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Correio Do Autor

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domingo

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, sua sombra.
seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira ao vento.
tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, seu murmúrio.
sua aorta está vazia. sua horta, 
sua praga.
tudo está vazio.
o livro que você lê está vazio.
letreiros da imensa avenida, edifícios 
da grande cidade.
tudo está vazio.
seu lápis não tem grafite, sua caneta 
não tem tinta.
tudo está vazio.
seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, seu gesto 
performático.
tudo está vazio.
seus dedos, seu teclado, sua memória.
seu chip está vazio. sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa de valores.
tudo está vazio.
seu monólogo em rede, seu seguidor 
e seu seguido.
tudo está vazio.
sua metáfora, sua curva figurativa, 
suas volutas significantes.
tudo está vazio.
mas o poema, rebelde, nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão submissa, 
o poema, sol a pino, cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]

sábado

[QUANDO VOCÊ DIZ EU]

[quando você diz eu, você deve
girar o pescoço 180 graus, sair
do ponto de visão que está em ele,
em eles, no afora, no mundo afora,
e voltar-se para o ponto-sumidouro
onde o eu, oceano-espuma, poço
dos desejos, abismo de lava, grão
do incognoscível, jaz sem jazz,
jaz sem música, posto que teia
aprisionável e aprisionada em si,
de onde só se sai mediante 
a explosão da bomba.]

[BREVE ESTUDO DA PALAVRA QUASE]

[a palavra quase, assim à beira,
no limiar, na divisa entre o antes
e o depois, a palavra quase

bem à beira de outro instante,
de outro minuto, de outra hora,
quase seco, quase líquido,

quase terra, quase abismo,
quase riso, quase choro,
quase chuva, quase sol,

e nós, os seres da esquisitice,
com os olhos nos ponteiros
do relógio, no tic-quase, no tac-

quase, o inchaço da bolha
do tempo na quase tarde
ou na quase noite, e os gatos,

ao largo, à revelia de nós, eles
os inventores e cultores
da imobilidade absoluta.]

sexta-feira

[PARA QUE VOCÊ CONHEÇA O ARDOR]

[o ardor? ora, o ardor é o ardor 
da música que não tocou, 
é o da fundura do lago 
que há no espanto, é o ardor 
da galinha fantasma 
que atravessou a parede e veio 
recitar fernando pessoa
com voz de mezzo-soprano, 
é o ardor da linha avessa ao nó, 
é o ardor do barco que afundou 
com as partituras
todas do silêncio, é o ardor 
da protuberância metafísica 
ou do poema banal, é o ardor 
do homem que se enforcou
nas interjeições de um melodrama,
é o ardor de kafka, se kafka 
entrasse agora pela taberna, 
é o ardor de um poste
que projeta a sua sombra 
sobre o menino que deixou 
de existir, é o ardor da funérea
banda que leva o féretro 
dos escritores de obituários, 
é o ardor que vem do ventre
e sobe, sobe, até o estrondo 
de um coquetel molotov, 
é o ardor dessas unhas que riscam
o vidro, é o ardor da gastura, 
dos ácidos que se exilam dos metais 
e vêm ao céu da boca, é o ardor 
do fim de tudo, esses rostos 
na vidraça, esse agônico crepúsculo,
o ardor de arder as chamas 
de um fogo gélido, esses fogos
que queimam as desesperanças.]

[QUE NÃO FIQUE PEDRA SOBRE PEDRA]

[é preciso 
que o poema estranho, 
pelas vias do girassol 
ou do redemoinho, pouse 
em seu colo, desarrume
os seus cabelos, trance
os seus passos até o ponto
em vértigo de um tombo, 
que leve a sua mala vazia
ao comboio,
lá onde, na plataforma,
o destino seja um lugar
nenhum do fim do mundo.]

quinta-feira

[O CÉU INTERROGANTE DA SUA BOCA]

[augúrio: a porta, o túnel. abrir,
abrir, pois que as peônias roçam lábios
no sol. escrevo para que você não tropece
nesses vazios da música. torpedos 
mortíferos estão desenhados no muro,
e esta carta já nasce morta sob o estrondo
cruel de agosto. quem é aquela no lado
de lá da ponte? quem é aquele no lado
de lá dos escombros? antes, antes
que o traço atravesse a punhal as frases,
escrevo para que você não caia no abismo.
zune, zune, zune o projétil qual látego,
qual espinho, qual lasca de espelho.
distribuo o corpo do poema no assoalho.
eis os mosaicos sobre os ladrilhos.
deturpo a ordem dos ditos, desvirtuo
a hóstia dos sentidos. você me entende?
deixo ao sol a pino a pele de um poema
áspero e adusto. você me entende? melhor
seria a valsa, a polca, o fox, a novena?
inverto a frase, e ponho o pimento robusto
no céu interrogante da sua boca.]

terça-feira

[AS PALAVRAS COM UM LÁPIS NO DORSO]

[desfez-se, por fim, o céu-
ferrugem, céu das chapas
de ferro em óxido
nos quintais abandonados.

agora é o azul. ouço
a saudação dos pássaros,
e os urubus, altaneiros,
vagam pelo ar rarefeito.

é assim a vida, diz o velho.

eis o velho à beira da estrada,
essas mãos milenares,
esse olhar para o azul
agora composto de alegrias
recém-nascidas, esse azul
que verte o seu néctar
sobre os telhados da vila.

o velho assiste à comunhão
do dia com a escritura dos simples.
é o lápis no dorso das palavras-formigas,
é o lápis no dorso das palavras descalças.]

sábado

[LADRILHOS, PARTÍCULAS, MIGALHAS, VIDRILHOS]

[a mediocridade é a mais sedutora e hipnótica das bruxas. atrai como a serpente atrai o passarinho.]

[no olho da fervura, há mais poesia do que nos compêndios de verso &prosa, nos tratados altivos, nas falas da soberba.]

[bem cedo, ainda escuro, cortei a cebola, o pimentão e o tomate, amassei o alho, e fiz o cozido exalar pela casa.]

[disse o velho que ideologia é tal água aberta no quintal: ora inunda tudo, ora vai por trilhas aqui e lá, direita, esquerda e pelos meios.]

[com o prumo do pedreiro, você pode aprender a dar o corte, no final da linha, no próprio coração da imagem. é o ritmo.]

[torquês: ótima ferramenta para um poema.]

[o novo, agora, só na criptoteca, com os códigos indecifráveis. o resto é rede.]

[prantear. verter lágrimas por isto e aquilo. na antiguidade do dicionário ainda encontro tais pepitas.]

[na oficina, para construir o poema, ele fez antes uma incisão na rocha.]

[nesta altura das contendas, já sou o homem que palreia com os livros. digo-lhes onomatopeias e escuto: a língua deles soa tal música.]

[nomeávamos cada coisa com outro nome: nuvem era valsa, matagal era teatro, a noite, manto, e a frase, para a frase um nome por minuto.]

[o poema, então, meu amigo, é a água derramada do vaso, manter do lado de fora a forma do vasilhame que a continha.]

[o livro é um veículo que, mesmo em altíssima velocidade, você pode pular fora sem risco de fraturas.]

[tipos ideológicos: o que é, sem que pareça ser, embora gostasse de parecer que é, não fosse a canalhice de posar que é outro.]

[águas de março, águas de junho. o que fez o tempo enlouquecer tal graveto dentro de um redemoinho?]

[um cérebro de polainas só produz textos de polainas.]

[nublina em belo horizonte. verbo nublinar: não existe. mas deve ser inventado.]

[nenhum poema usa mais a solar palavra arrabalde, que vem do árabe ar-rabd, e logo se turva, soturna, com os us da palavra subúrbio.]

[ele vincava de tal modo as palavras que o poema exibia-se tal fraque em vitrine de alfaiataria.]

[o mais, mais ainda, não suportou a luz vespertina, a luz que fenecia, e foi à taberna com o menos, o menos ainda.]

[bem avisamos que o poema era dentro de outro poema e o poema de dentro era o poema de fora, salvo erro, salvo engano.]

[intempérie é uma bonita palavra com esse tropel de sílabas, tropel que avisa o que vem, taróis de chuvas e trovoadas.]

[saltou uma palavra do dicionário. e a palavra era aprazível.]

[resistir é limar a lâmina, tinir o metal e dar uma banana para os energúmenos.]

[lia em voz alta um livro de jean-luc nancy e os pardais todos chegaram em palreações de simpósio.]

[era uma imagem quase de fruta: a lua das cinco da tarde sobre a place vendôme.]

[aquele livro de heidegger sobre heráclito e essa cerveja tão lânguida, tão à espera, tão senhora de seu copo.]

[essa aflição pela poesia. calma. sossega. a poesia não é um cachorro com a língua de fora.]

[há uma multidão de ex-amigos que tomou o bonde para a ruína.]

[há uma estrada lezama e há uma estrada borges. e há a estrada macedonio.]

[fracassei, mas ainda assim atiço a pedra em outra pedra para as faíscas de poesia.]

[o diário argentino de gombrowicz. infatigable el viento. primero anotaré los hechos. navegamos por el delta del paraná.]

[ler o livro para que dele já não reste nada. e então recomeçar a leitura. a partir do nada.]

[então vamos ler o que ainda não está escrito.]

[PASCAL QUIGNARD E AS CÂMARAS DE ECO]

[pascal quignard, em «dois laços
entre o som e a noite», diz que as grutas
paleolíticas não são santuários de imagens,
mas instrumentos de música cujas paredes
foram decoradas, são ressoadores noturnos
pintados no invisível, câmaras de eco,
e o eco teria determinado a escolha
das paredes a serem pintadas. 

diz ainda pascal quignard que o eco
é o lugar do duplo sonoro, do mesmo modo
que a máscara é o lugar do duplo visível:
máscaras de bisonte, máscaras de cervo,
máscaras de ave presa de bico curvo. etc.

mais adiante ele diz que o eco é o guia
e o referente na obscuridade silenciosa,
e diz ainda: «o eco é a voz do invisível».

costumo pensar com frequência no eco
dentro do poema, no som que se estilhaça,
que se fragmenta, sílabas-partículas
em colisão sonora: sons para que os olhos
os vejam. ver som. ver o eco. o olho que escuta.

sei que as teorias poemáticas são modos
de justificar o que a obra, titubeante, obra.
mas de ler pascal quignard nesse tratado
sobre o som e a noite, encontro um alívio
na aflição de um paradoxo: 
o poema é o olho que canta.]

[E SE WANDER PIROLI PASSASSE?]

[os arrabaldes de belo horizonte.
eis a praça do peixe com o linguado
de plástico a equilibrar-se numa vara
ao tempo, para lá é o norte, para acolá
é oeste, se vai morrer, sobe a rua bonfim,
se vai viver, siga a via para o carlos prates.

futurismos tardios na rua bonfim.
vende-se gelo. vendem-se pentes
velhos, abajures sem lâmpadas,
máquinas de costuras onde coser
a mortalha de um mendigo
que acabou de morrer. ou não.

vivo está, sonolento talvez, o guarda
vem para o diagnóstico: "é o altair",
alguém diz. altair sorri. ressuscitou.
e se passasse agora o piroli a caminho
da praça vaz de melo? e se caísse um anjo?
piroli não passa e o anjo não cai.

são matinais os olhos nos arrabaldes
de belo horizonte. corações de bandoneóns
ainda pulsam a noite anterior. 
a sofreguidão na pele da cidade,
a curva do viaduto onde dorme um cachorro.

e se o piroli passasse agora a caminho 
da praça vaz de melo? e se um anjo
lunático escrevesse agora a sonata
dos dias agônicos? há silêncio de morte
na brisa de agora há pouco. sopram
as ventoinhas do tempo louco.

de pé, altair retoma o seu calvário. 
o brasil inteiro se esfarela em pão e mofo
na rua paquequer. altair agora valsa. 
valsa a valsa do imperador. altair valsa.
quão tristes são as alegrias 
nas gengivas nuas de altair.]