pelas ruas de uma cidade. Era um pé esquerdo. Até que robusto. Ao lado dele, junto ao bico do sapato, havia um saleiro, um paliteiro, um amontoado de guardanapos, e uns restos de quem ali almoçara, a não menos triste feição de alguns secos grãos de arroz. Éramos três naquela hora. Vínhamos da parte sul da cidade, tínhamos sede, ao garçom invocamos os mais plenos vasilhames, os de bebida forte. E ficamos. Conversávamos, silenciávamos. Pausas e pontos. Pontos e pausas. Éramos três, depois éramos quatro, pois chegara pelo meio da tarde o Jonas Estivador. De tempos em tempos, olhávamos pelo canto dos olhos para o pé em sua condoída solidão, a mais condoída solidão que pode expressar um pé sobre a mesa, dentro de um sapato branco, cortado de véspera. Jonas Estivador era o de nós o que mais bebia, abruptos tragos, junto com goles de silêncio. Igual ao pé, Jonas Estivador sofria de tristeza das que exalam, das que soltam odores próprios da tristeza. Tão triste era, tão triste estava que poderia ser o pé na mesa ao lado, ambos como que exilados do mundo.]

[ANJOS E MENINARIAS]

[os meninos da rua de cima queriam guardar luz de sol dentro de um vidro.]

[os meninos da rua de baixo queriam guardar em vidro bocados da luz da lua.]

[os meninos sem rua, ou de todas as ruas, queriam mesmo era encher o vidro com minhocas gordas.]

[o menino pedro, da rua do meio, sonhava com um sapo vermelho que só sabia dizer uma palavra.]

[era a palavra gualcalipstoia.]

[a palavra gualcalipstoia só existia no dicionário dos sapos vermelhos.]

[sapos de outras cores gostavam de palavras que derretiam na boca.]

["algum escritor aí dentro?", perguntou o menino waldo à beira do buraco.]

[era buraco grande, cabia nele um rinoceronte.]

[o menino waldo chegava à beira do buraco e perguntava: "algum escritor aí?", "nenhum?", "nem um?", o menino waldo perguntava.]

[o buraco ficava mudo.]

[o menino waldo foi embora.]

[foi então que o menino estêvão quebrou o rádio em pedacinhos.]

[queria saber se pessoas moravam dentro do rádio.]

[não encontrou ninguém.]

[e entendeu que as coisas podem não estar dentro das coisas.]

[o menino estêvão foi então à montanha e de lá olhou para o mundo inteiro.]

[viu até o polo norte.]

["olá, seu polo norte", ele disse duas vezes.]

[depois desceu da montanha e foi desaparecer no túnel do nunca mais.]

[o anjo das barbas azuis foi visitar os meninos e aprender a desentortar arames.]

[os arames eram invisíveis.]

[só meninos e anjos de barbas azuis conseguiam ver os arames ao sol.]

[um dos meninos disse que era entendido em filosofia desentortadeira.]

[o anjo de barbas azuis ria com voz muito fina.]

[os meninos então perguntaram para ele se ele tinha um violino dentro.]

24.2.26

[ORQUESTRAÇÕES PARA LÁPIS E ABISMO]

[DE SILVINA PARA A PÁGINA]

[salta de um texto de silvina rodrigues lopes a palavra "rosaceamente". de propósito, descontextualizo-a. retiro-a, delituoso, de seu contexto. trago-a para a tarde de domingo. ponho-a sozinha na página para vê-la, girá-la, desdobrá-la, expandi-la. expandir os seus significados. rosaceamente. a rosa que se põe ao tempo para contagiá-lo. a rosa contagiadora. epidêmica. rosaceamente. a rosa-sendo-rosa, infinitamente sendo rosa, da manhã à noite, com passagem por essa tarde de um domingo. bem-aventuradas essas palavras que saltam dos livros como se uma pepita de ouro que salta do veio, do aluvião. ou um ovo que eclode. a isto eu chamo poesia.]

[A ESCUTA DO TEXTO]

[à tagarelice, a confusão universal; ao laconismo, o reino das ambiguidades. o que escutar? o que perceber no dorso ou nas vísceras de uma frase? pela "audição" silenciosa da leitura, "escutamos" o texto. se tagarelas, se boquirroto, ei-lo a gerar curtos-circuitos cognitivos. se lacônico, se esburacado ou lacunado, ei-lo a suscitar dizeres para a "escuta" bem mais além do que de fato ele diz.

a "escuta" do texto: arte, engenho, armadilha, tocaia, engano ou abismo, queda livre ao poço da incomunicabilidade?

só, diante do texto, em sua "escuta", dia após dia aprendemos com esse risco. risco letal, em muitos casos. ou extasiante quando o que vem da "escuta" é diamante, pássaro, vento, martelo, goiva, paisagem, pois substantivos límpidos de contaminação radioativa dessa grande central nuclear que é a escrita.

somos todos sísifos da audição, pois "escutar" o texto assemelha-se à condenação do mito original de levar a pedra ao cume e retornar, infinitamente, para de novo levá-la. "escutar" o texto também não tem fim.]

[O OLHO CONCERTISTA DO LEITOR]

[olho-amante, olho-amoroso, olho-tátil, olho-olfativo. de muitos modos e maneiras o olhar desliza sobre os textos e sobre os livros. ou sob, posto que o olhar igualmente transita abaixo da superfície aquática das palavras. mas há também a ideia de partitura. o olho como leitor instrumental em um concerto silencioso, cuja plateia se resume ao leiturante-instrumentista, um milagre dos sentidos pela capacidade de tocar e reger uma infinita massa de tons, timbres, nuanças, matizes, escalas. ler e tocar. ler e reger. ler e compor a composição outra no instante em que se lê. há sempre uma expansão incontrolável no ato de leitura. geografia e topografia sem divisas e sem fronteiras.]

[APAZIGUAMENTOS]

[o texto, no caminho do meio, para não atiçar as paixões. pois as paixões estão eriçadas, crespas, paixões de mar bravio. então o texto no caminho do meio para apaziguar os belicismos. ou pelo menos para não incentivá-los. e suavizar as dicotomias intransigentes. é que há ódio demais inoculado nas veias.]

[A INOCÊNCIA DA FOLHA]

["quem vem lá de dentro do silêncio?". assim perguntava a folha em branco, límpida ainda, cristalina ainda, sem ainda imaginar a orgia que o lápis, daí a pouco, lhe faria.]

23.2.26

[LEITURIA, LEITORIA. LIÇÕES DE LER]

[leituria, posto que da leitura; leitoria, posto que do leitor.]

[júbilo? gozo?]

[é jubiloso o caminho que vai de letra em letra, fração de vocábulos, infinitude letral, sandálias de percorrer o que vogal, o que consoante, o que som, o que ritmo. soar, ressoar, ecoar, a ressonância dos pés do peregrino nos rochedos ou na praia dos textos.]

[é gozoso o caminho dessa percorrência, dessa vagância, vagabundagens do olho sobre as letras, orgásmica figura, ler pelo gozo de ler, essa ócia, feminino de ócio, essa risa, feminino de riso.]

[leituria, posto que da leitura, essa aventura, as amanhecências da página, as noturnidades da página, corpo-biblioteca, a revolução que começa sempre e não acaba nunca.]

[leitoria, posto que do leitor, esse esmo de pessoa, meninozinho estrangeiro, migrante de letra em letra, refugiado sem país ou terra, nômade pelas dunas das palavras, ateador de fogo das significâncias.]

[(in)sei de mim quando leio, praticância da leituria, o (in)saber para dentro, o (in)saber das dessabências, nau desconhecida pelo mar sem nome do intramundo, eis-me em júbilo, eis-me em gozo de ler.]

[(in)sei de mim quando-e-enquanto leitor, militância da leitoria, andante cavaleiro pelo (in)livro, pelo (in)texto, oceano interior das naus alegres, alegrumes de peregrino sem nada, nadificado pela nudez leitora, eis a terra à vista, eis o promontório, eis o istmo, lá onde o pataxó cultiva estrelas, lá onde o maxacali pastoreia o gume do raio em queda.]

[leituria, melhor do que escrever; leitoria, melhor do que a escrituraria.]

[júbilo? gozo? mais: é o espanto que farfalha, o encantamento que boquiaberta, o susto que transvira a linha, o terremoto a cada livro, cântico dos cânticos a cada palavra.]

[SIGNOR FRAGOLINO E A SUA BICICLETA]


Meu filho contou-me a história, que teria sido assim: 


Que Signor Fragolino, com as mãos já trêmulas, abriu um pouco a cortina da sala naquela manhã de fevereiro e percebeu que o tempo, pouco a pouco, melhorava em sua querida Ravenna. As nuvens já não estavam tão pesadas e escuras como na semana anterior, e o sol, mesmo tímido, iluminava em rebrilhos os telhados do centro velho. O termômetro marcava 13 graus.


Muito devagar, frágil e arrastando as pantufas, Signor Fragolino aproximou-se da mesa da cozinha. Ali, pelas mãos afetuosas e sexagenárias da sobrinha Alda, já o esperavam sobre a toalha vermelha de bolinhas brancas o caneco de café, as fatias de pão, o pote de manteiga Galbani e o prato com o queijo Squacquerone. Signor Fragolino havia completado exatos 115 anos no final de janeiro e vivia apenas com a Signora Alda, viúva de outro combatente histórico da Resistência Italiana na região de Ravenna, o Signor Gildo.


Aquele era um dia especial na longa e aventurosa vida do Signor Fragolino. Especial e doloroso, dada a decisão que tomara com grande e sofrido esforço alguns dias atrás: vender a sua amada Bianca, a bicicleta que lhe servira desde os anos 1940 quando juntou-se à 28ª Brigada Garibaldi, liderada por Arrigo Boldrini, o famoso Bulow, como era o seu codinome, no combate ao nazifascismo. 


Ali na cozinha, curvado sobre a mesa, Signor Fragolino fechava os olhinhos castanhos e tentava reviver as suas peripécias junto com os demais partigiani por toda a Emilia-Romagna, mas, especialmente, a partir da Isola degli Spinaroni, uma ilha existente lá pelas lagoas ao norte de Ravenna, que servia tanto como refúgio quanto centro de comando da luta antifascista.


Signor Fragolino terminou o café e olhou demoradamente para a sobrinha Alda. Com ajuda dela, iria daí a pouco à loja Il Baule dei Ricordi, onde o dono, Signor Alberto, prometera receber Bianca para revenda com única condição e exigência: que o comprador da bicicleta cuidasse dela com o mesmo zelo com que fora cuidada desde quando, no vigor da idade e destemido combatente, cantara Bella Ciao pilotando Bianca pelas trilhas mais secretas do norte da cidade.


Agasalhado com o velho capote e com a boina vermelha antifascista, o pescocinho protegido pelo cachecol de lã que a mulher, Signora Natalia, tecera por noites e noites de inverno antes de falecer aos 84 anos, lá foram pelas ruas de Ravenna o Signor Fragolino, a Signora Alda e a velha Bianca. A bicicleta era levada como se fosse uma criança: cada um, carinhosamente, segurava uma das pontas do guidão. 


Ao avistar a loja, Signor Fragolino suspirou e puxou lentamente o lencinho vermelho do bolso do capote. Suspirou outra vez  e enxugou uma lágrima. De lá, Signor Alberto, com os seus bigodões negros, acenou com o estardalhaço de sempre, famoso entre os moradores de Ravenna. Mas aquele aceno, em tudo amigável, doeu ainda mais no coração do Signore Fragolino. É que terminava ali a sua história com Bianca. 


Pouco depois, cantarolando Bella Ciao baixinho em louvor aos tempos históricos e heroicos, ele voltou para casa amparado pela sobrinha Alda. Morreu no dia seguinte, com 115 anos e quinze dias.


Menos de um mês depois, a bicicleta Bianca encontrou um novo dono à altura da exigência assinalada pelo Signor Fragolino: Tomás, francês de nascimento, mas internacionalista com porções brasileiras, mexicanas e italianas, comprou a velha Bianca e se deixou guiar por ela pelas ruas seculares de Ravenna: livre, sem rumo, deliciosamente sem rumo como um travesso passarinho.


21.2.26

[DE REPENTE]


[na inércia quase paroquial 
de uma paisagem retilínea 
e monótona, de repente surgem,
 
tal explosão cósmica, os feixes 
de luz de um poema só matéria, só 
o tinir de um substantivo 

em dança com outro substantivo,
canto metálico de acauã ou outro
pássaro-relâmpago, súbito zunido

que costuma deixar o poeta doido.]

[ANJO CEGO DA NOITE]


[meu texto quer visitar os avisos
que a noite depositou sobre os tijolos. 
meu texto-leitor tem ânsias

por tais leituras, quer decifrar 
os avisos da noite sobre a humilde
forma de um tijolo, quais litanias

foram ali gravadas, quais vogais,
quais limeriques ou mesmo quais
canções que o anjo cego da noite

quis deixar tão cedo para nós, 
os indesistentes e portadores 
de cajados, aí pelos caminhos.]

[FUTURO-TE?]


[poesia? futuro-te? ou ilógico
ontem-te, lá antes, antes 
de antes, tal se fosse hoje-te?

lances de tempo delirante 
dar à poesia, ao mesmo tempo,
ontem-te, hoje-te e futuro-te?

em paz deixo-a galante no livro
dos livros em verbetes, assanho-
me em gozo de procurá-la

e achá-la em qualquer tempo
de depois ou de antes, melhor
sempre querê-la continuamente.]

[TEORIA LITERÁRIA]


[bastou abrir a janela 
para que a voz
 
ficasse na terceira 
pessoa, o lá fora 

em terceira pessoa, 
até os vultos do beco 

para a praça se moveram 
para a terceira pessoa.

sim, movências  da voz 
em festejos de rua, isto 

até o instante em que a ventania, 
sem voz nenhuma a não ser 

o sopro desorganizado, 
obrigasse o habitável íntimo 

ao mergulho na primeira pessoa.]

[O MANTO DO FALSO DIZER]


[do modo 
como se torce um pano,

assumo que torci a frase
o tanto que precisou

para que ela, seca
ou só úmida,

dissesse com serenidade
o que soasse 

sóbrio e civilizado.
mas o fogo

que nela persistia,
selvagem e alastrante,

queimou voraz
o manto que, 

paliativo, nela havia.
onde se lia olá,

soou o que de fato
eu quis dizer.

isto é: canalha.]

[A LUXÚRIA E O POEMA]

[e o poema impôs ao tempo a grã luxúria, este terceiro dos sete pecados capitais. e o poema 

deu viço ao que era baço, ao que era opaco, deu magnificência e exuberância

ao tempo, alegrou as nuvens, desregrou o vento em dançarolas de leitura, e o vento assim leitor

agora cúmplice do poema enamorou-se da luxúria, urra!, gritaram os marinheiros no cais,

urra!, gritaram as mulheres de azul, eia!, assim, em uníssono, os anjos sem emprego nem patrões rumaram

em desgoverno para a festa, urra!, outra vez gritaram os marinheiros e lançaram ao mar os alfabetos, eia!,

e então os potros na montanha, eia!, que a luxúria vinha com as romãs, eia!, que o poema atiçava odor de enxofre,

e as éguas, ao largo, minavam água de suas ancas, e os deuses, infantos, entravam inteiros nos tonéis de baco.]

20.2.26

[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]

[filio-me a uma escola literária
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores 
e arbustos do cerrado, essa paisagem 
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.

foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água 
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase, 
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.

dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim 
com o seu cajado,
porque os tropeços são comuns
nesse tipo de latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]

[DIZER COM SAL]

[é salutar e saudável 
que o poema
crie zonas de desconforto 
no leitor, zonas de incômodo, 
caroço a entalar
sua garganta, fogo 
a queimar seus olhos,
curto-circuito cognitivo, 
nó nos neurônios,
agulha nos nervos, chão 
que some,
derrubada dos andaimes.]

19.2.26

[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]

[no princípio 
não era o verbo,
mas o pão de queijo. 
assim afirmavam gozosos 
e pândegos 
aqueles marinheiros. 

não marinheiros de alto-mar, 
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos 
de navegação 
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos 
ali para os lados 
do bairro da floresta.

bastava lançar a isca 
de um vocábulo 
que eles puxavam o anzol 
das frases. e então navegavam 
pelos mares da língua. 
aliteravam lua linda 
lábio luva leque 
lépido larápio. 
e faziam redondilhas. 
e litotes. 
e puxavam do bolso 
do paletó um limerique 
de formato irlandês
em louvor a james joyce. 

e depois, ao silêncio 
que vinha 
após tais simpósios, 
acenavam 
para quem passasse 
àquela hora, 
podia ser o poeta 
libério neves 
a caminho de santa tereza, 
podia ser o manoel lobato 
rumo à sagrada família.

e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano, 
espécie nova de mineiro 
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.

"a vida? 
ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo 
aliterava porções 
do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes 
da namoragem com a língua.]

18.2.26

[QUANDO PENSO EM POEMA]

[quando penso em poema, penso rua.
melhor: penso janela ou abertura, vãos

largos por onde o olhar (ou o ser) acede,
olhos como se mãos em dádivas, dáveis.

mas penso sobretudo em dia quando vem
a ideia de poema. o dia igual a casa, o dia

onde habitamos e onde vivemos, tal e qual
no poema de philip larkin. dia concerto

em céu aberto, do sol que brota ao claro
que se recolhe quando enfim se dá a noite.

o dia é todo um universo que se repete
a cada dia, mote e glosa sempre diferentes.

nele o grilo, nele o urso, nele o cavalo, tudo
súmula de um em outro, cisco no bico

dos sapatos, paletó puído de um homem
desesperançado, faca com um grito dentro.]

[GERMINAR]

[grão. um grão e outro grão. 
o milagre dos grãos. 
lançados, 
atirados, caídos. 
vazados por entre os dedos. 
saltados das espigas. 
levados pelo vento, 
ao vento. 
quase vocábulos. 
quase letras. frações 
germinativas e germinantes. 
e o campo. a pedra. 
os pedregulhos. 
e os homens. 
uns e outros. 
os muitos e os poucos. 
e a cidade. 
e então as ruas. 
e então as casas. 
e as mesas. 
e as bocas. os corpos 
e as camas. 
os líquidos e as mãos. 
e o tempo. 
os dias e as noites. 
migalhas e resíduos. 
o cisco e o meteoro. 
o giro. a dança. 
os campos magnéticos. 
as erupções, as intempéries. 
essa vida potente 
e coreográfica 
à qual 
podemos chamar de esperança.]

[O CÉU ESTELAR DE PESSOAS]

[viver é dar conta do infinito 
das gentes, esse céu estelar 
de pessoas. as toscas 
e as ásperas, as doces 
e as ternas, o bisonho
e o tacanho, o carregador 
de ódios e o peregrino
com o seu embornal pacífico.

leva-se vida inteira 
para o aprendizado
de dar conta do infinito 
das gentes. cai-se
em armadilhas, rende-se 
ao fracasso, morre-se
antes de concluída a lição 
das variedades,
intolera-se por nada, 
tolera-se com cegueira,
mas, ao fim, com a vida 
inteira à vista na lousa,
sabe-se que o diverso 
é um universo que se expande,
pessoas são grãos 
em um deserto sem fim:

viver é conhecê-las, viver 
é compreendê-las,
e com elas conviver na taba 
dessa aldeia-mundo.]

[DO DIZER SEM ARTE]

[só vale o dito, se for com arte.
se o dito for apenas dito, osso-

discurso, gogó de tribuno, passo
ao largo, pego desvio e atalho,

vou ouvir quem diz com engenho,
aquele que, até no dito-cisco,

no dito minúsculo, usa prumo,
régua e compasso, dito que reluz

o salto da rã ao lago, pois quem 
diz sem arte, ervário de vocábulos 

encaixotados, disto eu fujo, sou,
como se diz, deficiente para tal

falsário, radar eu tenho para pontos
luminosos, aquilo que o nariz de pound 

chamava "punti luminosi", pepitas
que a humana fala, de vez em quando,

planta no cascalho, e de lá a rosa
flora como samba de nelson cavaquinho.]

17.2.26

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

[IDIOMAS DA OBJETARIA]

[agradeço ao poema pelos idiomas
falados pela objetaria. eu disse objetaria:
gavetas, latas, quinas, argolas, a infinita
enciclopédia que me cerca, e me envolve,

essas estantes de coisas na luz e nas trevas,
a bola de gude, a escama do peixe, esses falares
da gravata, o sotaque do prego e do parafuso,
a entonação que o tampo da mesa produz

ao amanhecer. por esses idiomas da objetaria,
eu agradeço ao poema. só o poema arma
ao relento a poltrona imaginária das conversações
sem fim: respondo aos cumprimentos do grão

de areia, respondo às indagações do cadarço
já em desuso sobre o balaústre, ouço a música
que o caixote guardou para o crepúsculo,
eu, o gato e o cachorro somos partes desse simpósio.]

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

[as tardes no suplemento literário eram tardes lépides, víssilas, larúnias, essas palavras que não existem.]

[tarde boa era tarde cortázica.]

[de quando em quando, uma tarde quintero, o ednódio, ou uma tarde dyonélio, o machado, ou uma tarde caio fernando abreu.]

[a pasta de poemas dera crias durante a noite.]

[pintainhos novos eclodiam desde barbacena, juiz de fora, maceió, manaus.]

[poema inédito de max martins, e, de amparo, comparecia o ainda menino marçal aquino.]

[manoel lobato aplicava farmacopeias na pasta de ficções.]

[jaime sugeria guilhotina e cepo para um conto pó de arroz.] 

[quem sabe, na contracapa, um poema do novíssimo ricardo aleixo?]

[piroli não veio.]

[há semana e tanto que piroli não vem.]

[mas o duílio chega, ofega, agita-se.]

[cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.]

[é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?]

[mas deus, federal, universal, orbital, deus não respondia.]

[na poltrona, o lugar de honra ainda aguarda por emílio moura.]

[dona maria helena anuncia a chegada de libério.]

[trouxe poema inédito e nos oferece cigarrinho de palha goiano.]

[libério é um monge feito de substantivos perfeitos.]

[adão está ao telefone.]

[há hora e meia que adão está ao telefone.]

[o poeta fala e ri, fala e pisca para o jaime.]

["é moça", diz manoel lobato.]

["é musa", digo eu.]

[os poemas concordam comigo.]

[a tarde agora está ridente, peralta, travessa.]

[branca veio rir conosco.]

[murilo foi ao palácio.]

[e se o piroli chegasse?]

[chega o bley barbosa, e, com ele, o henry corrêa de araújo.]

[vai chover para os lados do pelicano.]

[lobato noticia: "tem conto muito bom da lucienne samôr".]

[duílio diz: "vai para a página central".]

[quem há de contestar?]

[fecha-se a edição.]

[chove.]

[mesóclises passeiam pela avenida augusto de lima.]

[um velho modernista com um guarda-chuva traz um poema 
em francês.]

[pobres de nós.]

[quem nos salvará do albatroz?]

[chove.]

[lá vai embora o manoel lobato.]

[a vida?]

[a vida é dúctil, excelsa, ebúrnea.]

[chove manga.]

[há conclave no pelicano.]

[e o vicente huidobro, e o lezama lima?]

[adão está outra vez ao telefone, ri e fala, ri e pisca para o jaime.]

["é musa", digo eu.]

[é que tudo na vida nasceu para caber dentro de um poema.]

[ÓPERA EM SILÊNCIO]

[na redonda noite, 
os cavalos
azuis. a lesma. 
os vidrilhos
da luz. o calmo 
antúrio e a nobre
avenca. 

e os cartógrafos. 
seus mapas
por onde a chama 
da vela diz:
"eis o país de lá", 
"eis as cidades
que flutuam 
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu. 
a espada.

há o baú 
com os papéis tristes.
substantivados abandonos, 
goivas de lacerar 
as saudades, o corpo
em seu litígio perene 
pois potro
sem doma, sem rédeas. 

o corpo ágrafo 
destituído de palavras.
o corpo em selvageria 
úmida. a casa. o lodo. 
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham 
com suas tochas incendiárias.

tudo é calma sobre o fio 
da lâmina. ela agora dorme. 
a nudez exposta.
o lago que se formou 
junto à cama.

lá fora, os cavalos azuis. 
lá fora a madrugada 
pendente, pêndulo 
das noites baixas, 
rentes ao chão.
as noites rastejantes, 
tapete em trevas.

e os apitos. 
ao largo as barcaças, 
os marinheiros 
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos, 
as velas piratas.

e a trempe. 
as brasas dormidas. 
hora de macerar as ervas, 
hora de chamar assim o dia: 
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares 
no pescoço. o dia 
com os seus cavalos 
vermelhos.]

16.2.26

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava 
hölderlin,
"pallaksch", 
ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

7.2.26

[A FLOR VIAJANTE]

[isabel botas negras achou a flor ao pé de uma árvore na rua trifana. pego-a. acariciou a flor entre os esmaltes cor de marte e foi pela rua como se levasse um pequeno anjo.

era flor minúscula, mirrada, já um pouco murcha, flor sem nome das espécies de flores em estado de mendicância, flor sem teto e sem jardim nas dobras da cidade.

isabel cruzou a afonso pena com a flor entre os dedos, desceu com suas bravas botas negras para o vale do anchieta, alcançou o carmo, seguiu pela outono, estava agora na grão-mogol, ela e a flor, flor-irmã nas dobras áridas da cidade.

mas os tratados de economia não incluíram tal acontecimento em seus gráficos de curvas apocalípticas. o senador não incorporou tal fato ao relatório das vicissitudes da república. homens de terno permaneceram assépticos e imunes à flor que isabel levava: flor-irmã, flor-amiga, a ínfima flor sem nome pelas bordas toscas da cidade.]

31.1.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]

26.1.26

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.