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8.3.21

[ESCREVO ESTE POEMA PORQUE ME FALTARAM PREGOS]

[escrevo este poema porque me faltaram pregos. os pregos para fixar a tábua. a tábua para construir a mesa. a mesa.]

[com o martelo em declive, percebi a lacuna, o orifício, a falta. é que os poemas só tentam substituir os abismos.]

[os poemas não são caminhões azuis em curva morroacima, os melancólicos caminhões com os seus motores agônicos.]

[os poemas não são o aguaceiro em oblíquas, num lado só das cumeeiras, a banda canhota da chuva, os poemas não são.]

[mas escrevo este poema porque me faltaram pregos. era um projeto de mesa, a mesa para receber as gentes, as gentes.]

[as gentes em comunidades, gentes esburacadas pela ausência de armas, as gentes quase invisíveis pelas asas da bondade.]

[faltaram-me os pregos para a tábua, faltaram-me os pregos para a mesa, e as gentes, em sandálias, ficaram sobre a pedra.]

[a pedra de gelo que se esvai ao sol, a pedra sem peso na palma.]

[na palma de mãos tão dadas, mas impróprias para a natureza do poema.]

28.2.21

[DESFRONTEIRIZAR]


[trago ao poema a palavra 
virabrequim, dou às roldanas
a fulgurância de um léxico
metálico, ponho sonoridade
estrovenga em um tubo
de vento, quero, na velhice,
desfronteirizar os guetos
e os apartheids da língua.]

23.2.21

[RELEITURAS DO NÚMERO TRÊS]

[as três linhas do haicai; a mãe
que grita ao filho "vou contar até três";
as três pessoas da santíssima trindade;
as três batidas na madeira

para que o azar caia fora, e nos deixe,
e nos abandone; as três marias 
de mãos dadas no céu das constelações;
os três operadores da dialética, posto

que tese, antítese, síntese; as três
dimensões do tempo, posto que passado,
presente, futuro; os três ângulos
do triângulo, posto que reto, agudo,

obtuso; as três classes do triângulo,
posto que equilátero, isósceles, escaleno;
a magnífica harmonia do três, sobre a qual
disse virgílio em sua exclamante

omne trinun perfectum; os três
reis magos, posto que melquior, baltasar,
gaspar; as três oferendas dos três magos,
posto que ouro, incenso, mirra; o feito

três vezes feito, posto que na lei judia
isto quer dizer permanente; o elo
do um com o dois, posto que na cabala
o três é paz e integração; o prisma

da luz em três cores primárias, posto
que azul, amarelo e vermelho; os três
pontos da assinatura maçônica; as três
matérias do trívio medieval, posto

que gramática, lógica, retórica; os três
estágios da visão aristotélica, posto
que princípio, meio, fim; o triplo
de três que me coube, posto que a casa

traz no frontão o número 333; as três
folhas do trevo, posto que acaso, posto
que sorte nos ermos do jardim; o três 
da flor-de-lis, formada pelas gotas 

do leite de hera; os três mosqueteiros
de dumas; o três não nomeado, não dito
pelos ianomâmis, imencionável numérico; ou
o três argolante-enlaçante do nó borromeu.]

18.2.21

[QUANDO PAUL CELAN VINHA A ESTE BANCO DE PRAÇA]

["ninguém", ele respondeu,
ele cujo nome é ninguém.

o que faremos com ninguém, cujo
nome é ninguém?

a repetição infinita, "ninguém", 
ele respondeu, ele cujo nome é ninguém.

o escape da caverna de polifemo: ninguém.

a corda sol outra vez que repete: ninguém.

a flauta outra vez que insiste: ninguém.

o rosto na lâmina do lago: ninguém.

acorrer à praça, em tempo ainda remoto,
quando paul celan vinha a este banco,
ainda quando as romãs se davam
em maciez e cio às mãos 
que lhes abrissem a polpa.

todos os cachorros seguiam o velho.
escrevíamos no tronco das árvores.
mansuetude era a palavra que a rã
levava em seu dorso, sempre a oriente,
sempre a oriente, a caminho da humildade.

e ninguém disse então o seu nome: 
"ninguém". ninguém
cujo nome é ninguém. pontilhismos
gráficos letrais sobre a tela da nossa imagem
difusa, em desaparecimento. "ninguém",
ele respondeu, ele cujo nome é ninguém.
"ninguém", respondemos. nós cujos nomes
eram múltiplos ninguéns. 

a turba das vozes mudas.
a marcha peregrina dos silêncios.
o caroço sem amêndoa, o fim
das retóricas e das poéticas,
era o que líamos no tronco das árvores.

e ninguém.
"ninguém", mais uma vez respondemos. 
"ninguém", mais uma vez insistimos,
perseveramos à espera de outra romã 
por fim pendente: tesa lasciva entreaberta.]

15.2.21

[A HORA DA MORTE DE EDMOND JABÈS]

[é o ano de 1991
e daqui a pouco vai morrer edmond jabès. dez
minutos, talvez quinze, assim nos conta
o poeta josé ángel valente.

jabès lê michel leiris.
jabès lê o último poema
de um caderno de leiris cujo título é fissures.
é um caderno de capa vermelha, publicado
em 90 (ano da morte de leiris) pela editora fourbis.

assim nos conta josé ángel valente sobre a morte
daqui a pouco, serão dez ou quinze minutos
para a morte de edmond jabès.

o poema que ele lê no caderno de leiris
assim diz: pautado, fixado, cercado, nada é já nada
quando já nada está em suspenso.

jabès está na sala. josé ángel valente não diz,
mas posso imaginá-lo em sua poltrona, posso
imaginar as suas mãos, posso imaginar
o seu fôlego enquanto lê o último poema
de um pequeno opúsculo de michel leiris.

por um momento, arlette jabès vai à cozinha.
por um momento, eis o intervalo de dez
ou quinze minutos, arlette jabès
vai à cozinha para cuidar de um assado.

o poeta josé ángel valente não diz, mas posso
imaginar a quietude na casa de jabès enquanto
ele lê michel leiris em sua poltrona
e sua mulher arlette vai até à cozinha.

jabès lê em sua poltrona, ao lado de uma escultura
em madeira feita por piera rossi, judia sefardita
e prima de arlette.

dez minutos, quinze, um pouco mais ou um pouco
menos, isto nos conta o poeta josé ángel valente.
dez minutos ou quinze, um pouco mais, um pouco
menos até que arlette volte à sala.

jabès está morto. o caderno de leiris,
caído de suas mãos, está aberto na última página,
lá onde se lê: pautado, fixado, cercado,
nada é já nada quando já nada está em suspenso.

pouco antes de morrer
(e isto nos conta josé ángel valente),
jabès disse a arlette ter sonhado com um dia
muito claro em paris, no jardim de luxemburgo.
no sonho, jabès se encontrava com leiris.
no sonho, leiris o abraçava, alegre, e dizia:
"quem ia dizer que não voltaríamos
a nos ver tão depressa?"

assim nos conta o poeta josé ángel valente
sobre a morte de edmond jabès. assim
repito o poema do poema, redigo
o que já dito, amêndoa dentro da cápsula,
cápsula dentro da amêndoa.

foram dez ou quinze minutos
para que o poeta virasse âmbar.]

14.2.21

[AS PALAVRAS COM UM LÁPIS NO DORSO]

[desfez-se, por fim, o céu-
ferrugem, céu das chapas
de ferro em óxido
nos quintais abandonados.

agora é o azul. ouço
a saudação dos pássaros,
e os urubus, altaneiros,
vagam pelo ar rarefeito.

é assim a vida, diz o velho.

eis o velho à beira da estrada,
essas mãos milenares,
esse olhar para o azul
agora composto de alegrias
recém-nascidas, esse azul
que verte o seu néctar
sobre os telhados da vila.

o velho assiste à comunhão
do dia com a escritura dos simples.
é o lápis no dorso das palavras-formigas,
é o lápis no dorso das palavras descalças.]

6.2.21

[ESCREVENTES]

[Uns, efêmeros, escrevem na areia 
para que as ondas 
lavem e o sal corroa 
o corpo das letras, 
e para que a manhã dos mares 
seja testemunha,
não de frases ou palavras, 
mas de restos de sargaços, de quilhas 
carcomidas de barcos, de lemes 
e mastros avariados, de espuma 
pela boca de peixes mortos.

Outros, porque visionários, 
escrevem no bronze 
para que o vento, com os seus
chicotes de vento, 
e o tempo, 
com o seu olho insone 
de tempo, sejam pelas letras 
derrotados, e para que 
os séculos, com seus galopes 
de potro, com seus cascos de potro 
cego, grafem no metal os próprios 
ossos das palavras.

Uns, diletantes, escrevem 
nos feriados ou então nas tardes 
de domingo, e esperam, 
primeiro um inchaço, depois 
uma eclosão, por fim, esperam 
descer do teto a matéria 
gelatinosa e plástica 
que lhes servirá de letras, 
com as mãos eles aparam 
esses nacos e essas porções 
grudentas, quase bolotas, 
e ainda com as mãos 
eles passam a lambuzar 
de norte a sul a página, 
até submergi-la, até afogá-la
em gosma, para, enfim, 
sonolentos, de tudo esquecerem.

Outros, porque furiosos, 
escrevem com a ponta 
de um punhal depositada 
sobre o fígado. Convém manter 
deles certa distância, embora 
o risco para quem deles 
se aproxima esteja menos 
no punhal e mais no líquido
que eles fazem porejar da pele, 
um líquido gélido e ácido, 
sem brilho, porém volumoso 
ao ponto de ao final do dia 
envolvê-los com uma mantilha 
de luto, já quando as letras 
sobre a página tornaram-se 
irritadiças e ásperas.

Uns, precavidos, escrevem 
em linha reta para proteger 
suas frases dos abismos 
de um lado e outro da página, 
sempre avante é o que parecem 
dizer a todo instante, sempre 
avante com chumaços 
de algodão em cada orelha, 
sempre avante eles jamais 
permitem que o canto das sereias 
e as próprias sereias lhes venham 
roçar os corpos, 
e fazer dos corpos deles 
um país definitivamente
conquistado.

Outros, porque urgentes, 
escrevem o quanto antes 
para que não sejam 
surpreendidos pela noite em algum 
ponto ermo do deserto. 
Chegar o quanto antes e aonde 
quer que seja é para eles uma lei. 
Talvez, por isso, as letras 
que lhes saem são às vezes 
dardos, às vezes flechas; são às vezes um susto,
às vezes são sinais de rádio 
a anos-luz de nós, isto é, 
são fósseis de letras, 
como estrelas mortas.

Uns, delicados, escrevem 
com o braço em repouso 
sobre o dorso de uma pluma, 
provavelmente porque concebem 
as letras como se as letras 
fossem asas de libélulas. 
Convém dar a eles o direito 
ao silêncio, convém dar a eles 
o ambiente de claustro, pois, 
se o som de um clarim é capaz de 
desmoroná-los, 
de igual modo e efeito, o rumor 
do mundo pode desintegrá-los.

Outros, porque bélicos, 
escrevem nos gumes 
de armas brancas como o punhal 
ou a adaga. Esses costumam 
ter olhos vermelhos e língua seca, 
nunca suspiram de saudade 
e quase sempre estão 
de emboscada. 
Convém, pois, não compartilhar 
com eles a mesma rua, 
o mesmo andar de edifício, muito 
menos a mesma música.

Uns, gagos, escrevem 
cobrindo os buracos e os intervalos 
que o silêncio faz entre as letras 
e vivem constantemente em estado 
de síncope. São, por tais motivos, 
propensos a ritmos ensandecidos 
e dissolutos. Quando irados, 
sovam as palavras com os punhos 
ou as atiram no chão 
para serem pisoteadas. 
Contudo, se felizes, costumam 
engenhar palavras 
engraçadas, algumas magras, 
outras obesas, algumas sólidas, 
outras feitas de bolha.

Outros, porque larápios, 
escrevem a meio caminho 
entre a luz e as trevas, 
uma parte do rosto sob a névoa, 
a outra parte sob a sombra. 
Seres noturnos e vicários, 
apreciam recolher palavras na bolsa 
alheia, mais pelo gosto 
de desnutri-las 
do que com a intenção de utilizá-las. 
Não à toa, costumam possuir sinistros 
depósitos de palavras em decomposição.

Uns, solares, escrevem 
concedendo às palavras 
respiradouros e claraboias, 
escotilhas e janelas. Mesmo palavras 
mais soturnas ou mais enlutadas 
recebem deles frestas de luz 
nas partes onde as letras 
foram cobertas pelo musgo, 
pelo mofo ou pelo lodo. Amigos 
do sol, esses escrevem 
com assovios formados 
ou em doce formação 
no côncavo dos lábios.

Outros, porque melancólicos, 
mais escavando do que escrevendo, 
procuram as regiões sem luz 
no corpo das letras, 
não propriamente trevas, 
mas certos carnegões ou furúnculos 
ali depositados pelo tempo. 
A tarefa principal deles, portanto, 
é furar esses carnegões prenhes 
de humor enegrecido e barrento, 
fazê-los escoar a baba e o visgo 
entre as frases, de tal modo que, 
no fim de cada dia, densas camadas 
de matéria semelhante ao piche 
foram espalhadas 
sobre o corpo da escrita.

Uns, feirantes, 
escrevem nas manhãs dos bairros 
suas palavras-legumes, 
suas palavras-folhudas, 
suas palavras-grãos, 
suas palavras-frutos. 
Ou então fazem exuberar, 
aos olhos leitores dos cachorros, 
bandas de leitões, frangos 
dependurados pelo pescoço, 
suãs de novilhos, pernis de cabritos. 
Convém observar a ânsia 
com que oferecem consoantes 
secas e vogais molhadas pelo 
megafone, convém observar 
como são artífices de cálculos 
contabilidades, convém observar 
como estão permanentemente 
em estado de prateleira.

Outros, porque tribunos, 
põem as palavras na ceva 
para que elas ganhem volume e peso, 
e adquiram banha, e se tornem 
suculentas. Só então eles 
aceitam utilizá-las nas frases, 
umas escolhidas pelo tamanho 
do dorso, outras pela exuberância
das ancas. Convém de quando 
em quando revolver o lixo 
deixado por esses tribunos nos cantos 
da oficina, pois, ali, entre monturos, 
pedem socorro as palavras 
raquíticas, as palavras 
desnutridas e agônicas.

Uns, catequéticos, 
fazem das palavras animaizinhos 
de mando, amiúde as palavras 
saem deles para missões 
incumbências, muito 
frequentemente podemos vê-las 
em pregações pelas esquinas 
das cidades. Convém não dar
ouvidos a essas palavras missionárias, 
menos pelo que elas propalam, 
mais pelo barulho ensurdecedor 
dos seus latidos e relinchos.

Outros, porque ourives, 
usam goivas e pontais de diamante 
para esculpir o corpo metálico 
das palavras. Faz bem aos olhos 
e ao coração observá-los tão 
enlevados neste ofício, 
faz bem observá-los tão meninos 
com suas palavras-anéis, 
suas palavras-braceletes, 
suas palavras-pingentes, todas 
em estado de baile.

Uns, suicidas, são dados 
a encaixar cápsulas de cianureto 
nos interstícios das letras, para 
então ingeri-las durante 
o sonho. Ou então preferem 
encharcar as letras com álcool 
ou gasolina, e assim, ao meio-dia 
em ponto de uma segunda-feira, 
e com a ponta acesa 
de um fósforo, escrevem 
cartas que jamais chegarão 
ao seu destino, pois 
incendiadas no meio do caminho.

Outros, porque acrobatas,
equilibram as palavras 
em fios de aço no mais alto 
ponto do circo. Algumas 
palavras são postas 
em fila, outras são empilhadas, 
e formam torres, ou se abrem 
em árvores, ou então simulam 
máquinas e engenhocas. 
Todas porém são obrigadas 
a contorcionismos em volta 
do próprio eixo. Contudo, 
é aconselhável saber que, 
quase sempre, o sopro 
de um anjo invisível desfaz 
essas formações de letras 
e, sem a menor cerimônia, 
as atira sobre a plateia.

Uns, nômades, louvam o próprio 
ir sem rumo das palavras 
por países e continentes, nem bem 
elas chegam e já estão partindo, 
um comichão inexplicável 
movimenta ininterruptamente 
esses comboios de letras, nada 
os retém, nem o olhar 
das mulheres que acenam 
de um tombadilho, nem as crianças 
em condição de abandono. Errantes, 
as palavras desses nômades 
estão sempre em estado de adeus.

Outros, porque estrangeiros, são 
os que geram palavras 
com o mal-estar do desassossego, 
as palavras deles jamais 
estão onde se esperaria 
estivessem, sempre cometem 
um equívoco de lugar e destino, 
e os leitores que as leem, 
quando as leem, costumam orar 
por esses estrangeiros 
como se aconselha orar 
para os excomungados.

Uns, inocentes, teimam 
em andar com as suas sacolas 
de palavras pelas zonas de litígio, 
atravessam com elas os campos 
de batalha, quase sempre são 
abatidos, ou então são feitos 
prisioneiros, não muito 
raramente são amestrados. 
E enquanto há guerra 
e há litígio, cumprem a ordem 
de divertir combatentes 
e comandantes em suas solidões 
de pernas atrofiadas, de olhos 
vazados, de vísceras à mostra.

Outros, porque usurários, põem 
pela manhã no cofre 
palavras gestadas durante a noite, 
anos a fio e para todo o sempre 
eles trancafiam em cofres 
as suas palavras-apólices, nada, 
ninguém os demove deste 
segredo,ninguém os convence 
ao gesto de soltar uma palavra matinal 
nos céus dos homens.

Uns, por fim, 
irremediáveis e danados, 
escrevem porque estão 
para todo o sempre 
e eternamente 
dentro de um círculo de fogo.

Outros, porque limítrofes 
ao círculo de fogo, escrevem 
e escrevem, escrevem 
para sempre escrevem, nada 
mais fazem do que escrever, 
sempre estiveram e sempre 
estarão destinados a escrever, 
não dormem, escrevem, não pulam 
dos edifícios nem tomam cicuta, 
eles escrevem, o fim é anunciado 
pelas trombetas, eles escrevem, 
as cidades são consumidas pela peste, 
eles escrevem, escrevem em busca 
e crentes da salvação que não há.]

[Escreventes, livro produzido 
artesanalmente, edições 2 luas, Belo Horizonte, 1998]

2.2.21

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

[o livro dos presságios, aberto
em dia errado, anunciava o barco

para a tarde, a horas tantas, entre
o dia e a noite, e seria um barco 

iluminado, traria tochas na proa, 
e ele embicaria porto adentro,

dois marinheiros o conduziriam
ao cais, ambos cegos, joão 

era o nome de um, jarbas
era o nome de outro, e as cordas

e os cordames, os nós e os laços
dos velames penderiam do mastro,

no convés o resto de peixes, a tinta
azul que grafava o casco, "ilusões

invictas" era o nome desse barco
anunciado para a tarde, isto conforme

o livro dos presságios, livro aberto 
em dia errado, pois previa para hoje

o que de fato seria ontem, equívocos
de mãos no desgoverno de um lapso, 

mas eis que a tarde apagava luzes, 
mas eis que a noite abria as portas

para novo expediente, mas eis 
que a roda dos calendários girou

com o súbito de um vento, mas eis
que a barra tingia-se de um fogo,

e então viu-se o clarão das tochas
na proa, joão e jarbas acenaram

suas mãos de sal, e o barco de hoje,
que era o de ontem, entrou no porto.]

30.1.21

[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]

[o velho disse:

− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.

− há uma zona de fricção
entre um e outro.

− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não saber
que explora as múltiplas possibilidades.

− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.

− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.

− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.

− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.

− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.

− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]

23.6.20

[ESTOU FALANDO COM AS PAREDES]


["je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. era
um sábado furta-cor em paris, um sábado
de frialdade metálica, amêndoas
saltavam dos olhos de cães negros,
de toda a parte surgiam os refugiados
com as mãos estendidas, e as chatas 
com meninos e meninas pintados a carvão
não paravam de navegar pelo sena.

"je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. 
e as paredes, altas, mistura de pedra
e aço, não eram as paredes da capela
sainte-anne, mas paredes elevadas 
havia pouco tempo, operários a mando 
de senhores invisíveis ainda acionavam 
guindastes, eram paredes que durariam
mil anos, durariam às hecatombes,
à bomba, aos terremotos e tsunamis. 

"je parle aux murs", e a voz do senhor
lacan reverberava sobre aquela superfície
agora pintada em tonalidade neutra, 
cinza, o acinzentado sem eco, assonante,
a voz ia e morria, a voz era um grão
em sua vaziez infecunda e estéril, a voz
golpeava o aço e a pedra, a voz ofegava
em sua persistência contra as paredes
elevadas pelos operários a mando 
de senhores invisíveis. e os refugiados,
os refugiados, os refugiados, os refugiados.

"je parle aux murs", ele disse, e a voz
era agora voz incapaz, voz não penetrante
no impenetrável que os operários a mando
de senhores invisíveis ainda construíam,
a voz não achava o furo, o orifício, 
a fresta, a ranhura, o desvão, a mínima
rachadura. a voz só rebatia seu próprio
som irreprodutível: seco, surdo, silente.]