["OS LEITORES QUE VOCÊS BUSCAM NÃO EXISTEM", DISSE O SENHOR GLAUS]
["Os leitores que vocês buscam não existem", disse o Senhor Glaus. Isto ocorreu já faz um mês e, na hora, todos ficamos paralisados e em silêncio na Taberna dos Escribas Vermelhos. O contista Elesbão até aprumou o corpo em sinal de que iria protestar contra sentença tão peremptória dita assim de chofre naquela tarde. Uma tarde até então afável e risonha. Elesbão conteve-se, porém. Na certa, em seus cálculos, em suas hipotenusas e em seus catetos, a frase do Senhor Glaus acabou por encontrar algo de verossimilhança. "Quais leitores procuramos?", disse por fim o poeta Erotides. "Quais?", ecoaram então todos os que ocupavam a mesa norte, a que dava para o janelão que se abria para a Rua dos Geômetras. Era ali, naquela mesa, que se daria a mais feroz das contendas literárias desde o assassinato do sonetista Osório por causa de uma rima em ão. Mal sabia o Senhor Glaus em quais latitudes e longitudes a sua frase pousaria, e, em frenesi, em combustão, fosse azedar a tarde, o fim da tarde, o princípio da noite, a noite alta e a madrugada. Houve puxadas de narizes e bochechas. Voaram bonés e cachecóis. A lírica tornou-se sanguinária e a prosa sacou arma de fogo. O crítico Josué, no intuito de apaziguar aquelas almas eriçadas, começou por dar razão ao Senhor Glaus, mas, logo adiante, cometeu o delito de ofender os chamados "leitores açucarados". Chamou-os de "escória pueril". Foi o bastante para Sara La Dulce ameaçá-lo com um frasco de pimenta malagueta. De sua parte, o Senhor Glaus a tudo ouvia muito quieto e sereno ali na mesa sul, a que dava para o janelão que se abria para a Rua dos Axiomas. E assim, qual monge, qual beatífica figura, o Senhor Glaus se levantou. E já ia bem alta a madrugada quando ele pegou o chapéu borsalino, cobriu com ele a calva lustrosa, ajeitou com elegância a gravata borboleta e, com voz de barítono, fez um aparte na fuzarca. Disse: "Até amanhã, caros confrades". E partiu.]

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