Observo que as imagens fecundantes que dançam nesse grande enigma que se chama memória, de repente, repentinamente, irrompem em um texto não programado, mas ativado pela luz da tarde, esta que vaza pelas fímbrias de uma cortina em junção com outra cortina.
Sopra com leveza a brisa que vem do Atlântico, mais precisamente da Praia do Buracão, neste bairro soteropolitano do Rio Vermelho. Brisa e luz, como que irmanadas, quase roçam o dorso do gato Dorival em sua modorra imperturbável, pétrea, em estado de imobilidade absoluta.
A memória, como já disse outro dia, poreja sua matéria sem idade, incessantemente. Lembro-me, por exemplo, de quando, ali por 1967, li Sartre em meu quarto de Belo Horizonte, à beira da então estrada de ferro Central do Brasil, com os trens da noite trepidando o modesto conjunto habitacional em que vivíamos minha mãe, meu padrasto, meu irmão caçula e eu.
Creio que o livro era A Náusea.
Vejo igualmente a folhas manuscritas com textos diversos que, preenchidas, eu logo as amarrava com barbante e guardava os pacotinhos no guarda-roupa, sabendo que jamais leria outra vez o que elas continham. Não as li nem mesmo quando, bem mais tarde, revi outra vez os pacotes que minha mãe guardara por anos e anos.
Fiz deles uma fogueira no quintal. E ainda tenho na lembrança o olhar de tristeza que minha mãe dirigiu às chamas, à fumaça que subia em direção à copa de uma mangueira.
Certas lembranças são como que se intrometer nas vísceras de um acontecimento.
Há um sinal textual que chama e convoca. Se é prosa, se é o contrabando de um poema que se camufla entre os gêneros, como no ensaio, se é meramente uma crônica simplória a arrodear o que se passou e a transgredir as noções de passado e presente, não posso saber.
Onde estará o texto que imagino neste momento, alvejado por esses raios que a memória atira sem parcimônia, sem cerimônia, sem solenidade? É bem provável que ele não exista. Mas, ao não existir, ele me seduz.





















