3.9.25

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures. 

É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures. 

É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam. 

É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.

A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.

Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.

Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.

É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.

Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.

Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]