25.9.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

[Caro amigo Senhor Pon: 

Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.

Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.

Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.

Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente. 

Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera. 

Una stretta di mano.  

Do seu
G.]

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

23.9.26

[OS BANIDOS DAS EMENTAS DOS CURSOS DE LETRAS ESTÃO AGORA NO BAR 39]

[os banidos das ementas dos cursos de letras estão agora no bar 39, ali onde degolam-se cotovias.]

[há um cansaço nas horas.]


[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]


[há um cansaço nas horas.]


[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]


[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]


[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]


[por que ainda choram os cavaquinhos?]


[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]


[mangas apodrecem no beco.]


[jakobson não virá hoje.]


[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]


["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]


[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]


[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]


[o bar 39 aderna.]


[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]


[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]


[fala-se turco no recanto sul.]


[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]