[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]

[o velho disse:

− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.

− há uma zona de fricção
entre um e outro.

− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não-saber
que explora as múltiplas possibilidades.

− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.

− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.

− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.

− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.

− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.

− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]

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