Sexta-feira

PELAS FRANJAS DA PAISAGEM



Hoje, com a manhã a tropel, manhã a passos de potro, desci a Avenida Afonso Pena na doce companhia do Jorge-Ficções, ele que, entre tantos atributos, proclama ser um parente distante do Conde Isidore Ducasse, apelidado Lautréamont, o outro do monte, o outro de Montevidéu. Fazia poesia concreta na esquina da Rua Maranhão. Fazia guernica nos olhos de um menino a jogar bilboquês. Vimos o Big Sur pelos lados do quartel do Corpo de Bombeiros, mas não vimos o Henry Miller. Henry Miller não ia à solta, à solta ia o Olavo Bilac, com novas polainas. Descíamos a avenida e o Jorge-Ficções chutava com o bico dos sapatos umas quintessências filosóficas. Duas imanências cruzaram o nosso caminho, duas transcendências choveram nos nossos olhos. Passaram por nós dois poetas irados e voadores, poetas de boa envergadura, com asas de altazor. Pela Rua Ceará, ouvimos alaridos. Nada preocupante. Eram os alaridos de uma Virginia Woolf a caminho do café. Belo Horizonte estava quase Barcelona na manhã-sorvete desta sexta-feira feita de bolero e samba-canção. Rios de literatura desaguavam a caminho da Savassi. Não vimos cachorros. Vimos gatos. E garças e alguns tamanduás. Jorge-Ficções contava-me aleluias e pipocas. Coisas epifânicas, lembranças do nosso amigo Kafka, falava-me de tempos de guerra, falava-me de tempos de cabaré. Nas viradas da Avenida Getúlio Vargas, tomamos um bonde. E o bonde entrou sorrateiramente pelas franjas da paisagem.

Quarta-feira

LAURA I. E LAURA B., LEITORAS DE LIVROS



Perdiz-de-Dentro é um lugarejo de Minas Gerais onde vivem apenas 52 pessoas. Quarenta e nove jamais leram um livro; uma já viu um livro voando; as duas últimas (na verdade, duas mulheres) são leitoras em todo o tempo e em toda a vida. Estivemos ontem em Perdiz-de-Dentro e foi um gosto encontrar essas duas leitoras, Laura I. e Laura B., e ter com elas a infindável conversa a respeito de livros. Curiosamente, Laura I. e Laura B. só lêem páginas ímpares, sob a alegação de que as páginas pares quase amiúde domam o que os livros possuem de selvagem, de agreste, de desgoverno. Amores as duas tiveram, amores de morro abaixo e de morro acima. Eram quase sempre homens inquietos na geografia, uns eram bandoleiros, outros atravessadores de mares. Eles apareciam no lugarejo de repente e, de repente, partiam. Iam com flor de beijos nos lábios e, ali, igualmente deixavam pétalas de beijos nas duas mulheres. E todos, todos eles, a seu modo, traziam um livro a tiracolo. Em Perdiz-de-Dentro os livros ficavam, e em Perdiz-de-Dentro compunham as estantes. Pois ontem lá estivemos. E com as leitoras tratamos de livros. E bem achamos que Perdiz-de-Dentro é a súmula do mundo. O que pode mais querer um escritor a não ser a fidelidade de duas leitoras, Laura I. e Laura B., leitoras de páginas ímpares, pois as pares de nada servem? O paraíso de um escritor é a vila de Perdiz-de-Dentro. 

Sexta-feira

NOTURNO COM LUA DE SANGUE


Noturno - Oswaldo Goeldi 

"(...) ... os delicados foram os primeiros. Ouvimos seis tiros. Depois foi a vez dos cabisbaixos. Oito tiros. Pouco depois do meio-dia, chegava a hora dos mancos. Quinze tiros. Pela tarde, os tiros eram incontáveis. Foram os destros, os ambidestros, os aquarelistas, os delgados, os corcundas, os atarantados.
O chefe fez a barba sob o sol, com o espelho por um prego espetado na árvore. O chefe não usava camisa, tinha as calças arregaçadas até os joelhos. O chefe tinha um nome sem sal: Ormes. Não cumprimentava a gente. Dava as ordens com a ponta dos dedos.
Fiquei responsável pelos taciturnos. As instruções do chefe indicavam no caderninho nove tiros. O fuzil era de verdade uma carabina, com o cano serrado. Abigail vinha comigo, tinha sido recrutada entre as mulheres do lado de lá do rio. Abigail era magra, chupada, sem sangue nas faces. Jamais ria. Possuía dois pedaços de gelo dentro dos olhos.
Ia dar a hora do acerto. Os taciturnos foram levados para perto das moitas de capim barba-de-bode. Eram cinco. Os tiros seriam nove. Eu que escolhesse o felizardo para ganhar mais de um ou mais de dois tiros.
O chefe fez o sinal com os dedos. Senti a automática de Abigail nas minhas costas. Ela empurrou em mim o cano, tinha decisões e mostrava os pedaços de gelo dentro dos olhos. E quando dei por mim eu estava ajuntado à turma dos taciturnos. Ia começar o tiroteio...".

Terça-feira

OS DEZ ÚLTIMOS MINUTOS DE MARX




1. Os quatro livros tratam de um mesmo tema: os dez últimos minutos na vida de Karl Marx. Saborosos presentes que me foram dados por Isabella Negrini, os livros se acham guardados sobre a mesa que possuo no canto do escritório, não longe da janela para o parque, sob o retrato que Pablo Picasso fez de Jonas Aldebarã.
2. O primeiro livro — uma novela — descreve os dez últimos minutos da vida de Karl Marx em 232 páginas. O autor, um jovem belga de nome François Kobon, procurou manter o foco de sua narrativa sobre os olhos de Marx — e isto torna a sua obra um tanto comovente, um tanto melancólica, um tanto abissal.
3. O segundo livro — um ensaio histórico romanceado — é de autoria do espanhol Vargas Lepera. Rendo aqui uma enfática homenagem ao autor, pois ele se fundamenta em volumosa e (acredito) credível documentação. São 454 páginas quase inteiramente dedicadas às vozes que arrodearam o moribundo em seus últimos instantes.
4. O terceiro livro — uma peça teatral levemente inspirada em Brecht — foi escrito pelo brasileiro José José Mareiro. Com cinco personagens (anjos-vampiros) e um coro com dez integrantes, a peça de Mareiro reproduz o embate entre os anjos (uns bons, outros maus) para tomar posse da alma de Marx. Tudo isto nos últimos dez minutos da vida do filósofo.
5. Já o quarto livro — um romance experimental — é de autoria do português Mário Lopes Guarda-Mór. Estranho e desconcertante romance. São 543 páginas. Seqüência intermitente e intercalada de monólogos, Guarda-Mór põe, por exemplo, o próprio dedo polegar de Marx (da mão esquerda) para falar abrupta e velozmente a respeito da classe operária. Tudo isto, como já disse, nos últimos dez minutos de vida do velho revolucionário, se é que podemos chamá-lo assim.

Quarta-feira

A CIDADE DISSOLVIDA



De Chirico, Love Song
(...)... espantar, espantávamos, mas era. Estava. Havia. Vero e veraz, lá estava o Senso Comum grudado nas paredes, grudado nos ladrilhos, grudado nas calçadas, grudado na sola dos sapatos. O Senso Comum, matéria gelatinosa e pegajosa, visgo, grude, gosma, lá estava o Senso Comum senhor e dono da cidade.



Espantar, espantávamos, alguém chamou o guarda, Dona Elvira, ainda de camisola, veio à rua com os chinelos gastos, chinelos arrastantes, para ver o Senso Comum em pingo a pingo, gota a gota pela torneira do jardim. Não descia, não voltava, a goma entupia a torneira, entupia a mangueira, entupia o mundo.


Dei voltas e voltas pelo bairro. Passei pela casa dos doutores e dos magistrados, entrei pelos becos das trevas, fui ao morro — de lá, com os olhos cansados, fui só desânimo. O Senso Comum, plasta de matéria de emplastro, substância esbranquiçada com a cor do bolor — lá estava o Senso Comum senhor e dono do meu bairro.


Chopin esmolengou-se na vitrola. Bach virou martelo na sala. Homero, com as páginas entreabertas, escorreu a baba. Lá estava o Senso Comum senhor e dono das letras, das artes, das coisas porosas do espírito.


O rádio, derretido, trazia notícias do lado de lá das esferas — todas as esferas tomadas pelo Senso Comum, senhor e dono do universo. O jornalista, com a sua caneta sem aderência, escrevia em papel de cera, esvaía-se tal e qual vela, círio, em noite de trevas. O jornalista escorria pela cidade sob a gerência do Senso Comum, senhor e dono das notícias.


Escondi-me no quarto. Meu quarto dissolvera-se. Até a arma era agora uma bisnaga mole, pendente, na mesinha de cabeceira...”.

Sábado

TARANTELA PARA BANJOS MARINHEIROS


Leonora Weissmann
se fosse a ilha se fosse o fim se fosse a hora se fosse o tempo se fosse a chuva se fosse o vento se fosse o marco se fosse o doce se fosse ela se fosse aquela se fosse o dois se fosse o um se fosse o cheiro se fosse o lusco se fosse o fusco se fosse a linha se fosse a luz se fosse o talo se fosse a carne se fosse o jeito se fosse o modo se fosse tanto se fosse quase se fosse o barco se fosse o mastro se fosse a ilha se fosse a hora se fosse o modo se fosse o tempo se fosse o rumo se fosse a bússola se fosse a vela se fosse o vinho se fosse angola se fosse minas se fosse a basca se fosse a linda se fosse a boca se fosse a perna se fosse o seio se fosse a moda se fosse a música se fosse a onda se fosse o pássaro se fosse quem se fosse alguém se fosse moça se fosse boca se fosse beijo se fosse cama se fosse o fogo se fosse a arma se fosse a hora se fosse o fim se fosse a ilha se fosse o mundo se fosse a quilha se fosse o leme se fosse agora se fosse agora se fosse agora a hora da chegada 

CHUVA DE PRISMÔNEAS EM BELO HORIZONTE



Paul Delvaux
Choveu prismônea hoje em Belo Horizonte logo depois das sete da manhã. Em menor número na região norte, mas abundantes na região sul, as prismôneas tingiram o céu com aquela cor que lembra a romã madura, a romã entreaberta, sedutora e convidante. Alguns meninos, com pratos fundos, apanharam uma boa quantidade das prismôneas maiores, ali pelas ruas do São Lucas. No centro da cidade, entre a avenida Paraná e a rua Guarani, um homem (soube-se depois ser o contista Antônio das Nuvens) recebeu uma prismônea de dois quilos na cabeça. Se sólida fosse e não gelatinosa, a prismônea certamente seria agora chamada de prismônea assassina. Antônio das Nuvens, porém, só ficou um pouco zonzo e foi fazer o seu lanche no Café Palhares.

Segunda-feira

CARTÃO DE VISITA


"The Key", Jackson Pollock
não pediu a bênção ao poeta mais velho, não
pediu a bênção ao poeta mais novo, não

pediu a bênção nem a benevolência do poeta
de nenhuma década, de nenhum século, não

foi à missa de sétimo dia do poeta canônico, não
pôs flores no túmulo do poeta acadêmico, não

autografou para o poeta posudo, não trocou
brindes com o poeta da moda, deu bananas

ao poeta de vanguarda, não abriu guarda-chuva
para o poeta na chuva, pôs língua de fora

para o poeta paulista, mostrou os bagos
para o poeta de minas, meninos e meninas,

bibelôs à cata de migalhas à cata de louros
à cata de prestígio, poetalóides de galochas

e polainas e umbigóides só cílios e dentes,
balalaicas sem cordas, enxadas sem cabo,

malas sem alça, bocós beócios do brasil
pateta do brasil simplório do brasil pascácio

FALAR DE LUAS QUANDO PASSA A NAVE


Max Ernst - The Kiss - 1927


“Falar de luas quando passa a nave, só se for na ponte, nas muradas da ponte, ao seu ouvido. Seu nome é mesmo Tilza? Tilza com z? Gosto. Gosto das estranhezas do dizer estranho, arranhar o dedo no vidro em névoas, ter o mistério nas pontinhas de um buraco na vidraça.

De luas eu sempre falo até para as criaturas aqui de casa, quando chega a noite. Na sou daqui, desta cidade, aqui sou hóspede-forasteiro. Sou jogador de pôquer e leitor de romances. Tenho bigodes, prescindo de gravatas, aprecio o que for de parentesco com ambrosias. E as luas. Delas sempre falo, para elas eu guardo o melhor da voz.

Bom é ficar de mãos dadas sobre a ponte, na murada da ponte, quando a lua vem. Suspirar, se for esta a vontade; alentar bem perto os hálitos, se for a hora, se for a vez. As mãos. Mãos nasceram para os entrelaces, núpcias de dedos, tudo no mundo acabar por ter destino nubente.

Presumo que você seja morena clara, conforme sugere o seu nome, Tilza. Presumo, nas imaginações, duas covinhas nas bochechas, um biquinho nos lábios, um dedo mindinho dos mais suaves. E a voz, sua voz, acho eu que é voz de pura música.

Errado. Estarei errado? As imaginações acertam por outros caminhos, isto eu aprendi com as artes do jogo, com as artes dos romances. Presumir é inventar o que será nos fundos mais secretos do que ainda não existe, mas existirá. Assim: a Tilza que nunca vi, a Tilza que sempre vi.

Se São Paulo fica longe? Fica. Mais perto é a minha casa. E há ponte nos baixios da rua. E a ponte tem muradas panorâmicas. E por essa época do ano as luas são das enormes, redondas, acesas, muito loucas, luas de cabelos soltos.



Você vem?”.

Terça-feira

A GEMA DO POEMA






Para o poeta Ricardo Aleixo


À caça de Kafka, passei pela morada-jaguadarte e lá grafei em saudações o nome carol, insisto, grafei carol no lugar onde o certo era estar o nome carroll. Talvez tenha sido obra de uma lupa opaca; talvez tenha sido o rato que rói de vez em quando o léxico. Talvez. O fato é que depois, súbito, num átimo, fiz do dedo um istmo sobre o mar aberto do teclado, fui rápido, quase um corisco, mas grafei de novo o quisto que contaminara por inteiro o abecedário — saiu o nome caroll onde o certo era estar o nome carroll. Oh, Lewis, oh, Carroll. Feroz Jabberwocky. Gárgula dos mares, gorja das tempestades. Valente mistura de jaguar e jubarte — precisão do ataque com a elegância do jogo, dupla combinação de “Rs” e “Ls”, letras nos espelhos de outras letras, símile de símiles, buraco negro por onde entrou Alice, chuva de meteoros no canino dos “Rs”, lambida erótica da língua na parelha de “Ls”. Oh, Lewis, oh, Carroll. Feroz Jabberwocky. Pupila de onça na noite dos fonemas, pegadas na areia do saara do idioma, gema do poema. Por isso, depois da flanela rubra sobre o sol dos óculos, depois de atravessar a selva labiríntica dos equívocos, envio ao poeta o mapa desse ir e vir verídico, embora cego; veraz, porém só alcançado pelo ir e vir do erro. E a corda do arco se fez tesa. E a flecha fez do trajeto a sua meta.

Segunda-feira

A HISTÓRIA DE ANNA V. OU DOLORES MELGAÇO


(...)... o seu verdadeiro nome era Dolores Melgaço. Amiga de Molly Bloom, não estava em Dublin no dia 16 de junho de 1904, o que lhe valeu a exclusão do Ulysses. Para bajular Joyce, e consequentemente entrar em seu próximo livro, adotou o nome de Anna V., embora, muitas vezes, assinasse Anna Vargas. Como se sabe, o escritor irlandês preferiu Anna Lívia Plurabelle, uma cantora de ópera que passava as tardes trinando às margens do Liffey. Dolores Melgaço ou Anna V. era filha de um português com uma espanhola. O pai era natural de Lisboa e morreu em Goa. A mãe era de Málaga e acompanhou a filha em sua peregrinação européia no rastro de escritores famosos, no princípio do século 20, tudo fazendo para ser pessoa de romance. Em toda a sua vida, porém, Anna V. (ou Dolores Melgaço) só conseguiu papéis secundários. Para quem se recorda, ela é a vendedora de flores em Paris é uma festa, exatamente na página 50. Contudo, em algumas edições (a que tenho é de Bogotá), Hemingway a omitiu. O escritor norte-americano (ranzinza) não ia muito com a cara de Anna V. ou Dolores Melgaço. Desiludida com a má sorte, ela se transferiu para Buenos Aires, logo nos começos de 1921. Em seguida, mudou-se para o Brasil. Foi por algum tempo datilógrafa de Oswald de Andrade, brigou a tapas com Pagu, no bairro do Cambuci, vendeu amendoim no Viaduto do Chá. Geniosa, teve igualmente violentas brigas com Mário de Andrade. Mas Anna V. gostava de Villa-Lobos. Foi ela quem deu ao compositor o par de chinelos para o happening no Teatro Municipal de São Paulo, durante a Semana de Arte Moderna. Mário de Andrade, contudo, se vingou dela: no Macunaíma, simplesmente a colocou no papel de uma catatua: página 122, na edição turca. Anna V. está sepultada no Cemitério da Consolação, ao lado da mãe. Covas 31 e 32, A e B, em jazigo simples...”. 

Sábado

O DIA EM QUE O CAPETA QUIS APRENDER POESIA COM LEMINSKI




foi um dia quando,
e era o capeta (o que tudo sabe
ou que tudo julga saber),
o capeta veio, tronço de muito esconço,
torbo de muita turba, o capeta veio,
e o capeta queria porque queria,
queria aprender poesia,
e foi de poeta em poeta,
de freguesia em freguesia,
a uns perguntava sonetos,
a outros perguntava elegias,
tabernas de portas abertas, covis
de portas fechadas, antros de becos
malditos, ruares de malefícios, e o
capeta veio, e encontrou o paulo, o
paulo que era leminski, quis dele
saber onde a fonte, onde o alho
do bugalho, em qual pedaço
de rima, em qual trecho de asfalto,
como aprender tal ofício, exímio
arpejar de um lado, parágrafo de doido
compasso, metáfora sem cuia
ou guia, barroco de copulário,
palavra dentro de palavra, ovas
dentro de ovários, poesia no fundo
da agulha, onde encontrar tal
uva para esse vinho da poesia.
e leminski, passarinho, virou-se
para o capeta e a ele deu a lição
mais alta: ó luzbel de lucifares
malucos, anjo doido de enganos 
e negaceios de perdiz:
em matéria de poesia,
todo mundo é aprendiz.

Sexta-feira

O ENCONTRO DE JUAN RULFO E GRACILIANO RAMOS



(...) ...veio de manhã o Juan Rulfo para o encontro com Graciliano Ramos. Rulfo saiu de dentro de Pedro Páramo e Graciliano saiu de dentro de Vidas Secas. O deserto das palavras tinha pedras no meio das frases. O deserto das palavras tinha oásis no meio das frases. De cá, em Belo Horizonte, junto com o Quixote e o Kafka, vigiamos Rulfo e Graciliano em volta das palavras arenosas, palavras destituídas de enfeites, palavras feitas com a gema das pedras.




Palavras bonitas são aquelas que não se penteiam diante do espelho. Palavras bonitas são aquelas que não usam batom. Palavras bonitas são aquelas que trazem a gema no seu oco de infinitude. Palavras bonitas não precisam de brinco nas orelhas nem de verniz em suas paredes. Palavras bonitas são palavras-palavras, disto sabem Rulfo e Graciliano em volta de dois laços de conversa, de dois nós no barbante da conversa.




Ouvir o silêncio de Rulfo, ouvir o silêncio de Graciliano.




O dia depositava mais silêncio em volta do lugar onde os dois — saídos cada um de seu livro — puseram banquinhos para enrolar uma conversa dentro da outra. A conversa serpenteava pelo terreno arenoso, de pedregulhos. Era cascavel, era um urutu com estrela na testa de um lado e outro da paisagem.




Lugar muito perigoso para o uso de conversas tão silenciosas. Mas era assim que Rulfo e Graciliano conversavam. Dava para ouvir de longe a música que as pedras faziam quando tocadas umas nas outras. Áspera nota musical de uma pedra roçada pela outra.





Quixote escutou cincerros no pescoço de palavras-burregos. Kafka escutou rabeca tocada por palavras-de-sol-a-pino. Nenhum desperdício. Nenhuma usura. Tudo o que Rulfo e Graciliano diziam era dito com a dose exata dos prumos...”.

Quinta-feira

CARTAS DE PESSOA A MACHADO





Rubem Focs, em seu Duas cartas de Fernando Pessoa a Machado de Assis (romance, Editora AuroraAzul, Lisboa, 144 páginas, 2003), nos revela as duas cartas que o poeta Fernando Pessoa enviou a Machado de Assis em 1908, duas preciosidades que se encontravam perdidas em um velho sobrado do Rio de Janeiro. Estavam dentro de uma pasta de couro, junto com objetos os mais díspares, entre eles, uma caixinha para tabaco (mais conhecida na época como boceta), um par de alianças, um pé de coelho, um potinho de rapé, recortes de jornais cariocas, um monóculo e um pequeno amuleto africano. As duas cartas datam de julho de 1908, uma no começo do mês, a outra no fim. Bem sabemos que, dois meses depois, a 29 de setembro, morreria o autor de Dom Casmurro. Na primeira carta, entre outros acontecimentos e igualmente com palavras de admiração à obra do brasileiro, o jovem Pessoa, então com 20 anos e já tradutor de missivas comerciais, conta a Machado de um facho de luz azul que ele vira dias antes sobre o Tejo. Na outra, ele pede conselhos sobre uma possível mudança para o Brasil, dizendo: “Sei que tudo pode ser um sonho, mas amanheço às vezes como se morasse no Jardim Botânico”. As cartas foram encontradas por operários no ano de 2000, durante a demolição de um sobrado no bairro da Glória. O sobrado pertencia a um tio de Rubem Focs.

Quarta-feira

À MODA DE AFFONSO ÁVILA




Foto de Eduardo Trópia


atenção, devagar: escritores pelas ruas de ouro preto
&

atenção, devagar: escritores portugueses pelas ruas de ouro preto

&

atenção, devagar: escritores angolanos pelas ruas de ouro preto

&

atenção, atenção: escritores brasileiros pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores portugueses angolanos brasileiros pelas ruas e becos e praças e pracetas e igrejas e morros e vaus e vãos e declives e vales e socavões de ouro preto

&
atenção: escritores de óculos pelas ruas de ouro preto
&

atenção: escritores de bolsas e máquinas fotográficas e
notes e laps e pens e stars pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores ridentes e gargalhantes pelas ruas de ouro preto

&
atenção: escritores contemplativos e melancólicos pelas ruas de ouro preto
&

atenção: escritores deslumbrados e embasbacados pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores falazes e mendazes pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores mudos e desplumados pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores marcianos pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores de óculos bolsas máquinas fotográficas e
notes laps pens stars pelas ruas de ouro preto

&

atenção: escritores ridentes gargalhantes contemplativos melancólicos deslumbrados embasbacados falazes mendazes mudos desplumados marcianos pelas ruas de ouro preto

&

oãçneta: escritores pelas ruas de ouro preto

&
o fanfarrão minésio alisa a própria pança
&

Terça-feira

QUIXOTE PROCURA A MINEIRIDADE


Max Ernest
Não era um elmo como aquele descrito por Luís de Camões: “A viseira do elmo de diamante/Alevantando um pouco, mui seguro,/ Por dar seu parecer se pôs diante/De Júpiter, armado, forte e duro”. Não, não era. Mas era um elmo de latão ou de zinco, com o qual Quixote foi pelo País das Gerais à procura da Mineiridade. De porta em porta, de casa em casa, de rua em rua, de vilarejo em vilarejo, Quixote perguntava: “E a Mineiridade?”. Ninguém sabia, ninguém soube, doida pergunta de doida pessoa, que a Mineiridade não mora mais em Minas, foi de viagem, pegou o navio, está em Paris ou Moscou, casada para alguns, solteira para outros, a Mineiridade não mora por esses nossos lugares. Vende pastel em Boston, conserta torneiras em Bruxelas, fabrica doces na Suécia. E o Quixote, incansável, de rua em rua, de porta em porta, de freguesia em freguesia: “E a Mineiridade?”. Nada. Melhor convocar o delegado para prender o perguntante. Na certa ele guarda uma bomba dentro do elmo. A Mineiridade o gato comeu. Cadê o gato? Foi ser astronauta. Cadê o astronauta? Virou deputado? Cadê o deputado? O deputado mora em Miami. E o Quixote, incansável, de rua em rua, de cidade em cidade. Nada. Nem com lupa, nem com luneta. A Mineiridade foi ser cantora em São Paulo. 

Domingo

QUIXOTE DESPUXA A ANGÚSTIA


botero 


Foi do Quixote a idéia de irmos hoje despuxar angústia na Praça da Liberdade. É bem verdade que os mineiros só conhecem a via contrária, isto é, puxar angústia, do modo como faziam os nobres cavaleiros de um doce apocalipse, isto é, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Pois fomos hoje despuxá-la, quem sabe desenredá-la, quem sabe espantá-la, dar um susto na angústia.


Ela se achava sentada em um banco e tinha aquelas feições próprias da angústia — limão puro no céu da boca, dolorosos narizes, abissal desejo por abismos. E lá estávamos, o Quixote e eu, diante dela. E até que não era feia, se a olhássemos por determinados ângulos. Achei por exemplo bonitos os seus joelhos e muito delicados os dedinhos de sua mão esquerda. E Quixote viu nela o fio — a ponta do fio — por onde deveríamos despuxá-la. Era um fio dócil, com laço na ponta.


E assim fizemos, começamos a despuxá-la, começamos a desenredá-la, começamos a desnovelar a dita cuja em novelos intermináveis. E de repente tínhamos uma angústia toda desnovelada, quase obra de um gato com um novelo de tricô. Quixote despuxava de um lado, eu despuxava de outro.


Sacra filosofia, desmantelados juízos. Era uma angústia com centenas e centenas de pontas, fios inacabáveis, labirínticas costuras, alucinados nós de borromeus em raciocínios lacans. E então — foi igualmente uma idéia do Quixote — resolvemos por um tratamento de choque: pusemos a angústia para andar de bicicleta. 

Sábado

PEQUENOS PRAZERES


Em A enciclopédia dos pequenos prazeres, livro lançado ontem na Sociedade Queneau de Belo Horizonte, Severus Cândido chama a atenção para as artes do devaneio e enumera cinco modos fundamentais para o bom devaneador: 1) Construir azuis com os olhos fechados; 2) Investigar vôos de pássaros imaginários; 3) Escutar silêncios; 4) Pastorear nuvens; 5) Ouvir os tratados filosóficos que os anjos ensinam para os gatos.

A MORTE DOS LEITORES AO MEIO-DIA

Vicente Gunz, em seu A morte dos leitores ao meio-dia (romance, 234 páginas, Editorial Gallo de Oro, Montevidéu, Uruguai), conta a história de um escritor que costumava dar fim aos seus leitores sempre em um mesmo horário (ao meio-dia), em um mesmo dia da semana (às segundas-feiras) e com um mesmo método (o envenenamento). Para cometer tais crimes, o por assim dizer lectorcida contava com uma rede de fiéis informantes (geralmente livreiros turrões e ranzinzas), os quais, mediante fichas criteriosas e minuciosas, fartas de anotações, facilitavam o acesso do escritor às suas vítimas. O capítulo de número 33 nos dá, por exemplo, um saboroso relato das investigações policiais que culminaram na prisão do escritor, um homem aí pelos 54 anos, com bigodes ao estilo do velho Eça, cultor dos clássicos latinos e que teria vivido na capital uruguaia entre os anos 1950 e 1958. Seus livros, conforme a narrativa de Gunz, eram disputadíssimos em todos os países de língua espanhola e teriam inaugurado uma rica e promissora via para o romance policial, conforme o palavrório de um exigente e guilhotinesco crítico literário. Curiosamente, um dos livros mais disputados nas livrarias da época (livro ao qual ficaram atreladas 32 mortes de leitores) chamava-se A morte dos leitores ao meio-dia , ali onde o tal escritor contava de um outro escritor que costumava assassinar os seus leitores ao meio-dia de todas as segundas-feiras, por envenenamento. Etc. Aliás, do lado de lá do Rio de la Plata, etc., um bibliotecário cego, etc., pela Calle Maipú, etc., vocês sabem. Com certeza, sabem.

Terça-feira

DENTRO DO OLHO DO TIGRE DE GÔNGORA

Legionários do avesso e do travesso, expedicionários da pândega, cada um com o seu elmo, cada um com a sua lança, com estandartes-bispo-do-rosário, com tatuagens removíveis, umas guitarras para horas de júbilo, uns apitos para horas de vaias, todos assim, nessas indumentárias e apetrechos, descemos hoje a Avenida do Contorno, sem rumo e sem bússolas, tudo pelo prazer da manhã, tudo pelo deleite dos andares e caminhares. Íamos em grupos e grupelhos, Cida La Lampe e João Serenus, Lucas Baldus e Severus Cândido, a Mulher da Aura Azul e Vicente Gunz, James Joyce e Nora, Vicente Almas e Lírio da Luz. Só faltou nosso amigo Franz Kafka. Mas a ele dedicamos uma imagem no estandarte-mor, levado por Cida La Lampe. E descemos a avenida. E ao longo da descida vimos e anotamos o que vimos:
Vimos o Jardel-Que-Se-Derrete-Com-Elogios, poeta todo caramelo, poeta todo algodão-doce.
Vimos o Escritor-Partido-Ao-Meio, uma parte na academia, outra parte na iconoclastia. As duas partes muito bem irmanadas, uma para uso em horas de avanço, outra para uso em horas de retirada.
Vimos a Ceribele-De-Flor-Nos-Lábios, ela e o seu paulo-leminski-dentro-da-bolsa, ela e o seu livro-do-desassossego-dentro-dos-espartilhos.
Vimos a Anabel-Semiótica, ubíqua em todos os cafés, ela e as suas conferências, ela e as suas palestras.
Vimos o Goliardo-Do-Malte, ainda vindo da noite, ainda abraçado a estrelas, ainda manchado de luas.
Vimos o Pôncio-Orson-Welles, ele e as suas lentes, ele e os seus enquadramentos, a caminho de uma câmara escura.
Vimos o Totó-Schonberg, ia dentro de um violoncelo, respirava pelos orificios de um trumpete.
E vimos um bando de arapongas recém-chegado a Belo Horizonte; vimos uns deputados-sabiás e umas deputadas-andorinhas; vimos uns leões leitores de bíblias, um bin-laden-com-um-sorvete, vimos pernocas de musas e pernocas de ninfas, muitos seios voadores, muitos lábios em florações, laranjas, parafusos, goivas e espingardas, utensílios disto e utensílios daquilo, pois Belo Horizonte era uma festa, um circo, uma ópera, um susto. 

Quinta-feira

SONATILHA

desque nasci, 
não me levam a sério.
por isso, acho graça
de cada coisa loisa-de-loisa
que ganho
nas margens
do seu império.

O QUE PEDE UM LIVRO

para ondjaki.


o que pede um livro, é nupciar com o seu leitor. hoje, amanhã, em um dia qualquer, estradas de acolá, pedaços de um tempo algures no mais-além-do-lado-de-lá, o grão de um olho, as mãos em côncavo de um leitor-leitora, apaziguado instante, flor de uma quietude errante, pêndulo que vai-e-vem, cópula do olhar com as letras, luz que a página não apaga, isto, sim, o que pede um livro, é nupciar com o seu leitor-leitora, pode ser hoje, daqui a um ano, um talvez século de um transcurso cego, caminho sem fim na amêndoa que o infinito põe e a abelha leva, distância mais distante de um não saber se vivo, se morto, se lá estaremos para ver o livro, júbilo dos júbilos, ele por fim aberto ao meio em sua tara amiga, alguém em um jardim de um século irreconhecível, eis que o livro cumpre o seu destino, lido e despido, nu em seu desígnio de ser acima-e-abaixo, por-dentro-e-fora, do fim ao começo e pelo avesso posto aos olhos de um leitor-leitora, estrangeiros no tempo, tortos quem sabe na paleontologia de um hábito esquecido, ler um livro, ter nas mãos o livro-livro quase o âmbar que a árvore guardou em uma cápsula escondida, secreta e cúmplice para enganar as distâncias, pois de matéria comum é feito um livro, tudo nele é esperança, não mais a gasta palavra esperança nas bocas sem substância, mas porvir nupciante que bate à nossa porta, diz olá, diz como vai, diz o que nem é preciso dizer pois sabemos ser próprio do livro: livro é noivante.

Quarta-feira

CONSUELO, EM VOZ E PERCUSSÃO

Consuelo de Paula e Cassia Maria: Jequitinhonha

Domingo

A CIDADE E OS PÉS ESCREVENTES

Todos os dias vamos à rua para construir uma nova cidade — eis o dia a ser nomeado, eis os lugares em seus clamores por nomes. Descer, subir, atravessar, passar pelo vau das avenidas, dizer aos homens e às mulheres que nos olham: “Eis a manhã, eis a lâmina tênue dos acontecimentos”.


Cada cidade é nova cidade assim que nela caminhamos, assim que por ela vamos com os nossos pés escreventes. Esta rua: melhor chamá-la rua Walter Benjamin. Esta praça: melhor chamá-la praça José Cardoso Pires. Esta avenida: melhor chamá-la avenida Wander Piroli.

Rua da mulher com um turbante, rua do homem que leva uma lanterna. Rua do gato que finge ser invisível por detrás de uma persiana, lá onde uma mulher (vamos chamá-la Dolores?) se despe diante de um espelho opaco.


A cidade é um corpo. Acariciamos a cidade como quem acaricia um corpo e, a cada carícia, nomeamos os istmos, os promontórios, os cabos, os arquipélagos, as ilhas, os barcos à deriva. A cidade é um corpo de mulher à espera de dedos que o leiam (leitura tátil) na manhã de uma expedição sem fim, fora dos calendários e das cápsulas abrasivas do tempo.

Rubem Focs gosta de dar aos becos nomes de plantas. João Serenus aprecia apelidar as esquinas com nomes de países. Eu dou às ruas e avenidas nomes de amigos, os que vão comigo pelos ofícios e pelas afinidades, os que já se foram e, também, os que ainda vão surgir nas dobras do horizonte.

A cidade de ontem é a cidade que fica na página anterior, construída enquanto andávamos. A cidade de hoje está em construção. Ainda há pouco, dei a uma esquina o nome de Esquina Luiz Vilela. E Rubem Focs, igualmente comigo nesta expedição matinal, deu a um beco o nome de Beco das Avencas Não Nascidas.

Terça-feira

ESCRITOR, BANDIDO


um escritor pode ter pólvora nas mãos
do mesmo modo que um bandido
um-ninguém bandido
umqualquer vandido (um) sem-ninguém
[bandido]
sexta-feira ou sábado nesta cidade (um escritor)
que rua que ruar ruínas [um bandido-escritor] vai
pela rua [tal qual um reles bandido]
a prima-matéria de um livro-opúsculo, um jeito
de subir-subir, esse caminho [subir]
mais do que subir [a faca, o pulso, o corte, o sangue]
a vaidade não tem nome só tem fome
[um escritor] tal qual um bandido pode ter a pólvora
no polegar [matar] um escritor não é inocente
[prima-dona] ele não é [dói dizer-ou não dói] saber
que um escritor pode ser símile [semelhante]
ave [agourento pássaro] noite-qualquer na esquina
[um passante] um homem-uma-mulher
uma criança [eis que o bandido] mora dentro
do escritor também o punho-teso [vai disparar]
o escritor dispara [todos os dias] um escritor
pode ter em mãos o tiro-prumo-agulha [este calibre]
tal qual um bandido [morrer por nada] publicar
(por nada) só o gozo do público [nada mais]
sobra [nada mais] resta [só o livro] só o tiro
do bandido

Segunda-feira

GANHEI UM PRÊMIO, COMPREI UM FUSCA

1. foi assim: ganhei um prêmio nacional de poesia e comprei um fusca.

2. ou melhor: ganhei em 1983 um prêmio nacional de poesia e comprei um fusca.

3. ou melhor: foi no ano de 1983 etc., talvez outubro, talvez novembro, talvez dezembro.

4. ou melhor: comprei um fusca em 1983 com a grana de um prêmio nacional de poesia.

5. ou melhor: com o prêmio nacional de literatura cidade de belo horizonte, comprei um fusca bege.

6. ou melhor: a grana era assim desse tamaninho, uma merdiúncula, mas foi com ela que comprei um fusca bege no ano de 1983 com a porra de um livro de poesia.

7. ou melhor: o fusca era bege, movido a álcool, com dois carburadores e muito rodado de mão em mão até o ano de 1983 quando pus as minhas patas sobre ele.

8. ou melhor: a culpa foi da poesia que me fez comprar a porra de um fusca bege movido a álcool com dois carburadores e ignição impossível em época de frio.

9. ou melhor: comprei um fusca bege com a poesia de um livro chamado diário do mudo.

10. ou melhor: era o ano de 1983 e, pela primeira vez, pude comprar um carro denominado fusca por causa de um prêmio nacional de literatura.

11. isto é: foi assim.

Quarta-feira

A TIGRESA DA PÓVOA DE VARZIM


“(...) ... foi na praça do Almada, junto à estátua de Eça, com mais exatidão a uns vinte metros do pé do monumento, que a tigresa pulou sobre o poeta — era, como se sabe, o dia 5 de agosto. A hora: 11 da noite. Os que conhecem a arte dos felinos para o salto (instante em que se assemelham aos pássaros e aos diabos) terão, com certeza, uma visão aproximada do que representou aquele pulo, aquele ataque — certeiro, como se acionado por um atirador de facas; indefensável, como uma adaga tuaregue à jugular. O poeta vinha de extravagâncias em uma taberna das redondezas e lá havia composto, em um recanto mais solitário, duas canções à moda de John Donne, uma delas de forte teor erótico. E ele vinha assim pela praça, com as lembranças do trabalho pronto, vinha cabisbaixo mas não melancólico, vinha leve, quase levitava, quando a tigresa, das trevas, saltou de dentro da própria sombra ou de sua própria aparição, tão ágil foi o bote, tão ágil a bocarra devorante foi tomar o pescoço do poeta — e seu sangue beber. (...) Há ainda na Póvoa de Varzim os que atribuem o fim trágico desse poeta a uma vampira escandinava, vampira sempre vagante pela região nos meses de agosto. Cronistas menos afeitos ao sobrenatural, porém, dizem que a tigresa ninguém mais era do que uma ex-noiva do poeta, por ele preterida. Seja como for, há dois anos, passando pelo local no mês de fevereiro, vi...”.

Segunda-feira

BIBLIOTECA DO FIM DO MUNDO


1. Hilda Hilst chegou pelas mãos de um carteiro trêmulo. Eram tremores por isto ou aquilo. Ele tocou a campainha, fez vênias e sorrisos, abriu mais sorrisos antes de entregar a encomenda. Dava ares de nunca ter lido um livro. Assim mesmo, solene, ele tirou Hilda Hilst de dentro da bolsa, sorriu mais vezes, mais vezes ele fez vênias, e seguiu o seu caminho. Ia muito anjo de si, muito em paz com o seu coração de tormentas.

2. Rimbaud veio desencapado pelas mãos de um hippie velho e foi deixado sobre o tampo de uma mesa. Era um bar de fim de rua, era um bar de fim de mundo. Ali Rimbaud dormiu sob respingos de cerveja e respingos de molho de carne. Sobreviveu, porém, à noitada. No dia seguinte, alguém o pegou. Se foi lido, não se sabe, mas de mão em mão ele zanzou pela cidade. E jamais foi embora.

3. Drummond chegou de ônibus. A mala que o trouxe era uma mala procedente de São Paulo. O casal vinha com desilusões e bolsos vazios. Trazia ainda três crianças muito magras. E Drummond, dentro de uma antologia, foi descansar sobre um caixote em um barraco emprestado. Ali passou semanas, talvez alguns meses. Foi afinal reencontrado. E estava perfeitamente legível, apesar do pó e do cocô de passarinho.

4. Clarice Lispector surgiu um dia sobre um dos bancos da praça. Quem a encontrou foi o ourives da cidade. O nome do ourives era Jardel e ele gostou daquele nome: Macabéia. Deixou Clarice um bom tempo entre relógios, anéis, alianças e ouro derretido. Só de vez em quando a abria, olhava devagar para dentro daqueles abismos. Isto até que a Mulher da Aura Azul quis saber o-que-era-o-que-não-era. Não soube, mas pressentiu música, ouviu aleluias e decidiu chamar a chuva.

5. E assim outros e outros chegaram pelos modos e caminhos os mais estrovengos. E acho que estrovengo é palavra que não existe, mas é boa para compor uma biblioteca.

Quinta-feira

O INTELECTUAL-COM-ENFADO



Tenho dúvidas se conseguiremos enrolar em dois carretéis o fio da fala do Intelectual-Com-Enfado. A fala dele tem tremores. E tem invisibilidades não captáveis. Lucas Baldus usa um carretel de soltar pipa; Rubem Focs usa uma carretilha de pescaria. Estamos no lado do dia onde as coisas são foscas. O bar não tem nome. Há quatro ou cinco viventes em mesas esparsas, com seus cálices, suas garrafas, seus pensamentos debulhantes. Sim, há pensamentos que são debulháveis, assim como quem debulha o milho de uma espiga. E o Intelectual-Com-Enfado pede a nossa atenção com a autoridade dos bichos entocados. Usa chapéu de palhinha. Usa um paletó cinza de riscas sinuosas. Tem os sapatos lustrados. Sem gravata. Mas observamos que ele pinta as unhas de um incolorido não fotografável. E ele fala. Não olha em nossos olhos. A fala, com tremores, tem buracos e abismos entre as palavras. Há pouco ele disse um axioma sobre os nós, os nós cegos. Depois veio com as premissas de um objeto redondo, oblongo, o qual ele não nomeia com nome decifrável. Os nossos carretéis já vão pela metade. Há muito trololó ainda. O dia é longo. Nós somos mínimos diante do Intelectual-Com-Enfado. De quando em quando, Baldus olha para os próprios sapatos, desbotados e gastos ali por onde as pedras são chutáveis. Rubem Focs enrola a carretilha com a fala do Intelectual-Com-Enfado e não percebe sinais de peixe. A vida é assim: pétrea, gorgulhante, imersa. O Intelectual-Com-Enfado tinge o dia de melancolia.

Terça-feira

A NAMORADA BRASILEIRA DE FRANZ KAFKA


P.A., em seu A namorada brasileira de Franz Kafka (Editora Veleiro Negro, romance, 234 páginas, Belo Horizonte, 2003), na página 2 daquela que ele chama de Introdução Falsa ou Introdução Piegas, pois o livro possui oito introduções antes que, de fato, comece, se é que verdadeiramente ele começa, diz o seguinte: “O nome dela era Perpétua. Magriça, olhos arredondados cor de amêndoa, com leve estrabismo, alva, de alvuras mais que alvas, pequena e ágil, risonha até mesmo quando em silêncio, mãos miúdas que no entanto não a impediam de ir ao piano do casarão sempre à tardinha para exercitar valsas, sonatas e polcas, a filha mais nova do coronel Albino Seixas, chefe político e fazendeiro de vasto território nos cerrados do Alto Paranaíba, teve um prenúncio naquele 3 de junho de 1924. Ao sair, pela manhã, à varanda, sentiu a pontada do que não tinha nome, pois era só enigma. Mas ela soube. Soube de tal modo que correu ao quarto, abriu o armarinho que o pai lhe comprara em Ouro Preto, de madeira rústica e azul barroco, e tomou nas mãos o pequeno embrulho fechado em caprichosos laços de uma tira de seda. Nele, Perpétua guardava as doze cartas que recebera de Kafka, o próprio, doze capítulos de uma história de amor começada dois anos e meio antes, em meados de 1921, naquela estranha cidade de Praga, destino que o pai, ao levá-la com ele em viagem de negócios pela Europa, pusera sem saber em seu coração. As cartas pareciam um incêndio em suas mãos minúsculas. E ela soube que Franz Kafka acabara de morrer.”

SETE LIÇÕES PARA DESESCREVER UM LIVRO




Nemésio Aldón, em seu Sete lições para desescrever um livro (Editora Pena de Pavão, 222 páginas, São Paulo, 1998), planejou este livro quando ainda jornalista literário de alguns dos mais importantes cadernos brasileiros do ramo, período em que assinava os seus rodapés sob o pseudônimo de Lev Artov. Segundo ele nos conta na introdução, eram anotações minúsculas, em cantinhos de papéis rotos, sem pretensão de que aquilo, algum dia, pudesse compor um tratado de desestímulo à carreira literária. Pelos meados dos anos 90, depois de um acidente sofrido em uma pescaria no Mato Grosso do Sul (tudo indica que uma parte de seu calcanhar direito tenha sido devorado pelos dentes de um cardume de piranhas), Nemésio usou a folga para escrever. E escreveu. E a sua catilinária, ácida, áspera, feroz, publicada por uma casa editorial paulista sem qualquer expressão, nos deixa perplexos da primeira à última linha. Ora são aforismos, ora são axiomas que, à maneira de Pascal, mas em tom baudelaireano, ele nos põe diante dos olhos com doses bem equilibradas de pessimismo erudito e ironia avassaladora. À página 55, por exemplo, ele diz: "Desescrever um livro é a mais sublime de todas as artes. Poucos conseguem atravessar esse rio em cujas margens cantam as desafinadas sereias do sucesso. Desescrever um livro é tarefa para gigantes. Marcel Proust não conseguiria ir adiante nessa jornada, pois, fraco como era, só podia escrever". Mais adiante, na página 145, no capítulo "Receita para o Fracasso", e como se usasse uma foice ao contrário de uma caneta, Nemésio atira o fatal petardo: "A humanidade seria outra se os escritores decidissem desescrever os seus livros."

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