[O PULSO DO ESCRITOR-QUE-NINGUÉM-LÊ]
[pegamos no pulso esquerdo do escritor-que-ninguém-lê e não conseguimos perceber latejamentos ou fluxos de qualquer natureza.]
[um de nós comentou que ele poderia estar morto.]
[éramos três e retornávamos das derradeiras para a primeira página.]
[o escritor-que-ninguém-lê estava dependurado no trapézio por uma corda que descia até bem rente ao picadeiro.]
[o circo estava abandonado.]
[de tempos em tempos, alguém relatava a presença de palhaços mortos: seus fantasmas muito fora de moda e tropeçantes.]
[esses fantasmas não faziam mal a ninguém e até lembravam crianças desajeitadas.]
[monos de pelagem desbotada, que a morte havia esquecido, vagavam para lá e para cá com os seus cajados.]
[bandos de pessoas, residentes na vizinhança e acostumadas a histórias retilíneas, vinham manifestar e expressar interrogações diante da cena.]
[tais gentes não conseguiam entender por que um escritor (escritor-que-ninguém-lê) dependurava-se por uma corda desde o trapézio e se desfalecia sem latejamentos e fluxos nos pulsos com a boca rente ao picadeiro.]
[vinham, olhavam, se interrogavam e partiam como se metafísicas bípedes sem rumo e destino.]
[voltamos a apalpar o pulso do dependurado.]
[nada.]
[os monos decrépitos nos imitavam, um deles ria, todos sem dentes.]
[incapazes de gestar uma solução, fomos, devagar, para a última página.]
[e foi triste constatar que na página final, a 345, um pouco antes da virada para o colofão, o escritor-que-ninguém-lê também não existia.]
[um de nós então perguntou quem éramos.]
[também não soubemos dar qualquer resposta.]

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