[APARIÇÃO DE UM GAFANHOTO]

[De repente, saltou um gafanhoto para a página do dicionário. 

Que espécie de gafanhoto era aquele? Era o peregrino, uma das pragas do Egito, ou era um gafanhoto-soldado? Ou era um gafanhoto filólogo, gafanhoto legente, por escolher para pouso a página em que o dicionário exibia o verbete livro?

Misteriosa e estranha quietude ele possuía. Não se movia. Nenhum movimento nas pernas, nas antenas, nos olhos. Imóvel ficou sobre a página, e parecia um ser tomado pelo transe. Ou talvez meditasse sobre o verbete livro, fizesse no verbete uma incursão semiótica, talvez quisesse exercitar-se nas artes hermenêuticas.

Embora ele fosse intruso e invasor, achei prudente e elegante cumprimentá-lo. Dizer: "Bom dia, Senhor Gafanhoto". Ou então, caso minha ignorância gafanhotal não fosse incapaz de distinguir se macho ou fêmea, dizer:  "Bom dia, Senhora Gafanhota".

Mas não disse. Contive-me. E se ele se irritasse? E se ele assumisse a milenar genética de sua linhagem e convocasse outros, e mais outros, em bandos, até que a página do dicionário fosse ocupada por um enxame?

Contive-me nesses diplomáticos cumprimentos. Pensei, então, nomeá-lo, para uso próprio, sem emitir esses nomes em voz alta. Por exemplo, chamá-lo Hermenegildo. Ou Antero. Ou Florêncio. Ou Sebastião. Quem sabe Otacílio? Ou Menelau? Ou Florinda, caso fosse uma gafanhota?

Com constrangimento, percebi o quanto era um despropósito o uso de tais nomes antropomórficos. Melhor seria chamar o intruso por nomes mais graciosos e adequados. Por exemplo: "O Grande Saltador". "O Longas Pernas". "O Magro da Pirâmide". "O Asceta". "O Devoto em Genuflexão".

Ia já a galope a manhã quando ele se moveu. Andou um pouco. Pisou em outros verbetes da página, como livreiro, livraria, livresco, livraralhada. Parecia um pesquisador depois da pesquisa concluída. Mexeu as antenas, e, por um segundo, cheguei a intuir que ele me olhava. Ou me sorria. Mas logo vi tratar-se de um exagero. É que já me afeiçoava ao gafanhoto. Mais um pouco e eu o chamaria assim: "Amigo".

Não é preciso dizer que, ao vê-lo saltar de repente para o vazio da janela aberta, e desaparecer pelos arvoredos do bairro, eu senti enorme tristeza.] 

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