PAULINHO ASSUNÇÃO
4.10.26
[AQUELE CONTO QUE O GATO ROUBOU DO LIXO DE CORTÁZAR]
[um mosquito. aparentemente morto. um bilhete. só uma palavra: "adeus". um ovo. colheres. cinco colheres. chaves. mais chaves. ferrugem. outro bilhete. só duas palavras: "muito quebrado". dois pães. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. nuvens. ninguém na avenida.]
[um caderno. há marca de sangue no canto superior esquerdo. uma xícara. um volume de poemas ingleses. cartão-postal: londres. outro cartal-postal: porto de buenos aires. marcas de dedo no vidro. a bailarina. a bailarina sentada na cadeira de vime. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. só nuvens. dois homens na avenida]
[um xale. um cachecol. um revólver ao lado de um frasco de perfume. sirenes. richard wagner, as valquírias, baixo, baixo, baixinho. só a bailarina ouve wagner. o professor. a porta. o professor junto à porta. o professor. seu casaco. o livro do professor posto ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. a bailarina: modorra. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. nuvens, nuvens, nuvens. avenida deserta.]
[dois dias depois. anotações ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. única palavra legível: "adeus". a bailarina no alto do teto, asas abertas, revoos pela sala. o professor rasteja. a pele é áspera, de crocodilo. rabo descomunal do professor-crocodilo que desliza pela sala. a bailarina voa. o professor-crocodilo rasteja. e nada mais.]
[a janela dá para a cidade. céu sem nuvens. as famílias vão ao circo.]
3.10.26
[LULA: A HUMANIDADE QUE NOS RESTA]
[foto de Ricardo Stuckert]
[lula tem oitenta anos.
anda de cabeça erguida e jamais verga a espinha.
nem abaixa os olhos.
nem teme.
nem medra.
batem nele.
a cada minuto um energúmeno sai das trevas para dar a lula a morte em efígie.
lula cai e se ergue.
e segue.
segue pelo coração da história.
segue como segue um peregrino pelo deserto.
já tiraram tudo dele.
tiraram dele a voz, tiraram dele o sol e a chuva, tiraram dele as manhãs do país que ele ama como ninguém.
lula, destituído de tudo pelas garras dos zumbis descerebrados, se levanta sempre.
mais uma vez é visto nas ruas, nas praças, no cinema dos olhos de sua gente também sem medo.
sim, o medo tem medo dele.
o medo pálido do mercado e dos rentistas.
o medo tísico dos banqueiros.
o medo e o pânico dos jornalistas que venderam a alma por trinta dinheiros, o medo dos juízes mancomunados com os barões do capital.
a idiotia que viceja qual lodo, qual fungo, tem vertigens de medo de lula, esse velhote de doçura infinita com as gentes sem medo deste país.
os carolas que se armam com deus e fuzis não dormem devido ao incomensurável medo do velhote.
o olhar psicótico de marco rubio, a bufa opereta de trump, o marionetismo do clã miliciano.
todos temem o velhote, o doce e terno velhote, o épico velhote, símbolo da humanidade que ainda nos resta e que está outra vez nas ruas pelo seu país, pelo nosso país.]
[BRENDA WOLF]
[Brenda Wolf gostava de trepidar o assoalho. Ela pressionava e batia os pés nas tábuas com a esperança de atrair terremotos. As xícaras, o açucareiro, os pires e os vidros de biscoito sobre a mesa formavam a paisagem perfeita e em miniatura do sinistro desejado. O gato se afastava. O avô, de quando em quando, perguntava se a cavalaria do imperador passava pela rua.
Nós, os que éramos despossuídos de espanto, ficávamos na varanda. Não acreditávamos em terremotos naquele trecho do mundo. No entanto, esperávamos: pela chuva, pelas cartas, pelo vendedor de tijolos ou pela banda de música. Brenda Wolf não nos dirigia a palavra. A varanda era um país, a cozinha era outro.
Sabem os que andam sem esperança que as gotas de uma torneira soam badalos de melancolia. Encolhíamos os nossos corpos sob as mantas, puxávamos os chapéus sobre os olhos, só concedíamos às vezes a emissão de uma vogal soturna. Vínhamos de muito longe. E é bem provável que não tivéssemos um destino.
E Brenda Wolf sonhava com os terremotos. Os pés fora das sandálias, os tornozelos rijos, os cotovelos fincados no tampo da mesa e a trepidação constante, quase galope, quase os tacões de um dançarino de flamenco. Um dia quem sabe um terremoto iria aflorar sob os pés de Brenda Wolf. E o mundo inteiro despenharia pelas gargantas do abismo.]
Nós, os que éramos despossuídos de espanto, ficávamos na varanda. Não acreditávamos em terremotos naquele trecho do mundo. No entanto, esperávamos: pela chuva, pelas cartas, pelo vendedor de tijolos ou pela banda de música. Brenda Wolf não nos dirigia a palavra. A varanda era um país, a cozinha era outro.
Sabem os que andam sem esperança que as gotas de uma torneira soam badalos de melancolia. Encolhíamos os nossos corpos sob as mantas, puxávamos os chapéus sobre os olhos, só concedíamos às vezes a emissão de uma vogal soturna. Vínhamos de muito longe. E é bem provável que não tivéssemos um destino.
E Brenda Wolf sonhava com os terremotos. Os pés fora das sandálias, os tornozelos rijos, os cotovelos fincados no tampo da mesa e a trepidação constante, quase galope, quase os tacões de um dançarino de flamenco. Um dia quem sabe um terremoto iria aflorar sob os pés de Brenda Wolf. E o mundo inteiro despenharia pelas gargantas do abismo.]
2.10.26
[A BATALHA DAS LARANJAS]
Entre 3 e 4 da manhã, veio o sonho. E o sonho era a reprodução de uma batalha das laranjas tal e qual a famosa Batalha das Laranjas em Ivrea, lá no Piemonte.
Laranjas para cá, laranjas para lá.
Nós, os que estávamos no sonho e por conseguinte metidos na batalha onírica das laranjas recebíamos na testa oblongos petardos atirados pelo pessoal que ia em uma carroça toda enfeitada.
Retaliar tais ataques era, para nós, um sofrimento. Nossas laranjas se achavam todas murchas e nada faziam no cocuruto ou nas bochechas de nossos oponentes.
Às quatro da manhã, o sonho chegou ao fim.
Apalpei a faces a fim de notar qualquer sinal cítrico como resultado de tamanha e descomunal batalha.
Nada feito.
Minhas faces estavam limpas como o céu que se avizinhava sobre a Bahia de Todos os Santos.
Apalpei a faces a fim de notar qualquer sinal cítrico como resultado de tamanha e descomunal batalha.
Nada feito.
Minhas faces estavam limpas como o céu que se avizinhava sobre a Bahia de Todos os Santos.
[OS TROMBONES DA RUA ANFIBÓLIOS]
[quando é madrugada, soam os trombones da rua anfibólios. austeros sons, rombudos sons, especiarias de sons em um cozido harmônico.
um cortázar de touca sobe a ladeira mínima da rua anfibólios. sobe e para, absorto, porque é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.
sou aquele que veio de longe, diz o cortázar de touca. cigarro aceso, cigarro apagado, assovio fino, assovio grosso, as alegrias polpudas e em cachos dos sons dos trombones da rua anfibólios.
aquelas moças que incendeiam as bandeiras, aquelas moças derrubadoras de muros. é madrugada, já soam os trombones da rua anfibólios, e as moças insubmissas ateiam fogo na cidade.
sou aquele que veio de longe, repete o cortázar de touca. em síncopes, os trombones da rua anfibólios acompanham os passos do andré de sapato novo.
o choro. o chorinho. a luz do poste. o beijo carmim. o jaguar da noite. a navalha. o chapéu borsalino. pixinguinhas que vão, pixinguinhas que vêm. é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.
a poesia não é. a poesia é o que não é. carotes de vinho amargo em prateleiras abandonadas. o sal corrói as paredes. o pai mostra ao filho a bala em um círculo a lápis na parede. tudo é adusto, tudo é sanguíneo. mas é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.
o cortázar de touca e as moças derrubadoras de muros agora em colóquio na ladeira mínima da rua anfibólios. a revolução chegará como se um gás, como se um som, como se uma chispa-faísca. os idiotas não passarão. é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.]
um cortázar de touca sobe a ladeira mínima da rua anfibólios. sobe e para, absorto, porque é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.
sou aquele que veio de longe, diz o cortázar de touca. cigarro aceso, cigarro apagado, assovio fino, assovio grosso, as alegrias polpudas e em cachos dos sons dos trombones da rua anfibólios.
aquelas moças que incendeiam as bandeiras, aquelas moças derrubadoras de muros. é madrugada, já soam os trombones da rua anfibólios, e as moças insubmissas ateiam fogo na cidade.
sou aquele que veio de longe, repete o cortázar de touca. em síncopes, os trombones da rua anfibólios acompanham os passos do andré de sapato novo.
o choro. o chorinho. a luz do poste. o beijo carmim. o jaguar da noite. a navalha. o chapéu borsalino. pixinguinhas que vão, pixinguinhas que vêm. é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.
a poesia não é. a poesia é o que não é. carotes de vinho amargo em prateleiras abandonadas. o sal corrói as paredes. o pai mostra ao filho a bala em um círculo a lápis na parede. tudo é adusto, tudo é sanguíneo. mas é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.
o cortázar de touca e as moças derrubadoras de muros agora em colóquio na ladeira mínima da rua anfibólios. a revolução chegará como se um gás, como se um som, como se uma chispa-faísca. os idiotas não passarão. é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.]
[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]
[Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica inteira ao bolinho de feijão do Ignácio´s, no tempo em que o bar funcionava na Rua da Bahia, antes de se mudar para a Guajajaras e morrer para todo o sempre. A crônica está em Os bares morrem numa quarta-feira.]
[Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.]
[Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.]
[Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.]
[Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano antes que a soja e a cenoura tomassem o lugar das lobeiras, das gabirobas, do caju miúdo, e o cerrado perdesse de vez aquela tortuosidade barroca vegetal para os campos monótonos das plantations.]
[Pus os pés na Praça Sete naquele princípio de tarde e fui levado ao Café Pérola. Reluzia o aço inoxidável da máquina atrás do balcão. E da torneira jorrava aos copos o ouro da beberagem com direito a gominhos flutuantes de laranja na flor das bordas. Chamei de poesia aquele instante, e trouxe pelos anos afora essa lembrança humilde, pois só a humildade é capaz de definir tão prosaica bebida.]
[De tempos em tempos, quando revisito a Praça Sete, sinto os lampejos epifânicos daquela tarde, daquele mês de março. E a laranjada do Café Pérola, relembrada, desencadeia em mim as alegrias inaugurais da juventude.]
[Como o Ignácio´s, o Café Pérola não existe mais. Do bolinho de feijão merecedor de uma ode em forma de crônica de Paulo Mendes Campos, restou a paisagem oleosa de certos espécimes muito esquisitos em balcões do centro da cidade. E a laranjada, bom, ela é agora o pó industrial a ser diluído em águas turvas.]
[Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.]
[Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.]
[Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.]
[Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano antes que a soja e a cenoura tomassem o lugar das lobeiras, das gabirobas, do caju miúdo, e o cerrado perdesse de vez aquela tortuosidade barroca vegetal para os campos monótonos das plantations.]
[Pus os pés na Praça Sete naquele princípio de tarde e fui levado ao Café Pérola. Reluzia o aço inoxidável da máquina atrás do balcão. E da torneira jorrava aos copos o ouro da beberagem com direito a gominhos flutuantes de laranja na flor das bordas. Chamei de poesia aquele instante, e trouxe pelos anos afora essa lembrança humilde, pois só a humildade é capaz de definir tão prosaica bebida.]
[De tempos em tempos, quando revisito a Praça Sete, sinto os lampejos epifânicos daquela tarde, daquele mês de março. E a laranjada do Café Pérola, relembrada, desencadeia em mim as alegrias inaugurais da juventude.]
[Como o Ignácio´s, o Café Pérola não existe mais. Do bolinho de feijão merecedor de uma ode em forma de crônica de Paulo Mendes Campos, restou a paisagem oleosa de certos espécimes muito esquisitos em balcões do centro da cidade. E a laranjada, bom, ela é agora o pó industrial a ser diluído em águas turvas.]
[E SE WANDER PIROLI PASSASSE?]
[eis a praça do peixe com o linguado de plástico a se equilibrar numa vara ao tempo, para lá é o norte, para acolá é oeste, se vai morrer, sobe a rua bonfim, se vai viver, siga a via para o carlos prates.]
[futurismos tardios na rua bonfim.]
[vende-se gelo.]
[vendem-se pentes velhos, abajures sem lâmpadas, máquinas de costuras onde coser a mortalha de um mendigo que acabou de morrer.]
[ou não.]
[vivo está, sonolento talvez, o guarda vem para o diagnóstico: "é o altair", alguém diz.]
[vivo está, sonolento talvez, o guarda vem para o diagnóstico: "é o altair", alguém diz.]
[altair sorri.]
[ressuscitou.]
[e se passasse agora o piroli a caminho da praça vaz de melo?]
[e se caísse um anjo?]
[piroli não passa e o anjo não cai.]
[são matinais os olhos nos arrabaldes de belo horizonte.]
[corações de bandoneóns ainda pulsam a noite anterior.]
[a sofreguidão na pele da cidade, a curva do viaduto onde dorme um cachorro.]
[e se o piroli passasse agora a caminho da praça vaz de melo?]
[e se um anjo lunático escrevesse agora a sonata dos dias agônicos?]
[há silêncio de morte na brisa de agora há pouco.]
[sopram as ventoinhas do tempo louco.]
[de pé, altair retoma o seu calvário.]
[de pé, altair retoma o seu calvário.]
[o brasil inteiro se esfarela em pão e mofo na rua paquequer.]
[altair agora valsa.]
[valsa a valsa do imperador.]
[altair valsa.]
[quão tristes são as alegrias nas gengivas nuas de altair.]
1.10.26
[E ENTÃO COMEÇOU O DIA]
Sentou-se no canto do bar, a dois ou três metros dele. Olharam-se uma ou duas vezes. Notou que ela possuía lábios enormes. Sua blusa era azul e os cabelos negros. Aos poucos, ela se aproximava dele, ela ia arrastando a cadeira, mais e mais um pouco. Por fim, estavam juntos e se beijaram muito de leve, apenas roçando os lábios.
Nada mais desta cena foi lembrado ao amanhecer. Apenas um rato branco, pelado, correu pelo assoalho e ficou de barriga para cima à espera de um carinho.
A visão desse rato provocou asco. O rato esfumou-se, sumiu, desapareceu da cena.
Nenhuma outra cena foi lembrada ao amanhecer.
Ele levantou-se, acariciou o gato à beira da cama, foi à cozinha com o frasco de medicamento e então começou o seu dia.
30.9.26
[ORA (DIREIS), LAVAR PALAVRAS]
[ora (direis), lavar palavras.
ora (direis), ensaboá-las, quarar
as pobres em cima de pedra, depois
enxaguá-las e torcê-las,
anáguas silábicas tão alvas
como se quisessem aparência-hóstia.
ou quisessem condição carola, palavras
de sacristia, o tablete de anil
para torná-las puras, virginais
senhoras ou frases em conserva.
pois que deixem nelas a crosta
do sol ou da chuva, deixem a capa
de lodo-fungo em suas escamas,
ora (direis), ensaboá-las, quarar
as pobres em cima de pedra, depois
enxaguá-las e torcê-las,
anáguas silábicas tão alvas
como se quisessem aparência-hóstia.
ou quisessem condição carola, palavras
de sacristia, o tablete de anil
para torná-las puras, virginais
senhoras ou frases em conserva.
pois que deixem nelas a crosta
do sol ou da chuva, deixem a capa
de lodo-fungo em suas escamas,
deixem intactas marcas, nódoas,
manchas, fantasmas
― acúmulo de bocas que as disseram,
acúmulo de dedos que as escreveram.]
― acúmulo de bocas que as disseram,
acúmulo de dedos que as escreveram.]
29.9.26
[SEU GOSTO]
[seu gosto? agora percebo.
ou intuo. seu gosto é estranho
como uma guarânia tocada
na birmânia. este poema
que lhe caiu tanto ao gosto:
vôte. lembra uma camisa
volta ao mundo com manchas
d´ovos nas duas mangas.
sua predileção pelo raso e o plano
é de endoidecer saxofone.
que pepita de araque o seu gosto
viu nesses versinhos de ambrosia?
tudo é previsível no seu gosto:
ritmo manco, imagética turva,
léxico de arame, sintaxe de minhoca.
seu gosto? é um tatu na toca.]
sua predileção pelo raso e o plano
é de endoidecer saxofone.
que pepita de araque o seu gosto
viu nesses versinhos de ambrosia?
tudo é previsível no seu gosto:
ritmo manco, imagética turva,
léxico de arame, sintaxe de minhoca.
seu gosto? é um tatu na toca.]
[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]
[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures.
É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures.
É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam.
É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.
A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.
Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.
Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.
É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.
Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.
Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]
26.9.26
[PONHO TUDO NO POEMA]
[ponho tudo no poema: laranjas,
alfinetes, pontos de açafrão
para o dourado espetacular,
cartas para amigos distantes
que ficaram mudos faz tempo
e não sei se responderão
a essas cartas que começam
sempre assim: olá, camarada.
sim, ponho tudo no poema:
armadilhas inoperantes, lenços
azuis, gravetos de falecidas
árvores que o tempo não poupou
e que agora se esfarelam em podre
no parque que já não é parque,
mas um descampado triste.
ponho tudo no poema: até
o que não existe, até o que
existe mas finge que não existe,
ponho tudo, logo cedo,
logo ainda escuro eu recolho
o que irá para o poema:
pedaços de um sonho feliz,
pedaços de um sonho
que sonhei com o meu país,
e que no sonho era tratado
no diminutivo, pois no sonho
meu país era muito frágil.
ponho tudo no poema: é
o meu modo de propalar
nessas esquinas que, sim,
não devemos desistir da vida.]
[O CRIME FOI EM JULHO]
[Mataram o meu primo em uma madrugada de julho.
Recebeu na testa a bala que era endereçada a outro.
Minha mãe veio ao quarto.
Tocou a minha cabeça.
Chamou baixinho, com voz de choro.
O dia já clareava.
Ela disse: mataram o seu primo.
Fui vê-lo.
Atravessei o largo da igreja, ainda de terra batida, muito antes de ser praça, e desci pela rua do laticínio.
Um cavaleiro subia a rua com dois latões de leite.
Eu usava um par de sapatos presente de aniversário.
O da esquerda rangia mais do que o da direita.
Tive pena de entrar com eles na poeira.
O corpo do meu primo estava na sala sobre a grade de um catre.
O caixão só chegaria mais tarde.
Vi o furo da bala pouco acima do olho esquerdo.
Um ponto negro, pequeno, que lembrava uma mosca pousada.
O assassino queria mesmo era matar o sogro do meu primo.
Anunciou que atiraria.
Naquela hora, havia pouca gente no bar da rodoviária.
Uns bêbados, algum fazendeiro, alguém que esperava o ônibus das seis horas.
Meu primo saiu detrás do balcão, deu alguns passos, ficou ao lado do sogro.
Queria levá-lo para dentro, escondê-lo.
O assassino estava muito embriagado.
Era homem nos seus cinquenta anos, afamado pelas fuzarcas e pelas bravatas.
Dizem que ele desceu de um carro de praça já disposto a tumulto.
Trazia estoque de palavrões no céu da boca.
Cambaleava.
Tropeçava.
E anunciava que atiraria, com o revólver pesado demais para mão tão trêmula.
Parece que meu primo morreu antes de cair.
Caiu de bruços.
Só algumas gotas de sangue no cimento.
Eu olhava para aquele furo de bala e não pensava nada.
Fiquei ao lado do meu tio, só um pouco atrás.
Meu tio era um homem pequenino.
Vinha de uma linhagem de marranos, eram quatro irmãos e duas irmãs.
Todos pequeninos.
Meu primo era o seu único filho.
Ele segurava o chapéu entre as mãos.
A cabeça baixa, os olhos baixos, os lábios apertados.
Ele não me disse nada.
De quando em quando, eu olhava para a sua orelha.
Era uma orelha muito grande, com lóbulo grande, a concha grande.
Meu primo era um sujeito calmo.
Falava pouco.
Ria só quando bebia.
Foi a segunda morte que vi assim de tão perto, ao alcance da mão.
A primeira foi a do meu pai.
Uns dez anos antes.
Em um mês de dezembro.
Meu pai começou a morrer pelos pés.
Minha mãe disse: os pés dele estão cada vez mais brancos.
E então ele morreu inteiramente.]
Meu pai começou a morrer pelos pés.
Minha mãe disse: os pés dele estão cada vez mais brancos.
E então ele morreu inteiramente.]
[PEQUENA HISTÓRIA DE RAIOS]
[o menino gostava de observar o cabo de aço que descia pelo para-raios até o chão. eram dois andares, e o cabo vinha do telhado a uma passarela de cimento em volta da casa. o cabo não tocava a parede. de meio em meio metro, pequenas argolas de ferro evitavam o contato do cabo com o reboco.]
[o motorista do gmc marítimo contou um dia para o menino que os raios desciam pelo cabo em dias de tempestade. a cada raio que caía o cabo dava chicotadas, se contorcia, ficava vermelho e em brasa. a gente podia sentir o cheiro de queimado.]
[depois que ouviu isto, o menino passava horas observando o cabo. imaginava a tempestade. imaginava os trovões e os relâmpagos. imaginava o que o velho motorista chamava de "hora do capeta".]
[a irmã do meio gritava em dias de chuva. a irmã do meio nunca se livrou do medo daqueles dias de chuva. e quando chovia, o menino ficava na copa, diante da escadaria, pois ali, do lado de fora, a "hora do capeta" fazia o cabo de aço dar chicotadas.]
[o menino era um menino triste. dava para pegar a tristeza desse menino na palma da mão. só algumas coisas tiravam essa tristeza do menino. uma delas era o ronco que dava o motor do gmc marítimo. o gmc marítimo era um caminhão enorme. e era azul. levava cimento para a construção de brasília.]
[um homem da udn um dia matou um homem do psd. e então um homem do psd matou outro homem da udn. e então eles se mataram durante mais de um ano até que o governador enviou um delegado para acabar com a matança.]
[o gmc marítimo um dia levou cimento para a construção de brasília e não voltou mais. nunca ninguém mais soube do gmc marítimo. nem do motorista. o pai do menino, que era dono do caminhão, ficou também triste, e a sua tristeza também dava para pegar na palma da mão.]
[vinham as tempestades e o cabo de aço chicoteava pela parede abaixo. depois abria o sol e as tanajuras apareciam. o menino gostava de pisar na bunda das tanajuras. aquela gosma amarelada. aquela banha.]
[de vez em quando o menino pensava no gmc marítimo. depois pensou menos. até que não pensou mais.]
[a tristeza de pegar na palma da mão parecia uma bolota que grudava nos dedos. o pai ficava na poltrona com a sua bolota que escorria até o assoalho. a bolota escorria e ele ouvia o carlos gardel na vitrola.]
[o menino, mais alguns anos passados, foi para são paulo. cruzou o chapadão em um ônibus também azul. o ônibus ia muito lento pelo chapadão afora. o ônibus demorava demais para furar o horizonte. demorava demais para desaparecer lá onde a vista turva e os olhos não veem. demorava demais para alcançar o relâmpago mais distante.]
[o motorista do gmc marítimo contou um dia para o menino que os raios desciam pelo cabo em dias de tempestade. a cada raio que caía o cabo dava chicotadas, se contorcia, ficava vermelho e em brasa. a gente podia sentir o cheiro de queimado.]
[depois que ouviu isto, o menino passava horas observando o cabo. imaginava a tempestade. imaginava os trovões e os relâmpagos. imaginava o que o velho motorista chamava de "hora do capeta".]
[a irmã do meio gritava em dias de chuva. a irmã do meio nunca se livrou do medo daqueles dias de chuva. e quando chovia, o menino ficava na copa, diante da escadaria, pois ali, do lado de fora, a "hora do capeta" fazia o cabo de aço dar chicotadas.]
[o menino era um menino triste. dava para pegar a tristeza desse menino na palma da mão. só algumas coisas tiravam essa tristeza do menino. uma delas era o ronco que dava o motor do gmc marítimo. o gmc marítimo era um caminhão enorme. e era azul. levava cimento para a construção de brasília.]
[um homem da udn um dia matou um homem do psd. e então um homem do psd matou outro homem da udn. e então eles se mataram durante mais de um ano até que o governador enviou um delegado para acabar com a matança.]
[o gmc marítimo um dia levou cimento para a construção de brasília e não voltou mais. nunca ninguém mais soube do gmc marítimo. nem do motorista. o pai do menino, que era dono do caminhão, ficou também triste, e a sua tristeza também dava para pegar na palma da mão.]
[vinham as tempestades e o cabo de aço chicoteava pela parede abaixo. depois abria o sol e as tanajuras apareciam. o menino gostava de pisar na bunda das tanajuras. aquela gosma amarelada. aquela banha.]
[de vez em quando o menino pensava no gmc marítimo. depois pensou menos. até que não pensou mais.]
[a tristeza de pegar na palma da mão parecia uma bolota que grudava nos dedos. o pai ficava na poltrona com a sua bolota que escorria até o assoalho. a bolota escorria e ele ouvia o carlos gardel na vitrola.]
[o menino, mais alguns anos passados, foi para são paulo. cruzou o chapadão em um ônibus também azul. o ônibus ia muito lento pelo chapadão afora. o ônibus demorava demais para furar o horizonte. demorava demais para desaparecer lá onde a vista turva e os olhos não veem. demorava demais para alcançar o relâmpago mais distante.]
25.9.26
[O PENSAMENTO E A POESIA]
[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.
essas porções que a noite
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa
e a desordem.]
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.
essas porções que a noite
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa
e a desordem.]
[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]
[Caro amigo Senhor Pon:
Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.
Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.
Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.
Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente.
Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera.
Una stretta di mano.
Do seu
G.]
Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.
Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.
Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.
Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente.
Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera.
Una stretta di mano.
Do seu
G.]
[A NATUREZA E O PENSAR]
[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho
e o gafanhoto, a pedra e o graveto,
a chuva e o terremoto.
não ponho pressa em mim
para pensar o rio, seus remansos,
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,
esse rio que ponho no pensamento
para melhor pensá-lo, pois um rio
é sempre dois rios, uma coisa
é sempre duas coisas,
a que está fora e a que está dentro,
são campos magnéticos, circuitos
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,
ao ser pensada, ganha a consistência
de ser a mesma e ser diversa, pois
pensar é uma moenda, pensamento
é aquilo que engenha, se penso
a coisa, e penso a natureza, a mesma
coisa logo se inventa, basta pensar
para que outro mundo venha,
por isso chego à natureza
como um peregrino, ando com patas
de felino, lento eu giro o que eu vejo
em suave rodopio, não corro, aprendo
com a modorra do cachorro,
aprendo com a sonolência do cavalo,
alio-me à força dispersiva que leva
o cisco em ventania. se não entendo,
espero, e se me espanto, alegro-me.]
quero dizer, o redemoinho
e o gafanhoto, a pedra e o graveto,
a chuva e o terremoto.
não ponho pressa em mim
para pensar o rio, seus remansos,
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,
esse rio que ponho no pensamento
para melhor pensá-lo, pois um rio
é sempre dois rios, uma coisa
é sempre duas coisas,
a que está fora e a que está dentro,
são campos magnéticos, circuitos
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,
ao ser pensada, ganha a consistência
de ser a mesma e ser diversa, pois
pensar é uma moenda, pensamento
é aquilo que engenha, se penso
a coisa, e penso a natureza, a mesma
coisa logo se inventa, basta pensar
para que outro mundo venha,
por isso chego à natureza
como um peregrino, ando com patas
de felino, lento eu giro o que eu vejo
em suave rodopio, não corro, aprendo
com a modorra do cachorro,
aprendo com a sonolência do cavalo,
alio-me à força dispersiva que leva
o cisco em ventania. se não entendo,
espero, e se me espanto, alegro-me.]
23.9.26
[OS BANIDOS DAS EMENTAS DOS CURSOS DE LETRAS ESTÃO AGORA NO BAR 39]
[os banidos das ementas dos cursos de letras estão agora no bar 39, ali onde degolam-se cotovias.]
[há um cansaço nas horas.]
[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]
[há um cansaço nas horas.]
[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]
[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]
[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]
[por que ainda choram os cavaquinhos?]
[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]
[mangas apodrecem no beco.]
[jakobson não virá hoje.]
[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]
["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]
[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]
[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]
[o bar 39 aderna.]
[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]
[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]
[fala-se turco no recanto sul.]
[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]
[há um cansaço nas horas.]
[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]
[há um cansaço nas horas.]
[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]
[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]
[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]
[por que ainda choram os cavaquinhos?]
[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]
[mangas apodrecem no beco.]
[jakobson não virá hoje.]
[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]
["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]
[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]
[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]
[o bar 39 aderna.]
[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]
[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]
[fala-se turco no recanto sul.]
[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]
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