[CURSO GERAL DE POÉTICA: O LIVRO-FILME]

[há um homem deitado em um quarto de hotel em diamantina. ele não dorme. deitou-se porque não podia, todos deitam quando não podem, deitar é não poder, e esse homem, porque já não mais podia, está agora deitado em uma cama fronteiriça à janela, janela fronteiriça 

à rua, em um hotel de diamantina. a janela está aberta, as duas lâminas estão abertas como se fossem braços, e a cortina, de tecido áspero e gasto, tremula tal vela de um barco pintada com flores indistinguíveis. o homem não dorme, olha para o forro em azul barroco. esse homem 

que já não podia olha para o forro, e sobre o forro ele lê figuras, sobre o forro ele lê vultos e garatujas de silhuetas que o sol do meio-dia, cinematógrafo, emite em jatos desde a rua, desde a calçada, esse sol cinematógrafo com seus jogos de espelhos feitos de luz e sombra, um engenho 

do acaso a levar à tela-forro de um quarto de hotel o filme da cidade. talvez esse homem não queira mais sair dessa posição de não poder. talvez não queira desertar-se dessa quietude, talvez só queira a contemplação desse estranho livro-filme que o sol do meio-dia, cinematógrafo, imprime 

na tela-forro de um quarto de hotel em diamantina. são contornos sobre o forro, auréolas em errância, resplendências, manchas luzentes, algaravias silenciosas de traços, riscos e reflexos. a íntima porção de um tempo inseguro, instável, pronto a desaparecer 

assim que o sol, cinematógrafo ao meio-dia, mova alguns graus os seus refletores, e por fim apague as presenças refletidas quarto adentro, e comece então a pesar na tarde a ideia mais clara e mais terrível das ausências. 

A isto eu chamo poesia.]

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