[O SENHOR PONS E A CHAVE DO ENIGMA]

[vamos imaginar que em certo trecho de uma rua pela qual você um dia caminhou exista um sobrado azul.]

[o sobrado azul possui um portão azul e as janelas são identicamente azuis.]

[o telhado do sobrado azul não é azul, é claro, mas o madeirame da cerca que dá para um quintal foi pintado de azul.]

[vamos imaginar que você, no dia em que fez a tal caminhada, não tenha notado o sobrado azul, muito menos os azuis que o compunham: o portão, as janelas, a cerca.]

[ao contrário, só deu atenção para outro sobrado, este verde, e em outro trecho da rua, com portão verde, janelas verdes, e a cerca, esta dando para um quintal exuberantemente verde.]

[vamos imaginar que você, ao ignorar o sobrado azul e ao fixar a sua atenção sobre o sobrado verde, tenha cometido o maior equívoco de sua vida.]

[vamos imaginar qual foi este equívoco: enquanto o sobrado verde, que você tão atenciosamente percebeu, estava vazio, sem vivalma, há muitos anos fechado, no sobrado azul, que você ignorou, vivia o senhor pons.]

[vamos imaginar que o senhor pons era um velhote muito amável, aqueles velhotes com aparência de imortais, que parecem saídos de um livro de sortilégios, aqueles livros que, uma vez abertos, desencadeiam todos os tipos de acontecimentos inesperados.]

[por exemplo, arco-íris à meia-noite.]

[vamos imaginar que, assim que você passava pelo tal trecho de rua, o velhote senhor pons tenha lhe acenado.]

[assim: as duas mãos gordotas para o alto, agitadas, e o sorriso de velhote bondoso emoldurado pelas bochechas rosadas.]

[e você não viu o aceno, pois já lançava o olhar para o sobrado verde.]

[vamos imaginar que o velhote, naquele aceno, queria dizer que possuía a chave do enigma.]

[vamos imaginar que a chave do enigma era a razão de sua vida, e que você esperava encontrá-la justamente no sobrado azul.]

[mas você, indiferente ao sobrado azul e aos acenos do senhor pons, perdeu a chance de ter a chave do enigma em suas mãos.]

[vamos imaginar que, muito tempo depois, você agora está à beira de um porto, com o rosto entre as mãos, desolado por não ter encontrado a chave do enigma no sobrado azul.]

[e que o mar, naquele trecho de baía, com o óleo de navios a dançar na lâmina das águas, era o único a assistir à sua própria desolação.]

[vamos imaginar que você, tão logo se levantou da beira do porto, e foi dormir na pensão de marinheiros daquele lugarejo de fim de mundo, encontrou um modo de escrever no seu diário uma pequena história.]

[a história de um homem que procurara a chave do enigma no lugar errado.]

[e que agora, já velho, só se distraía com as barcaças que ali atracavam, e depois partiam, vagarosas pelo horizonte do mar, como se fossem um adeus navegante.]

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