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Correio Do Autor

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6.12.19

[O HOMEM QUE SONHAVA MÚSICAS]

["O homem disse que sonhava músicas. O homem estava na Praça Sete e era um homem em um terno azul, a gravata atirada sobre o ombro esquerdo, os lábios muito finos, uns olhos que pareciam postiços, mais um ou outro traço nas feições que não guardamos, nem eu, nem João Serenus. Mas o homem disse que sonhava músicas e nós acreditamos, eu disse sim, Serenus disse ora vejam, o homem então nos entregou um papel, era um papel que anunciava mulheres e bailes, falava de tangos, li algo sobre uma tal Rita, sobre uma tal Adalgisa. Entramos pela Rua Tupinambás, talvez pela Rua Carijós, não me lembro bem, o homem que sonhava músicas nos seguiu um pouco, um pouco apenas, depois foi como se ele se dissolvesse, como se ele virasse vapor, algo gasoso, algo imaterial como as notas de uma melodia ou a matéria sem peso e carne de que são feitos os sonhos."]
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[Do "Diário Imaginário de Franz Kafka pelas Ruas de Belo Horizonte".] 

[A GRAMÁTICA DA LÁGRIMA]

["A mulher com uma gota de lágrima passou por nós na Rua Timbiras. Foi João Serenus quem notou a gota, mínima, única, solitária, na face da mulher. Ao sol da manhã, a gota de lágrima fez brilhos e rebrilhos de diamante, fez brilhos e rebrilhos de reluzente matéria, um quase lusco-fusco, um quase relâmpago, um quase corisco. Difícil saber o que dizia aquela gota, difícil saber se nos paradoxos de sua limpidez de água sobre uma superfície de vidro ela queria dizer dor, buraco, júbilo, êxtase ou desamparo. E o próprio João Serenus iria comentar, instantes depois, enquanto andávamos pela Praça Afonso Arinos: 'A gramática das lágrimas exige a mais dificultosa hermenêutica'."]
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[Do "Diário Imaginário de Franz Kafka pelas Ruas de Belo Horizonte".]

[O HOMEM-DA-CAPA]

["A se acreditar no que dizia e anunciava o Homem-da-Capa, em discurso hoje à tarde diante da Igreja São José, há em Belo Horizonte um túnel que interliga a cidade com o lado oculto da matéria, lá onde a água é sangue, lá onde as luzes são trevas, lá onde as macieiras dão tomate. Lucas Baldus e eu ouvimos atentamente o discurso do pregador, que também anunciou pestes, tornados, maremotos e mísseis. Mais surpreendente, porém, do que fala tão apocalíptica, foi perceber que o Homem-da-Capa tinha dentinhos de nosferatu, delgada língua fendida na ponta, um olho de lagarto, outro de tigre, e palavras tatuadas pelos braços. "Pode decifrar algum daqueles dizeres?", perguntei a Baldus. "Bulhufas", ele respondeu. E como fazia sol e eram escassas as sombras, fomos embora Rua Espírito Santo acima, pois um chope nos chamava, nos chamava uma travessa de pastéis no Pelicano, nos chamava a visão das coisas serenas, convocações da vida simples vinham nos seduzir pelo vento. E fomos. Deixamos por lá o Homem-da-Capa. Saudamos na rua mulheres com bocas de carmim, algumas outras com bocas de araçá, algumas outras com bocas de pitanga. Pronunciamos mil vezes a palavra música, pronunciamos mil vezes a palavra azul. E eu, Franz Kafka, toquei dentro de mim as cordas de um cavaquinho."]

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[Do "Diário Imaginário de Franz Kafka pelas Ruas de Belo Horizonte".]

[PALAVRAS DE GARRAS]

["Enquanto embebíamos o pão no azeite, e fazíamos o vinho inundar as quietudes da boca, e olhávamos para a Avenida Afonso Pena desde o janelão da padaria, como se o tempo fosse um duplo, um bifronte, ou então fosse um rio com duas margens, uma do lado de fora, outra do lado de dentro, a Mulher-Cor-de-Terracota dizia a Vicente Gunz sobre a palavra que se instalara em sua garganta, palavra de garras, palavra-fera, e essa palavra ali se aninhara em certo dia de julho, um julho nevoento, quando os homens ficam com névoa nos olhos, quando os cachorros vigiam o invigiável, quando os gatos pisam em almofadas de silêncio. E foi nesse dia que a Mulher-Cor-de-Terracota percebeu a presença da palavra, havia lido algo de Anne Sexton, algo da dolorida existência de Anne Sexton, e de repente notou as unhas e as garras, notou na sua garganta o dorso áspero da palavra-invasora, aquela aspereza qual língua que jamais tenha provado as inundações de um beijo, os mares de um beijo."] 

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[Do "Diário Imaginário de Franz Kafka pelas Ruas de Belo Horizonte".]

[PORÇÕES DE SUBLIME]

["Em uma caixa invisível, o menino guarda porções de sublime. A caixa fica à contraluz, na sala, entre um pêndulo e um velho que dorme. Todos os dias, pela manhã, o menino coloca porções de sublime dentro de sua caixa invisível. E todas as noites, nas horas mais avançadas, essas porções de sublime saem pelas minúsculas frestas da caixa. Saem e adquirem asas. Saem e entram nos sonhos do velho, o velho que dorme. Já o pêndulo, um pêndulo tosco, feito de pedra, esse pêndulo marca indefinidamente os momentos em que as porções de sublime guardadas pelo menino se transformam, quando essas porções deixam o estado da matéria-sombra e migram para o estado da matéria-luz. E eu, Franz Kafka, com as minhas porções de silêncio nos dias e nas noites de Belo Horizonte, fico sempre à espreita, à espera, pronto para o instante em que os vaga-lumes da matéria-luz me revelarão o enigma."]

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[Do "Diário Imaginário de Franz Kafka pelas Ruas de Belo Horizonte".]

[OS ASSOVIOS DE LUCAS BALDUS]


[Nesta manhã com gosto de pitanga e vento pelo tombadilho, vou com Lucas Baldus e Vicente Gunz ao Parque Municipal. Vamos em fila: Baldus, Gunz e eu, pela Afonso Pena, pé esquerdo em passada ímpar, pé direito em passada par. Apenas Baldus assovia. É uma velha cançoneta de realejo, chamada “Os pés da musa não couberam nos chinelinhos”, de autor anônimo. Entramos. O sol se parece com um soneto clássico a derramar seus quartetos e tercetos sobre Belo Horizonte. Entramos e seguimos pelas alamedas, todos em estado de júbilo. Vai começar a cerimônia de plantio da muda de “Cedro Holográfico”, doado à municipalidade pela Condessa Armênia Perestroika. A cerimônia começa e alguém pede a Baldus para calar os trinados do seu irritante assovio.] 
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[Do "Diário Imaginário de Franz Kafka pelas Ruas de Belo Horizonte".]