26.9.26

[PONHO TUDO NO POEMA]


[ponho tudo no poema: laranjas,
alfinetes, pontos de açafrão
para o dourado espetacular,
cartas para amigos distantes
que ficaram mudos faz tempo
e não sei se responderão
a essas cartas que começam
sempre assim: olá, camarada.

sim, ponho tudo no poema:
armadilhas inoperantes, lenços
azuis, gravetos de falecidas
árvores que o tempo não poupou
e que agora se esfarelam em podre
no parque que já não é parque,
mas um descampado triste.

ponho tudo no poema: até
o que não existe, até o que
existe mas finge que não existe,
ponho tudo, logo cedo,
logo ainda escuro eu recolho
o que irá para o poema:
pedaços de um sonho feliz,
pedaços de um sonho
que sonhei com o meu país,
e que no sonho era tratado
no diminutivo, pois no sonho
meu país era muito frágil.
ponho tudo no poema: é
o meu modo de propalar
nessas esquinas que, sim,
não devemos desistir da vida.]

[O CRIME FOI EM JULHO]

[Mataram o meu primo em uma madrugada de julho. 

Recebeu na testa a bala que era endereçada a outro. 

Minha mãe veio ao quarto. 

Tocou a minha cabeça. 

Chamou baixinho, com voz de choro. 

O dia já clareava. 

Ela disse: mataram o seu primo. 

Fui vê-lo. 

Atravessei o largo da igreja, ainda de terra batida, muito antes de ser praça, e desci pela rua do laticínio. 

Um cavaleiro subia a rua com dois latões de leite. 

Eu usava um par de sapatos presente de aniversário. 

O da esquerda rangia mais do que o da direita. 

Tive pena de entrar com eles na poeira. 

O corpo do meu primo estava na sala sobre a grade de um catre. 

O caixão só chegaria mais tarde. 

Vi o furo da bala pouco acima do olho esquerdo. 

Um ponto negro, pequeno, que lembrava uma mosca pousada. 

O assassino queria mesmo era matar o sogro do meu primo. 

Anunciou que atiraria. 

Naquela hora, havia pouca gente no bar da rodoviária. 

Uns bêbados, algum fazendeiro, alguém que esperava o ônibus das seis horas. 

Meu primo saiu detrás do balcão, deu alguns passos, ficou ao lado do sogro. 

Queria levá-lo para dentro, escondê-lo. 

O assassino estava muito embriagado. 

Era homem nos seus cinquenta anos, afamado pelas fuzarcas e pelas bravatas. 

Dizem que ele desceu de um carro de praça já disposto a tumulto. 

Trazia estoque de palavrões no céu da boca. 

Cambaleava. 

Tropeçava. 

E anunciava que atiraria, com o revólver pesado demais para mão tão trêmula. 

Parece que meu primo morreu antes de cair. 

Caiu de bruços. 

Só algumas gotas de sangue no cimento. 

Eu olhava para aquele furo de bala e não pensava nada. 

Fiquei ao lado do meu tio, só um pouco atrás. 

Meu tio era um homem pequenino. 

Vinha de uma linhagem de marranos, eram quatro irmãos e duas irmãs. 

Todos pequeninos. 

Meu primo era o seu único filho. 

Ele segurava o chapéu entre as mãos. 

A cabeça baixa, os olhos baixos, os lábios apertados. 

Ele não me disse nada. 

De quando em quando, eu olhava para a sua orelha. 

Era uma orelha muito grande, com lóbulo grande, a concha grande. 

Meu primo era um sujeito calmo. 

Falava pouco. 

Ria só quando bebia. 

Foi a segunda morte que vi assim de tão perto, ao alcance da mão. 

A primeira foi a do meu pai. 

Uns dez anos antes. 

Em um mês de dezembro.

Meu pai começou a morrer pelos pés.

Minha mãe disse: os pés dele estão cada vez mais brancos.

E então ele morreu inteiramente.]

[PEQUENA HISTÓRIA DE RAIOS]

[o menino gostava de observar o cabo de aço que descia pelo para-raios até o chão. eram dois andares, e o cabo vinha do telhado a uma passarela de cimento em volta da casa. o cabo não tocava a parede. de meio em meio metro, pequenas argolas de ferro evitavam o contato do cabo com o reboco.]

[o motorista do gmc marítimo contou um dia para o menino que os raios desciam pelo cabo em dias de tempestade. a cada raio que caía o cabo dava chicotadas, se contorcia, ficava vermelho e em brasa. a gente podia sentir o cheiro de queimado.]

[depois que ouviu isto, o menino passava horas observando o cabo. imaginava a tempestade. imaginava os trovões e os relâmpagos. imaginava o que o velho motorista chamava de "hora do capeta".]

[a irmã do meio gritava em dias de chuva. a irmã do meio nunca se livrou do medo daqueles dias de chuva. e quando chovia, o menino ficava na copa, diante da escadaria, pois ali, do lado de fora, a "hora do capeta" fazia o cabo de aço dar chicotadas.]

[o menino era um menino triste. dava para pegar a tristeza desse menino na palma da mão. só algumas coisas tiravam essa tristeza do menino. uma delas era o ronco que dava o motor do gmc marítimo. o gmc marítimo era um caminhão enorme. e era azul. levava cimento para a construção de brasília.]

[um homem da udn um dia matou um homem do psd. e então um homem do psd matou outro homem da udn. e então eles se mataram durante mais de um ano até que o governador enviou um delegado para acabar com a matança.]

[o gmc marítimo um dia levou cimento para a construção de brasília e não voltou mais. nunca ninguém mais soube do gmc marítimo. nem do motorista. o pai do menino, que era dono do caminhão, ficou também triste, e a sua tristeza também dava para pegar na palma da mão.]

[vinham as tempestades e o cabo de aço chicoteava pela parede abaixo. depois abria o sol e as tanajuras apareciam. o menino gostava de pisar na bunda das tanajuras. aquela gosma amarelada. aquela banha.]

[de vez em quando o menino pensava no gmc marítimo. depois pensou menos. até que não pensou mais.]

[a tristeza de pegar na palma da mão parecia uma bolota que grudava nos dedos. o pai ficava na poltrona com a sua bolota que escorria até o assoalho. a bolota escorria e ele ouvia o carlos gardel na vitrola.]

[o menino, mais alguns anos passados, foi para são paulo. cruzou o chapadão em um ônibus também azul. o ônibus ia muito lento pelo chapadão afora. o ônibus demorava demais para furar o horizonte. demorava demais para desaparecer lá onde a vista turva e os olhos não veem. demorava demais para alcançar o relâmpago mais distante.]

25.9.26

[O PENSAMENTO E A POESIA]

[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções 
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.

essas porções que a noite 
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa 
e a desordem.]

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

[Caro amigo Senhor Pon: 

Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.

Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.

Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.

Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente. 

Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera. 

Una stretta di mano.  

Do seu
G.]

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

23.9.26

[OS BANIDOS DAS EMENTAS DOS CURSOS DE LETRAS ESTÃO AGORA NO BAR 39]

[os banidos das ementas dos cursos de letras estão agora no bar 39, ali onde degolam-se cotovias.]

[há um cansaço nas horas.]


[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]


[há um cansaço nas horas.]


[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]


[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]


[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]


[por que ainda choram os cavaquinhos?]


[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]


[mangas apodrecem no beco.]


[jakobson não virá hoje.]


[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]


["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]


[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]


[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]


[o bar 39 aderna.]


[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]


[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]


[fala-se turco no recanto sul.]


[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]