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31.8.26

["OS LEITORES QUE VOCÊS BUSCAM NÃO EXISTEM", DISSE O SENHOR GLAUS]


["Os leitores que vocês buscam não existem", disse o Senhor Glaus. 

Isto ocorreu já faz um mês e, na hora, todos ficamos paralisados e em silêncio na Taberna dos Escribas Vermelhos. 

O contista Elesbão até aprumou o corpo em sinal de que iria protestar contra sentença tão peremptória dita assim de chofre naquela tarde. 

Uma tarde até então afável e risonha. 

Elesbão conteve-se, porém. 

Na certa, em seus cálculos, em suas hipotenusas e em seus catetos, a frase do Senhor Glaus acabou por encontrar algo de verossimilhança. 

"Quais leitores procuramos?", disse por fim o poeta Erotides. 

"Quais?", ecoaram então todos os que ocupavam a mesa norte, a que dava para o janelão que se abria para a Rua dos Geômetras. 

Era ali, naquela mesa, que se daria a mais feroz das contendas literárias desde o assassinato do sonetista Osório por causa de uma rima em ão. 

Mal sabia o Senhor Glaus em quais latitudes e longitudes a sua frase pousaria, e,  em frenesi, em combustão, fosse azedar a tarde, o fim da tarde, o princípio da noite, a noite alta e a madrugada. 

Houve puxadas de narizes e bochechas. 

Voaram bonés e cachecóis. 

A lírica tornou-se sanguinária e a prosa sacou arma de fogo. 

O crítico Josué, no intuito de apaziguar aquelas almas eriçadas, começou por dar razão ao Senhor Glaus, mas, logo adiante, cometeu o delito de ofender os chamados "leitores açucarados". 

Chamou-os de "escória pueril". 

Foi o bastante para Sara La Dulce ameaçá-lo com um frasco de pimenta malagueta. 

De sua parte, o Senhor Glaus a tudo ouvia muito quieto e sereno ali na mesa sul, a que dava para o janelão que se abria para a Rua dos Axiomas. 

E assim, qual monge, qual beatífica figura, o Senhor Glaus se levantou. 

E já ia bem alta a madrugada quando ele pegou o chapéu borsalino, cobriu com ele a calva lustrosa, ajeitou com elegância a gravata borboleta e, com voz de barítono, fez um aparte na fuzarca. 

Disse: "Até amanhã, caros confrades". 

E partiu.]