23.8.26

[OUTRAS ÁGUAS]


[Torto por linhas tortas foi o modo que encontrei para exercer em mim as palavras em condição de viventes]

[Em épocas de primeiros êxtases, costumava rastrear delas as pegadas, os rastros, as manchas, como se fossem gentes em êxodo]

[Sonhei recados de umas para as outras nas vísceras do não dito nem escrito]

[Sonhei bilhetes no carvão, no fogo e nas cinzas, naquilo que restou das algaravias]

[Imaginei tratados filosóficos em ossos e fósseis de vocábulos]

[Vi pedaços do que eu fantasiava um dia escrever nas sementes deixadas na tumba dos faraós]

[E veio o dia em que olhei o mundo e o mundo era feito de letras e alfabetos]

[Foi então que fantasiei uma caixa de escrever, uma caixa de escrever com gavetas lacradas que descobri não terem chaves nem manual de instruções para abri-las]

[Torto por linhas tortas descobri que investigar palavras é diferente do ofício do anatomista que cinde um cadáver]

[Torto por linhas tortas soube que o matiz nelas existente é diferente do que há de matiz por exemplo no ventre de uma pedra]

[O que nelas há de peso e volume é diferente do peso e do volume que se apreende da mensuração de um tijolo]

[Nem adianta jogá-las em um poço a fim de que produzam os sons ou os ecos de uma moeda]

[Nem adianta querer delas o ritmo que vem da baqueta sobre o tarol ou sobre o bumbo, esses ritmos de fanfarra]

[Torto por linhas tortas descobri o quanto de falácia há no ato de encerrar palavras dentro de uma garrafa]

[Torto por linhas tortas restringi meus êxtases a um sol todo estilhaços vazado por uma janela e pintor de ideogramas nas paredes]

[Torto por linhas tortas fui até Rimbaud, mas tive de levar pincel e tinta a fim de dar cor à cor que ele disse ter visto em suas vogais]

[Tocar as palavras do modo como se toca uma coisa foi o maior dos meus enganos]

[Torto por linhas tortas vi que nem a palavra coisa pode ser tocada à maneira dos corpos]

[A pedra e a mão, sim, formam uma parelha em estado de núpcias e se tocam à maneira de amantes]

[Também parelhas núbeis são a mão e o graveto, a mão e o estilete, a mão e o cinzel, a mão e a goiva, a mão e o cálamo, a mão e a pena de pato, a mão e o pincel, a mão e o lápis]

[Falácia é dizer que a tinta contém fetos de letras e de palavras, pois a tinta é um mero aquém à espera, quando muito um dos murmúrios da cópula futura]

[Palavras podem ser depositadas sobre paredes mas nem por isso terão a consistência dos ovos de uma vespa]

[Palavras podem ser riscadas na areia mas nem por isso o boi vem lambê-las ou o lagarto engoli-las]

[Palavras no granito dissolvem-se na coisa-lápide ou na coisa-estátua, nada mais]

[Falácia é flagrar milagres de palavras em tecido, couro, pergaminho ou papel nos quais estejam incrustadas]

[Falácia é dividir as palavras entre vazias e cheias, entre substantivas e adjetivas]

[Falácia é dividi-las entre escuras e iluminadas]

[Torto por linhas tortas vim a descobrir as similitudes de umas com todas, de todas com nenhuma]

[Torto por linhas tortas descobri ser falácia palavras com chips ou circuitos de néon em suas entranhas]

[Não há estado de coisa nas palavras em escrita cuneiforme, há, sim, estado de coisa na substância barrenta dos tijolinhos de escrever]

[Coisa é o papel, coisa é o caderno, coisa é o livro, coisa é a tela do computador]

[Torto por linhas tortas vim a descobrir que as palavras não são da ordem da matéria, mas da ordem das povoações]

[E talvez quem saiba delas sejam os santos desmobilizados e sem igreja, os santos expulsos da ordem das santidades]

[Torto por linhas tortas vim a descobrir que as palavras são também da ordem das miragens]

[Reduzi assim meus êxtases à contemplação da mímica de luz e sombra que há no território das palavras]

[Por exemplo, a mímica da doçura, quando é de favo que elas se mimetizam]

[Por exemplo, a mímica do calor, quando é com fogo que elas nos ilusionam]

[Sob luz de vela, dentro de um claustro, um monge escreve a sua própria hipnose]

[No escritório, com a escrivaninha frente à janela, ou na praça, com o caderno sobre os joelhos, um ilusionista erige no ar palavras em dissipações]

[Num café de Paris, o escrevente sonâmbulo constrói hieróglifos mais leves do que o ar]

[Foi torto, por linhas tortas, que outras águas eu percebi na corrente que subjaz o rio das palavras]

[Coisa é o som que faz um homem na máquina de escrever, coisa é a cadeira anatômica diante do computador]

[Coisa é a cidade de Alexandria, coisa é a biblioteca de Ptolomeu]

[Num mosteiro do fim do mundo, o primeiro e o último livro se enlaçarão com seus braços ou tentáculos de alfa e ômega]

[Todos os dias um falso Gutenberg sonha palavras de gesso encarceradas na página de um livro]

[Torto por linhas tortas descobri ser o Diabo um deslegente tanto quanto Deus é o seu deslido]

[Só torto por linhas tortas pude acompanhar o fio de Ariadne por entre as estantes da biblioteca de Borges]

[Falácia é dividir as palavras entre as ardentes e as frias]

[Torto por linhas tortas descobri que as palavras são da ordem dos fios que ligam um lado e outro do abismo]

[Meu êxtase é ter hoje com elas o convívio das gentes serenadas, das gentes desafligidas de bando]

22.8.26

[ESCREVENTES]

[Uns, efêmeros, escrevem na areia para que as ondas lavem e o sal corroa o corpo das letras, e para que a manhã dos mares seja testemunha, não de frases ou palavras, mas de restos de sargaços, de quilhas carcomidas de barcos, de lemes e mastros avariados, de espuma pela boca de peixes mortos.] 

[Outros, porque visionários, escrevem no bronze para que o vento, com os seus chicotes de vento, e o tempo, com o seu olho insone de tempo, sejam pelas letras derrotados, e para que os séculos, com seus galopes de potro, com seus cascos de potro cego, grafem no metal os próprios ossos das palavras.]

[Uns, diletantes, escrevem nos feriados ou então nas tardes de domingo, e esperam, primeiro um inchaço, depois uma eclosão, por fim, esperam descer do teto a matéria gelatinosa e plástica que lhes servirá de letras, com as mãos eles aparam esses nacos e essas porções grudentas, quase bolotas, e ainda com as mãos eles passam a lambuzar de norte a sul a página, até  submergi-la, até afogá-la em gosma, para, enfim, sonolentos, de tudo esquecerem.]

[Outros, porque furiosos, escrevem com a ponta de um punhal depositada sobre o fígado. Convém manter deles certa distância, embora o risco para quem deles se aproxima esteja menos no punhal e mais no líquido que eles fazem porejar da pele, um líquido gélido e ácido, sem brilho, porém volumoso ao ponto de ao final do dia envolvê-los com uma mantilha de luto, já quando as letras sobre a página tornaram-se irritadiças e ásperas.]

[Uns, precavidos, escrevem em linha reta para proteger suas frases dos abismos de um lado e outro da página, sempre avante é o que parecem dizer a todo instante, sempre avante com chumaços de algodão em cada orelha, sempre avante eles jamais permitem que o canto das sereias e as próprias sereias lhes venham roçar os corpos, e fazer dos corpos deles um país definitivamente conquistado.]

[Outros, porque urgentes, escrevem o quanto antes para que não sejam surpreendidos pela noite em algum ponto ermo do deserto. Chegar o quanto antes e aonde quer que seja é para eles uma lei. Talvez, por isso, as letras que lhes saem são às vezes dardos, às vezes flechas; são às vezes um susto, às vezes são sinais de rádio a anos-luz de nós, isto é, são fósseis de letras, como estrelas mortas.]

[Uns, delicados, escrevem com o braço em repouso sobre o dorso de uma pluma, provavelmente porque concebem as letras como se as letras fossem asas de libélulas. Convém dar a eles o direito ao silêncio, convém dar a eles o ambiente de claustro, pois, se o som  de um clarim é capaz de desmoroná-los, de igual modo e efeito, o rumor do mundo pode desintegrá-los.]

[Outros, porque bélicos, escrevem nos gumes de armas brancas como o punhal ou a adaga. Esses costumam ter olhos vermelhos e língua seca, nunca suspiram de saudade e quase sempre estão de emboscada. Convém, pois, não compartilhar com eles a mesma rua, o mesmo andar de edifício, muito menos a mesma música.]

[Uns, gagos, escrevem cobrindo os buracos e os intervalos que o silêncio faz entre as letras e vivem constantemente em estado de síncope. São, por tais motivos, propensos a ritmos ensandecidos e dissolutos. Quando irados, sovam as palavras com os punhos ou as atiram no chão para serem pisoteadas. Contudo, se felizes, costumam engenhar palavras engraçadas, algumas magras, outras obesas, algumas sólidas, outras feitas de bolha.]

[Outros, porque larápios, escrevem a meio caminho entre a luz e as trevas, uma parte do rosto sob a névoa, a outra parte sob a sombra. Seres noturnos e vicários, apreciam recolher palavras na bolsa alheia, mais pelo gosto de desnutri-las do que com a intenção de utilizá-las. Não à toa, costumam possuir sinistros depósitos de palavras em decomposição.]

[Uns, solares, escrevem concedendo às palavras respiradouros e claraboias, escotilhas e janelas. Mesmo palavras mais soturnas ou mais enlutadas recebem deles frestas de luz nas partes onde as letras foram cobertas pelo musgo, pelo mofo ou pelo lodo. Amigos do sol, esses escrevem com assovios formados ou em doce formação no côncavo dos lábios.]

[Outros, porque melancólicos, mais escavando do que escrevendo, procuram as regiões sem luz no corpo das letras, não propriamente trevas, mas certos carnegões ou furúnculos ali depositados pelo tempo. A tarefa principal deles, portanto, é furar esses carnegões prenhes de humor enegrecido e barrento, fazê-los escoar a baba e o visgo entre as frases, de tal modo que, no fim de cada dia, densas camadas de matéria semelhante ao piche foram espalhadas sobre o corpo da escrita.]

[Uns, feirantes, escrevem nas manhãs dos bairros suas palavras-legumes, suas palavras-folhudas, suas palavras-grãos, suas palavras-frutos. Ou então fazem exuberar, aos olhos leitores dos cachorros, bandas de leitões, frangos dependurados pelo pescoço, suãs de novilhos, pernis de cabritos. Convém observar a ânsia com que oferecem consoantes secas e vogais molhadas pelo megafone, convém observar como são artífices de cálculos contabilidades, convém observar como estão permanentemente em estado de prateleira.]

[Outros, porque tribunos, põem as palavras na ceva para que elas ganhem volume e peso, e adquiram banha, e se tornem suculentas. Só então eles aceitam utilizá-las nas frases, umas escolhidas pelo tamanho do dorso, outras pela exuberância das ancas. Convém de quando em quando revolver o lixo deixado por esses tribunos nos cantos da oficina, pois, ali, entre monturos, pedem socorro as palavras raquíticas, as palavras desnutridas e agônicas.]

[Uns, catequéticos, fazem das palavras animaizinhos de mando, amiúde as palavras saem deles para missões incumbências, muito frequentemente podemos vê-las em pregações pelas esquinas das cidades. Convém não dar ouvidos a essas palavras missionárias, menos pelo que elas propalam, mais pelo barulho ensurdecedor dos seus latidos e relinchos.]

[Outros, porque ourives, usam goivas e pontais de diamante para esculpir o corpo metálico das palavras. Faz bem aos olhos e ao coração observá-los tão enlevados neste ofício, faz bem observá-los tão meninos com suas palavras-anéis, suas palavras-braceletes, suas palavras-pingentes, todas em estado de baile.]

[Uns, suicidas, são dados a encaixar cápsulas de cianureto nos interstícios das letras, para então ingeri-las durante o sonho. Ou então preferem encharcar as letras com álcool ou gasolina, e assim, ao meio-dia em ponto de uma segunda-feira, e com a ponta acesa de um fósforo, escrevem cartas que jamais chegarão ao seu destino, pois incendiadas no meio do caminho.]

[Outros, porque acrobatas, equilibram as palavras em fios de aço no mais alto ponto do circo. Algumas palavras são postas em fila, outras são empilhadas, e formam torres, ou se abrem em árvores, ou então simulam máquinas e engenhocas. Todas porém são obrigadas a contorcionismos em volta do próprio eixo. Contudo, é aconselhável saber que, quase sempre, o sopro de um anjo invisível desfaz essas formações de letras e, sem a menor cerimônia, as atira sobre a plateia.]

[Uns, nômades, louvam o próprio ir sem rumo das palavras por países e continentes, nem bem elas chegam e já estão partindo, um comichão inexplicável movimenta ininterruptamente esses comboios de letras, nada os retém, nem o olhar das mulheres que acenam de um tombadilho, nem as crianças em condição de abandono. Errantes, as palavras desses nômades estão sempre em estado de adeus.]

[Outros, porque estrangeiros, são os que geram palavras com o mal-estar do desassossego, as palavras deles jamais estão onde se esperaria estivessem, sempre cometem um equívoco de lugar e destino, e os leitores que as leem, quando as leem, costumam orar por esses estrangeiros como se aconselha orar para os excomungados.]

[Uns, inocentes, teimam em andar com as suas sacolas de palavras pelas zonas de litígio, atravessam com elas os campos de batalha, quase sempre são abatidos, ou então são feitos prisioneiros, não muito raramente são amestrados. E enquanto há guerra e há litígio, cumprem a ordem de divertir combatentes e comandantes em suas solidões de pernas atrofiadas, de olhos vazados, de vísceras à mostra.]

[Outros, porque usurários, põem pela manhã no cofre palavras gestadas durante a noite, anos a fio e para todo o sempre eles trancafiam em cofres as suas palavras-apólices, nada, ninguém os demove deste segredo, ninguém os convence ao gesto de soltar uma palavra matinal nos céus dos homens.]

[Uns, por fim, irremediáveis e danados, escrevem porque estão para todo o sempre e eternamente dentro de um círculo de fogo.]

[Outros, porque limítrofes ao círculo de fogo, escrevem e escrevem, escrevem para sempre escrevem, nada mais fazem do que escrever, sempre estiveram e sempre estarão destinados a escrever, não dormem, escrevem, não pulam dos edifícios nem tomam cicuta, eles escrevem, o fim é anunciado pelas trombetas, eles escrevem, as cidades são consumidas pela peste, eles escrevem, escrevem em busca e crentes da salvação que não há.]

[Escreventes, livro produzido 
artesanalmente, edições 2 luas, Belo Horizonte, 1998]