17.8.26

[O VELHO POETA DA LANCHONETE NACIONAL]


[Havia na Rua Goiás, com uma porta que dava para a praça Alberto Deodato, quase esquina com Rua da Bahia, um estabelecimento chamado Lanchonete Nacional.]

[Pelo estilo, era remanescente de uma Belo Horizonte ainda com aura que vinha lá do Bar do Ponto, lá do modernismo mineiro, lá das empadinhas e dos bolinhos de feijão.] 

[Na praça, mínima praça, havia também o Cine Metrópole, em local da antiga casa de ópera dos tempos dos tenores, contraltos e arrebóis. E cheiro de manacás. Mesma praça onde hoje pontificam as figuras em bronze de Drummond e Pedro Nava.]

[Às cinco em ponto da tarde (como no poema de García Lorca), o poeta, já idoso naquela metade da década de 1970, sentou-se em uma mesinha central, encostado em uma pilastra com espelhos, bem próxima do balcão. Pediu um copo de leite frio e um misto quente.]

[Longos bigodes possuía esse poeta já muito cansado, adoentado, um tanto melancólico.]

[Exibia vistosos olhos cor de argila, aquela argila verdete, enquanto olhava lentamente para um lado e outro naquele momento em que a Lanchonete Nacional estava praticamente vazia.]

[O poeta pensava em Goethe e na Elegia de Marienbad, poema que o autor do Fausto começou a escrever em 5 de setembro de 1823 sob o clima devastador da paixão não correspondida por Ulrike von Levetzow, de 17 anos. Goethe, à época, tinha 73.]

[De resto, é uma história conhecida.]

[Mas o poeta, com o seu lanche de final da tarde, parecia tomado pela cena de Goethe na sua viagem de volta para Weimar, compondo a primeira versão do poema.]

[Lá como cá, na estrada para Weimar e em Belo Horizonte, sincronizava-se a melancolia de um e outro por meio de um acontecimento com algum grau de semelhança nos descaminhos entre velhice e juventude.]

[Um pouco mais tarde, já no princípio da noite, o poeta levantou-se e desapareceu minúsculo pela Rua da Bahia afora.]

[Quero crer, porém, que foi ali, naquela mesa e naquele instante de um final de tarde na cidade de Belo Horizonte, que outra elegia com tema similar à Elegia de Marienbad começou a nascer, e cujo título, se não me falha a memória, aludia ao nome de Diamantina.]

[O MUNDO E OS NADAS DO MUNDO]


[dá muito gosto observar as 
miudezas, tão miúdas quanto um olho de mosquito, ver esses nadas na paisagem, esses vinténs de coisas, coisas tão mínimas e tão silenciosas, nada distrai esses fiapos e essas minudências sem nome, as bombas não as atingem, o falatório dos chefes do mundo não é ouvido nesses recantos entre um canteiro e outro, não chega ali o sangue nas mãos dos genocidas, dos usurários, dos banqueiros e dos trilionários, esses que já não são mais humanos, que não são mais pessoas, que são apenas máquinas de acumular riquezas enquanto a miserabilidade transcontinental avança e avança sobre os povos, ninguém sabe aonde chegará tudo isto, estamos acuados, cercados, incapazes de dar o troco justo e potente a esses paspalhões, mesmo assim, ali pelos tugúrios das coisas mínimas ainda cultivamos a nossa humanidade junto com os nadas da paisagem, como o rastro de um caracol na terra, como a linha com a qual o gato brinca como se em um circo, como o olhar lacrimoso da lagartixa ao sol ou como a marca de um pingo da chuva na folha seca.]

[OS ESQUISITOS, COMO NÓS, À BEIRA DO DOURO]

["Nenhum de nós recorda o texto da lei que obriga a recolher folhas secas", diz Julio Cortázar ali pela página 129 de A volta ao dia em oitenta mundos, quarta edição da Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, outubro de 1968. Ndalu, que é versado nesses temas um tanto em desuso, e é capaz de paradas súbitas na rua ao ter o olhar atraído para uma pedra, um besouro morto ou um papel com letrinhas manuscritas, propôs a Jorge um jogo enquanto caminhávamos pela manhã à beira do Douro. 

Vínhamos de Dublin, fizemos uma parada de dois dias no Porto, mas o nosso destino era mesmo Havana, pois ali, naquele mês de agosto, participaríamos do XX Encontro dos Livros e Personagens Inexistentes. "O jogo consiste em ativar em nós o fervor para a esquisitice", explicou Ndalu. 

Soprava do Douro um ventinho travesso e mefistofélico. Caminhávamos lentamente e descompromissados. E havia como que um ritmo frásico de lerdo e preguiçoso soneto em nossos pés. Em meu bolso, o bolso direito da camisa, palpitava uma carta que recebera do professor baiano Otto com 22 sugestões para livros e personagens inexistentes. Uma carta que, confesso, seria de utilidade imensa no encontro cubano. 

Ndalu, então, explicitou um pouco mais o jogo ativador de esquisitices, que seria uma espécie de circuito cerebral inexplorado, posto que marginal à ordem do comum e do usual naqueles dias em curso pelo mundo. Esquisitar seria o verbo maestro nesse jogo que a visão do Douro instigava, que os passos de caminhantes sem pressa estimulavam, que a perspectiva da travessia atlântica dali a dois dias motivava.

Éramos três amigos irmanados pelos livros e pelas histórias. A invenção de fábulas nos unira ao longo dos anos, e éramos capazes de engenhosas viagens, ora Bagdá, ora Minsk, ora Manaus, ora Praga, mesmo que na quietude de não sair do lugar. E jogávamos o jogo proposto por Ndalu. Lançávamos em voz alta hipotéticas concepções sobre a frase de Cortázar sobre as folhas secas. Dizíamos palíndromos às moças que passavam àquela hora da manhã, ou então tecíamos elogios aos chapéus dos senhores que, como nós, iam e vinham, à beira-Douro. As moças, sob ação palindrômica, sorriam; os senhores, com a sisudez destoante com a luz matinal, trancavam ainda mais os semblantes. 

Até que vimos, adiante, ungido por um prisma de luz, um menino. Soubemos, depois, que se tratava do Menino Recolhedor de Folhas. Virtuose no ofício, ele dispunha as folhas secas em estantes dentro de um caixote. Parecia uma biblioteca de livros sem títulos e sem personagens. Mas era coisa tão bonita de se ver que mereceu de nós saudações e vivas ecoantes-altissonantes pela manhã portuense.]

16.8.26

[BLOGS VIVOS, MAS JÁ MORTOS]


[certos blogs mantêm ainda
hoje, em seus cardápios de links,
espécimes que datam do começo

do século. inativos agora, lembram
naves ou satélites à deriva 
pelos confins do universo 

internáutico, talvez calhaus 
de meteoritos, só que, sendo
páginas de textos, esses fósseis

mostram e exibem o passado
de tantos autores ou blogueiros
que já partiram, seja desta vida,

seja das atividades do ramo, mas
dão gosto e prazer de leitura essas
revisitações a um tempo já morto.] 

[OS BOMBARDEIOS]


[uns pedaços brancos 
entre linhas verdes, 
seis olhos em diagonal, 

flutuantes, amálgama 
de metal e árvore, 
eis a lira da ventania, 

eis a lira das hecatombes,
cordas em dor sustenido, 
cordas em dor pulsante, 

um homem vai pelo caminho 
da intransitável 
aurora agora bombardeada, 

há séculos 
bombardeiam as auroras, 
há séculos há tal cena 

à mostra de uns pedaços 
brancos entre linhas verdes, 
seis olhos em diagonal, 

flutuantes, 
nada mais do que pedaços 
de gentes que, aos ares, 

a bomba triturou,
já não é mais a sanguínea 
paisagem, mas o simples 

branco, em pedaços, 
olhos flutuantes 
como a pluma de uma paz 

que jamais chega, 
que jamais virá.]

15.8.26

[INSTRUÇÕES PARA VAGAR A MÃO PELO ESCURO]

[durante a noite, ao pegar e recolocar algum objeto sobre a mesa de cabeceira, também conhecida pelo suspeitíssimo nome de criado-mudo, é preciso que a mão errante e sonolenta atravesse a densa camada de trevas que envolve o quarto, e distinga o que é vácuo e o que é sólido.]

[embora poucos centímetros separem seu corpo da mesa de cabeceira, trata-se de uma aventura.]

[não há tratado ainda escrito, muito menos existem estudos que levem o dono da mão a uma segura travessia.]

[a travessia de pegar, por exemplo, os óculos, o frasco de unguento, o lenço, ou de tocar o interruptor da luminária.]

[lição útil é apalpar o tampo da mesinha, explorar com cuidado e delicadeza os seus quadrantes, descobrir a posição exata do objeto. e pegá-lo. e trazê-lo lentamente, assim como a mão mecânica de um robô sai da nave e vaga pelo espaço sideral.]

[outra lição útil versa sobre a devolução do objeto à sua posição de origem.]

[é talvez o momento de maior risco.]

[o objeto, se posicionado fora da superfície sólida da mesa, poderá ir direto ao chão do quarto, e provocará ruído insuportável, capaz de acordar o vizinho do andar de baixo, cujo nome, apenas para efeito de ilustração, é aderbal.]

[pessoas que já testaram tal operação com sucesso aconselham segurar o objeto com firmeza, mesmo que seja um inefável lenço de papel.]

[firme o objeto entre os dedos, a mão deve iniciar o movimento de atravessar o escuro, a separação entre a cama e a mesa.]

[é desaconselhável a pressa.]

[digamos que a mão fará a leitura silenciosa do espaço vazio, dos parcos centímetros de cosmos, ali onde não há estrelas, nem sóis, nem meteoros, cometas ou asteroides, apenas invisível poeira em suspensão de ácaros e pêlos de gato.]

[feita essa leitura, e assim que intuímos que a mão já sobrevoa a mesa, chega a hora do pouso.]

[antes, porém, a mão deve apalpar novamente os quadrantes da mesinha, sentir que há lugar suficiente para que o objeto desça com a segurança de um satélite interplanetário que chega a marte.]

[é um júbilo quando a operação é feita com a maestria de um piloto de longo curso.]

[pode-se dizer que o sono virá leve e aprazível.]

[bem provável que um sonho de recompensa apareça logo em seguida no horizonte das espirais infinitas da mente em repouso.]

[pela manhã, quando a luz matinal invadir o quarto, não custa tomar o lápis e a caderneta que ali estão à espera.]

[é só escrever lá uma frase enigmática, dessas que, uma vez escritas, sejam chamariz para a novela, o romance ou mesmo o poema de uma jornada épica.]

14.8.26

[AS VOZES E OS LIVROS]

[A HORA DOS CONTOS]

["os contos noturnos devem ser escritos a sol a pino; e os contos diurnos devem presenciar a noite."]

(anthero púmere, catalão, autor de "o tigre e o lápis".)

[PRESSÁGIOS]

["para os que subiam a rua da bahia em dias ímpares, os presságios chegavam na forma de ventos curvos, quase espiralantes, e nessas horas era possível ouvir declamações chorosas de fantasmas de poetas."]

(do livro "o acadêmico que botou um ovo", de nathália sinvuelta, publicado em 1978.)

[A ESCRITA E A TOCAIA]

["escrever não difere muito de ser surpreendido pelo acaso em uma curva, em uma esquina, uma encruzilhada. no fim ou no começo de uma frase há sempre uma tocaia, uma emboscada."] 

(nero luhr, húngaro, autor de "uma barca amarela no rio danúbio".) 

[O SEPULTAMENTO DAS PALAVRAS]

["não me perguntem sobre o cemitério das palavras."]

(anabella douglas, canadense, autora de "se lacan fosse um chimpanzé".)

[VIGIAR ESTRADAS]

["escrevi cem livros. agora vigio estradas. vigio os carros que vêm e que vão. sou agora um escritor de miragens."]

(octavio laredo, mexicano, autor de "as alcovas flutuantes" e mais 99 novelas.)

[DAS DERROTAS]

["os derrotados, como nós, é que somos os seres da esperança."]

(personagem do romance "o maquinista", de jairo fontana domênico, paranaense, século 19)

[HOMENS-PARAFUSO]

["a primeira mudança que percebi nele foi a negação do mistério. ele disse que não havia mistério no mundo. depois ele começou a se desfazer de tudo que o motivasse ao sonho, à fantasia, ao devaneio. foi então que um dia ele apareceu na praça como se fosse um poste andante. nada nele era humano. poderia ser um guarda-chuva, um chapéu, um par de botinas. ele desistira de ser pessoa. e nem tristeza ele despertava em nós. era como se olhássemos para uma pedra."]

[trecho do monólogo da personagem jocelyn, no romance "homens-parafuso", do grego alexis da pisídia.]

[OS SAVASSIANOS DO BAR 49]

["eles se encontravam em um bar da savassi e produziam aquilo que em um laboratório de química pode ser chamado de refugo, aquilo que será descartado, por ser inútil. eram frases e trocadilhos pela noite adentro, como se fossem ventríloquos ou marionetes de alguma entidade malévola. tudo o que falavam era ornado pela crosta do fel e do veneno. eram filhos daquelas famílias governamentais de minas, sempre no poder, mesmo que decadentes. aliás, poder e decadência sempre andaram juntos por essas capitanias eternas. e eles, esses savassianos do bar 49, eram a prova mais irrefutável das oligarquias improdutivas, rentistas, sem-que-fazeres na vida diária, em conspiração permanente contra os que não faziam parte da parentela. parentela de sangue ou parentela de classe."]

(trecho do romance "os savassianos do bar 49", de otto centelha.)

[O CANDIDATO A PREFEITO]

["pedaço a pedaço foi construído o candidato a prefeito. puseram ventoinhas em seu cérebro, rodinhas em seus pés, maçanetas em seus costados, deram lustro em seu nariz, colocaram um gravador em sua boca. aos poucos, os construtores do candidato ligaram fios e cordames, circuitos e arames, ajustaram porcas e arrebites. fizeram-no ainda risonho como uma criança lambuzada de melaço, deram-lhe uma história, um passado glorioso e heroico, e frases de efeito para se referir ao futuro. depois, em um estandarte, levaram o candidato a prefeito para desfilar pela cidade. ele ia dentro de uma caixa em formato de cofre, com fendas recolhedoras de dinheiro, por onde cédulas e moedas, de doadores ocultos, financiavam os custos com a obra."]

(segundo parágrafo da novela "o homem oco", de marita guadalajara, ainda inédito.)

[AS MANCHAS]

["todas as casualidades marcaram encontro às 17h55. o saloon ainda estava quase deserto. só dois pistoleiros cochilavam junto à porta. o grande relógio badalou a hora do encontro. esperamos um, dois minutos, dez minutos. as casualidades não compareceram."]

(quarto parágrafo de "as manchas de sangue no paletó do palhaço", de urbino volnius, pseudônimo do pernambucano farah mostero.)

[SUSPIROS]

["dez da noite. a marquesa pôs a dentadura dentro do copo e sonhou com o príncipe da dinamarca."]

(página 18 de "a revolução das panquecas", de balthazara alepo, argentina, século 19.)


[ORA, BOLAS]

["levantar acampamento! levantar acampamento!"]

(grito de desespero do personagem astolfo no romance "ora, bolas", do uruguaio tito mederti, publicado em belo horizonte no ano de 1946.)

13.8.26

[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]

[o poema-documentário começa nos próprios óculos de mário: é ali, pela redondez das lentes, que se dará

o fenômeno dos vidrilhos, aliterado fenômeno a se reproduzir ressoante por maravilhas e brilhos da noite.

diz pedro nava que mário de repente debandou-se do grupo, foi para a sacada do grande hotel, contemplou o estilo 

flamejante e manuelino do conselho deliberativo, rua da bahia com avenida paraopeba, ali onde, adusto e áspero

pela rigidez e a monotonia, eleva-se hoje o edifício malleta. e então o poema-documentário volta aos óculos

de mário, e pela redondez das lentes com faíscas nas hastes, flagra outra vez o fenômeno dos vidrilhos, a combustão 

de luzes na noite de belo horizonte, o sonar de mário capta frequências acústicas, seu radar recebe ondas eletromagnéticas.

com letreiros diante da câmera, o poema, que é documentário, exibe as seguintes frases: "ah, o brasil da república velha;

ah, a belo horizonte das magnólias; ah, o barnabé em pânico com o ovo do novo que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,

o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah, o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos do partido republicano mineiro". corte.

volta-se a câmera para os óculos de mário, "holofotes que varrem a noite", diz nava. corte. fusão de imagens dos óculos de mário

com os óculos do poeta sem nome. é o ano de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, chove, dói no horizonte a dor de um mendigo 

bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos de sangue, eis o poeta sem nome, turvas lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]

[COISA DO POEMA, COISA DO PENSAMENTO]

[a dialética espiralante, 
em espirais, com a tríade 
tese, antítese e síntese 
em deslizamento 
ao redor do objeto-ideia, 
revisitação constante 
das faces do objeto-ideia, 
cada momento 
outro momento, 
cada vinco 
outro vinco, cada rasura 
outra rasura, 
cada traço 
outro traço, cada dobra 
outra dobra, 
isto é coisa do poema 
e é também coisa 
do pensamento. 

desformalizar, desformular 
e deformar cada passagem 
com a operação da tríade 
em constante movimento 
acima e abaixo, para um lado 
e outro, isto é coisa 
do poema e é também coisa 
do pensamento. 

destituir a tríade tese, 
antítese e síntese 
de sua propensão 
a criar binarismos, 
mesmo que, a contragosto
para ela, mesmo 
que um desconforto 
para a sua já viciada 
rigidez, isto é coisa 
do poema 
e é também coisa 
do pensamento.]

12.8.26

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã prenunciada, veio o texto.]

[texto assim: fiapo da roupa de um peregrino.]

[lembrei-me então da carta 
que paul celan escreveu a hans bender em 18 de maio do ano de 1960: "só mãos verdadeiras escrevem um poema verdadeiro. em princípio, não vejo nenhuma diferença entre um aperto 
de mãos e um poema".]

[e o texto veio assim: fiapo da roupa de um peregrino.] 

[não era ouro, não era ourivesaria, nada de texto-diamante à luz chegante do dia: era fiapo.]

[fiapo da roupa de um peregrino.]

[com a delicadeza que se impôs em hora tão inaugural no tempo, tratei de laçar a lápis esse indizível que jamais escreveremos.]

[modo não há de escrever o fiapo que se fez de texto na manhã prenunciada.]

[o fiapo é o indizível, é o horizonte inalcançável, é isto que nos ilude para a escrita sempre sonhada e impossível.]

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

11.8.26

[O QUE VEM DEPOIS DO SE]


“(...)
 
... Jeff Morton, morador dos arredores de Londres, envia-me uma pergunta sobre a qual passei todas as horas do dia sem encontrar para ela uma resposta. Tradutor para o inglês de Os doces cílios de Marilyn Monroe, esta novela de tanto vigor e frescor do jovem escritor brasileiro Antônio Frelobé, inventor de uma fundamental cadeira de balanço para leituras de longo curso, Morton quer saber de mim se... (...).

Se. Não tenho modos de encontrar a resposta. Alonguei o meu dia, caminhei em volta da casa, chamei duas vezes o Manuel Jorge Marmelo no Porto, para uma consulta, saí à rua para um sorvete e, mais tarde, para dois chopes. Em vão. Não consegui resposta para a pergunta que me fez o inventivo Morton, este inglês pacífico, colecionador de tampinhas de garrafa e usuário de enormes sapatos, quase galochas.

Se. Morton quer saber de mim se. Se, não sei. Não posso saber. Minhas estantes não têm a frase continuadora do se, meus livros se negam a contar algo além das reticências.

Sou homem pequeno, meço poucos palmos de altitude. Jamais neva sobre o meu chapéu. Ando devagar, pendo o corpo para o lado esquerdo e dou, a cada cinco passos, dois ou três tapinhas no bolso da calça onde guardo a minha carteira de dinheiro — tudo para saber se a minha carteira não fugiu.

Certa vez, já faz muito tempo, chamaram-me de poeta. Nesse dia tal eu acreditei, mas fui devagar percebendo que a poesia não me visita nem nunca me visitou, e as musas, excêntricas, voltam para outro lado o rosto quando da minha passagem. Amanheço muitas vezes triste, pássaro de asas caídas. E só no decorrer do dia vou apanhando, aqui e ali, gotinhas de felicidade.

E agora vem o inglês Jeff Morton querer saber de mim se...”

10.8.26

[O POETA NA ESCADA ROLANTE]

 


[Teodorico Arandel, em seu As influências de Alfred Jarry no imaginário dos poetas performáticos (Editora Vesúvio, Santa Bárbara do Tugúrio, 1982, 145 páginas), conta a história de um poeta que costumava subir e descer interminavelmente as escadas rolantes do Edifício Malleta com um carrinho de supermercado, dentro do qual levava seus livros, sete ou oito opúsculos, um pouco mais, um pouco menos, e que esse poeta se vestia de escoteiro e que também emitia palavras agudas e pontudas aos passantes, uma e outra vez dava ataques, uma e outra vez fazia gestos sátiros, ou burlescos, de vez em quando se fazia passar por um bufão. 

Ou então assumia-se clown, assumia-se chaplinesco, escada acima e escada abaixo, bem diante do Bar Lua Nova, ali onde Murilo Rubião bebericava sua cerveja com os amigos a partir das cinco horas da tarde naquela Belo Horizonte toda provincial dos anos 1970, havia ursos na Avenida Augusto de Lima, javalis na Rua da Bahia, dromedários na Rua Espírito Santo, garças usavam túnicas indianas nas mesas externas da Cantina do Lucas, seios voadores pairavam sobre as mesas do Pelicano e um carro do Dops costumava estacionar a poucos metros de onde terminava a liberdade.]

9.8.26

[ALARIDO DAS ÁGUAS]

[Esse alarido das águas que descem pelas calhas do edifício, orquestral e borbulhante música pelo meio da tarde, esse gotejo de rememorações, gotas e gotas, pingos e mais pingos, manancial que a chuva recente fez se assemelhar a um ribeiro, tudo isto que ouço e que traz pouco a pouco a infância, é a própria infância que decide reviver nessas reverberações intermináveis da água que cai do telhado para as calhas, das calhas para as galerias, constante movimento, insaciável movimento, intermitente ruído de bolhas, protuberâncias de gotas, florações de pingos, riacho pelos labirintos de concreto até sumir pelos subterrâneos da cidade.]

7.8.26

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]