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quarta-feira

[LUCAS BALDUS: O LADO OH E O LADO AH DAS COISAS]

[lucas baldus atravessou a ponte que une o lado oh e o lado ah das coisas.]

[a manhã estava de cachecol.]

[vesúvios emitiam sinais de fumo no horizonte a perder de vista.]

[tristezas, em carrinhos de rolimãs, vinham do lado ah; alegrias, em novenas merencórias, vinham do lado oh.]

[havia muito embaralhamento nas coisas do mundo.]

[o minotauro vetou histórias que começassem com "o era uma vez".]

[às vezes, era um tango na casa dos comendadores; às vezes, era uma polca na casa das senhoras de sangue azul.]

[o lado ah e o lado oh das coisas tinham a ponte para lhes ofertar a cópula.]

[a cópula do lado ah e do lado oh das coisas.]

[lucas baldus atravessou a ponte e viu quando a cópula estalou madeiras e corrimões na travessia.]

[maitacas gritavam "república federativa do brasil".]

[macacos riam.]

[o arauto josé levava uma edição do suplemento literário de minas gerais.]

[alguém desenhou a carvão o nome dos facínoras em cada parede da rua da bahia.]

[estavam, pois, vetadas as histórias que começassem com "o era uma vez".]

[poetas risonhas escreviam à moda de adélia prado e clarice lispector em folhas de papel-manteiga, e eram aplaudidas pelos ursos de boina.]

[o embaralhamento do mundo explodia pipocas.]

[de vez em quando, alguém empurrava belo horizonte para o abismo.]

[o jornalista de bigodes vociferava a palavra ladrão assim que o jornalista de cara redondota lhe dava o mote.]

[o jornalista de bigodes perdia pouco a pouco as faculdades imaginativas.]

[gritava "ladrão", "ladrão", como se rezasse.]

[lucas baldus pôs um binóculo em cada lado da ponte: binóculo de olhar para dentro, no lado oh; binóculo de olhar para fora, no lado ah.]

[pontas desencapadas de fios produziam faíscas nos olhos dos cachorros.]

[era muito brasil para guardar nos armários.]

[vazava brasil pelas gretas.]

[vazava brasil pelos recantos das trevas.]

[e prosseguia o embaralhamento das coisas do mundo. ]

[versões sofisticadas de política eram atiradas sob o tapete da república.]

[havia muita dor no dorso das pedras.]

[lucas baldus deixou que os binóculos ficassem sob o sol, em vigilância.]

[lucas baldus foi então guerrear contra os alisadores de arames.]

[os idiotas já não sabiam mais o nome das borboletas.]

["estamos para sempre ferrados", disse o grilo.]

[os filhos do capitão decapitaram o grilo.]

terça-feira

[LACAN EM NOSSA TRAMA]

[talvez lacan tenha percebido a nossa trama.]

[ele era esperto.]

[ele próprio enredou-se nisto, a definição instável, a nomeação que desliza, o dito que se desdiz, o conceito que se esburaca, a linguagem.]

[a linguagem em combustão.]

[nada é permanente, tudo é móvel, o isto é aquilo, aquilo é aquiloutro.]

[lacan veio ao rio dos poetas beber da instabilidade.]

[deixou-se cair na trama.]

[lacan foi a mosca voluntária em nossa teia.]

[por isso o seu júbilo, por isso o seu êxtase com a frase inacabada e inacabável.]

[por isso o seu fervor pelo lacunar.]

[escandir, escandir, escandir sem rumo.]

[a obra que se nega.]

[a afirmação que se esvoaça.]

[o pássaro em chamas no céu estelar da linguagem.]

[o poeta existe para desnortear as bússolas.]

segunda-feira

[A POESIA E AS GALINHAS]

[não sejamos otimistas com a poesia.
otimismo vai bem na bolsa de valores,
na porta da loteria, no espanta-azar
de um dia turvo, soturno, macambúzio.

a poesia não precisa de otimismo.
nem de pessimismo. miúdo,
o coração da poesia tem o mesmo
tamanho do coração de uma galinha.

as galinhas também não são otimistas.
nem pessimistas. as galinhas
põem o ovo, se existe ovo, e cantarolam,
ciscam, adormecem sobre um galho,
são cobertas pelo galo, sonham quintais
todas as noites. e morrem, por degola.

ou de susto, pois as galinhas
também morrem de susto, basta um raio,
basta um mistério sem nome entre um arbusto
e um graveto para que as galinhas etc.

não sejamos pois otimistas com a poesia.
risível quando o professor saúda
exércitos de poetas: cem, duzentos, mil,
um milhão de poetas novos todos os dias.

não sejamos otimistas: de susto, como as galinhas,
a poesia morrerá nos ermos de um beco
úmido, assim que a multidão de poetas
aparecer na curva da rua, tal e qual matilha.]

domingo

[KANT E A RAZÃO PURA NA TARDE DO BAIRRO]

[kant tomou a razão pura entre as mãos, moldou-a, agregou à massa ingredientes próprios para a goma, sovou a razão pura com esmero e vigor, e então, quando a bolota já adquiria uma consistência elástica, ele esticou a razão pura sobre a mesa, esticou-a de um canto a outro daquela mesa onde as melancolias costumavam cantar boleros e tangos.] 

[depois kant puxou a bolota da razão pura de modo que, da longa tira emborrachada, bem esticada, pudesse soar um dó maior ensolarado pela tarde do bairro.]

[e os meninos.]

[e os meninos, toda a criançada de pés no chão e narizes líquidos, toda a meninada do bairro logo pôs caras e carinhas nas janelas.]

[os meninos viram quando o dedicado kant dedilhava com o dedo mindinho a goma esticada da razão pura.]

[os meninos viram aquilo.]

[eles viram aquilo e acharam muita graça.]

[como é que o velho kant havia conseguido fabricar tal razão pura esticada sobre a mesa das melancolias?]

[parecia até uma corda de viola, pois o dó maior atiçou curiosidades na rua do meio, depois na rua de cima, depois na rua sem nome, e mais depois ainda na praça das metafísicas obscenas.]

[mulheres sem-que-fazeres logo apareceram, os aposentados deixaram o jogo de damas, poetas boquiabertos caminharam por fios incandescentes.] 

[e todos, todos os homens-vírgulas e as mulheres-reticências puseram pescocinhos e olhinhos para fora, parecia que o brasil vinha inteiro lançar olhos famintos sobre a razão pura do velho kant.]

[isto é: a razão pura esticada e musical naquela tarde de julho.]

[frio fazia, luvas e os cachecóis dançavam a dança das nuvens, o dó maior da razão pura blimblava blins-blons pelo bairro afora, e paulinho assunção, o fantasma, posicionou o estilingue em direção às vidraças.]

[foi um tiro certeiro.]

[tiro certeiro de pedra redonda na vidraça da literatura sorridente.]  

sábado

[O PULSO DO ESCRITOR-QUE-NINGUÉM-LÊ]

[pegamos no pulso esquerdo do escritor-que-ninguém-lê e não conseguimos perceber latejamentos ou fluxos de qualquer natureza.]

[um de nós comentou que ele poderia estar morto.]

[éramos três e retornávamos das derradeiras para a primeira página.]

[o escritor-que-ninguém-lê estava dependurado no trapézio por uma corda que descia até bem rente ao picadeiro.]

[o circo estava abandonado.]

[de tempos em tempos, alguém relatava a presença de palhaços mortos: seus fantasmas muito fora de moda e tropeçantes.]

[esses fantasmas não faziam mal a ninguém e até lembravam crianças desajeitadas.]

[monos de pelagem desbotada, que a morte havia esquecido, vagavam para lá e para cá com os seus cajados.]

[bandos de pessoas, residentes na vizinhança e acostumadas a histórias retilíneas, vinham manifestar e expressar interrogações diante da cena.]

[tais gentes não conseguiam entender por que um escritor (escritor-que-ninguém-lê) dependurava-se por uma corda desde o trapézio e se desfalecia sem latejamentos e fluxos nos pulsos com a boca rente ao picadeiro.]

[vinham, olhavam, se interrogavam e partiam como se metafísicas bípedes sem rumo e destino.]

[voltamos a apalpar o pulso do dependurado.] 

[nada.]

[os monos decrépitos nos imitavam, um deles ria, todos sem dentes.]

[incapazes de gestar uma solução, fomos, devagar, para a última página.] 

[e foi triste constatar que na página final, a 345, um pouco antes da virada para o colofão, o escritor-que-ninguém-lê também não existia.]

[um de nós então perguntou quem éramos.]

[não soubemos dar qualquer resposta.]

sexta-feira

[BREVE ESTUDO SOBRE A PALAVRA QUASE]

[a palavra quase, assim à beira,
no limiar, na divisa entre o antes
e o depois, a palavra quase

bem à beira de outro instante,
de outro minuto, de outra hora,
quase seco, quase líquido,

quase terra, quase abismo,
quase riso, quase choro,
quase chuva, quase sol,

e nós, os seres da esquisitice,
com os olhos nos ponteiros
do relógio, no tic-quase, no tac-

quase, o inchaço da bolha
do tempo na quase tarde
ou na quase noite, e os gatos,

ao largo, à revelia de nós, eles
os inventores e cultores
da imobilidade absoluta.]

quinta-feira

[VALÉRY, DEGAS, MALLARMÉ]

[imensa era a admiração de paul valéry
por edgar degas. o poeta de cemitério
marinho definia o pintor como homem
de engenho, de inteligência singular.

quando valéry conheceu degas, este vivia
na rua victor-massé, em sobrado de três
andares. no primeiro, havia um museu
com obras que degas reuniu ao longo

da vida. tinha corots, delacroix, ingres.
no segundo, vivia o pintor, em espaço
coberto pela poeira, com as paredes
cheias de esboços, um bricabraque

de objetaria e maravilhamento. por fim,
no terceiro andar, ficava o ateliê de degas,
seu santuário de criação, suas tintas 
e vasilhas, as esponjas, as ferramentas.

mas valéry, nessas recordações, lança
luz sobre outra faceta de degas, qual
seja, a faceta de poeta, de meticuloso
sonetista, exigente até o desespero.

aconselhava-se com mallarmé, conforme
conta valéry. e foi do poeta do lance
de dados que degas ouviu a famosa
lição, que se tornou lema de tantos,

pelo certeiro ensinamento. degas
lutava na composição de um soneto
e recorreu a mallarmé para expressar
o fracasso, dizendo-se cheio de ideias,

mas incapaz de concluir a peça. eis então
que mallarmé lhe disse a sentença tão 
conhecida: "mas, degas, os poemas não 
feitos com ideias, são feitos com palavras".] 

quarta-feira

[TUDO NO MUNDO ESCREVE]

[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.]

[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]

[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]

[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]

[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]

[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]

[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]

[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]

[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]

[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica. mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]

[tudo no mundo escreve: "quem vem lá?", pergunta o anjo torto com o seu lápis. "ninguém", a voz responde, a voz que vai pelo viaduto tal aedo que leva às gentes as palavras ainda ágrafas, palavras ainda destituídas do verbo ser. sabe-se que são deveras perigosas as palavras ainda destituídas do verbo ser. são palavras que não podem dizer: "eu sou". elas só dizem: "ninguém, ninguém". impossível anotá-las em cadernos, como bem sabe o anjo torto com o seu lápis à entrada do viaduto, junto às volutas, às balaustradas, às lanternas. "como escrevê-las, então, se elas usam a cisão entre sujeito e verbo como forma de fingimento?", isto é o que pergunta o anjo torto com o seu lápis. mas ninguém responde.]

terça-feira

[LADRILHOS, PARTÍCULAS, MIGALHAS, VIDRILHOS]

[a mediocridade é a mais sedutora e hipnótica das bruxas. atrai como a serpente atrai o passarinho.]

[no olho da fervura, há mais poesia do que nos compêndios de verso e prosa, nos tratados altivos, nas falas da soberba.]

[bem cedo, ainda escuro, cortei a cebola, o pimentão e o tomate, amassei o alho, e fiz o cozido exalar pela casa.]

[disse o velho que ideologia é tal água aberta no quintal: ora inunda tudo, ora vai por trilhas aqui e lá, direita, esquerda e pelos meios.]

[com o prumo do pedreiro, você pode aprender a dar o corte, no final da linha, no próprio coração da imagem. é o ritmo.]

[torquês: ótima ferramenta para um poema.]

[o novo, agora, só na criptoteca, com os códigos indecifráveis. o resto é rede.]

[prantear. verter lágrimas por isto e aquilo. na antiguidade do dicionário ainda encontro tais pepitas.]

[na oficina, para construir o poema, ele fez antes uma incisão na rocha.]

[nesta altura das contendas, já sou o homem que palreia com os livros. digo-lhes onomatopeias e escuto: a língua deles soa tal música.]

[nomeávamos cada coisa com outro nome: nuvem era valsa, matagal era teatro, a noite, manto, e a frase, para a frase um nome por minuto.]

[o poema, então, meu amigo, é a água derramada do vaso. após o derrame, manter do lado de fora a forma do vasilhame que a continha.]

[o livro é um veículo que, mesmo em altíssima velocidade, você pode pular fora sem risco de fraturas.]

[tipos ideológicos: o que é, sem que pareça ser, embora gostasse de parecer que é, não fosse a canalhice de posar que é outro.]

[águas de março, águas de junho. o que fez o tempo enlouquecer tal graveto dentro de um redemoinho?]

[um cérebro de polainas só produz textos de polainas.]

[nublina em belo horizonte. verbo nublinar: não existe. mas deve ser inventado.]

[nenhum poema usa mais a solar palavra arrabalde, que vem do árabe ar-rabd, e logo se turva, soturna, com os us da palavra subúrbio.]

[ele vincava de tal modo as palavras que o poema exibia-se tal fraque em vitrine de alfaiataria.]

[o mais, mais ainda, não suportou a luz vespertina, a luz que fenecia, e foi à taberna com o menos, o menos ainda.]

[bem avisamos que o poema era dentro de outro poema e o poema de dentro era o poema de fora, salvo erro, salvo engano.]

[intempérie é uma bonita palavra com esse tropel de sílabas, tropel que avisa o que vem, taróis de chuvas e trovoadas.]

[saltou uma palavra do dicionário. e a palavra era aprazível.]

[resistir é limar a lâmina, tinir o metal e dar uma banana para os energúmenos.]

[lia em voz alta um livro de jean-luc nancy e os pardais todos chegaram em palreações de simpósio.]

[era uma imagem quase de fruta: a lua das cinco da tarde sobre a place vendôme.]

[aquele livro de heidegger sobre heráclito e essa cerveja tão lânguida, tão à espera, tão senhora de seu copo.]

[essa aflição pela poesia. calma. sossega. a poesia não é um cachorro com a língua de fora.]

[há uma multidão de ex-amigos que tomou o bonde para a ruína.]

[há uma estrada lezama e há uma estrada borges. e há a estrada macedonio.]

[fracassei, mas ainda assim atiço a pedra em outra pedra para as faíscas de poesia.]

[o diário argentino de gombrowicz. infatigable el viento. primero anotaré los hechos. navegamos por el delta del paraná.]

[ler o livro para que dele já não reste nada. e então recomeçar a leitura. a partir do nada.]

[então vamos ler o que ainda não está escrito.]

segunda-feira

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã
prenunciada, veio o texto.
texto assim: fiapo
da roupa de um peregrino.

lembrei-me então da carta que paul celan
escreveu a hans bender em 18 de maio
do ano de 1960: "só mãos verdadeiras
escrevem um poema verdadeiro. 
em princípio, não vejo nenhuma diferença
entre um aperto de mãos e um poema".

e o texto veio assim: fiapo 
da roupa de um peregrino. não era ouro,
não era ourivesaria, nada 
de texto-diamante à luz chegante 
do dia: era fiapo.
fiapo da roupa de um peregrino.

com a delicadeza que se impôs 
em hora tão inaugural no tempo, 
tratei de laçar a lápis 
esse indizível que jamais escreveremos.

modo não há de escrever o fiapo
que se fez de texto na manhã 
prenunciada. o fiapo é o indizível,
é o horizonte inalcançável, é isto 
que nos ilude para a escrita 
sempre sonhada e impossível.]

sexta-feira

[ESTOU FALANDO COM AS PAREDES]


["je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. era
um sábado furta-cor em paris, um sábado
de frialdade metálica, amêndoas
saltavam dos olhos de cães negros,
de toda a parte surgiam os refugiados
com as mãos estendidas, e as chatas 
com meninos e meninas pintados a carvão
não paravam de navegar pelo sena.

"je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. 
e as paredes, altas, mistura de pedra
e aço, não eram as paredes da capela
sainte-anne, mas paredes elevadas 
havia pouco tempo, operários a mando 
de senhores invisíveis ainda acionavam 
guindastes, eram paredes que durariam
mil anos, durariam às hecatombes,
à bomba, aos terremotos e tsunamis. 

"je parle aux murs", e a voz do senhor
lacan reverberava sobre aquela superfície
agora pintada em tonalidade neutra, 
cinza, o acinzentado sem eco, assonante,
a voz ia e morria, a voz era um grão
em sua vaziez infecunda e estéril, a voz
golpeava o aço e a pedra, a voz ofegava
em sua persistência contra as paredes
elevadas pelos operários a mando 
de senhores invisíveis. e os refugiados,
os refugiados, os refugiados, os refugiados.

"je parle aux murs", ele disse, e a voz
era agora voz incapaz, voz não penetrante
no impenetrável que os operários a mando
de senhores invisíveis ainda construíam,
a voz não achava o furo, o orifício, 
a fresta, a ranhura, o desvão, a mínima
rachadura. a voz só rebatia seu próprio
som irreprodutível: seco, surdo, silente.] 

[A LETRA NÔMADE]


[CADERNO DE LETRA MOVEDIÇA]