[ATIÇARAM EM NÓS A CACHORRADA]
Atiçaram em nós os cachorros. Todos eles. Um rabicó de barbicha, um dentuço de barriga branca, os irmãos galgos, a poodle de gogó ruivo, e o ferrabrás parente de lobo, enorme e imenso, grandalhão halterofilista, certamente líder da matilha. Íamos pela Rua Formosa, seguimos até a Rua dos Abacateiros, e entramos os três pela Rua Ventania. Diante do número 104, paramos. Nosso irmão mais novo foi lá e tocou a campainha. Levávamos as palavras do pastor Jesualdo, novas palavras por ele inventadas em contos e histórias sobre a graça, o perdão, as aleluias. Muito bem ensaiados estávamos. O mais velho de nós começaria o jogral, o do meio que era eu pegaria a cauda da frase dele e entoaria outro tanto de sábios dizeres. Por fim, o mais novo de nós, Joãozito, faria a conclusão em altissonantes agudos. Ele, pois, foi o que tocou a campainha. Demorou um tanto até que o Senhor Obesito abrisse a portinhola de vidro verde e apontasse de lá a cara que lembrava a rodela de queijo. Nesse fatídico ínterim, a cachorrada já começara a latição muito assemelhada com o nosso ensaiado jogral. Nosso irmão mais velho, autoridade, veiculou ao Senhor Obesito o motivo da visita: pastor Jesualdo escolhera aquela nobre família para receber as novas palavras da salvação. Senhor Obesito ficou calado um bom naco de tempo. Mas não disse ah nem oh. Só abriu a porta e atiçou em nós a cachorrada.
