[A CAPELA]


Foi o motorista quem disse que depois da curva, em subida muito íngreme, ficava a capela. Acreditamos. O carro era de um modelo muito antigo, parecia um dinossauro de quatro rodas. Morro acima, a ronco de motor, conversamos pouco. Só uns murmúrios do Otávio, uns suspiros do Joca, uma tosse minha, quase palavra. Quando o automóvel chegou no alto, o céu era de várias nuvens enfileiradas, umas mais escuras do que as outras. Vimos um cachorro vesgo, depois um garrote, depois uns pássaros cinzentos sobre o arame de uma cerca. O motorista parou, disse: "chegamos". Olhamos em volta, pelo sul, pelo norte, pelo leste, pelo oeste, nada. Não vimos a capela. O motorista viu que frustávamos em pesar e desgosto. Quis consolar: "no mês passado a capela ainda estava aqui, posso garantir". De nada adiantou a falsa doçura das palavras dele. Otávio andou em círculos pelo descampado. Joca ficou rente à cerca, sabe-se lá em qual assunto ele matutava. Eu disse ao motorista: "viagem sem graça e inútil". Ele olhou-me assim de um lado para o outro, os olhos como que limpadores de para-brisa. Voltei a dizer: "só pagarei a metade, em consideração". Vi que um mar se encrespava no rosto dele. Parecia revolta se armando como se chuva. Vi que era raiva. Joca percebeu. Assoviou para o Otávio, se aproximaram. Os rostos muito pálidos. Faltava cor nas bochechas deles. Mãos trêmulas. O motorista bem quieto, com a raiva engarrafada. Pressenti o pior. Joca então falou devagar como um riacho em terra plana: "O senhor pegue o carro, volte, desapareça. Quem prometeu capela não pode oferecer cachorro vesgo". O silêncio estava cheio de possibilidades. Mas o motorista se afastou, ligou o motor, deu a volta e sumiu de nós. Rezamos então os três, no descampado mesmo, em memória de nosso pai.

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