[liguei o dia
com um chamamento.
não chamei a luz,
chamei o silêncio.]
&&&&&&
[envelhecer com as palavras.
e remoçar-se com elas.]
&&&&&&
[em tonalidades irregulares,
mosaicos com múltiplas
tesselas,
dou à escritura a sua mais bela
paisagem,
essa dança de calhaus de pedra,
essas migalhas redistribuídas,
lascas
em combinação e liga.]
&&&&&&
[toda promessa
é elástica:
ora encolhe,
ora espicha.
espicha menos
do que encolhe,
some mais
do que aparenta.]
&&&&&&
[palavras órfãs
são palavras
que perderam a música.]
&&&&&&
[pelo tamanho
da letra
eu meço
o que é da ordem
do grito
ou da ordem
do silêncio.]
&&&&&&
[as exigências
do paladar devem ser
as mesmas exigências
do olho
que lê.]
&&&&&&
[os blogues literários
são causa perdida;
eu aprecio
as causas perdidas.]
&&&&&&
[a fricção dos casulos não produz a faísca
do metal quando em fricção com a pedra.
os casulos, esses guetos, guardam neles
apenas louvor ao isolamento.]
&&&&&&
[vendo o meu peixe
porque,
se depender dos outros,
ele apodrece.]
&&&&&&
[aqui vos trago
a semente,
a vogal,
o casulo,
a noz
e a esperança descalça.]
&&&&&&
[com olho-espinho,
com boca
de entojo,
nenhum leitor
entra no livro.
a porta do livro
requer fome,
a porta do livro
requer apetite.]
&&&&&&
[mas que triste
pessoa é esta
tão despossuída
de poesia?]
&&&&&&
[quando a política
vai para o fígado,
a inteligência
vai para o exílio.]
&&&&&&
[essas dobras do poema,
tecido de costura interna,
esse esconderijo,
lâmina na bainha,
dedos dentro da luva,
bolso falso,
botão sem casa,
duelo sem arma,
tempestade de areia
sobre um oásis
inexistente.]
&&&&&&
ele disse: "eu sinto
uma alegria
dos diabos quando acordo
e vejo que a biblioteca
ainda está lá".]
&&&&&&
[ia pela vida
a explodir as válvulas
das panelas literárias.]
VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA
5.5.26
[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]
− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.
− há uma zona de fricção
entre um e outro.
− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não-saber
que explora as múltiplas
possibilidades.
− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.
− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.
− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.
− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.
− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.
− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]
27.4.26
[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO]
1.Pode um conto não contar uma história.
Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto
do leitor que lê um conto que não conta uma história.
2.A história em um conto pode estar na
borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto,
a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.
3.Quando um conto vai além do tempo que
se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos,
muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma
novela.
4.Se porventura o conto possuir uma
história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em
estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome
irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o
conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra
de gelo, em derretimento.
5.A partitura por onde navega o conto
deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão.
E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício
de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo,
com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um
leitor feliz.
6.Talvez a maior virtude de um conto seja
enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao
chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será
faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto
esse instante de comunhão extrema.
7.Assim como a profusão de rostos numa
multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se
escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única,
serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da
travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não
podem ser enumerados, por sua abundância.
8.Um conto pode ter personagens. Ou não.
Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça,
amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o
relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.
9.A função do conto é dar vida ao
minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o
cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo,
pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o
inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.
10.Um
conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um
pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a
ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita
imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício
do inacabado.
[OFENDIDOS PELO TEXTO]
[o texto é látego
ou o texto
é paina, pluma, pena?
é paina, pluma, pena?
o texto cinge
ou o texto liga?
o texto corta, abre,
rela, roça ou o texto
o texto corta, abre,
desventra
ou o texto acaricia?
quem com o texto
ou o texto acaricia?
quem com o texto
fere com o texto
será ferido, quem
será ferido, quem
com o texto
altiva será com o texto
preterido, quem
com o texto nubla
com o texto nubla
será com o texto
desaparecido? o texto
desaparecido? o texto
é dorso ou o texto
é umbigo? o texto
é reino ou o texto
é feudo? o texto
rala, rola,
rela, roça ou o texto
é ósseo, pedra,
gancho, espinho?
gancho, espinho?
o texto vara
ou o texto vira?
ou o texto vira?
o texto penetra,
entra, vaza, atravessa
entra, vaza, atravessa
ou o texto é muro,
parede, limite, fosso
sem ponte-pênsil?
sem ponte-pênsil?
o texto é arma
ou o texto é goma,
ou o texto é goma,
gosma, baba?
o texto avança
o texto avança
ou o texto recua?
o texto é nome
o texto é nome
ou o texto é água?
o texto ofende
o texto ofende
ou o texto é ofendido?
o texto é alarido
o texto é alarido
ou o texto é balbucio?
o texto é gozo
o texto é gozo
ou é guizo, sino, búzio,
bumbo? o texto vai
bumbo? o texto vai
ou o texto vem?
o texto limpa
o texto limpa
ou o texto suja?
o texto ganha
ou o texto perde?
o texto é féretro
ou o texto é boda,
ou o texto é boda,
noivo, amante,
baco? o texto
baco? o texto
em mim ou o texto neles?
o texto é visgo
o texto é visgo
ou o texto é liso, amorfo,
plano, mudo? o texto é púbis
plano, mudo? o texto é púbis
ou o texto é língua?
o texto é luto
ou o texto é pândega?
o texto brinca
ou o texto enfeza?
o texto é fezes
o texto é fezes
ou é torta, sopa,
sorvete,ambrosia?
o texto é ou o texto
não é? o texto é texto
ou o texto é texto,
texto,
texto, texto, texto,
texto, texto, texto,
texto, texto, texto?]
24.4.26
[DA SEPARAÇÃO ENTRE POEMA E POESIA]
[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema: plâncton, âmbar, abelha,
ou grãos de trigo, em pendões,
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.
penso no organismo,
no indivíduo, penso na ilha
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.
penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia
era já forma adiposa, teia-aranha.
penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.
agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.
agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]
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