[LADRILHOS, PARTÍCULAS, MIGALHAS, VIDRILHOS]

[a mediocridade é a mais 
sedutora e hipnótica das bruxas. 
atrai como a serpente 
atrai o passarinho.]

[no olho da fervura, há 
mais poesia 
do que nos compêndios 
de verso e prosa, 
nos tratados altivos, 
nas falas da soberba.]

[bem cedo, ainda escuro, 
cortei a cebola, o pimentão 
e o tomate, amassei o alho, 
e fiz o cozido exalar pela casa.]

[disse o velho que ideologia 
é tal água aberta no quintal: 
ora inunda tudo, ora vai 
por trilhas aqui e lá, direita, 
esquerda e pelos meios.]

[com o prumo do pedreiro, 
você pode aprender a dar o corte, 
no final da linha, 
no próprio coração 
da imagem. 
é o ritmo.]

[torquês: 
ótima ferramenta 
para um poema.]

[o novo, agora, só na criptoteca, 
com os códigos indecifráveis. 
o resto é rede.]

[prantear. verter lágrimas 
por isto e aquilo. 
na antiguidade 
do dicionário 
ainda encontro tais pepitas.]

[na oficina, para construir 
o poema, ele fez antes 
uma incisão na rocha.]

[nesta altura das contendas, 
já sou o homem 
que palreia com os livros. 
digo-lhes onomatopeias 
e escuto: a língua 
deles soa tal música.]

[nomeávamos cada coisa 
com outro nome: nuvem 
era valsa, matagal era teatro, 
a noite, manto, e a frase, 
para a frase 
um nome por minuto.]

[o poema, então, meu amigo, 
é a água derramada do vaso. 
após o derrame, manter 
do lado de fora a forma 
do vasilhame que a continha.]

[o livro é um veículo que, 
mesmo em altíssima velocidade, 
você pode pular 
fora sem risco de fraturas.]

[tipos ideológicos: 
o que é, sem que pareça ser, 
embora gostasse 
de parecer que é, 
não fosse a canalhice 
de posar que é outro.]

[águas de março, águas de junho. 
o que fez o tempo enlouquecer 
tal graveto 
dentro de um redemoinho?]

[um cérebro 
de polainas 
só produz textos 
de polainas.]

[lembro-me: nublinava 
em belo horizonte. 
verbo nublinar: 
não existe. 
mas deve ser inventado.]

[nenhum poema 
usa mais a solar 
palavra arrabalde, 
que vem do árabe ar-rabd
e logo se turva, soturna, 
com os us 
da palavra subúrbio.]

[ele vincava de tal modo 
as palavras que o poema 
exibia-se tal fraque 
em vitrine de alfaiataria.]

[o mais, mais ainda, 
não suportou a luz vespertina, 
a luz que fenecia, 
e foi à taberna 
com o menos, 
o menos ainda.]

[bem avisamos 
que o poema 
era dentro de outro poema 
e o poema de dentro 
era o poema de fora, 
salvo erro, salvo engano.]

[intempérie é uma bonita 
palavra com esse tropel 
de sílabas, tropel 
que avisa o que vem, 
taróis de chuvas 
e trovoadas.]

[saltou uma palavra 
do dicionário. 
e a palavra era aprazível.]

[resistir é limar a lâmina, 
tinir o metal e dar 
uma banana 
para os energúmenos.]

[lia em voz alta um livro 
de jean-luc nancy 
e os pardais todos 
chegaram em palreações 
de simpósio.]

[era uma imagem 
quase de fruta: a lua 
das cinco da tarde 
sobre a place vendôme.]

[aquele livro de heidegger 
sobre heráclito e essa cerveja 
tão lânguida, tão à espera, 
tão senhora de seu copo.]

[essa aflição pela poesia. 
calma. sossega. a poesia 
não é um cachorro 
com a língua de fora.]

[há uma multidão 
de ex-amigos 
que tomou o bonde 
para a ruína.]

[há uma estrada lezama 
e há uma estrada borges. 
e há a estrada macedonio.]

[fracassei, mas ainda assim atiço 
a pedra em outra pedra 
para as faíscas de poesia.]

[o diário argentino 
de gombrowicz. 
infatigable el viento
primero anotaré los hechos
navegamos 
por el delta del paraná.]

[ler o livro para que dele 
já não reste nada. e então 
recomeçar a leitura. 
a partir do nada.]

[então vamos ler 
o que ainda 
não está escrito.]

Comentários

Postagens mais visitadas