[AS BIOGRAFIAS DE POLICARPO AZULES]


Há quem diga que todas as biografias tendem a pender, para um lado ou para o outro, os fatos relativos ao biografado. Não quer isto significar que os biógrafos sejam notórios mentirosos. Longe disto. E se um fato pende para um lado ou para o outro é porque, nos circuitos neurológicos do biógrafo, há motivos para que o fato seja melhor disposto em um lado, mesmo que os fatos atestem que aquele fato não ocorreu daquele lado.

Vejam: não é para ninguém ficar confuso com o que foi dito acima. Nem achar que o que se disse desvaloriza biografias, biógrafos, e, indiretamente, biografados. 

Mas vejam também: "Policarpo Azules nasceu em 21 de julho de 1951, em uma noite friorenta", escreve o biógrafo Glauco Antonil. "Policarpo Azules nasceu na madrugada de 22 de julho de 1951. Não fazia frio nem calor", escreve o biógrafo Segismundo Adônis. 

Pelo que se lê nesses dois exemplos, há clara e irrefutável dissonância entre os dois biógrafos. Mas qual dos fatos é o verdadeiro? Rubem Focs responde: "Nenhum".

Sim, nenhum. 

É que Policarpo Azules, escritor de brochuras pornográficas e um afamado devasso, só iria nascer em 1 de agosto de 1952, conforme o batistério assinado pelo padre Lima José e a certidão lavrada pelo tabelião Alkilim Barbosa. 

Ocorre que nem mesmo batistério e certidão eram documentos igualmente verdadeiros, dado o indício ou boato de que o próprio Policarpo "instou" padre e tabelião ao equívoco. Fez isto, de acordo com os rumores, porque uma cartomante de nome Ventanilha cochichou às suas orelhas o perigo de ter nascido em outra data que não o 1 de agosto de 1952.

Biógrafos posteriores a Glauco Antonil e Segismundo Adônis, que ignoravam a existência da cartomante Ventanilha, tiveram acesso a uma pasta azul que uma das amantes de Policarpo guardou com tanto zelo em uma gaveta de sua penteadeira. 

E o que havia na pasta? Pelo menos oito datas, nenhuma correspondente a 21 de julho, 22 de julho ou 1 de agosto. Impotentes diante dessa fartura de natalícios vinculados a Policarpo, esses biógrafos decidiram adotar uma entre as oito ou dez disponíveis na pasta azul: a data de 2 de fevereiro de 1947. 

Rubem Focs não soube explicar o que terá motivado tal escolha. Ninguém soube, aliás. E a bela depositária da pasta azul teve um destino muito assemelhado a tais celeumas: para uns, chamava-se Natália; para outros, Josepha; para alguns, Esmeralda; para aqueles, Dirce. 

Hoje cedo, enquanto palreávamos Rubem Focs e eu sobre esses acontecimentos, surgiu-nos na lembrança episódio que selou a existência deveras atribulada do biógrafo Otto Sans. 

Ocorreu assim: autor de uma portentosa biografia do Marechal Cotovan, Otto Sans teve o seu busto de bronze levado ao chão por um trator da prefeitura de Águas Lindas. A moção para essa desleal arremetida de uma máquina contra o busto do indefeso biógrafo foi do vereador Tantas Vezes (apelido de Onofre Silva). No arrazoado que sustentava a moção, o edil registrou: "Otto Sans nunca existiu, muito menos o Marechal Cotovan".

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