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Correio Do Autor

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11.1.20

[LER BLANCHOT. O REDEMOINHO DE IMAGENS]

[um torrão de argila como prefiguração do livro. um torrão de argila com inscrições (livro) é atirado à água. a água é o público.

o que é inscrito no torrão de argila e depois atirado à água é o sonho. sonhou-se. 

e o modo de se desfazer de suas consequências funestas é inscrever seus signos característicos em um torrão de argila.

e, pronto, que essa prefiguração do livro vá à água, que é o público, o leitor prefigurado antes que seja de fato leitor.

são imagens que estão em blanchot. 

vocês sabem: imagens assim costumam desencadear outras imagens, fósforo aceso junto à palha seca em um campo deserto. 

feito o fogo, o horizonte será tomado pela fumaça até que as cinzas a princípio fumegantes sejam a matéria inerte à espera da metamorfose.

virá a chuva, carcaças de insetos voadores combinadas com pássaros que não puderam fugir, espinhas e cartilagens de lagartos, caracóis que o fogo consumiu.

e então a matéria, em metamorfose, dará à luz um ramo, e o ramo uma flor, talvez uma fava.

e os insetos e os pássaros e os lagartos e os caracois e as lesmas aparecerão aos poucos para de novo a festa da vida.

isto que pode estar em um sonho, o sonho que possa prefigurar um livro, torrão de argila com inscrições do sonho para ser atirado à água, ao público.

você volta a blanchot e percebe que nada disto consta do que ele escreveu logo a seguir à imagem do torrão de argila. 

você percebe que adulterou tudo o que foi dito por blanchot em poucas linhas de exercício de redemoinho, redemoinho de imagens, essa loucura da literatura.]

10.1.20

[A NAU DOS INSENSATOS]

[sebastian brant, natural de estrasburgo, publicou em 1494, em bergmann, na alemanha, o poema satírico a nave dos insensatos ou a nave dos tolos ou a nave dos loucos. albrecht dürer retratou brant e ilustrou a capa do livro.]

[o tema de brant são as stultifera navis, como michel foucault as estuda no primeiro volume de história da loucura: "de um lado, haverá uma nau dos loucos cheia de rostos furiosos que aos poucos mergulha na noite do mundo, entre paisagens que falam da estranha alquimia dos saberes, das surdas ameaças da bestialidade e do fim dos tempos. do outro lado, haverá uma nau dos loucos que constitui, para os prudentes, a odisseia exemplar e didática dos defeitos humanos."]

[o impressor flamenco josse bade ou jodocus badius, nascido em bruxelas em 1462, foi editor de um incunábulo sobre um tema de resto recorrente na idade média: em bosch, em jacob van oestvoren.]

[no poema de brant, que foi editor de obras de virgílio e petrarca, professor de direito e poesia, um grupo de loucos embarca em uma nave para narragonien, terra prometida dos aloprados, e segue até schlaraffenland, a terra da prosperidade. depois naufraga.]

["o impacto de a nau dos insensatos inaugurou uma nova e fecunda vertente: a literatura dos néscios ou loucos. integrando essa vertente estão obras e criações como: o elogio da loucura (1511), de erasmo; rei lear (aprox. 1606), de shakespeare; o aventuroso simplicissimus (1667), de grimmelshausen; certas figuras da commedia dell’arte; leonce e lena (post. 1842), de georg büchner; ship of fools (1962), de katherine anne porter", escreve karin volobuef na edição brasileira da martins fontes.]

[volobuef acrescenta: "no âmbito da literatura em língua portuguesa destaca-se o auto da barca do inferno (encenada em 1517)¸ em que gil vicente promove igualmente uma análise severa da sociedade do séc. XVI: fidalgo, onzeneiro, parvo, sapateiro, frade, alcoviteira, judeu, corregedor, procurador, enforcado e quatro cavaleiros procuram ser aceitos pelo anjo na barca da glória. nela, porém, só entram os quatro cavaleiros, que morreram por cristo, enquanto os demais (exceto o parvo) são levados pelo diabo à barca do inferno".] 

[paro por aqui e abro a janela que dá para os lados do brasil.]

[nossa nau dos insensatos, nau de navegação em terra, desce a ladeira da república.]

[nela estão embarcados os cínicos, os hipócritas, os arrogantes, os topetudos, os sabichões, os vendilhões, os traidores, os mendazes, os bucaneiros, os ruidosos, os pífios, os mesquinhos, os reles, os falaciosos, os impostores, os pérfidos, os velhacos, os ardilosos, os tartufos.]

[a nossa nau dos insensatos é todo um país embarcado rumo ao desastre.]

[OS TROMBONES DA RUA ANFIBÓLIOS]

[quando é madrugada, soam os trombones da rua anfibólios. austeros sons, rombudos sons, especiarias de sons em um cozido harmônico.

um cortázar de touca sobe a ladeira mínima da rua anfibólios. sobe e para, absorto, porque é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.

sou aquele que veio de longe, diz o cortázar de touca. cigarro aceso, cigarro apagado, assovio fino, assovio grosso, as alegrias polpudas e em cachos dos sons dos trombones da rua anfibólios.

aquelas moças que incendeiam as bandeiras, aquelas moças derrubadoras de muros. é madrugada, já soam os trombones da rua anfibólios, e as moças insubmissas ateiam fogo na cidade.

sou aquele que veio de longe, repete o cortázar de touca. em síncopes, os trombones da rua anfibólios acompanham os passos do andré de sapato novo.

o choro. o chorinho. a luz do poste. o beijo carmim. o jaguar da noite. a navalha. o chapéu borsalino. pixinguinhas que vão, pixinguinhas que vêm. é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.

a poesia não é. a poesia é o que não é. carotes de vinho amargo em prateleiras abandonadas. o sal corrói as paredes. o pai mostra ao filho a bala em um círculo a lápis na parede. tudo é adusto, tudo é sanguíneo. mas é madrugada e soam os trombones da rua anfibólios.

o cortázar de touca e as moças derrubadoras de muros agora em colóquio na ladeira mínima da rua anfibólios. a revolução chegará como se um gás, como se um som, como se uma chispa-faísca. os idiotas não passarão. é madrugada e já soam os trombones da rua anfibólios.]

9.1.20

[O CARROSSEL INFINITO]

[um leitor nunca é o mesmo
a cada vez que lê o texto.
por isto, eu repito sem fim
o meu carrossel infinito.

dou a ler o que já era lido,
um talvez pão que de novo
divido, um constante manejo
de um canteiro sempre vivo.

semear, colher, repartir,
até que semente e flor
sejam cacho, fruto, luz
ou raio nos olhos do leitor.]

7.1.20

[O SALTO AO ACASO]

[aos poucos, faço
que o lápis fique
mais leve
do que a letra,

subverto as leis
da física, o salto
ao acaso do jaguar
em sua própria sombra,

simulacro de um desenho
que capta o instante
de um desaparecimento,

tudo isto que o lápis,
tão leve, tão pluma,
tão pena, tão nuvem,
vem ocupar
na folha ausente,

desnorteios ilógicos
de um jogo sem vencedor
e sem vencido,

dizer assim tão baixo,
em sussurro:
tão íntimos que já nem
precisavam mais 
ficar juntos.]