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NOTICIÁRIO SOBRE O AUTOR

Entrevista de Ana Paula Tavares sobre Verbetes para um dicionário afetivo, na Rádio Smooth FM, de Lisboa.

[para ouvir, clique no link abaixo]

http://smoothfm.iol.pt/rubricas/leyasmooth_semana.aspx?id=354

Fonte: Rádio Smooth FM
Data de emissão: 08/02/2016

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Novidades editoriais para fevereiro

Verbetes para Um Dicionário Afetivo, de Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção - (nas livrarias a 23 fevereiro) 

Quatro autores já bem conhecidos do público português – Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki  e Paulinho Assunção (dois angolanos, um português e um brasileiro) – reúnem-se, ou melhor, encontram-se reunidos para nos dar um conjunto de textos que são outras tantas pérolas literárias, produzidas nesse vasto cadinho que é a língua portuguesa. Cada um com o seu estilo, oferecem ao leitor um objecto literário que proporciona enquanto arte literária, um verdadeiro e intenso prazer da leitura. 

Como os autores (se) explicam no prefácio: “Este livrinho nasceu pelo e para o afeto das amizades… E é um livro da nossa língua, a nossa língua brasileira, angolana, portuguesa, diversa e única, cordas de muitos tons em um mesmo instrumento. Pela língua, a nossa língua, fotografamos as nossas memórias verdadeiras  e inventadas, porque recriam o que já ficou tão distante  e também não nos abandona”. 

Fonte: Leya
Data de Publicação: 03/02/2016
Link: http://news.cision.com/pt/leya/r/novidades-editoriais-para-fevereiro,c635901106210000000


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Caminho apresenta as suas novidades

A Caminho revelou as suas novidades para o mês de fevereiro. No total, três propostas, uma das quais a reunir Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção.

«Verbetes para Um Dicionário Afetivo», de Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção

«Quatro autores já bem conhecidos do público português – Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki  e Paulinho Assunção (dois angolanos, um português e um brasileiro) – reúnem-se, ou melhor, encontram-se reunidos para nos dar um conjunto de textos que são outras tantas pérolas literárias, produzidas nesse vasto cadinho que é a língua portuguesa. Cada um com o seu estilo, oferecem ao leitor um objecto literário que proporciona enquanto arte literária, um verdadeiro e intenso prazer da leitura.
Como os autores (se) explicam no prefácio: “Este livrinho nasceu pelo e para o afeto das amizades… E é um livro da nossa língua, a nossa língua brasileira, angolana, portuguesa, diversa e única, cordas de muitos tons em um mesmo instrumento. Pela língua, a nossa língua, fotografamos as nossas memórias verdadeiras  e inventadas, porque recriam o que já ficou tão distante  e também não nos abandona”».

Fonte: Diário Digital
Data de Publicação: 04/02/2016
Link: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=810212

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Armadilha das palavras
Jorge Marmelo

"Pequeno Tratado sobre As Ilusões" 
de Paulinho Assunção 
Campo das Letras 72 páginas

Poucas coisas são tão complexas de alcançar como a essência daquilo que é simples; exige um tremendo e sábio esforço chegar à singeleza enigmática do sorriso da Mona Lisa, ou ao resumo do mundo contido no binômio de Newton. O brasileiro Paulinho Assunção - mineiro, poeta, cultor de aforismos e produtor manual de livros - parece, porém, ter alguma parentela com o húmus da terra e o rumor das estrelas. Os contos do "Pequeno Tratado sobre As Ilusões", agora editado em Portugal pela Campo das Letras, são como borboletas raras e efémeras: nelas se condensam o fulgor e a beleza, perecendo em menos de um ai - mas ficam gravadas, qual encantamento, na retina de quem teve a fortuna de as avistar. 

As histórias do livro são, a um só tempo, surreais, singulares, mágicas e circulares, impregnadas, contudo, por um humor subterrâneo, como se presididas por um deus caprichoso, que, após cativar o leitor com o esboço da sua criação traçado na areia, sobre ele passasse uma mão rápida e destruidora que tudo apagasse e nos deixasse pasmados diante do logro. Daí que, querendo encontrar eventuais referências para quem se interesse pela leitura do livro, talvez se possa situar este "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" algures entre a inquietação labiríntica das narrativas do também brasileiro Bernardo Carvalho (leia-se "Teatro", "As Iniciais" ou "Aberração") e a simplicidade onírica de "Montedidio", do italiano Erri de Luca, recentemente editado em Portugal pela Âmbar. 

Paulinho Assunção está, na verdade, mais próximo deste último, seja enquanto adepto de um simbolismo desarmante e de uma singeleza quase infantil, seja enquanto espécie de rendilheiro de palavras, mais próximo da poesia do que da ficção comum. Aliás, se uma das personagens de "Montedidio" é um sapateiro judeu à espera que da corcunda ecludam as asas que lhe permitirão chegar a Jerusalém, em "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" há pelo menos duas histórias habitadas por homens alados. Na primeira, "Asas", o homem voa, desce chaminés e investiga fechaduras, passando a matar e a fazer a guerra quando conhece as delícias da mulher; na segunda, "Ícaro", a figura mitológica limita-se a olhar o mundo a partir da janela de um vigésimo andar, estatelando-se quando, por fim, arrisca o voo. 

Por outro lado, "Pequeno Tratado sobre As Ilusões" é um exemplar (cada vez mais raro) daquilo a que poderemos designar como a prática da literatura pela literatura, predominando o gozo lúdico da palavra, a sua economia e, mais do que isso, a sua justa medida, amiúde tocada pela música da frase perfeita - pela poesia, lá está. A chave deste segredo talvez se encontre, de resto, nas primeiras linhas do conto "Já Faz Muitos Anos", nas quais se lê aquilo que será um bom resumo do livro: "Os homens silenciosos, como nós, não temos medo. Por isso - e há sempre que se precaver - a palavra é a nossa armadilha, a nossa tocaia. E caso seja irrecusável falar, preferimos as palavras duras, consonantais, todas aquelas palavras que trazem no seu bojo a recordação de uma arma. Não é preciso dizer que somos muito perigosos." 

Do gato que principia a manquejar para substituir o irmão - manco - que partiu para longe, e não deu mais notícias, à mulher cega que observa o homem que não faz mais do que olhar o vento e a chuva, passando pelo lúcido que, metodicamente, decide enlouquecer, o livro parece tocado pelo sopro breve e suave do encantamento, por uma loucura mansa e pueril. O ponto mais alto deste culto será o conto "Revoluções", no qual há um homem que muda de pele todos os dias: "O ruído é de palha seca. E geralmente a pele começa a se romper pelas costas. Depois estala. Logo sai inteira, fica no chão como um homem sem recheio. (...) à noite, muitas vezes, me dou conta de que estou abraçada ao invólucro dele, pois escuto os seus passos, na sala, sonâmbulo (...)." 

Fonte: Site Bestiário
Data de Publicação: 2003
Link: http://www.bestiario.com.br/2_arquivos/Armadilha%20das%20palavras.html

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Em registo de espanto

João Barrento

Acho que é a primeira vez que escrevo sobre um livro, um livro apenas, nesta coluna. Acontece que há livros, pequenos livros, por vezes, que falam por todo um mundo, na sua linguagem de uma experiência humana elementar. Não são livros do nosso tempo, são livros do tempo. Um deles, que acabo de ler, é o "Pequeno Tratado sobre as Ilusões", do brasileiro de Minas Paulinho Assunção, editado cá pela Campo das Letras. As histórias, mínimas histórias de eus que sonham com um real que talvez seja o seu ou, como sugere a epígrafe de Jabès ("Tu crois rêver le livre. Tu es rêvé par lui"), são sonhados por ele, são todas pessoalissimamente escritas numa primeira pessoa múltipla, e todas universalmente comuns a gente de Minas, do Alentejo ou do mundo, porque do mundo das paixões, da imaginação e da magia de coisas e pessoas. Paulinho é um poeta de Belo Horizonte que faz livros à mão e escreve prosas que são pura poesia sob a forma da mais genuína arte do conto, aquela arte do "menos que é mais", de que Jorge de Sena um dia traçou as linhas mestras num "Conto brevíssimo" das "Novas Andanças do Demónio": espantosa economia de personagens e de linguagem (o que não a impede de se perder pelos espaços de um maravilhamento sem limites), desfechos rápidos e insólitos, inexplicados e inexplicáveis. O inesperado espera por nós em cada página final (que muitas vezes é também a inicial), o conto, como deve ser, não dá tempo. A última frase é muitas vezes lapidar, decisiva, enigmática, surpreendente. A capacidade de espanto do leitor, por mais pobre que seja, por mais embotada que esteja por noticiários de televisão, sente-se gratificada. O livro sonha-nos, de facto.

O "Pequeno Tratado sobre as Ilusões" ganhou no Brasil o prémio de conto Guimarães Rosa, e faz jus a este nome: o seu espírito é o do elementar que nos acompanha no dia a dia, o seu material o da palavra certa para o dizer - um homem com asas, outro que observa ventos e chuva, a mulher, sem mais, o sonho, o sinal da morte, ou mesmo uma cidade enrodilhando-se à volta de um homem sábio... Histórias ínfimas de regresso às coisas máximas, o corpo e os bichos, um quotidiano que parece livre de negócios e conflitos, todo humano, com os seus tempos de inventar mundo. Aqui, ler é qualquer coisa que faz bem, porque é tão pouco o que se diz, e tanto o que ganhamos. Ao ler estas histórias de espanto, penso: nós não estamos precisados de nenhuma "literatura da experiência", essa pobre tautologia naturalista, nem de "realismos urbanos totais", como por cá se disse a certa altura sobre o que estão escrevendo alguns novos autores. Precisamos, sim, de ler livros que nos mostrem o que é a "experiência da literatura". E a experiência da literatura é a da frase que me devolve uma experiência, mas em registo de espanto, e na medida certa; é a da imagem no nítido recorte das coisas vistas, mas com olhos de as ler e com a noção clara de que "a palavra é a nossa armadilha" (p. 57), uma lucidez pouco comum nos ficcionistas, sobretudo naqueles que, ao contrário de Paulinho, não entenderam a lição de Sena quando diz que "narrar não é o suficiente para escrever um conto".

Paulinho Assunção sabe disto e de muito mais, e é por isso que faz bem ler a poesia dos seus contos. Contos "sobre quê"? Ah, isso não sei, nem digo... Só digo que são vinte e nove histórias de maravilha e de espanto em que tudo, mas tudo, pode acontecer - e acontece, como na ficção. Ou não, como num poema.

(Este texto foi publicado no suplemento “Mil Folhas”, do jornal Público, de Lisboa, no dia 3 de maio de 2003.)
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Quando o encantamento feito de palavras nos chega de Belo Horizonte

Belém Barbosa

Paulinho Assunção nasceu em Minas Gerais em 1951. É poeta, jornalista e ficcionista. Publica poesia desde 1980, com mais de uma dezena de títulos no Brasil, um dos quais, Diário do Mudo venceu, em 1983, o Prémio Nacional de Literatura da Cidade de Belo Horizonte.

O seu aparecimento em Portugal faz-se pela mão da Campo das Letras, com a edição deste Pequeno Tratado sobre as Ilusões, também premiado, já em 1998 (Prémio Guimarães Rosa de Contos, 1998, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais e Universidade Federal de Minas Gerais).

Este livro reúne 29 pequenos contos, povoados de luz, sonho, e personagens do dia a dia, que se adivinhas atravessando ruas em Belo Horizonte. Um livro de ternuras, mas também de perdas e desencontros.

Um livro de simplicidade. Pessoas simples, palavras simples, apesar de exactas, delicadamente escolhidas, fazendo vir ao de cima a arte do poeta a quem a mão pertence.

Paralelamente à edição em livro, o autor continua o seu trabalho de ficcionista na net, ao acesso de todos. Alimenta um site, http://avoltadekafkaembelohorizonte.blogspot.com/ na linha dos contos reunidos neste livro; pequenas e belas ficções do dia-a-dia, complementadas por ilusão e encantamento - luz colorida que tudo envolve no seu escudo mágico e protector. Para ir acompanhando, enquanto não surgem novos livros para alegria de quem leu este Pequeno Tratado...

Fonte: Site Nova Cultura
Data de Publicação: 2003
Link: http://www.novacultura.com/0401assuncao.html

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Hipnotismos de Paulinho Assunção

Titula-se «O Hipnotizador», é escrito por Paulinho Assunção e vem do Brasil. Mesmo os resistentes à Literatura Brasileira, que não lhe divisam o «português açucarado», mas sim um ruído da língua de Camões, encontram na escrita deste autor uma expressão linguística espantosamente depurada a enformar uma prosa poética singular e hipnótica.

Repleta de personagens fantásticas, esta é uma narrativa sobre a demanda da escrita, a investigação do próprio caminho e da emoção da caminhada, por luz e trevas da cidade de Ouro Preto, aqui homenageada, para atingir o mundo todo. São mil e uma histórias inebriantes feitas de caminhada em caminhada, a bordo de letras andarilhas, com palavras que pedem palavras, «acasos dispersos que entram em convergência». «E não é saboroso esse exercício de pôr em andaimes as construções feitas de vento?», pergunta o narrador ao leitor sabendo que, rejubilante, este aplaudirá, aparelhado para a soberba viagem.

O narrador, Ferdinando Flauta Mágica, é um viajante que andou por muitos «mundos e caminhos em busca das chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.». Um nome misterioso de quem já teve «centenas de nomes» pela vida fora: nomes de «guerra» e de «paz», nomes «claros» e «escuros», nomes «oceânicos», esquisitos, ciciantes e murmurantes. O que viu «transborda de uma vida e vai preencher outras vidas mais», entenda-se, a de todos quantos lerem este excelso Diário de Viagem. O enredo desenvolve-se pela «dádiva de um chamado», refere o misterioso narrador, numa altura em que já é impossível abandonar a narrativa: um «convite para um encontro com o mistério do meu nome», eis o «tema desta história que, toscamente, e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e a você, leitora.».

E tem o leitor em 109 páginas uma prosa límpida e alada, visual, musical e de odor inebriante, consequência de uma cabeça de viajante: «sempre desembestada e sem rédeas: basta um descuido e ela muda de trilhas. Basta um descuido e ela vai daqui para acolá, livre, sem freios. Essa é a dívida que pago por ser amante das histórias e das peripécias. Um homem como eu, um homem assim da minha espécie, está condenado a trilhar sem bússolas os caminhos feitos de pedra e os caminhos feitos de nuvens».

A «Sociedade de Contadores de histórias»

Tudo se passa «numa certa noite de Inverno», «num dos lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto», onde o narrador acaba de chegar, vindo de muitas partes do mundo para as ceder àquele local. O desafio é conhecer a Cidade-Baixa, os subterrâneos de Ouro Preto, «lugarejos secretos» que Flauta Mágica – o que viaja de recordações e é «residente das lembranças» – assemelha aos que há sob Praga, Munique, Buenos Aires, Porto, e o «leme da imaginação» leva-o pela Grécia, Hungria, savanas africanas, ao interior de mosteiros espanhóis, à «meditação nas altas montanhas da Indochina». Assim se faz uma história sobre as peregrinações pelo mundo em busca de histórias. E assim se leva o mundo a uma pequena cidade transformando-a numa cidade do mundo.

A Ferdinando Flauta Mágica vão-se juntando outras tantas personagens surpreendentes para uma jornada de convívio com a «Sociedade de Contadores de Histórias»: entre muitos outros, estão Língua-Solta, homem de «rosto ameno e pacífico», apesar da «cicatriz em forma de lua minguante» a cortar-lhe a face, «olhos cor de pedra-sabão» e que, «embora seu nome indicasse o posto, parecia tudo fazer e tudo dizer com a língua guardada»; Centauro Veloz, um velhinho «galante e com nariz para o alto» que em jovem fora mordomo de dois governadores de Minas Gerais e com elegância segurava as tochas que iluminavam a caminhada «rumo às profundezas de Ouro Preto»; Jerónimo, um cego que sonhava com o fogo, e que o narrador imagina que tivesse asas, «as asas talvez de um anjo, talvez as asas de uma ave cuja espécie jamais conheceremos»; António-das-Hipérboles, homem «especialista em exagerar os factos do mundo» ; João Codax, um sineiro aposentado, com novas grandes missões; Maga Romena, especialista em dragões e conhecedora de todas as suas histórias «já escritas ou inventadas pelo mundo afora»; Nancy Cairo, «uma perfumista, fabricante de fragrâncias, inventora de odores, arquitecta de cheiros»; Magóia Coromande, uma detective que investiga o roubo das ossadas do «Hipnotizador» patrono da Petúnia Negra, organização dedicada aos estudos da hipnose, mas que é disputado por outra sociedade rival que o quer para patrono do seu mundo com grandes bibliotecas de ficção.

Todos percorrem os subterrâneos de Ouro Preto, rumam ao Salão das Histórias de Suspense, ao Salão das Histórias Intermináveis, ao Salão das Histórias Policiais, pelos corredores labirínticos onde a magia da imaginação acontece.

«O coração de um homem que acredita em fábulas é um coração destinado aos sobressaltos, aos disparos incontroláveis.» Por mais viajado que fosse Flauta Mágica, esperava-o o inesperado. Por mais livros que um leitor tenha lido, é o sobressalto, o espanto da leitura que ele procura. E, claro, o hipnotismo. Tudo está neste livro de Paulinho Assunção: «Ah, os filósofos. E os poetas. E os loucos. E as crianças. As mulheres apaixonadas. E os sem eira nem beira pelo morro abaixo das fantasias.».

O Hipnotizador, Paulinho Assunção; Editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008

© Teresa Sá Couto

Fonte: Site Com Livros
Data de publicação: 2008
Link: http://comlivros-teresa.blogspot.com.br/2009/01/hipnotismos-de-paulinho-de-assuncao.html

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Contos "sobre quê"? 

Deixou-me curiosa a Crónica de hoje do João Barrento. É sobre o livro Pequeno Tratado sobre as Ilusões, do brasileiro de Minas Paulinho Assunção, editado recentemente pela Campo das Letras. 

Histórias ínfimas de regresso às coisas máximas, o corpo e os bichos, um quotidiano que parece livre de negócios e conflitos, todo humano, com os seus tempos de inventar mundo. Aqui, ler é qualquer coisa que faz bem, porque é tão pouco o que se diz, e tanto o que ganhamos. Ao ler estas histórias de espanto, penso: nós não estamos precisados de nenhuma "literatura da experiência", essa pobre tautologia naturalista, nem de "realismos urbanos totais", como por cá se disse a certa altura sobre o que estão escrevendo alguns novos autores. Precisamos, sim, de ler livros que nos mostrem o que é a "experiência da literatura". E a experiência da literatura é a da frase que me devolve uma experiência, mas em registo de espanto, e na medida certa; é a da imagem no nítido recorte das coisas vistas, mas com olhos de as ler e com a noção clara de que "a palavra é a nossa armadilha" (p. 57), uma lucidez pouco comum nos ficcionistas, sobretudo naqueles que, ao contrário de Paulinho, não entenderam a lição de Sena quando diz que "narrar não é o suficiente para escrever um conto". 

Paulinho Assunção sabe disto e de muito mais, e é por isso que faz bem ler a poesia dos seus contos. Contos "sobre quê"? Ah, isso não sei, nem digo... Só digo que são vinte e nove histórias de maravilha e de espanto em que tudo, mas tudo, pode acontecer - e acontece, como na ficção. Ou não, como num poema. 

Fonte: Blog Janela Indiscreta
Data de publicação: maio de 2003
Link: http://janela-indiscreta.blogspot.com.br/2003/05/contos-sobre-qu-deixou-me-curiosa.html

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Paulinho Assunção, um viajante nos barcos da imaginação

A RUA E A LÍNGUA

ruar é o verbo que faz a rua puxar a língua
das almofadas, dos veludos, das pantufas, a rua

puxa a língua para a rua, sai, língua, sai, sai
de dentro de casa e vai ao sol, o sol, a pele

morena da rua pede à língua sua companhia, vem,
língua, vem, vem à esquina, vem à noite sonsa

do perigo no beco mais imundo, aos becos,
aos copos, ruar, ruar, ruar, meu nome é rua,

sobrenome esquina, vem, língua, vem, sai
do mofo de sua casa, sai de dentro

do papelório, vem brincar na rua, língua, vem,
seus artefatos, suas sintaxes, suas semanticalices

e seus guardados, vem, há o crime, há a faca,
há a fome, os desesperados pedem, chamam,

gritam, vem, língua, vem à manhã do desespero
solar, vem ao lixo, vem ao dia sem amanhã,

vem ao vírus do dia claro, do falar errado,
vem à boca dos que não falam, vem ao rito

sem ritual do pão em falta, vem, língua, vem
à rua da minha cidade, vem sujar a língua.

(Paulinho Assunção)

*

Uma noite dessas, no Maletta, eu estava conversando com o poeta Ricardo Aleixo e o rumo da prosa se desviou inevitavelmente para a poesia, e falando de poesia e poetas acabamos (ou começamos) parando em Paulinho Assunção, escritor da prateleira de cima, capaz de produzir poemas como “Ruar” – que mereceu o duplo entusiasmo, de Ricardo e o meu.

*

Em 2004, por acaso eu era o editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, e por acaso havia uma seção chamada “Primeira pessoa”, em que escritores eram convidados a falar sobre si mesmos, e não por acaso escalei Paulinho para uma das edições. A certa altura de seu depoimento, “Todo escritor é um estrangeiro”, ele anotou:

“Nada tem a ver o ato de escrever com aquele propalado clichê de que escrever é um ato solitário. Escrever, na verdade, é talvez o mais íntimo dos atos, mas nada tem de solitário. O ato de escrever, pelo menos como eu o entendo, é o momento da mais profunda e avassaladora conexão com o mundo. É a intimidade não isolada, é a íntima porção de tempo contagiada pelas coisas do mundo. Nos arredores e nas margens de uma folha em branco de papel, tudo o que entendemos por mundo vem participar do ato de escrever. Ali acontece a íntima comunhão — e, aqui, destituo da palavra comunhão qualquer resquício de religiosidade. É, talvez, aquela comunhão implícita no trecho de uma carta de Paul Celan a Hans Bender, quando o poeta diz: “Je ne vois pas de différence de principe entre un poème et une poignée de main”. Em outras palavras: é o poema (e eu diria: a escrita) posto no mesmo patamar de um aperto de mão”.

*

Paulinho e o Suplemento. Ele foi membro da comissão de redação do “Suplemento Literário” do “Minas Gerais” no começo dos anos 80, como parte da equipe coordenada pelo escritor Murilo Rubião. Um período especialmente criativo na história do jornal, cujo planejamento gráfico estava nas mãos e na cabeça de Sebastião Nunes. Foi nesse período que li o primeiro de Paulinho, “Eh eh ô cidade”, instantaneamente incluindo-o no time de autores a quem eu devia prestar atenção.

*

Ele estreou com “cantigas de Amor & Outras Geografias”, livro de poemas de 1980. De lá para cá foram 16 lançamentos, incluindo aí contos, infantojuvenis, uma biografia sobre Fritz Teixeira de Salles e uma crônica afetiva a respeito do Edifício Maletta.

No blog pessoal do autor há aperitivos suficientes para quem ainda não o conhece. Destaco, aqui, um trecho de seu autorretrato:

“Nasci sob o império dos números ímpares. O dia: 21. O mês: 7. O ano: 51. A hora: 11 da noite.

Sou do interior de Minas, dos altos do Paranaíba de chapadões e planaltos. A cidade é São Gotardo. Mas sou do mundo. Deleito-me com água na boca pelas trilhas e rastros de povos, línguas, artes, culturas em suas legítimas diferenças.

Já corri mundo e já corri perigo, desde bem jovem. Hoje viajo nos barcos da imaginação.

Não sou motorista. Entre o carro e a flauta, viajo flautista. Só dirijo mesmo os meus sapatos náuticos. Neles, nesses sapatos filosóficos de navegações em terra, moram os meus pés escreventes, pés de andar a esmo e sem governo pelas cidades que existem dentro das cidades.

Escrevo desde o final da infância/começo da adolescência. Primeiro: poesia. Depois: ficção. Mais adiante: poesia e ficção. Hoje não dou a mínima para os gêneros e gosto da cópula entre a linha que é o verso e o parágrafo que é a ficção.

Sei fazer livros à mão, pela minha Edições 2 Luas. Nesses livros artesanais, gosto de mergulhar pelos mistérios das lentitudes e do fazer sem pressa.

Pessoas de Romance é a expressão que aplico a meus interlocutores em sombras, figuras de boa conversa e amável convivência, escreventes quando querem e quando necessitam, pois a escrita, para eles, é da ordem das necessidades imperativas e degustativas. Ei-los: Lucas Baldus, João Serenus, Rubem Focs, Cida La Lampe, Vicente Gunz, Vicente Almas, Vicente Pass, Lírio da Luz, Severus Cândido ou a Mulher da Aura Azul.”

Confira aqui o blog:

http://paulinhoassuncao.blogspot.com.br/

Fonte: Site Cartógrafos da Vertigem Urbana
Data de Publicação: 15 de junho de 2015
Link: https://cartografosdavertigemurbana.wordpress.com/2015/06/15/paulinho-assuncao-um-viajante-nos-barcos-da-imaginacao/

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Entre uma BH real e outra fictícia

Assim como Sebastião Nunes, Manoel Lobato e Wander Piroli, o escritor e jornalista Paulinho Assunção também trabalhou no "Suplemento Literário". Ultimamente, dedica-se à sua editora, a Edições 2 Luas, que privilegia livros artesanais, como "Kafka em Belo Horizonte", em tiragem limitada de apenas 50 exemplares.

Paulinho comenta sua relação com a cidade, onde aportou em 1967. "Digo que cheguei, mas, até hoje, acho que continuo chegando, pois não estou de todo certo se chegamos ou não a uma cidade. Entre 1967 e 2006, vivi também em outros lugares, como São Paulo, Córdoba (Argentina) e Riverside (Califórnia)".

O TEMPO: Se você pudesse eleger uma geografia afetivo- sentimental de Belo Horizonte, que locais e ruas você considera mais importantes?

Paulinho Assunção: Não creio que eu possua uma geografia afetivo-sentimental de Belo Horizonte. Nunca soube, com certeza, se de fato me acolheu ou me acolhe como um dos seus.

Tenho minhas dúvidas. Porém, acolhido ou não por ela, a cidade pela qual tenho hoje mais afeto é a cidade dos anônimos, sem grife, sem pompa, sem fama, dos anônimos por suas ruas.

Sinto-me bem no contato com essa cidade de anônimos porque, nela, começa a nascer o cosmopolitismo. Já a cidade das pompas e das grifes é, paradoxalmente, a cidade mais e mais provinciana.

Agora, na memória, tenho, sim, um mapa de descobertas que foi e ainda vai, pouco a pouco, sendo desenhado, mas é um mapa que se mistura igualmente com imagens de ruas pelas quais andei e ando, em diferentes cidades.

Como é essa topografia da cidade?

Essa topografia íntima e pessoalíssima de Belo Horizonte, se é que posso chamá-la assim, começa na rua Cesário Alvim, no Padre Eustáquio, primeiro lugar onde morei em 1967, ao desembarcar.

Entre uma rua e outra, entre um bairro e outro, tracei o mapa das minhas descobertas de Belo Horizonte, que são descobertas muito pessoais e situadas tanto na cidade real quanto na cidade imaginária, tanto na cidade de fato quanto na cidade fictícia. Pois muitas vezes não sei onde termina para mim a cidade de Belo Horizonte, real, e onde começa a cidade que eu, todos os dias, invento e reinvento.

Você pode citar alguma história que relacione você a um escritor, e um lugar específico de Belo Horizonte" 
Murilo Rubião e eu, por exemplo, durante um bom tempo, almoçamos juntos quase todos os dias. Às quartas-feiras, caminhávamos pelo centro da cidade até a rua Tupinambás, até o restaurante do Senac, ou então íamos ao Bar da Esquina, atrás da igreja da Boa Viagem, ou à Cantina do Lucas.

No Bar da Esquina, comíamos um famoso picadinho de carne sugerido ao então dono do lugar, o ator Marcelo Galery, pelo jornalista José Maurício Vidal Gomes.

Com quais escritores você se encontrava na cidade, e quais os lugares mais importantes, nesse sentido" Nos anos 80 e 90, e na década atual, percebe pontos de encontro importantes para os escritores?

Belo Horizonte, desde os modernistas, teve a sua topografia literária situada na região central. Isto não seria diferente nos anos 70 e 80. Todos sabemos que a redação do "Suplemento Literário", na Augusto de Lima, por exemplo, foi um poderoso ponto de convergência para os escritores mineiros, jovens ou veteranos.

Era ponto de encontro para as várias gerações literárias de Minas. Mas igualmente foram importantes a Gruta Metrópole e a Gruta do Alvim, na rua da Bahia; a Lanchonete Nacional e a Gruta Goiás, na rua Goiás; a Cantina do Lucas, o Bar Lua Nova ou o Pelicano, no Malleta; a Casa dos Contos, na Rio Grande do Norte.

Fonte: Jornal O Tempo (Entrevista a Fabrício Marques)
Data de publicação: 24/08/06
Link: http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/entre-uma-bh-real-e-outra-fict%C3%ADcia-1.322151

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