31.8.26

[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]

[filio-me a uma escola literária
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores 
e arbustos do cerrado, 
essa paisagem onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.

foi essa paisagem 
que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água 
no altiplano, o súbito 
das pegadas do lobo-guará, 
a hipnose olfativa
de um araticum caído, 
as florescências da gabiroba 
em graciosas redondilhas,
juá, cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase, 
o ninho da cascavel 
aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, 
o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.

dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim 
com o seu cajado,
porque os tropeços 
são comuns nesse tipo 
de latitudes e longitudes
de palavras, e cair 
é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]

Nenhum comentário:

Postar um comentário