[ANOTAÇÕES SELVAGENS]
[estar à margem é um grande trunfo: ninguém vem lhe dizer se o poema é ruim ou perfeito. se você chega, quando pertence às margens, todos os que o avistam mudam de assunto. ninguém perguntará sobre os caminhos que percorreu desde tão longe. estar à margem é um grande feito até mesmo pelo manto de silêncio que recobre os seus passos.]
[o ininteligível começa a ficar mais corajoso quando o poema entra em um beco sem saída. primeiro, o ininteligível adota a neblina; depois, ao se achar senhor do hermetismo, ele adota as trevas. e o poeta, sem perceber tal emboscada, entra cada vez mais no beco. e o poema, feito assim de cadeados e correntes, não é lido nem pelos gatos que espreitam no desvão da noite densa.]
[no ensaio, ficou registrado o instante em que a mola propulsora do poema entrou em pane, e nada, absolutamente nada pôde ser escrito em tal desastre, nem mesmo as palavras mais melífluas e adocicadas, tudo tornou-se impossível com a pane na mola propulsora do poema. só restou ao ensaio produzir o retrato dessa hecatombe.]
[para falar, é preciso ter voz. qual voz, no entanto, servirá ao que, dela necessitado, vai às cegas pelo texto? em qual parte, em qual tempo, quando a voz que se quer é por fim encontrada? tom, matiz, nuances, extensão, altura, cor. qual voz é a que chega ao que escreve? aquele que escreve saberá reconhecer na madrugada insone a chegada da sua voz? em qual parte do texto ou em qual lacuna intervalar a voz será a voz tão desejada? errático, o ensaio não responde.]
[o ensaio, como um candeeiro de luz trêmula em meio às sombras, pode iluminar certas aflições que tomam de assalto um autor não lido. neste caso, o ensaio é um militante do esclarecimento. não cura as aflições. não indica um caminho para o autor. sua luz, porém, luz titubeante e quase tátil, é uma afável companhia ao peregrino da escrita, este que, talvez, jamais encontrará o banquete de ser lido.]
[o destinatário do ensaio-poema ou do poema-ensaio move-se constantemente de lugar, e essa inquietação migrante ou é uma modalidade de jogo ou é mero acaso. em certas épocas, porém, os destinatários ficam ao alcance do olho. quase dá para sentir o pulso deles, sobretudo nos instantes em que a poética confunde-se com a ordem dos abraços.]
[os que somos os menores somos também ungidos e guiados pelos anjos imperfeitos, esses mesmos anjos que nos ensinam a admirar as linhas tortas, os gravetos secos e as sementes que não vingaram. e também admirar os poemas que não deram certo.]
[distancio-me passo a passo da noção de poema em sua feição e genealogia como poema. aproximo-me mais mais de fragmentos em sua forma em ruínas como nos pré-socráticos. diria: mais para barthes do que para novalis; mais para parmênides do que para cioran; mais para wittgenstein do que para nietzsche; mais para as batidas curtas do berimbau do que para o fluir da flauta.]

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