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26.2.20

[AS FOTOS DE LANÇAMENTOS DE LIVROS]

[as fotos de lançamentos de livros talvez constituam um subgênero que eu chamaria de adverbial, ou em denominação mais direta: subgênero "sorridente-alegremente-tão contente".]

[a fartura de sorrisos nessas fotos (excetuada uma ou outra expressão mais solene e sorumbática) indicaria até mesmo a fundação de uma estética.]

[uma estética de dentição feliz e apolínea, algo como: "sorridentes dos autógrafos, uni-vos".]

[em uma foto, por exemplo, um casal irradia junto ao autor a luz adverbial do sorriso.]

[sorrisos impecáveis. abertos a régua e compasso. leonardo da vinci não traçaria sorrisos com tal perfeição.]

[em casos mais raros de solenidade, vemos o editor com a mão no queixo, em pose para a posteridade, ouvindo com atenção estudada, pois vulnerável aos cliques dos fotógrafos, vemos esse editor na escuta das explanações de um poeta.]

[qual tema será o desse poeta em gesticulação com as mãos em súplicas? falará da crise do verso, falará da despoetização da poesia, falará sobre o mercado excludente? ou estará em digressão sobre o próximo livro, o livro que, meses mais tarde, ele lançará no mesmo local e será recoberto pelas pétalas de tantos sorrisos?]

[há, sim, nessas fotos, os tais sorrisos explosivos de êxtase. geralmente, são os tios e as tias, os cunhados, os vovôs, as vovós e os progenitores do autor, aqueles sorrisos que transbordam, que inundam, sorrisos-pororoca.]

[o romancista com o seu boné ostenta um sorriso de quem já atravessou as tormentas: é o sorriso do veterano.]

[poetas em condição de promessa, poetas promissores, poetas-que-ainda-chegarão-lá, cercam o autor com sorrisos quase pedintes, sorrisos para um lugar ao sol.]

[o próprio autor, a cada foto, ora com a caneta em punho, ora com a mão estendida, demonstra possuir vasto estoque de sorrisos: sorriso à meia-boca, sorriso de altivez, sorriso eis-me-aqui, sorrisos para dar e vender.]

[estranho roland barthes não ter incluído esses sorrisos em suas "mitologias", uma vez que o subgênero "sorridente-alegremente-tão contente" parece ser universal.]

[sorriso professoral, sorriso de segurar taça de cerveja, sorriso de crítico literário, sorriso de editor de suplemento, sorriso de curador de feira, sorriso disfarçadamente cínico, sorriso de compadres e comadres.]

[é o cume, é o ápice, é o píncaro da glória e do fetiche-livro.]

25.2.20

[O MUTISMO]

[o mutismo dele
não era o mau silêncio,
como ela lhe disse. 

era, sim, a espera
do estampido, 
do próximo estampido,
os estampidos 
que ele ouviu na casa
da infância
desde o nascimento
até os cinco anos de idade,
os estampidos dos tiros 
que o pai, embriagado,
disparava nas paredes, 
portas e portais, 
ou então pedia
que a mãe, em pânico,
segurasse o gato
para que nele fosse
dado o tiro de mero
e louco recreio.
"os sons que ouvi
até os cinco anos
foram os sons
de um contínuo tiroteio",
ele disse. 

mas, ao dizer isto,
teve a certeza: 
ela jamais entenderia
a mudez que há
às vésperas
de um estampido.]

23.2.20

[LUCAS BALDUS: O LADO OH E O LADO AH DAS COISAS]

[lucas baldus atravessou a ponte que une o lado oh e o lado ah das coisas.]

[a manhã estava de cachecol.]

[vesúvios emitiam sinais de fumo no horizonte a perder de vista.]

[tristezas, em carrinhos de rolimãs, vinham do lado ah; alegrias, em novenas merencórias, vinham do lado oh.]

[havia muito embaralhamento nas coisas do mundo.]

[o minotauro vetou histórias que começassem com "o era uma vez".]

[às vezes, era um tango na casa dos comendadores; às vezes, era uma polca na casa das senhoras de sangue azul.]

[o lado ah e o lado oh das coisas tinham a ponte para lhes ofertar a cópula.]

[a cópula do lado ah e do lado oh das coisas.]

[lucas baldus atravessou a ponte e viu quando a cópula estalou madeiras e corrimões na travessia.]

[maitacas gritavam "república federativa do brasil".]

[macacos riam.]

[o arauto josé levava uma edição do suplemento literário de minas gerais.]

[alguém desenhou a carvão o nome dos facínoras em cada parede da rua da bahia.]

[estavam, pois, vetadas as histórias que começassem com "o era uma vez".]

[poetas risonhas escreviam à moda de adélia prado e clarice lispector em folhas de papel-manteiga, e eram aplaudidas pelos ursos de boina.]

[o embaralhamento do mundo explodia pipocas.]

[de vez em quando, alguém empurrava belo horizonte para o abismo.]

[o jornalista de bigodes vociferava a palavra ladrão assim que o jornalista de cara redondota lhe dava o mote.]

[o jornalista de bigodes perdia pouco a pouco as faculdades imaginativas.]

[gritava "ladrão", "ladrão", como se rezasse.]

[lucas baldus pôs um binóculo em cada lado da ponte: binóculo de olhar para dentro, no lado oh; binóculo de olhar para fora, no lado ah.]

[pontas desencapadas de fios produziam faíscas nos olhos dos cachorros.]

[era muito brasil para guardar nos armários.]

[vazava brasil pelas gretas.]

[vazava brasil pelos recantos das trevas.]

[e prosseguia o embaralhamento das coisas do mundo. ]

[versões sofisticadas de política eram atiradas sob o tapete da república.]

[havia muita dor no dorso das pedras.]

[lucas baldus deixou que os binóculos ficassem sob o sol, em vigilância.]

[lucas baldus foi então guerrear contra os alisadores de arames.]

[os idiotas já não sabiam mais o nome das borboletas.]

["estamos para sempre ferrados", disse o grilo.]

[os filhos do capitão decapitaram o grilo.]

20.2.20

[O IRMÃO DIALÉTICO DO ENSAIO]

[o velho disse:

− se me perguntam, eu digo:
o poema é o irmão dialético do ensaio.

− há uma zona de fricção
entre um e outro.

− no poema, a expedição exploratória
das imagens; no ensaio, o não saber
que explora as múltiplas possibilidades.

− nem o poema nem o ensaio
apagam seus rastros na areia.

− nada sabe o poema quando começa,
nada sabe o poema quando termina.

− assim também o ensaio: sua
polinização infinita, o graveto
que risca a superfície das águas,
o cesto de vime por onde a água
recolhida vaza
e volta à corrente do rio
para o constante recomeço.

− o ensaio repugna as quermesses,
as tertúlias, o revirar de olhos
para a lua, a melosidade do melaço
que atrapa a voragem e a vertigem
dos conceitos.

− o poema é o tato que pensa,
o pensamento que sente,
a conceituação que explode,
a música que arquiteta.

− peregrinos, o poema e o ensaio
abrem no tempo
estradas entrecruzantes, caminhos
bifurcantes, e saúdam assim
a desesperança: “bom dia,
senhor beco sem saída”.]

[TUDO NO MUNDO É VERBETE]

[tudo no mundo é verbete: eis a infinidade e a infinitude do meu móvel-ser, diluinte e diluível ser, dissipável ser na paisagem. tudo no mundo é verbete, repito, e leio, passo as páginas das desordenações ordenáveis. a vaca. o besouro. o andarilho sem sombras.]

[verbete: ponto luminoso da coisa em latência. a coisa ondula. sai da superfície monótona e lateja, é um caroço, a coisa é coisa caroçante, talvez quisto, cisto, na rasura do mundo.]

[o ponto luminoso do verbete que agora se eleva da lâmina rasa do mundo. verbete-ômega, verbete-uivo, verbete-lobo, verbete-pensamento.]

[é também verbete o poema que irradia clarões na treva incognoscível da página. meu móvel-ser, diluinte e diluível ser, lê o verbete-poema como se um cego a apalpar o ilegível.]

[verbete aura, verbete féretro, verbete vento. tudo no mundo é verbete, repito, e abraço a enciclopédia da tarde, andarilho sem sombras.]

[a casa é o verbete das coisas da casa, o mofo na parede, o retrato do filho, o musgo na porta, a pasta de dente, o mosquito morto.]

[e o lá-fora é o verbete das coisas do lá-fora, a anciã e o seu cigarro, a placa de alumínio que despenca de um quinto andar como se dardos de um anjo mau, o amolador de facas em vozerio de arauto, a jovem senhora que se esconde atrás de sua figura exibível.]

[e esta monotonia, este tédio das coisas repetíveis na boca dos homens: verbetes da repetição desenfreada.]

[a estranheza do mundo: verbete assombrado.]

[a falência do mundo: verbete cortado ao meio e logo ajuntado em outro formato de fragmentos.]

[o verbete dolorível e doloroso do fim de tudo.]

19.2.20

[A GRAMÁTICA DAS PASSAGENS]

[com a ponta de um ponto de interrogação modelado em arame, o menino foi escavar buracos no quintal sombrio.]

[eram pequenos orifícios, requintado sistema viário construído por formigas, minhocas, tatuzinhos e até mesmo pelos misteriosos mendrugos.]

[eram túneis, canais, grutas, vias interrompidas, viadutos em torrões e calhaus, suspensas ou subterrâneas passagens na escala do minúsculo.]

[a terra, porque ensombreada, porque sob sombras eternas, porque sob caramanchões de galhos e folhas desde o começo do mundo, a terra se oferecia em dádivas às interrogações do menino: era suave, tenra, moldável, ora argilosa, ora adornada pela epiderme de musgos.]

[de quando em quando, uma semente estalava.]

[de quando em quando, movimentos em câmara lenta davam conta da presença dos mendrugos.]

[de quando em quando, um raio de sol fugido por entre pétalas, por entre forquilhas de galhos, vinha iluminar o dorso de um besouro.]

[e o menino escavava, escavava sem tréguas com a sua ferramenta de perguntar.]

[seu arame, oxidado, ferruginoso, talvez tão antigo quanto a terra do quintal sem dono, ia e vinha pelas passagens e pelos enigmas.]

[era uma festa de descobertas.]

[parecia um poema em estado de nascente.]

[e até os passarinhos faziam o silêncio aprendido na gramática dos anjos.]