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Correio Do Autor

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quarta-feira

[O QUE ESCREVE, O QUE NÃO ESCREVE]

[o que deseja aquele que escreve,
e o que deseja o que não escreve?
que forma desejante há na letra?
é o seu abismo? é a sua inconstância?
há fim no escrever ou o escrever
é sem fim? onde habita o escrevente?
qual casa é a do que não escreve?
é do nômade a escrita ou nem mesmo
o nômade consegue habitá-la?
de onde vem o que escreve e para
aonde vai? e o não escrevente?
ele vem de algum lugar ou jamais
teve a casa movente da letraria?
o gozo da escrita é vaziez ou
é enchimento? qual dos dois,
o que escreve e o que não escreve
cai em queda livre e de ponta-cabeça?]

terça-feira

[A NATUREZA E O PENSAR]

[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho 
e o gafanhoto, a pedra e o graveto, 
a chuva e o terremoto.

não ponho pressa em mim 
para pensar o rio, seus remansos, 
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,

esse rio que ponho no pensamento 
para melhor pensá-lo, pois um rio 
é sempre dois rios, uma coisa 
é sempre duas coisas,

a que está fora e a que está dentro, 
são campos magnéticos, circuitos 
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,

ao ser pensada, ganha a consistência 
de ser a mesma e ser diversa, pois 
pensar é uma moenda, pensamento 
é aquilo que engenha, se penso

a coisa, e penso a natureza, a mesma 
coisa logo se inventa, basta pensar 
para que outro mundo venha, 
por isso chego à natureza 

como um peregrino, ando com patas 
de felino, lento eu giro o que eu vejo 
em suave rodopio, não corro, aprendo 
com a modorra do cachorro,

aprendo com a sonolência do cavalo, 
alio-me à força dispersiva que leva 
o cisco em ventania. se não entendo, 
espero, e se me espanto, alegro-me.]

domingo

[AXIOMA PARA VERBORRÁGICOS E BOQUIRROTOS]

[meditar, no silêncio genuíno das meditações
criativas, e não ceder à verborragia, à língua
solta, ao boquirrotismo, à incontinência

do verbo, ao exibicionismo tagarelas, à sanha
opiniática, às mijadas do achismo, esse aparato
todo de esbravejar a esmo, essa volta 

à criancice choramingas em volta da mesa,
as chorumelas do especialista em tudo,
esse pluriespecialista do ovo e da galinha,

esses teóricos de última hora, narcísicos
onanistas da própria fala, ouvintes da própria
voz, leitores da própria letra, inveterados

bebedores do próprio cuspe, ébrios da própria
performance, incapazes de um minuto ao menos
de silêncio, esse peito estufado, essa verdade

pronta e absoluta, incapazes de uma chance
ao menos à dúvida, esses plenos de razão,
sempre com razão, latifundiários da razão,

tristes bonecos repetidores do automatismo
capenga de outros bonecos ventríloquos
nesse mundo agora com o vírus da bobice.]

sexta-feira

[OFENDIDOS PELO TEXTO]

[o texto é látego ou o texto
é paina, pluma, pena? o texto
cinge ou o texto liga?

o texto corta, abre, desventra
ou o texto acaricia?
quem com o texto fere com o texto

será ferido, quem com o texto altiva
será com o texto preterido, quem 
com o texto nubla será com o texto

desaparecido? o texto é dorso
ou o texto é umbigo? o texto é reino
ou o texto é feudo? o texto rala, rola,

rela, roça ou o texto é ósseo, pedra,
gancho, espinho? o texto vara 
ou o texto vira? o texto penetra,

entra, vaza, atravessa ou o texto
é muro, parede, limite, fosso 
sem ponte-pênsil? o texto é arma

ou o texto é goma, gosma, baba?
o texto avança ou o texto recua?
o texto é nome ou o texto é água?

o texto ofende ou o texto é ofendido?
o texto é alarido ou o texto é balbucio?
o texto é gozo ou é guizo, sino, búzio,

bumbo? o texto vai ou o texto vem?
o texto limpa ou o texto suja? o texto
ganha ou o texto perde? o texto é féretro

ou o texto é boda, noivo, amante,
baco? o texto em mim ou o texto neles?
o texto é visgo ou o texto é liso, amorfo,

plano, mudo? o texto é púbis ou o texto
é língua? o texto é luto ou o texto 
é pândega? o texto brinca ou o texto enfeza?

o texto é fezes ou é torta, sopa, sorvete,
ambrosia? o texto é ou o texto não é?
o texto é texto ou o texto é texto, texto,

texto, texto, texto, texto, texto, texto?]

quarta-feira

[VARIAÇÕES DE VIOLONCELO NA BOCA DA NOITE]

[entre o lobo e o cão, à boca da noite, 
quando o lusco-fusco, 
na hora da alma-de-gato, 
quando o dia fecha o opúsculo, 

às vésperas das noitecências, assim
no momento em que os grilos,
é a hora dos capotes, hora de dar à cabeça
a boina, é quando a fervura da sopa,

hora da meia-luz nas platibandas, 
é quando o boi resmunga, 
a hora dos meninos ao banho,
é hora impropícia às agulhas,

hora de não enxergar as letras,
é a cor do burro fugido, 
é a estreia dos gatos pardos,
aos ninhos os passarinhos,

cordas ões dos violoncelos, 
ah, as torneiras metafísicas, 
os ohs, os ahs e os uhs, o odre
com o gigante dentro, é o vau

do onde para o aonde, é a travessa
da ponte-pênsil, que venha então a noite,
o mundo é vinho, talvez conhaque,
talvez um tango, sibila o silvo

da serpente, a vida é sinuosidade,
às favas com a poesia, é o assalto
dos pirilampos, jardel-o-torna-viagem,
essas almas originárias do minho,

é engodo que minas existe, não
existem os mineiros, há fungos
nessas paredes, pois que venha a madrugada,
haja povoação das alcovas, é a hora

do vaza-luz, escorre o claro nas frestas,
cavalos apontam na estrada,
posto que mais um dia, outro dia,
a hora é a da noite fechada.]

sexta-feira

[PARÁBOLA]

[se não entendeu,
mergulhe.
todo texto é um poço
cujo fundo
é fim
e é começo.]

quinta-feira

[MIGALHAS QUÂNTICAS]


[no lugar onde morreu
o post, de quando
em quando cai
do céu um like,
talvez um resíduo
quântico
ou uma fração de pixel,
névoa e rastro deixados 
por um míssil-cisco,
cemitério de partículas
derivantes e em vertigem
e errância, franja
ou fímbria de um texto
sem autor, só a sístole
e a diástole de um algoritmo
ou de um robô.]

quarta-feira

[RUMORES DA VIDA DENTRO DE UMA CAIXA]

[ela acordou em júbilo porque percebeu a vida crepitar dentro de uma caixa. era caixa de guardar coisas, as coisas várias em mistura, esparramadas, e a vida, lá dentro dessa caixa, crepitava. ela sorriu porque soube encontrar uma palavra assim para definir o movimento da vida. ela tinha horror aos preciosismos da língua, mas crepitar era o perfeito retrato da vida em rumores naquela embalagem onde atirava de tudo um pouco: grampos, agulhas, botões, tubos de batom, um bilhete, a tesoura oxidada, pulseiras abandonadas, a foto de quando adolescente, as pernas tão finas, e o olhar de quem não sabia onde ficava a lua. e a vida agora crepitava lá dentro junto com as quinquilharias. por isso o júbilo. por isso o quentume na alma. por isso a vontade de cantar tão cedo. um fiapo de música que fosse para saudar os rumores da vida dentro daquela caixa.]

segunda-feira

[DA MONTAGEM DE UM LIVRO]

[que o livro tenha um preâmbulo que se chame: solfejos. ou sol poente de caramujos.]

[que tenha um prefácio que remeta a outro livro ainda inexistente.]

[que a primeira parte reúna os poemas-ossos, todos os que sejam descarnados, secos, ásperos.]

[que a segunda parte não exista, mas possa reunir os poemas-silêncios, os que ficam atrás da porta ou dentro das latas de mantimentos.]

[que a terceira e última parte, agônica, reúna os não-poemas historiados, seus minúsculos casos, suas pérfidas investidas à cerca dos gêneros, que neguem a filosofia e à filosofia peçam ou implorem as núpcias do verbo.]

[que o posfácio tenha um nome-navegante, com teores próximos a “jamais um livro chega ao pórtico das bem-aventuranças”.]

[que o livro não tenha um título, mas possa se chamar: “quem pode traduzir a lâmina verde do mar?”]