[EM TRIESTE, NO CAFÉ MOJORES]
[Os camarões enlatados da marca Nogalitos (para quem não os conhece, são secos, miúdos e polvilhados com especiarias picantes) ainda podem ser degustados no Café Mojores, de Trieste, o mesmo aprazível e distinto estabelecimento já centenário onde o escritor Carlo Nubs costuma receber os amigos nas tardes de quarta-feira. Ali estive, no mês passado. Levava comigo algumas edições raras de manuais de pesca. Entre eles, cito um pequeno compêndio, não propriamente sobre a arte pesqueira, mas sobre a atitude que deve ter o pescador em locais de arriscado acesso, locais pouco frequentados, locais regidos pelo acaso, já que nunca sabemos se terminamos o dia com o embornal farto ou com a paciência rota. Carlo Nubs ficou comovido ao folhear essa edição que lhe caíra em mãos, pela primeira vez, fazia uns vinte anos. Ouvi-o dizer, de cor, frases inteiras sobre a arte da paciência ali contida, especialmente ali pela página 50, onde o autor do compêndio (omito o seu nome por motivos de segurança) compara o pescar com o escrever. Foi então que Carlo Nubs pediu ao garçom (um croata sessentão) os Nogalitos. O próprio Nubs fez questão de abrir a lata. Exalou-se pelo Café Mojores a hipnotizante sedução das especiarias. E o garçom, passo seguinte, ofereceu-nos as claras cervejas Nugars, claras e fortes, muito apetecíveis quando combinadas com os Nogalitos em seus incêndios apimentados. E foi-se a tarde. Veio a noite. Trieste estava como dantes. Fronteira de mundos e de sabores. E ainda pude, ao final da jornada, lançar aos ares os redemoinhos e as espirais de um puro da Etiópia, composto por metade tabaco, metade penugem de ninfas.]

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