[O MÁGICO DA RUA TRIFANA]
Naquela noite, disseram que no trecho da rua Trifana a poucos metros da Pirapetinga, lado direito, ocorriam fatos inacreditáveis. Por exemplo, coelhos que saíam aos montes da cabeça de um homem de boné cinzento.
Há pouco, três transeuntes subiram lentamente a Trifana, e estavam muito alegres esses três peregrinos notívagos como que desgarrados de outros bandos de notívagos na noite belo-horizontina. Um era arquiteto, os dois outros poetas. Um, aliás, poeta-letrista que trouxera o talento do norte de Minas para a epopeia musical das esquinas da cidade.
Tocaram o interfone. De lá, soou a voz doce e afetuosa que lhes abria passagem e entrada. Degrau por degrau, os pés desses três peregrinos subiram pesados de vão em vão pela escadaria até que, chegantes, foram recebidos pelo imenso sorriso de um menino que vivia dentro de um mágico.
O apartamento era de um aconchego que parecia abraços lançados aos visitantes. No centro da sala, uma mesa toda em madeira lavrada, antiga, com um porta-joias prateado onde estava grafado os serviços diplomáticos prestados pelo dono da casa na embaixada brasileira em Madri. Ao lado do porta-joias, um vidro de cristal bem abastecido de uísque.
Prosearam à vontade pela noite adentro e afora. O mágico, de quando em quando, como que tomado pelo espírito da fuzarca, lia em voz alta trechos de sua obra. Ou então alguns parágrafos dos seus contos que a tradutora Pavla Lidmilová vertera para o tcheco. Tradução que nem ele entendia e muito menos os gargalhantes peregrinos ali sentados à sua volta, como que acomodados sobre o tapete voador movido a farto uísque.
Veio então a madrugada e a tertúlia pândega chegou ao fim com as despedidas altissonantes de anfitrião e visitantes. O mágico, com certeza, de seu andar, ouvia muito bem as gargalhadas dos três amigos Trifana acima, a caminho da Afonso Pena. E se um anjo boêmio por ali passasse e os visse seria capaz de avisar ao senhor dos céus e dos tempos que eles iam em paz absoluta pela rua.

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