30.10.26

[QUATRO DA MANHÃ: PAUL VALÉRY COMEÇARÁ A ESCREVER]

Íamos, Rubem Focs e eu, pela Rua dos Geômetras. Era por fim a noite calma e terna para os que vínhamos de perigoso embate com uns pistoleiros da Cidade Baixa. Focs levava sob o capote uma zero doze de fabricação alemã; eu mantinha no bolso do paletó a oito sete de procedência incerta. Deram-se os combates desde a hora vespertina. Eram nove contra dois. Vencemos. Aos andrajos, caminhávamos. Era vitória muito dolorida de muitas horas e tiroteios. E triste como todas as vitórias.

A Rua dos Geômetras era curta e plana e os sobradinhos de dois andares pontificavam com as suas fachadas delicadas àquela hora em que a cidade, deserta, parecia enroscar-se aos modos de um cão sem dono. Um ou outro surgia nas esquinas, gente talvez feita de bruma, sem consistência e substância de pessoa vivente. Uivavam ao longe talvez espécies caninas. Olhos de gatos apareciam em frações de minuto, aqui e ali, em algum desvão de garagem.

Por acidente, mais em fuga do que guiados por um mapa, caíramos na Rua dos Geômetras. O certo seria a Rua dos Caracóis, mais ao sul, limítrofe com o bairro dos Alfaiates. Mas estávamos ali na noite calma e terna e por ali seguiríamos até a Praça das Bolandeiras. De lá, cada um de nós tomaria o caminho de casa. A vitória doía. Era decerto vitória muito triste. Aqueles tempos de guerra. Tempos abomináveis.

Foi quando passamos pelo número 33, diante do sobrado azul, três janelas no segundo andar, três portas no primeiro, com uns arabescos na fachada e gradis oxidados nos balcões minúsculos. Estava acesa a luz da janela do meio. Única luz na Rua dos Geômetras quando batiam as quatro horas da madrugada. Única luz como se um farol em alto-mar. Amarela, trêmula, mais tremular ainda quando o movimento de uma sombra parecia interpor-se entre o cômodo e a rua. Quem lá estivesse, não era fantasma, assim deduziu Focs em uma frase sem ponto final, frase reticenciosa nos tons baixos de alusão a mistérios. 

Paramos diante do sobrado e ali fizemos uma pausa. Quem lá estivesse, merecia esse intervalo em nossa caminhada. Focs olhou-me por um instante, refletiu sobre o que fazer e foi lentamente em direção à porta que nos parecia a porta principal. Havia identificação de moradores em uma placa esmaltada. Focs leu: Paul Valéry, 2º E. Dois outros nomes dividiam com Valéry a placa: Vernon Lassale e Jacobo Trévor. Mas era, sim, o poeta que se movimentava naqueles estertores da noite. Certamente, usava roupão e pantufas. E tinha diante dele mais um caderno aberto, a pena com certeza elevada para depois se abater sobre a folha para as notas aforismáticas de mais uma jornada de trabalho. 

A vitória doía em nós. Era vitória triste daqueles tempos abomináveis. Mas seguimos caminho em passadas de intermitência, ofegantes, a ritmo muito cansado. Eram tempos abomináveis. Mas, ao nosso modo de homens rudes, saudamos em silêncio aquele poeta em sua laboriosa e grácil geometria.

[FOI QUANDO ALICE COOPER TOCOU NO ANHEMBI]

[Por alguns trocados e um sanduíche, ajudei a descarregar os equipamentos de Alice Cooper no Anhembi, em São Paulo. Era 30 de março de 1974. E essas duas frases, lançadas assim ao nariz do leitor, estavam reservadas para um poema que jamais aconteceu, um poema, desse modo, falhado, fracassado, desastrado, posto que os poemas, quando falham, brincam perigosamente com o desastre. 

O poema quando falha brincou de roleta russa. E acertou o único tiro. Mas o Nelson. Nelson? Sim, o Nelson. A Praça da República esplendia-se ao sol de março naquele 1974. Nelson e sua mulher Mara vendiam artesanato na feira. Vizinhos na Vila Madalena, fizemos amizade. E eu costumava acompanhá-los à praça, até ajudava no transporte dos berloques de couro e metal que eles faziam durante a semana.

Havia uma década que os milicos estavam no comando da patriazinha. Revisito o noticiário daquele ano e sou agulhado com o desastre da seleção brasileira na Alemanha, em quatro lugar. Mas me reconforto com o 25 de abril e a Revolução dos Cravos, a deposição da ditadura portuguesa, o "foi-bonita-a-festa-pá", e, para exibir mais uma notícia boa: a Penépole Cruz também nasceria em 1974. 

O Nelson disse que o pessoal de uma Kombi nas redondezas da Praça da República buscava mão de obra para descarregar os contêineres de Alice Cooper. Lá no Anhembi. Pagavam uns trocos e davam o lanche. "Quer?". Eu fui. Éramos uns dez na Kombi. Eu o único mineiro, mas me lembro que havia um capixaba e um cearense de apelido Lips ― dias depois eu o veria numa lanchonete da Teodoro Sampaio, nas lidas como chapista.

A faina durou até começo da noite. Era gentil o pessoal de apoio que acompanhava o artista em sua primeira apresentação no Brasil. Todos com cara e porte de estivadores. E se uma caixa era muito pesada, logo aparecia um latagão gringo para dar uma ajuda. E desconfio que uma daquelas caixas com um conteúdo que dançava para lá e para cá guardava as serpentes que Alice Cooper usava como cachecol durante os shows.

Começava a noite. Recebi o soldo, ganhei um trago de uísque e peguei a primeira condução para chegar à Vila Madalena. Nos altos da Consolação, desci. É que o Riviera, do outro lado da rua, convidava para gastar os trocados com duas ou três cervejas. Gastei-os. Estava feliz. Era daquela felicidade menorzinha, parecida com flor rasteira de cerrado, mas não deixava de ser uma felicidade.]

28.10.26

[É MAIS FELIZ UM HOMEM QUANDO TEM AS RUAS SOB AS SOLAS DOS SAPATOS]

[é mais feliz um homem 
quando tem as ruas 
sob as solas dos sapatos. 

saúdo, pois, o andarilho
que inscreve pegadas 
sobre pegadas jamais 
removidas pelo tempo. 

celebro as ruas-palimpsestos, 
os pés escreventes, 
o léxico das esquinas,
e digo ao baudelaire 
que vem e que passa: 
— brindes, meu camarada.]

26.10.26

[A ORIGEM DOS TOPÔNIMOS IMAGINADOS]


[pode ser que o lugarejo a que dão o nome de água limpa tenha surgido em momento deveras crítico e litigioso para as gentes daquele vale, onde ainda nos dias de hoje há uma igreja, um armazém, dúzia de casinhas azuis e um minúsculo cemitério.]

[pode ser que a raiz do topônimo seja a história a seguir.]

[esta: que a comunidade ao norte, às cabeceiras do rio-sem-nome, motivada pela proibição que a comunidade do sul impôs ao namoro de vasco e celeste, ele de família nortenha, ela de pais sulistas, agiu com ferocidade para desencadear a revolução.]

[proibido o namoro, eis que os nove irmãos de vasco passaram a sujar a água à noite, mediante galhadas e ferramentas como pás e enxadas. eles turvavam de tal jeito o leito do rio que a comunidade do sul, a dos pais de celeste, era obrigada a consumir água barrenta.]

[em um mês de abril de céu com nuvens espaçadas, alvas nuvens em fiapos navegantes, ouviu-se o primeiro tiroteio. conta-se que o encontro dos nove irmãos de vasco e com os nove irmãos de celeste se deu em volta de uma gameleira centenária, tão bela quanto útil para a orientação de viajantes.]

[cinco baixas de cada lado foi o saldo da primeira refrega. os cavaleiros tombavam como passarinhos ao sol a pino. e ao fim do quarto tiroteio os cavalos do norte e do sul voltaram para as suas bases com as selas vazias.]

[o vale permaneceu sem batismo ao longo de 25 anos. mas na noite em que passava o cometa bradagan, um poeta chamado jamil, que vivia solitário em território neutro na divisa entre o sul e norte, compôs a saga de vasco e celeste.]

[conta-se que os remanescentes das comunidades rivais, que ainda traziam nos olhos as mortes dos anos revolucionários, choraram a gosto, de cada lado, ao ouvirem a saga do poeta jamil.]

[a saga, em versos metrificados, solenes e poeticamente conservadores, realçava sangue, amor e heroísmo. jamil fez a leitura com voz áspera, metálica e abaritonada. ainda hoje há quem se lembre dele: baixote, sempre com uma casaca de algodão cru, o cachimbo, as botinas rangentes.]

[à entrada de água limpa há um marco de pedra, no qual esculpiram as imagens de vasco e celeste. resta ainda dizer que o idílio não deu certo: finda a luta dos cavaleiros, vasco tomou formicida e celeste encerrou-se em um convento no lugarejo conhecido como perdão das almas.]

24.10.26

[CHUVA NO BERIMBAU]

[agora, sim: a linha 
entrou na agulha,

a brasa soltou 
fagulha, há biblioteca

na ilha, quem cai n´água 
é que se molha, tiniu

o fio da navalha, faço
o que me dá na telha, a vida 

é um rádio de pilha, tingi 
de negro a ovelha, não 

aplaudo fogo de palha, 
aprecio o labor da abelha, 

a beleza, eu digo, 
é uma letra na folha.]

23.10.26

[A LUZ DO MAR DE ONDINA]


Não acertei a Mega da Virada. 

Aliás, não apostei na Mega da Virada. 

Até que apostaria. 

Cheguei mesmo a pensar sobre a aura sortuda de alguns números e o que eles, por obra do acaso, poderiam fazer juntos para dar consistência financeira ao meu bolso.
 
Mas desisti quando vi a fila de aflitos apostadores diante da lotérica em Ondina. 

O sol de dezembro em Salvador no princípio da tarde parecia forte o suficiente para rachar o cerebelo de dromedários. 

Eu saía da clínica com mais uma injeção aplicada na barriga e pensei: depois da agulhada cruel posso agora sonhar com 1 bilhão ou mais de reais soantes e sonantes para o Capodanno. 

Mas vi a fila. 

Vi os rostos com expressões um tanto agônicas na escadinha de acesso à lotérica.
 
E desisti, como já disse. 

Atravessei a avenida Oceânica e, sem a perspectiva de nem mesmo sonhar com o prêmio gordo, esperei pelo ônibus que me levaria para casa, no Rio Vermelho.

Enquanto aguardava, fiz algumas fotos daquele mar dominado pela luz cintilante e estilhaçante do dia 30 de dezembro. 

Quase disse em voz alta, pois já o dissera em voz baixa: "Como é lindo o mar em Ondina".

Veio a linha Vale das Pedrinhas. 

Embarquei e me acomodei no cercadinho destinado aos idosos. 

Perto do Largo de Santana, vimos (motorista, cobrador e eu) um assalto a um turista distraído. 

Desci no ponto próximo à rua Fonte do Boi. 

Caminhei até a Oswaldo Cruz e subi a Nelson Gallo. 

Ia leve. 

Nem mesmo o curativo na parte direita da barriga atrapalhava a minha sensação de leveza.
 
Poderia até cantarolar umas bachianas morro acima. 

 

21.10.26

[A FERA DA RUA DA BAHIA]

[a fera foi vista ontem 
na rua da bahia.
fera ferrabrás 
de linhagem fera: 
garras, bocarra, ira, 
pelagem, retinas. 
ninguém ligou. 
não houve espanto, 
não houve pânico, 
ninguém ligou 
para a polícia 
borocoxô
ou mesmo 
para o governador 
coió. 
douta 
e acadêmica vida 
esta que já não se espanta. 
insípida e pernóstica
vida esta que já não eriça 
os pelos da surpresa.
foi-se então a fera, 
fera ferrabrás
de linhagem fera.
foi-se pela cidade. 
talvez tomar sorvete. 
talvez 
comprar uns trajes
novos lá onde drummond 
fez um incêndio.]

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]

20.10.26

[STERLING, VIRGINIA]


[o que será de tão precioso
em minha lavra capaz
de atrair os cliques-claques
de bots de sterling, virginia?

quem de lá me olha?

serão os olhos tontos
de donald trump? será
o olhar de peixe morto
de marco rubio? serão
os boçais do maga
transformados em robôs
à cata de sei-lá-o-quê
pelo mundo? 

ara! vôte!
arrenego! vade retro,
seus bobões de lata!]

19.10.26

[O CISCO]


[aqui, nesse andamento do texto, 
havia um vazio. preenchi-o. 

pus nele um grão. 
o grão não germinou. 
pus então um cisco, o mais triste 
dos ciscos, o mais abandonado 
dos ciscos. 

ali ficou o cisco 
no coração do vazio. 

de quando em quando, olho para o cisco 
à deriva na geografia do vazio. 

só eu sei da existência desse cisco.
 
nem preciso nomeá-lo. 

é um cisco único, singularíssimo, 
e eu poderia reconhecê-lo 
até mesmo em noite de breu plúmbeo. 

às gentes que passam 
e vão rumo à miragem, 
eu digo: 

"eu sou o homem 
velho salvador de ciscos".]

17.10.26

[A ESTA HORA DA NOITE]


[a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre poesia inglesa,
ou sobre os hábitos
de walter benjamin em paris,
ou sobre a vida
de augusto dos anjos
em leopoldina, minas gerais.

um amigo disse, no tempo
em que os amigos
conversavam
a esta hora da noite:
"o rosto dos escritores
impregna-se do que escrevem,
e as rugas são traços e textos
em palimpsesto
na carne do rosto".

a esta hora da noite,
o amigo que tal coisa disse
não vive mais neste mundo,
e há o silêncio,
e há o rosto de textos
nele impregnados,
e há o buraco
das conversas
que já não acontecem
a esta hora da noite.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre o ativismo de grace paley,
ou sobre a lata
de atum que kerouac comia,
antes de morrer,
ou sobre o silêncio
entre joyce e proust
em certo banquete,
sobre os livros
que joubert jamais publicou
ou sobre a infância
de edmund jabès no cairo.

a esta hora da noite,
o telefone não toca
para a leitura do conto
recém-escrito, a bomba
de nêutrons dizimou
a esquina, veio a nuvem
de gafanhotos,
o vinho está seco no copo,
não há quem possa
conversar sobre o dilema
de um palíndromo,
ou sobre a casa
onde drummond
viveu em belo horizonte,
ali pelos lados
do bairro da floresta.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre dantas mota,
sobre os diários
de eduardo frieiro,
sobre os sonetos
de jorge de lima,
sobre a métrica de yeats
ou sobre as minúsculas
em cummings, não há sinais
de palavras intercambiantes
sobre um livro
que possa nascer
a respeito de barcos,
relógios, perfumes,
ruínas, trens
que jamais chegam,
trens que jamais partem.

a esta hora da noite,
as conversas
estão despovoadas de rosalía
de castro e antonio machado,
não há quem possa
referir-se a martim codax
e às ondas do mar de vigo,
a esta hora da noite
só há tiro e sirene, motor e uivo,
galope e abismo.]

16.10.26

[PEQUENA ANTOLOGIA DOS COMENTADORES CONTEMPORÂNEOS]

[uns se acercam dos temas e dos assuntos municiados com porretes e bacamartes, razão pela qual as suas análises lembram a trituração do vidro, os desmanches de automóveis, o desmatamento das florestas.]

[outros chegam aos temas e assuntos como se servos, como se cordeiros. são tão submissos frente ao que analisam que suas análises lembram o tempo morto, os relógios parados, as estátuas, os rios secos.]

[uns se aproximam dos temas e assuntos como se sombras, como se invisíveis, como se ventríloquos, pois jamais emitem opinião ou análise que não seja pela boca de outros.]

[outros vão aos temas e assuntos como se fígado, como se fel, como se bílis. são tão amargos, tão aziagos, que suas análises lembram os cascos de navios à deriva, o metal a formar dentes, a água ferruginosa a matar peixes.]

[uns tomam os temas e assuntos não sem antes o exercício da expressão vigiada, da fala conveniente, posto que atentos a não melindrar parentelas, chefes, amigos influentes, seja um senador, seja um tenente, seja um deputado, seja o cúmplice em negócios clandestinos.]

[outros viajam pelos temas e assuntos como se em um desfile de moda. bordam suas análises, aplicam nelas adereços e lantejoulas, costuram pontos de vista com o capricho de linhas em ouro, dão laços e nós com arremates graciosos, fabricam pompons com algodoais de assepsia.]

[uns perseguem temas e assuntos como se o cão que persegue a lebre. não importa qual tema, não importa qual assunto. soltam-se à carreira assim que um qualquer temário aponta no horizonte, e falam, e escrevem, e balbuciam, e vociferam, lançam-se ao sabor da ventania, são desprovidos de bússolas, de pontaria, a tal ponto que ao final da contenda já não sabem o que trataram ou o que discutiram.]

[outros fazem dos temas e assuntos meros pretextos para o divulgatório autobiográfico. e contam feitos, e relatam peripécias, e alinhavam bravatas, são andores do eu, pódios do eu, o ambulante eu obtuso, oblongo, adiposo e inútil.]

[JARGÕES DO CÍRCULO DE LETRAS DA REPÚBLICA DO AH]

1. texto intenso.
2. belo texto.
3. texto instigante.
4. apuro formal.
5. estratégia narrativa.
6. da linha cabralina.
7. despoetizado.
8. verbivocovisual tardio.
9. autoficcional audacioso.
10. na primeira pessoa.
11. explorações do espaço em branco da página.
12. enredo oculto.
13. gênero limítrofe.
14. embaralhamento de gêneros.
15. estranheza áspera.
16. ponto de vista móvel.
17. de feição drummondiana.
18. à maneira de manoel de barros.
19. impactante.
20. um soco no estômago.
21. desbocado.
22. monólogo dialógico introspectivo solar.
23. mercurial ao extremo.
24. esplendoroso bestiário.
25. labiríntico.
26. pós-borges.
27. à maneira de cesar aira.
28. machado não faria melhor.
29. croniconto.
30. atingiu a maturidade.
31. à maneira de sebald.
32. estilo próprio.
33. pronto para os prêmios do ano.
34. poética expandida.
35. frase-bukowski.

[A VOZ]


[“Nada jamais esteve 
e jamais estará cem por cento bem”. É o que diz, nas sombras, a voz interlocutora, a voz que é pura voz e nada mais. De repente, pressente-se a voz em seus preparativos para intervir nas conversações. Ela se aproveita das pausas, das lacunas, dos buracos entre as falas e logo emite as suas opiniões, os seus palpites, seus desacordos, seus paradoxos. A qualquer hora do dia, a qualquer hora da noite. Independentemente de quem sejam os conversadores daquele momento. Intromissões, impertinências. A voz que é pura voz e nada mais avança desde a penumbra e se materializa entre os espantados, os perplexos, os boquiabertos — os também em pânico. “Nada jamais esteve e jamais estará cem por cento bem”. De cá, do lado de cá da sombra, ouvimos a sentença proferida pela voz, ouvimos uma e mais outras vezes, depois seguimos o caminho que dá na praça e depois para o becos onde cada um de nós reside.]

15.10.26

[O CARRO CHOCOLATE DO DOPS E O ALERTA DE OSWALDO FRANÇA JR.]


Estávamos em um bar ao lado da gráfica do escritor Jeferson Ribeiro de Andrade na Galeria do Ouvidor, centro de Belo Horizonte, no final de 1975. Éramos quatro, talvez cinco, mas a memória só me elucida e esclarece um nome naquela confraria noturna: a Rose. Rose morava no Bairro Sagrada Família, conhecido à época, não sei se com razão, por ser um local de aparelhos de esquerda. 

Bebíamos e palreávamos a gosto, mas o tom e o tema das conversas eram mesmo xingar a ditadura e os milicos reinantes. Vasculho a memória e tento mais uma vez visualizar quais eram os outros pássaros naquela mesa. Estava o compadre Antônio Barreto? O Jeferson, muito amigo da Rose, já fechara a gráfica e se aliara ao nosso motim etílico? Não sei. 

Lá pelas tantas, Rose sugeriu que fôssemos encerrar a beberagem em sua casa, para lá prosseguirmos o xingatório a fardados de toda estirpe e espécie. Dali a pouco a Galeria seria mesmo fechada e a continuação da noite deveria ser mesmo em outro pouso. 

Decidimos pela sugestão da Rose. Tomamos um táxi, atravessamos o túnel da Lagoinha. Ao sairmos do túnel, lá estava estacionado o temível e sinistro Carro Chocolate do Dops. 

Parecia à nossa espera.

Nosso táxi foi parado. De lá, da noite vasta, da noite intangível, veio lentamente o Alemão com uma carabina já sendo enfiada janela adentro, rumo aos nossos narizes. Pediu os nossos documentos. Recém-chegado do Peru, onde passei todo o ano de 1975, eu havia perdido minha identidade no Bairro Grajaú, possivelmente dentro de outro táxi, e só portava o meu passaporte. Entreguei-o para o Alemão e já me resignara que estava definitivamente ferrado.

Mudos estávamos, mudos ficamos até que o brutamontes, com o seu corpanzil e o seu bigode que parecia retirado de uma espiga de milho, entregou-nos um a um os documentos. Nada disse, nem murmurou nelgas. Só olhou nos meus olhos naquele que imaginei ser o mais longo minuto da minha vida. Devolveu-me o passaporte e nos mandou embora.

Não é preciso dizer que usurpamos todo o uísque da Rose no que restou da noite.

Algum tempo depois, relatei o episódio para o amigo Oswaldo França Jr. na porta do Edifício Maletta. Meu relato, porém, carregava mais para o lado cômico, mas percebi que França ficara preocupado, especialmente quando me referi ao passaporte. Ex-piloto da FAB cassado pela ditadura, ele mantinha boas fontes sobre as ações do aparelho repressivo em Minas.  Disse-me que iria se informar melhor.

Numa noitada de algum evento na Casa do Jornalista (hoje renomeada Casa de Jornalistas), França me chamou à varanda. Disse-me: vocês estavam sendo vigiados desde a Galeria do Ouvidor. O araponga também passou o serviço ao Dops de que iríamos para o Bairro Sagrada Família. Mais: eu era muito assemelhado com alguém que vinha sendo procurado pela patifaria do regime. E que fui salvo pelo passaporte, que desfazia a suspeita sobre a minha estampa e figura.

Lembro-me do meu querido amigo às gargalhadas ao observar a minha cara de espanto ou pânico.

Sinto enormes saudades do França. Da sua conversa, da sua risada.

14.10.26

[QUAL TEXTO?]


Observo que as imagens fecundantes que dançam nesse grande enigma que se chama memória, de repente, repentinamente, irrompem em um texto não programado, mas ativado pela luz da tarde, esta que vaza pelas fímbrias de uma cortina em junção com outra cortina.

Sopra com leveza a brisa que vem do Atlântico, mais precisamente da Praia do Buracão, neste bairro soteropolitano do Rio Vermelho. Brisa e luz, como que irmanadas, quase roçam o dorso do gato Dorival em sua modorra imperturbável, pétrea, em estado de imobilidade absoluta.

A memória, como já disse outro dia, poreja sua matéria sem idade, incessantemente. Lembro-me, por exemplo, de quando, ali por 1967, li Sartre em meu quarto de Belo Horizonte, à beira da então estrada de ferro Central do Brasil, com os trens da noite trepidando o modesto conjunto habitacional em que vivíamos minha mãe, meu padrasto, meu irmão caçula e eu.

Creio que o livro era A Náusea.

Vejo igualmente a folhas manuscritas com textos diversos que, preenchidas, eu logo as amarrava com barbante e guardava os pacotinhos no guarda-roupa, sabendo que jamais leria outra vez o que elas continham. Não as li nem mesmo quando, bem mais tarde, revi outra vez os pacotes que minha mãe guardara por anos e anos.

Fiz deles uma fogueira no quintal. E ainda tenho na lembrança o olhar de tristeza que minha mãe dirigiu às chamas, à fumaça que subia em direção à copa de uma mangueira.

Certas lembranças são como que se intrometer nas vísceras de um acontecimento.

Há um sinal textual que chama e convoca. Se é prosa, se é o contrabando de um poema que se camufla entre os gêneros, como no ensaio, se é meramente uma crônica simplória a arrodear o que se passou e a transgredir as noções de passado e presente, não posso saber.

Onde estará o texto que imagino neste momento, alvejado por esses raios que a memória atira sem parcimônia, sem cerimônia, sem solenidade? É bem provável que ele não exista. Mas, ao não existir, ele me seduz.

13.10.26

[JÁ SOMOS SERES FICTÍCIOS]


Se estamos já cada vez mais destinados a escrever para nós mesmos, talvez seja fato normal contarmos para nós mesmos as histórias que acumulamos ao longo da vida. Afinal, o interesse por nossas histórias é cada vez mais raro, para não dizer nulo.

Aquele acontecimento da infância, quando na época do Natal proliferavam as formigas tanajuras pela nossa rua, e as observávamos serem pisadas pelos cascos dos cavalos? Quem, hoje em dia, pode se interessar por uma cena assim? Ninguém. Mesmo que contada com arte e engenho.

Mas confesso que assumir essa conversação com o interlocutor que há em nós pode ser deveras fascinante. 

Súbito, salta da memória aquele momento em que Abel matou Jacó de dentro de um jeep, o motorista bem que tentou retirar dele o revólver da mão direita, mas Abel sacou o outro com a mão esquerda e atirou com o jeep em movimento, acertou Jacó na porta de casa. Tiro certeiro, tiro mortal. Por quê? Ora, porque Jacó, no ápice de uma discussão política, deu um tapa no rosto de Abel.

A memoria poreja. Se assemelha ao casco de um animal pré-histórico que vai minando o líquido das histórias sem qualquer filtro ou autocensura. 

Vai pela rua o homem chamado Lírio, muito amigo das famílias, trabalhador em vários ofícios. Contava uns 20 e poucos anos. Mas vinha, na surdina, dedicando-se à mulher do irmão, Marco Antônio, mais velho do que ele, mais forte e como ele também muito querido pelas famílias da cidade. Ao descobrir a traição, entrou em briga feroz com Lírio. E Lírio pôs fim à vida de Marco Antônio. A facada.

Sim, a essa altura das contendas, todas as nossas posses estão reduzidas a carrosséis de imagens nos círculos e nas espirais da memória. Sim, repito, e já quase não há quem possa ouvir tais fatos. Um a um, os possíveis e eventuais interlocutores foram partindo desta para o não se sabe. 

Nas prateleiras dos desejos, seria uma grande alegria saber a opinião de JMC sobre esses momentos de sinistras paisagens, com o fascismo à rédea solta. Mas JMC, grande estudioso de Proust e entendedor dessa maquinaria incessante a que damos o nome de memória, pois JMC partiu há perto de 15 anos. E não dará mais a graça de suas valiosas opiniões.

"Quem é você?" Assim é a pergunta que martela num repente por um ninguém que nos habita. A resposta: "Ora, eu pertenço às hordas dos poetas velhos". 

Sim, hordas. Sem vínculos com as corporações de ofícios, com as turmas da esquina, com o reduto de etílicas voragens em bares e bodegas, e até as mesas familiares estão cada vez menores com a ausência dos que nos antecederam.

Assim, essas derradeiras travessuras de escrever sobre fatos ou acontecimentos que não serão lidos assumem a condição de apetitosos acepipes na boca septuagenária. Sejamos outra vez a criança que, a um canto, esquecida, dialoga com seres imaginários. Apenas com uma diferença no nosso caso: aos olhos de tantos, já somos também a fugidia névoa de seres fictícios.

11.10.26

[SOBRE A EXTINÇÃO DOS BLOGS LITERÁRIOS]


Quase ninguém aparece atualmente neste território, a não ser robôs transcontinentais das IAs e algum visitante ou outro guiado por, talvez, uma eventual pane nos algoritmos. 

É aqui, porém, que me sinto mais à vontade, e até espantosamente satisfeito em meio à proliferação das plataformas que as big techs desovam incessantemente para a captura e hipnose das gentes. 

Estou aqui desde 2003. Vivenciei a magnifica explosão da blogosfera e acompanhei com deleite e prazer um grande número de blogs. Alguns deles ainda estão na minha lista de links, como o Teatro Anatómico, do meu fraterno Manuel Jorge Marmelo, ou o Mundo Fantasmo, do igualmente amigo Braulio Tavares. 

Frequento-os. 

E acompanho rotineiramente o que publicam conforme o modo que ainda prevalece na leitura desses blogs sobreviventes: um ritmo próprio, sem o apelo aflitivo das redes, a lentidão como parceira no rolar da tela, talvez o último vínculo digital com o livro impresso. 

Mas creio que estamos fadados à extinção. Mais cedo ou mais tarde isto aqui vai desaparecer. Ainda agora quase ninguém em outras plataformas se dá ao trabalho de clicar em um link que o leve a um blog. 

O que leem, quando leem e se é que leem, deve estar inteiro diante dos olhos. Clicar em um link é um salto ao desconhecido. E o melhor mesmo é o instantâneo do Instagram, de acordo com a lei do menor esforço. 

De todas as maneiras, aqui estarei. 

Leu? Louvo. Não leu? Ovas. 

Hoje, mais do que nunca, boa parte de nós escreve apenas para o leitor que há em nós. Boa parte de nós, também, já aprendeu a colocar a mesa e não esperar pelos convivas.

Se alguém tocar a campainha, é claro, será recebido com honras. Se prevalecer o silêncio, comeremos as empadinhas só na companhia do gato que, no meu caso, atende pelo nome de Dorival.

9.10.26

[BRINDES AO FAZER IMAGINANTE]

[ficamos assim: os livros, 
como sempre,
continuarão sendo escritos, 
os meus
e os encomendados.

o café estará pronto, 
como sempre,
às cinco em ponto, 
e o assovio
da valsa será logo às cinco e cinco.

como sempre, trarei ecumênico 
o coração,
sem hectare 
algum para o plantio da ira.

nos entroncamentos, 
como sempre, quebrarei
à esquerda. como sempre, 
virarei à esquerda, 
como sempre 
estarei à esquerda.

aos meus, 
os meus meninos 
todos, darei a constância 
diuturna e noturna 
das minhas invenções 
culinárias, 
e, mesmo áspero, áspero 
como as árvores 
do meu cerrado, 
vicejarei, por onde passo, 
um tanto 
e tanto de afetuosidade.

saúdo 
os que frequentam esta página, 
os que chegam e os que partem, 
em silêncio ou alvoroço, 
e invoco a paciência
dos que torcem 
o nariz para a poesia.

os que me conhecem, 
os de hoje ou de ontem,
sabem isto 
que roubo de mallarmé: 
tudo o que faço 
e fiz nesses meus 75
anos foi para entrar 
e caber dentro de um livro.

prescrevo 
aos espadachins ideológicos
que não se infantilizem 
na política.
e que exerçam 
sempre a autocrítica 
antes da crítica.

e reafirmo 
a minha modesta divisa:
otimismo, amigos, 
não é matéria abstrata, 
otimismo 
é o fazer de cada minuto, 
pois a mão que faz 
é a mesma mão 
que imagina, e a vida, ora, 
a vida é o fazer imaginante.]

8.10.26

[HISTÓRIAS LIGADAS PELA NÉVOA]



Paulinho Assunção, em seu Histórias ligadas pela névoa (Editora Estrela Verde, Huíla, Angola, 2001, 148 páginas), conta de um homem que guardava a esperança dentro de um vidro, um vidro de tinta, tinta azul para canetas, um vidro que ele sempre mantinha sobre a escrivaninha, em cima de um pedaço de granito, ao lado de algumas conchas já carcomidas pelo tempo. Todas as manhãs esse homem abria a tampa do vidro e verificava em qual estado amanhecera a sua esperança, investigava com delicadeza o modo como a sua esperança nadava ou boiava naquele reservatório de tinta, olhava se a esperança (ser de espessura mais tênue do que as antenas de uma borboleta) estava em bom estado, em boa estampa, com os vigores das manhãs ou com a languidez da noite. Só assim, depois desse rito matinal muito assemelhado com os ofícios de um jardineiro, o homem começava a escrever.

6.10.26

[ALGUÉM PARA ESCREVER AQUELA HISTÓRIA DO COMUM DAS GENTES]

1. [a senhora margot, completados os 69 anos no último mês de abril, procura alguém para escrever suas memórias, e certamente encontrará quem as escreva, pois seu tempo foi de grandes peripécias, como ter sido aeromoça em uma companhia aérea transatlântica.]

2. [o ex-deputado agamenon procura alguém para escrever sobre um trecho delicado de sua vida, um livro que conte para os filhos, os netos, os sobrinhos, e toda a parentela, a razão de seu fracasso como político.]

3. [o engenheiro valdo teve uma súbita revelação enquanto via subir o vigésimo prédio de sua carreira de construtor, e procura alguém para escrever sobre o mistério de tão repentinamente ter chorado lágrimas torrenciais ao ver o edifício iluminado pela luz da tarde, com nuvens delicadas que iam em algodoais pelo céu cor de alumínio.]

4. [a psicanalista charlotte, franco-brasileira, procura alguém para escrever não a respeito dos casos clínicos em seu consultório, pois sobre esses ela publicou fartamente em trinta e poucos anos de carreira, mas sobre as anotações que fez em suas horas vagas, pequenas tiras de papel com o noticiário cotidiano de um pôr-do-sol, de um pássaro na janela, de uma abelha que passou, de um trinco no azulejo em formato de coração, essas coisas menores, ínfimas, mas que para elas sua destreza para a escrita jamais deu conta.]

5. [a freira josefa, latinista, tradutora de grego, missionária em pelo menos dois países africanos, procura alguém para escrever um livro no qual, anonimamente, ela possa ditar os instantes em que a sua fé, de modo inexplicável, tornou-se tão frágil, tão ameaçada, que ela temeu pelo futuro de sua entrega religiosa, entrega tão admirada pelas superioras da congregação.]

6. [diante de tantos desejos assim espraiados e acumulados, os ghost-writers da cidade, em fila, já afilam os seus lápis.] 

[O GHOST-WRITER]

Há quatro meses, se tanto, o Senhor Lamberto procurou a minha tenda de ghost-writer em busca de uma ajuda. Aflito, queria que eu escrevesse uma carta. Carta mesmo, à moda d´antanho, manuscrita a caneta tinteiro, e a ser enviada pelos Correios, muito embora a distância entre remetente e destinatário não ultrapassasse a dez quarteirões entre os bairros X e Y.

A conversa foi por telefone. Pelo tom da voz, percebi que o assunto era grave. O Senhor Lamberto vinha à minha tenda por sugestões de um ex-deputado para quem eu dera andaimes e alvenaria, rejuntes e pintura em um livro de memórias. Contente com o resultado produzido pelas minhas ferramentas, o ex-deputado de quando em quando agia de bom grado como propagandista dos meus serviços.

Esses anúncios gratuitos de boca em boca chegaram por fim aos ouvidos do Senhor Lamberto em hora mais do que apropriada de sua vida de viúvo. Muitas tentativas ele fizera de próprio punho para conceber a tal missiva. As ideias, porém, andavam em desgovernado tumulto em sua cabeça. Não se ligavam em fios de coerência. Turvavam-se em borrões pelos parágrafos, e a clareza, imperativa para o tema, sofria apagões constrangedores.

O Senhor Lamberto exigiu sigilo absoluto durante todos os capítulos de nossas tratativas: do valor que eu cobraria pela tarefa, à identidade da pessoa em quem suas palavras deveriam produzir o efeito "de um campo de girassóis como aquele do Van Gogh", assim ele disse com ênfase quase musical. Deduzi que ele poderia estar na faixa dos 80 anos. A voz era rouquenha, mas emitia-se por uma tessitura ainda vigorosa, de barítono, com pausas retóricas e reticenciais de quem já falara em público. 

Ao cabo de uma semana de idas e vindas, de acertos e erros, demos por finalizada a incumbência. Foram incontáveis leituras ao telefone do texto a caminho. Se de próprio punho o Senhor Lamberto esbarrava no enxame enlouquecido das palavras à sua volta, pelo telefone ele indicava com precisão o que entraria ou não entraria na carta, se tal vocábulo era impróprio ou inadequado aos olhos de quem o leria, se estava fora de moda ou não o tratamento a ser dado ao arremate.

Quando fui entregar o texto impresso ao Senhor Lamberto para que ele, aí, sim, fizesse a cópia manuscrita, e a remetesse ao seu destino, estranhei o silêncio em seu apartamento. Em vão, acionei o interfone do pequeno prédio de três andares em uma rua íngreme do bairro X. O funeral havia sido no dia anterior, conforme soube pelo porteiro de nome Tibério.

Trouxe de volta a carta. Tenho-a comigo, em uma pasta, como um objeto incômodo. Não sei o que fazer com essas duas laudas de palavras comovidas e igualmente tempestuosas que o Senhor Lamberto avalizou como se palavras de sua própria lavra. Não é preciso dizer que a carta é uma carta de amor. Destinada à Senhora Adelaide.  

4.10.26

[AQUELE CONTO QUE O GATO ROUBOU DO LIXO DE CORTÁZAR]



[um  mosquito. aparentemente morto. um bilhete. só uma palavra: "adeus". um ovo. colheres. cinco colheres. chaves. mais chaves. ferrugem. outro bilhete. só duas palavras: "muito quebrado". dois pães. e nada mais.] 

[a janela dá para a cidade. nuvens. ninguém na avenida.]  

[um  caderno. há  marca de sangue no canto superior esquerdo. uma xícara. um volume de poemas ingleses. cartão-postal: londres. outro cartal-postal: porto de buenos aires. marcas de dedo no vidro. a bailarina. a bailarina sentada na cadeira de vime. e nada mais.]  

[a janela dá para a cidade. só nuvens. dois homens na avenida]  

[um xale. um cachecol. um revólver ao  lado de um frasco de perfume. sirenes. richard  wagner, as valquírias, baixo, baixo, baixinho. só a bailarina ouve wagner. o  professor. a porta. o professor junto à porta. o professor. seu casaco. o livro do professor posto ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. a bailarina: modorra. e nada mais.]  

[a janela dá para a cidade. nuvens, nuvens, nuvens. avenida deserta.]  

[dois  dias  depois. anotações ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. única palavra legível: "adeus". a bailarina no alto do  teto, asas  abertas, revoos  pela  sala. o  professor rasteja. a  pele  é áspera, de crocodilo. rabo descomunal do professor-crocodilo que desliza pela sala. a bailarina voa. o professor-crocodilo rasteja. e nada mais.]  

[a  janela dá para a cidade. céu sem nuvens. as famílias vão ao circo.]

3.10.26

[LULA: A HUMANIDADE QUE NOS RESTA]


[foto de Ricardo Stuckert]

[lula tem oitenta anos.
anda de cabeça erguida e jamais verga a espinha.
nem abaixa os olhos.
nem teme.
nem medra.
batem nele.
a cada minuto um energúmeno sai das trevas para dar a lula a morte em efígie.
lula cai e se ergue.
e segue.
segue pelo coração da história.
segue como segue um peregrino pelo deserto.
já tiraram tudo dele.
tiraram dele a voz, tiraram dele o sol e a chuva, tiraram dele as manhãs do país que ele ama como ninguém.
lula, destituído de tudo pelas garras dos zumbis descerebrados, se levanta sempre.
mais uma vez é visto nas ruas, nas praças, no cinema dos olhos de sua gente também sem medo.
sim, o medo tem medo dele.
o medo pálido do mercado e dos rentistas.
o medo tísico dos banqueiros.
o medo e o pânico dos jornalistas que venderam a alma por trinta dinheiros, o medo dos juízes mancomunados com os barões do capital.
a idiotia que viceja qual lodo, qual fungo, tem vertigens de medo de lula, esse velhote de doçura infinita com as gentes sem medo deste país.
os carolas que se armam com deus e fuzis não dormem devido ao incomensurável medo do velhote.
o olhar psicótico de marco rubio, a bufa opereta de trump, o marionetismo do clã miliciano.
todos temem o velhote, o doce e terno velhote, o épico velhote, símbolo da humanidade que ainda nos resta e que está outra vez nas ruas pelo seu país, pelo nosso país.]

[BRENDA WOLF]

[Brenda Wolf gostava de trepidar o assoalho. Ela pressionava e batia os pés nas tábuas com a esperança de atrair terremotos. As xícaras, o açucareiro, os pires e os vidros de biscoito sobre a mesa formavam a paisagem perfeita e em miniatura do sinistro desejado. O gato se afastava. O avô, de quando em quando, perguntava se a cavalaria do imperador passava pela rua.

Nós, os que éramos despossuídos de espanto, ficávamos na varanda. Não acreditávamos em terremotos naquele trecho do mundo. No entanto, esperávamos: pela chuva, pelas cartas, pelo vendedor de tijolos ou pela banda de música. Brenda Wolf não nos dirigia a palavra. A varanda era um país, a cozinha era outro.

Sabem os que andam sem esperança que as gotas de uma torneira soam badalos de melancolia. Encolhíamos os nossos corpos sob as mantas, puxávamos os chapéus sobre os olhos, só concedíamos às vezes a emissão de uma vogal soturna. Vínhamos de muito longe. E é bem provável que não tivéssemos um destino.

E Brenda Wolf sonhava com os terremotos. Os pés fora das sandálias, os tornozelos rijos, os cotovelos fincados no tampo da mesa e a trepidação constante, quase galope, quase os tacões de um dançarino de flamenco. Um dia quem sabe um terremoto iria aflorar sob os pés de Brenda Wolf. E o mundo inteiro despenharia pelas gargantas do abismo.]

2.10.26

[A BATALHA DAS LARANJAS]


Entre 3 e 4 da manhã, veio o sonho. E o sonho era a reprodução de uma batalha das laranjas tal e qual a famosa Batalha das Laranjas em Ivrea, lá no Piemonte.

Laranjas para cá, laranjas para lá. 

Nós, os que estávamos no sonho e por conseguinte metidos na batalha onírica das laranjas recebíamos na testa oblongos petardos atirados pelo pessoal que ia em uma carroça toda enfeitada.

Retaliar tais ataques era, para nós, um sofrimento. Nossas laranjas se achavam todas murchas e nada faziam no cocuruto ou nas bochechas de nossos oponentes.

Às quatro da manhã, o sonho chegou ao fim.

Apalpei a faces a fim de notar qualquer sinal cítrico como resultado de tamanha e descomunal batalha.

Nada feito.

Minhas faces estavam limpas como o céu que se avizinhava sobre a Bahia de Todos os Santos.

[OS TROMBONES DA RUA ANFIBÓLIOS]

[quando é madrugada, soam os trombones da rua anfibólios. austeros sons, rombudos sons, especiarias de sons em um cozido harmônico.

um cortázar de touca sobe a ladeira mínima da rua anfibólios. sobe e para, absorto, porque é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.

sou aquele que veio de longe, diz o cortázar de touca. cigarro aceso, cigarro apagado, assovio fino, assovio grosso, as alegrias polpudas e em cachos dos sons dos trombones da rua anfibólios.

aquelas moças que incendeiam as bandeiras, aquelas moças derrubadoras de muros. é madrugada, já soam os trombones da rua anfibólios, e as moças insubmissas ateiam fogo na cidade.

sou aquele que veio de longe, repete o cortázar de touca. em síncopes, os trombones da rua anfibólios acompanham os passos do andré de sapato novo.

o choro. o chorinho. a luz do poste. o beijo carmim. o jaguar da noite. a navalha. o chapéu borsalino. pixinguinhas que vão, pixinguinhas que vêm. é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.

a poesia não é. a poesia é o que não é. carotes de vinho amargo em prateleiras abandonadas. o sal corrói as paredes. o pai mostra ao filho a bala em um círculo a lápis na parede. tudo é adusto, tudo é sanguíneo. mas é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.

o cortázar de touca e as moças derrubadoras de muros agora em colóquio na ladeira mínima da rua anfibólios. a revolução chegará como se um gás, como se um som, como se uma chispa-faísca. os idiotas não passarão. é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.]

[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]

[Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica inteira ao bolinho de feijão do Ignácio´s, no tempo em que o bar funcionava na Rua da Bahia, antes de se mudar para a Guajajaras e morrer para todo o sempre. A crônica está em Os bares morrem numa quarta-feira.]

[Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.]

[Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.]

[Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.]

[Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano antes que a soja e a cenoura tomassem o lugar das lobeiras, das gabirobas, do caju miúdo, e o cerrado perdesse de vez aquela tortuosidade barroca vegetal para os campos monótonos das plantations.]

[Pus os pés na Praça Sete naquele princípio de tarde e fui levado ao Café Pérola. Reluzia o aço inoxidável da máquina atrás do balcão. E da torneira jorrava aos copos o ouro da beberagem com direito a gominhos flutuantes de laranja na flor das bordas. Chamei de poesia aquele instante, e trouxe pelos anos afora essa lembrança humilde, pois só a humildade é capaz de definir tão prosaica bebida.]

[De tempos em tempos, quando revisito a Praça Sete, sinto os lampejos epifânicos daquela tarde, daquele mês de março. E a laranjada do Café Pérola, relembrada, desencadeia em mim as alegrias inaugurais da juventude.]

[Como o Ignácio´s, o Café Pérola não existe mais. Do bolinho de feijão merecedor de uma ode em forma de crônica de Paulo Mendes Campos, restou a paisagem oleosa de certos espécimes muito esquisitos em balcões do centro da cidade. E a laranjada, bom, ela é agora o pó industrial a ser diluído em águas turvas.]

[E SE WANDER PIROLI PASSASSE?]

[os arrabaldes de belo horizonte.]

[eis a praça do peixe com o linguado de plástico a se equilibrar numa vara ao tempo, para lá é o norte, para acolá é oeste, se vai morrer, sobe a rua bonfim, se vai viver, siga a via para o carlos prates.]

[futurismos tardios na rua bonfim.]

[vende-se gelo.]

[vendem-se pentes velhos, abajures sem lâmpadas, máquinas de costuras onde coser a mortalha de um mendigo que acabou de morrer.]

[ou não.]

[vivo está, sonolento talvez, o guarda vem para o diagnóstico: "é o altair", alguém diz.]

[altair sorri.]

[ressuscitou.]

[e se passasse agora o piroli a caminho da praça vaz de melo?]

[e se caísse um anjo?]

[piroli não passa e o anjo não cai.]

[são matinais os olhos nos arrabaldes de belo horizonte.]

[corações de bandoneóns ainda pulsam a noite anterior.]
 
[a sofreguidão na pele da cidade, a curva do viaduto onde dorme um cachorro.]

[e se o piroli passasse agora a caminho da praça vaz de melo?]

[e se um anjo lunático escrevesse agora a sonata dos dias agônicos?]

[há silêncio de morte na brisa de agora há pouco.] 

[sopram as ventoinhas do tempo louco.]

[de pé, altair retoma o seu calvário.]

[o brasil inteiro se esfarela em pão e mofo na rua paquequer.]

[altair agora valsa.]

[valsa a valsa do imperador.]

[altair valsa.]

[quão tristes são as alegrias nas gengivas nuas de altair.]