[O ASSASSINATO DA MOSCA]
A primazia do delírio sobre a razão ocorreu no minuto seguinte à nossa chegada ao Clube das Redondilhas. Entramos e logo o delírio mostrou as suas engenhosas trapaças: matou-se a mosca. Não era mosca qualquer aquela. Já se completavam dois dias que o poeta Arturo Homem cuidava amorosamente daquele díptero braquícero em um vidro de maionese. Convergiram, com certeza, alguns vetores para que o sinistro ou mosquicídio ocorresse: a nossa entrada coincidiu com o último treino a que Arturo Homem submeteu o inseto, qual seja, voar em círculos espiralantes e depois voltar ao vidro mediante um pouso doce, terno, silencioso. Aconteceu que no voo da mosca em espirais, espirais muito apreciáveis por toda a plateia do Clube das Redondilhas, havia um erro de cálculo ou quiçá um impulso suicida. A última espiral deveria se dar em sentido horário como as outras espirais. Isto caso a mosca, por algum mistério da navegação aérea, não tivesse bruscamente guinado o voo para sentido anti-horário e se colidisse com o nariz do nosso ídolo em redondilhas, Francisco Duarte Quetzal. O som do tapa ecoou de mesa em mesa até encontrar o rosto em pânico de Arturo Homem. Pânico, primeiro; depois, desconsolo ao intuir o minúsculo corpo da muscidae sobre os gélidos ladrilhos do nosso Clube. Nem adiantou que o mosquicida Francisco se desculpasse em vênias e vênias e confessasse ao proprietário da mosca que imaginara mão do além a lhe roçar o narigote, razão pela qual o delírio se sobrepôs à razão, e a mão involuntária, cega, praticasse tal ato infame. Por fim, choramos todos. E a noite foi uma noite deveras triste.
