19.2.26

[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]

[no princípio 
não era o verbo,
mas o pão de queijo. 
assim afirmavam gozosos 
e pândegos 
aqueles marinheiros. 

não marinheiros de alto-mar, 
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos 
de navegação 
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos 
ali para os lados 
do bairro da floresta.

bastava lançar a isca 
de um vocábulo 
que eles puxavam o anzol 
das frases. e então navegavam 
pelos mares da língua. 
aliteravam lua linda 
lábio luva leque 
lépido larápio. 
e faziam redondilhas. 
e litotes. 
e puxavam do bolso 
do paletó um limerique 
de formato irlandês
em louvor a james joyce. 

e depois, ao silêncio 
que vinha 
após tais simpósios, 
acenavam 
para quem passasse 
àquela hora, 
podia ser o poeta 
libério neves 
a caminho de santa tereza, 
podia ser o manoel lobato 
rumo à sagrada família.

e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano, 
espécie nova de mineiro 
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.

"a vida? 
ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo 
aliterava porções 
do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vagalume,
tudo pelas artes 
da namoragem com a língua.]

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