[BACIA COM JABUTICABA E OUTROS APETRECHOS GRAMATOLÓGICOS]
[ora vejam, parece que sim.
ou não. isto é: não se sabe.
talvez ou quase. ora assim,
ora assado. só que voeja.]
[lá vai um cachorro
todo escalafobético
pela avenida afonso pena.]
[passou agora um besouro
a caminho da primavera.
digo-lhe, para que não
se entristeça: "a primavera
não fica longe.
logo ali, na curva do mês".]
[há pouco, um bem-te-vi
quebrou o silêncio aqui
nos altos do rio vermelho.
acho que é o mesmo
de todos os dias.]
[palavras como que saídas
de os sertões voam e voejam
à minha volta. querem definir
o calor para hoje em salvador.]
[mas aquilo era o sol
que se punha? sanguíneo
entre nuvens, a caminho
do oeste,
lá onde o guimarães rosa?]
[a frase poderia
ser assim também:
"são bons tais
instantes apetecíveis".]
[e ouvi o conto em galego,
em noite linda de santiago.
e terminava voejante
assim: bolboretas, borboletras.]
[mandaram-me por e-mail
a chave da minha amnésia.
daqui a pouco,
testarei o passaporte.]
[sim, são os mesmos fios
que tecem as luas,
as imensas e redondas,
mas igualmente as do gato
da alice, uma curva-lábio
de luz risonha.]
[olhar assim,
para o alto,
é bom também
para flagrar borboletas.]
[certos poemas esquentam
demais a máquina da fábrica.
por isso, quando prontos,
ficam com aquela
aparência amassada.]
[bilboquê
é uma palavra
que salta.]
[a frase era de osso.
para fingir-se de seta,
quando em tempestade,
para fingir-se de flauta,
quando ventasse saudade.]
[bonita mesa posta
de quitandas
com todos
os desarranjos gramaticais.]
[o doutor procurou
o revisor porque o seu livro
tinha problemas
no virabrequim.]
[conto não é o que você
chama de conto. conto
é o tanto que falta
na última linha,
no último ponto.]
[de tanto em tanto,
há sempre um outro tanto
ainda para o tanto
que você imagina.]
[ia ontem à noitinha
um goliardo a caminho
da taberna. levava
duas línguas:
uma, para uso suave;
outra, para uso áspero.]
[erro de medida:
as vogais boiaram,
as consoantes afundaram.
e o rio continua o seu curso.]
[eram duas personagens.
uma de cabeçaparacima,
outra de cabeçaparabaixo.
ler o livro era uma ginástica.]
[não fique doido, filho,
mas se ficar, seja um doido
manso, se não for, morda
só um pedaço, se não der,
morda devagar,
pensando que é caviar.]
[a chatice ideológica
é tão chata,
tão chata, que até os chatos
de carteirinha, diante
de um chato ideológico,
ficam simpáticos.]
[tão tosca
era a sua linguagem
manuscrita, que um simples
traço continha
todas as formas geométricas.]
[despachou a província
em um cargueiro sem destino
para que ela aprendesse
a se desprovincializar.]
[as escolas literárias
já estavam todas incendiadas
quando ele passou
a caminho do mar.]
[e então ele letrou
a rua
com uns passos de solidão.]


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