13.8.26

[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]

[o poema-documentário começa nos próprios óculos de mário: é ali, pela redondez das lentes, que se dará

o fenômeno dos vidrilhos, aliterado fenômeno a se reproduzir ressoante por maravilhas e brilhos da noite.

diz pedro nava que mário de repente debandou-se do grupo, foi para a sacada do grande hotel, contemplou o estilo 

flamejante e manuelino do conselho deliberativo, rua da bahia com avenida paraopeba, ali onde, adusto e áspero

pela rigidez e a monotonia, eleva-se hoje o edifício malleta. e então o poema-documentário volta aos óculos

de mário, e pela redondez das lentes com faíscas nas hastes, flagra outra vez o fenômeno dos vidrilhos, a combustão 

de luzes na noite de belo horizonte, o sonar de mário capta frequências acústicas, seu radar recebe ondas eletromagnéticas.

com letreiros diante da câmera, o poema, que é documentário, exibe as seguintes frases: "ah, o brasil da república velha;

ah, a belo horizonte das magnólias; ah, o barnabé em pânico com o ovo do novo que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,

o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah, o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos do partido republicano mineiro". corte.

volta-se a câmera para os óculos de mário, "holofotes que varrem a noite", diz nava. corte. fusão de imagens dos óculos de mário

com os óculos do poeta sem nome. é o ano de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, chove, dói no horizonte a dor de um mendigo 

bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos de sangue, eis o poeta sem nome, turvas lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]

[COISA DO POEMA, COISA DO PENSAMENTO]

[a dialética espiralante, 
em espirais, com a tríade 
tese, antítese e síntese 
em deslizamento 
ao redor do objeto-ideia, 
revisitação constante 
das faces do objeto-ideia, 
cada momento 
outro momento, 
cada vinco 
outro vinco, cada rasura 
outra rasura, 
cada traço 
outro traço, cada dobra 
outra dobra, 
isto é coisa do poema 
e é também coisa 
do pensamento. 

desformalizar, desformular 
e deformar cada passagem 
com a operação da tríade 
em constante movimento 
acima e abaixo, para um lado 
e outro, isto é coisa 
do poema e é também coisa 
do pensamento. 

destituir a tríade tese, 
antítese e síntese 
de sua propensão 
a criar binarismos, 
mesmo que, a contragosto
para ela, mesmo 
que um desconforto 
para a sua já viciada 
rigidez, isto é coisa 
do poema 
e é também coisa 
do pensamento.]

12.8.26

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã prenunciada, veio o texto.]

[texto assim: fiapo da roupa de um peregrino.]

[lembrei-me então da carta 
que paul celan escreveu a hans bender em 18 de maio do ano de 1960: "só mãos verdadeiras escrevem um poema verdadeiro. em princípio, não vejo nenhuma diferença entre um aperto 
de mãos e um poema".]

[e o texto veio assim: fiapo da roupa de um peregrino.] 

[não era ouro, não era ourivesaria, nada de texto-diamante à luz chegante do dia: era fiapo.]

[fiapo da roupa de um peregrino.]

[com a delicadeza que se impôs em hora tão inaugural no tempo, tratei de laçar a lápis esse indizível que jamais escreveremos.]

[modo não há de escrever o fiapo que se fez de texto na manhã prenunciada.]

[o fiapo é o indizível, é o horizonte inalcançável, é isto que nos ilude para a escrita sempre sonhada e impossível.]

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

11.8.26

[OS CONSTRUTORES DE DISCÍPULOS TOMAM SORVETE COM OS PUPILOS]


[os construtores de discípulos poéticos tomavam sorvete à tarde com os seus pupilos. asseguravam elogiosa lápide no futuro ou quem sabe busto de bronze na praça.]


["para que um busto?", perguntavam os malévolos.]

["ora, para que os pombos", diziam os maledicentes.]

[todos, em volta dos sorvetes, conjugavam verbos dóceis, doces, adocicados, posto que todas as obras são obras-primas no círculo dos compadres.]

[o elogio fácil fazia revoo de cotovias na tarde. o elogio fácil brincava de roda, passava anéis, organizava quermesses.]

[e a incontinência falaciosa dos comentadores dava ao mundo a consistência do volátil.]

[O QUE VEM DEPOIS DO SE]


“(...)
 
... Jeff Morton, morador dos arredores de Londres, envia-me uma pergunta sobre a qual passei todas as horas do dia sem encontrar para ela uma resposta. Tradutor para o inglês de Os doces cílios de Marilyn Monroe, esta novela de tanto vigor e frescor do jovem escritor brasileiro Antônio Frelobé, inventor de uma fundamental cadeira de balanço para leituras de longo curso, Morton quer saber de mim se... (...).

Se. Não tenho modos de encontrar a resposta. Alonguei o meu dia, caminhei em volta da casa, chamei duas vezes o Manuel Jorge Marmelo no Porto, para uma consulta, saí à rua para um sorvete e, mais tarde, para dois chopes. Em vão. Não consegui resposta para a pergunta que me fez o inventivo Morton, este inglês pacífico, colecionador de tampinhas de garrafa e usuário de enormes sapatos, quase galochas.

Se. Morton quer saber de mim se. Se, não sei. Não posso saber. Minhas estantes não têm a frase continuadora do se, meus livros se negam a contar algo além das reticências.

Sou homem pequeno, meço poucos palmos de altitude. Jamais neva sobre o meu chapéu. Ando devagar, pendo o corpo para o lado esquerdo e dou, a cada cinco passos, dois ou três tapinhas no bolso da calça onde guardo a minha carteira de dinheiro — tudo para saber se a minha carteira não fugiu.

Certa vez, já faz muito tempo, chamaram-me de poeta. Nesse dia tal eu acreditei, mas fui devagar percebendo que a poesia não me visita nem nunca me visitou, e as musas, excêntricas, voltam para outro lado o rosto quando da minha passagem. Amanheço muitas vezes triste, pássaro de asas caídas. E só no decorrer do dia vou apanhando, aqui e ali, gotinhas de felicidade.

E agora vem o inglês Jeff Morton querer saber de mim se...”

10.8.26

[BIBLIOTECA DA PRAÇA DA LIBERDADE]


[Creio ter sido entre março/abril de 1967 que entrei pela primeira vez na Biblioteca da Praça da Liberdade (assim conhecida na época; o nome Luiz de Bessa viria depois). Com 16 anos, recém-chegado a Belo Horizonte, foi a minha primeira visita a uma biblioteca pública. Não me lembro se ali cheguei pela manhã ou à tarde, se subi a pé a João Pinheiro, a Bias Fortes ou a Bahia. Nem me lembro se usava naquele dia o uniforme do Colégio Estadual da Gameleira. A ambiência do lado de fora da biblioteca é vaga na minha memória de 75 anos. Ao contrário, é nítida, palpável, do lado de dentro: o ambiente das estantes e das mesas, e, sobretudo, a memória tátil em meu primeiro convívio com aquela fartura de livros. Sinto ainda hoje a textura das lombadas e das capas, aquela fieira de autores que seriam o meu pão dali em diante. Desses, recordo-me claramente da lombada e da capa de A Cartuxa de Parma, de Stendhal, a encadernação em sépia no meio de todos aqueles volumes de literatura francesa. E logo a estante com os russos. E logo o empréstimo inaugural, o primeiro dos empréstimos, quando pude levar para casa, no Calafate, os livros escolhidos. A partir desse encontro amoroso e inesquecível com a Biblioteca da Praça, fiz dali o meu refúgio. E devido à impossibilidade de largar as descrições que lia das estepes russas, das condições feudais dos camponeses russos, fui reprovado em uma prova crucial de matemática em um daqueles anos. Mais tarde, em 1971, quando me mudei para São Paulo, repeti esse tipo de afetuosa e apaixonada convivência com a Biblioteca Mário de Andrade. E com outras, como a Tomás Rivera, da Universidade da Califórnia em Riverside, meu esconderijo diário ali nas beiradas do deserto californiano, mas que não teve expediente em 11 de setembro de 2001, pelas razões óbvias.

[O POETA NA ESCADA ROLANTE]

 


[Teodorico Arandel, em seu As influências de Alfred Jarry no imaginário dos poetas performáticos (Editora Vesúvio, Santa Bárbara do Tugúrio, 1982, 145 páginas), conta a história de um poeta que costumava subir e descer interminavelmente as escadas rolantes do Edifício Malleta com um carrinho de supermercado, dentro do qual levava seus livros, sete ou oito opúsculos, um pouco mais, um pouco menos, e que esse poeta se vestia de escoteiro e que também emitia palavras agudas e pontudas aos passantes, uma e outra vez dava ataques, uma e outra vez fazia gestos sátiros, ou burlescos, de vez em quando se fazia passar por um bufão. 

Ou então assumia-se clown, assumia-se chaplinesco, escada acima e escada abaixo, bem diante do Bar Lua Nova, ali onde Murilo Rubião bebericava sua cerveja com os amigos a partir das cinco horas da tarde naquela Belo Horizonte toda provincial dos anos 1970, havia ursos na Avenida Augusto de Lima, javalis na Rua da Bahia, dromedários na Rua Espírito Santo, garças usavam túnicas indianas nas mesas externas da Cantina do Lucas, seios voadores pairavam sobre as mesas do Pelicano e um carro do Dops costumava estacionar a poucos metros de onde terminava a liberdade.]

9.8.26

[O VELHO E AS HISTÓRIAS]


[“não as termino”, disse o velho. 

“deixo-as sempre inconclusas na página, como um traço de nuvem no céu, subitamente interrompido”. 

o velho disse ainda outras sentenças semelhantes. 

os que estávamos nas poltronas atrás dele ouvíamos a sua voz na noite, com o ônibus atravessando o altiplano.

todas as luzes estavam apagadas. 

a solidão era espessa e pesada naquela viagem. 

fugíamos para algum lugar, fugíamos de alguma coisa. 

só a voz do velho que, ao que parece, não tinha interlocutor, povoava os nossos corações. 

o velho insistia: deixava sempre as histórias inconclusas.]

[GEORGES PEREC, A JANELA E O GATO PRETO]

[nada tem a ver o que agora escrevo com a foto de perec e seu gato preto, nem com a janela ao fundo, suas grades em arabescos, a luz vazante, o almofadão que de sofá se faz.
 
nada tem a ver. e tem, agora digo, pois há uma personagem que não vejo, e é tal pessoa (pessoa novelesca) que puxa palavra atrás de palavra, é a ponta de um novelo que não vemos. 

pobre literatura. 

quão pobre é a literatura nesse instante. 

no êxtase de uma ausência, eu digo, a pobre e miserável literatura, em seu lugar mendigo, ela poderia tratar de presenças, mas prefere as ausências. 

tão desmiolada literatura. 

enquanto a corrente direcional do senso comum vê o cenário, a réptil, a quelônia, a viscosa literatura vê o que não aparece na foto, opta pelo que está fora, pelo que fugiu pelas bordas-margens da foto. 

é batalha perdida, eu digo. 

desde os antigos palimpsestos do mundo é a mesma história, eu digo, a literatura trata desse buraco, é esse buraco que a redime, e é esse buraco que, a cada texto, lhe dá o tiro de misericórdia.]

[HERMENÊUTICA DA PAUSA]

[a pausa talvez seja um tecido vegetal em jardins despovoados.]

[nesse tecido vegetal, há movimentações de silêncios.]

[são pequenos silêncios que se organizam conforme as posições da lua ou do sol.]

[não há governos para esses silêncios, nem pauta de música para regências de um maestro.]

[nesse tecido que pode ser verde ou amarelecido como as folhas no outono, se dá a pausa.]

[ninguém diz, mas há indícios de sábios muito antigos aconchegados nesse tecido onde se dá a pausa.]

[quando alguém caminha pela cidade e de repente para em estados de ausência, diz-se que houve uma pausa.]

[a pausa dura o quanto for necessário para a própria pausa.]

[depois que ela ocorre, chegam os enxames.]

[os enxames podem ser de gentes, carros ou mesmo parafusos atirados de um edifício.]

[a escritura acontece dentro dessas acontecências de pausa.]

[a leitura também.]

[a pausa é o número três da vida e da morte.]

[o número três não tem nome. nem a pausa.]

[ALARIDO DAS ÁGUAS]

[Esse alarido das águas que descem pelas calhas do edifício, orquestral e borbulhante música pelo meio da tarde, esse gotejo de rememorações, gotas e gotas, pingos e mais pingos, manancial que a chuva recente fez se assemelhar a um ribeiro, tudo isto que ouço e que traz pouco a pouco a infância, é a própria infância que decide reviver nessas reverberações intermináveis da água que cai do telhado para as calhas, das calhas para as galerias, constante movimento, insaciável movimento, intermitente ruído de bolhas, protuberâncias de gotas, florações de pingos, riacho pelos labirintos de concreto até sumir pelos subterrâneos da cidade.]

7.8.26

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]