Se estamos já cada vez mais destinados a escrever para nós mesmos, talvez seja fato normal contarmos para nós mesmos as histórias que acumulamos ao longo da vida. Afinal, o interesse por nossas histórias é cada vez mais raro, para não dizer nulo.
Aquele acontecimento da infância, quando na época do Natal proliferavam as formigas tanajuras pela nossa rua, e as observávamos serem pisadas pelos cascos dos cavalos? Quem, hoje em dia, pode se interessar por uma cena assim? Ninguém. Mesmo que contada com arte e engenho.
Mas confesso que assumir essa conversação com o interlocutor que há em nós pode ser deveras fascinante.
Súbito, salta da memória aquele momento em que Abel matou Jacó de dentro de um jeep, o motorista bem que tentou retirar dele o revólver da mão direita, mas Abel sacou o outro com a mão esquerda e atirou com o jeep em movimento, acertou Jacó na porta de casa. Tiro certeiro, tiro mortal. Por quê? Ora, porque Jacó, no ápice de uma discussão política, deu um tapa no rosto de Abel.
A memoria poreja. Se assemelha ao casco de um animal pré-histórico que vai minando o líquido das histórias sem qualquer filtro ou autocensura.
Vai pela rua o homem chamado Lírio, muito amigo das famílias, trabalhador em vários ofícios. Contava uns 20 e poucos anos. Mas vinha, na surdina, dedicando-se à mulher do irmão, Marco Antônio, mais velho do que ele, mais forte e como ele também muito querido pelas famílias da cidade. Ao descobrir a traição, entrou em briga feroz com Lírio. E Lírio pôs fim à vida de Marco Antônio. A facada.
Sim, a essa altura das contendas, todas as nossas posses estão reduzidas a carrosséis de imagens nos círculos e nas espirais da memória. Sim, repito, e já quase não há quem possa ouvir tais fatos. Um a um, os possíveis e eventuais interlocutores foram partindo desta para o não se sabe.
Nas prateleiras dos desejos, seria uma grande alegria saber a opinião de JMC sobre esses momentos de sinistras paisagens, com o fascismo à rédea solta. Mas JMC, grande estudioso de Proust e entendedor dessa maquinaria incessante a que damos o nome de memória, pois JMC partiu há perto de 15 anos. E não dará mais a graça de suas valiosas opiniões.
"Quem é você?" Assim é a pergunta que martela num repente por um ninguém que nos habita. A resposta: "Ora, eu pertenço às hordas dos poetas velhos".
Sim, hordas. Sem vínculos com as corporações de ofícios, com as turmas da esquina, com o reduto de etílicas voragens em bares e bodegas, e até as mesas familiares estão cada vez menores com a ausência dos que nos antecederam.
Assim, essas derradeiras travessuras de escrever sobre fatos ou acontecimentos que não serão lidos assumem a condição de apetitosos acepipes na boca septuagenária. Sejamos outra vez a criança que, a um canto, esquecida, dialoga com seres imaginários. Apenas com uma diferença no nosso caso: aos olhos de tantos, já somos também a fugidia névoa de seres fictícios.




















