Quinta-feira


Solilóquios de Merval, dono de curiós


“... o que é o amor senão o arroz que agora exala sobre a trempe, entregue ao alho e à cebola, batizado pelo sal, mais e mais em substâncias de branco, o que é o amor senão o arco-íris sobre a casa onde Mizabel compota a laranja, compota o figo, compota o mamão há pouco ralado, a casa de Mizabel com janelas para o leste e para o oeste, a bica no meio de avencas, o cachorro de nome Cachorro, o gato de nome Gato, o canário de nome Canário, Mizabel foi à feira, de lá trouxe o ouro em flor de uns girassóis e a salsa-cebolinha para o frango, o que é o amor senão o vento nas campânulas, ali onde o rio nasce, perto do lugarejo a que dão o nome de Cruvinel, légua e meia antes da Capelinha, légua e meia depois do Arapuá, foi, isto foi, foi em noite de corujas santas que assisti chuvas cadentes, pérolas de fogo sobre as copas de uma gameleira, os meninos já dormiam, as mulheres só nos rumores, mas o boi e o carneiro, estes, ali nós três vimos quando o céu foi despencando a chuvarada de fogo, tiros de espingarda no meio das estrelas, sim, o que é o amor senão o agora da varanda com a Lina de mãos comigo dadas, a Lina que veio de São Paulo, toda com esmaltes de carmim em unhas longas, a Lina quase onça, em inglês quase saliente, agora aprendiz de datilógrafa para cartas escrever, novenas transcrever, hinos regravar em papéis de rosa-cor e perfume de gardênias, a Lina, a Lina, toda Lina aqui quando a lua surge para os lados da França, para os lados da Holanda, pois logo-ali, depois da montanha, começa o estrangeiro, e a gente avista o estrangeiro sem precisão de binóculos, mundo, sim, o mundo é pequeno, cabe em caixa de amendoim, sim, o que é o amor senão o canto da saracura-beira-brejo, hora avançada da manhã que estala gravetos....

Quarta-feira


DESVIÂNCIAS DA LÍNGUA

"(...)


Por esse bairro, por essas ruas, dizem que sou o homem que pega a língua pelos cabelos e vai de esquina em esquina com a língua assim arrastada em crueldade. Ou então: dizem que sou o homem que cutuca a língua com vara curta, a fim de atiçá-la, a fim de molestá-la, a fim de vê-la ouriço-ouriçada, prazer-em-néctar de ter a língua descomposta, transtornada, a língua fora de si sem caber em nenhuma gramática.

Talvez sim, talvez não.

O dizer que eu concordo é que gosto de beijar a língua com a língua molhada todos os dias assim que a manhã salta e pula da noite. Já disse: eu sou namorado da parte-guerrilha da língua, das desviâncias da língua. Sou cúmplice do lado-bruma da língua e gosto quando a língua age no áspero para polir os meus dias.

O irmão Ondjaki um dia conversava comigo em bar-emporium nos altos de Belo Horizonte, estávamos ali muito meninos em volta de dois ou três ou quatro cálices, ele igualmente disse gostar de mexer assim nos perigos da língua, lá em Angola, lá em Luanda, igual assim como eu peralto em molecagens com a língua deste lado do Atlântico, eu pego a língua e faço dela bola de gude; eu pego a língua e dou nela uma carreira de susto, no esconde-esconde; eu pego a língua e vou com ela pela infância-beira-de-rio, visito com ela as frutas que nunca esqueço, a gabiroba, o juá selvagem, o caju pequeno, sãogotardamente em Minas.

Sãogotardamente é advérbio que possui um furo no tempo, pelo furo eu entro, pelo furo eu visito a língua que me teve em seus começos, pois a língua assim gostosa, florada, língua que exubera em festa, é a língua que vem de lá de onde não existia o doutoral da língua, o serviçal da língua, a escravidão da língua. Então a língua que me gosta e que dela gosto é a língua de camisa aberta no peito, é língua-ventania, e nem importa se ela vai chegar ou não um dia aos dentros de um cada vez mais difícil livro no mundo hoje assim tão burocrático e mercantilista dos livros".

Segunda-feira


MOSAICOGRAFIAS DE SERENUS

João Serenus falou-me hoje a respeito do que ele chama de mosaicografias. Rubem Focs e eu há muito sabíamos que o velho Serenus, sempre tomado pelas porções luminosas do pensamento, vinha investigando tal tema. Algumas vezes, quando fui ao sobrado amarelo onde ele mora, a poucos metros da fieira de árvores e sombras da Bernardo Monteiro, pude observar folhas e mais folhas de um papel grosso e rústico sobre a sua escrivaninha de jacarandá. Foi no alto de uma dessas folhas que, pela primeira vez, li a palavra mosaicografia.

Variações sobre um mesmo tema por infinitas espirais gráficas e sonoras? Talvez. Mas, sobretudo, a ficção em núpcias com as tarefas do pensamento, personagens postos quase nos umbrais de um teorema, cenas quase transformadas em um milagre geométrico.

Pois hoje o velho Serenus tocou mais profundamente nesse assunto. Duas amigas húngaras tomavam cerveja conosco em um bar da rua Maranhão. Duas leitoras de Musil e Walser que chegaram a Minas para fotografar pássaros e seguir as trilhas de antigos viajantes do século 19. Aos olhos esverdeados de uma delas, L. G., Serenus contou um pouco dessas cápsulas de textos que ele agora produz ao sabor de sua tinteiro de pena selvagem. Selvagem porque, ao se deslizar sobre o papel, ela produz o mesmo som que porventura seria produzido por um bisturi transformado em caneta.

A manhã caminhava de sandálias, a tarde parecia anunciar luscos-fuscos epifânicos. Belo Horizonte dormitava em incógnitas. E nós, ali na rua Maranhão, fazíamos a travessia do cisco para o nada.

Domingo


JORNADA DE MENINO E LOBO

Que o menino e o lobo-guará, um atrás do outro, em trilha noturna, partiram da localidade de Guarda dos Ferreiros pela antiga estrada para Ibiá, e, daí, seguiram até a nascente do Ribeirão Guaritas, com luas bem abertas no céu, e foram e caminharam pela margem desse Ribeirão Guaritas, por esse ribeirão abaixo até a sua confluência com o Córrego Macaíbas, eles iam, um atrás do outro, o menino e o lobo-guará, eles andaram, andarilharam, seguiram pelo Córrego Macaíbas acima passando por sua nascente, atravessaram o divisor de águas, foram até a nascente do Córrego Quilombo do Ambrósio, sem descanso, sem tréguas, menino e lobo, eles seguiram por esse Córrego abaixo até a Fazenda Santo Antonio, e, desse ponto, altivos e selvagens, foram pela estrada vicinal, achando, mais adiante, pela esquerda, a nascente do Córrego da Isalina, de onde, em marcha de peraltices, em marcha de noturnidades, seguiram por esse Córrego abaixo até a sua confluência com o Córrego da Serra, foram mais acima até a sede da Fazenda Olaria, e, depois, numa só reta, atingiram a sede da Fazenda Olhos d'água, nas cabeceiras de um afluente da margem esquerda que é o Córrego Olhos d'água, e por esse afluente abaixo até a confluência com o Córrego dos Patos, e do Córrego dos Patos acima até encontrar um seu afluente na margem direita, foram, seguiram em uma só reta até a Fazenda Retirinho, dessa Fazenda em reta até a confluência do Córrego da Angola com o Ribeirão dos Ferreiros, pelo Córrego da Angola acima até sua nascente, e, daí, desse ponto, voltando à esquerda, seguiram pela ruptura de declive, passando pelas nascente da margem direita dos afluentes do Ribeirão dos Ferreiros, e mais andaram até a nascente do Córrego Bananal, tantos caminhos, tantas trilhas, e voltaram, volveram à direita cortando no alto a estrada Capelinha de São João e Guarda dos Ferreiros, prosseguiram em uma só reta até a nascente do Córrego Honorato, cortaram no percurso o Córrego Papagaio, seguiram pelo Córrego Honorato abaixo até a sua confluência com o Rio São João, daí, pela ruptura de declive, entre cerrado e pasto, passando pela ponta de um espigão, atingiram, e, à direita, passaram pelas nascentes dos afluentes da margem direita do Córrego Lambari, local onde pararam para ver estrelas. E aquela foi só a primeira noite.

Sábado


PARÁBOLA DO VULTO DO CACHECOL

"(...)

O leitor, é preciso que o leitor sinta fome, disse o Vulto do Cachecol, é preciso que o leitor amanheça destituído de todo alimento, não é o jejum da penitência, é a míngua, é a recusa em dar-lhe o-de-comer logo que o dia amanhece, fazê-lo atravessar o dia sem nada em sua boca, nem mesmo a água deve saciar a sua desmesurada ânsia, o leitor com fome, disse o Vulto do Cachecol, o leitor


com fome deve assim chegar vazio até altas horas da noite, sua jornada erma, desértica, que ele implore, que o leitor suplique, gritar às paredes brancas que tem fome, que nada comeu, que é um ser desprezível feito de gárgula sem governo, chamar o leitor de ínvio verme, que ele ajoelhe, que se faça rastejante, que peça, chore pelo toucinho, pela farinha, pelo pão à vista, o leitor


com fome, disse o Vulto do Cachecol, virá rastejante por entre as macegas e os lodos, sua barriga verde, suas escamas perdidas, língua à mostra, o suor de bicho de sangue frio, ele virá à noitinha, as luas em tantos pontos de lua, o relógio com o ventre inchado de continência temporal, mas a mesa ainda estará despossuída de pão e azeite, de vinho e alho embebido nas lágrimas do tempo, ele virá, virá, disse o Vulto do Cachecol,


a fome reina já absoluta sobre os seus olhos baços, olhos que lhe tornam um ser abjeto, víbora expulsa do paraíso, já é noite, sim, já será a noite de minutos e minutos a galope pela noite, então, mais uma vez, o leitor com fome pedirá, suplicará, implorará pelo alimento que ele mesmo adulterou, o leitor agora com fome é o mesmo leitor que pôs o mofo nas substâncias, que pôs o bolor nas essências, ele mesmo, desvairado, sem distinguir o gosto da gula, ele mesmo,


esse leitor com fome, disse o Vulto do Cachecol, ele mesmo, esse leitor tornou impossível o alimento, ele foi só pança, só ventre, comeu o que lhe deram, comeu o que lhe enfiaram gárgula abaixo, e agora, leitor com fome, ele chega, pede, implora, disse o Vulto do Cachecol, ele chora


pela pequena porção de quase nada que lhe faça elevar-se bípede, que lhe faça elevar-se de sua condição ofídica, e então a noite por fim avança, disse o Vulto do Cachecol, e o leitor com fome, sem bússola, descobre-se já sem boca...(...)".

Sexta-feira


A NECRÓPSIA DO ESCRITOR

para Aldora Ternuz

Legista-de-Touca: "Conseguem ver os carbúnculos oxidados na parte mais azulada do cerebelo? É a prova de que ele era mais poeta do que ficcionista, mais dado ao delírio do que à lógica".

Legista-de-Batom: "Discordo. Os carbúnculos oxidados desencadeiam exatamente o contrário. A função deles é frear os estados poéticos e instaurar a lógica da prosa. Por isso, ele era mais ficcionista do que poeta".

Legista-com-Monóculo: "Para que ele fosse mais ficcionista do que poeta, teria de haver uma prova irrefutável, conforme os manuais. Isto só seria possível se o nervo Z42, o que está enraizado justamente sobre os carbúnculos oxidados, tivesse bifurcações. Pois o nervo Z42 deste homem não se bifurca. Portanto, ele era mais poeta".

Legista-Chefe: "E aqueles pequenos cogumelos em volta do nervo Z55?"

Legista-Bonachón: "Não são nada, chefe. Os cogumelos só mostram que o escritor tinha alguns estados de delírio. Coisa comum. Isto é: quase todos os escritores possuem esses pequenos cogumelos em volta do Z55".

Legista-Chefe: "Podemos então concluir o laudo da necrópsia?"

Legista-de-Touca: "Só pediria que puséssemos uma pequena amostra dos carbúnculos em solução de azul-mentecapto. É só para tirarmos prova sobre a normalidade mental do autor".

Legista-Chefe: "Tudo bem. Mas disto eu não tenho dúvidas: ele era doido".

Glauber Rocha: "Estou preso, sentado, à espera do comboio de Sintra. Para onde vai o comboio de Sintra?"

Legista-Chefe: "Glauber acaba de morrer em Sintra."

Legista-de-Touca:"Glauber não era aquele louco delirante?"

Legista-de-Batom: "Muito louco, confuso, porém, inebriante."

Correio

paulinhoassuncao@gmail.com

Autorretrato Sem Moldura

"Nasci sob o império dos números ímpares. O dia: 21. O mês: 7. O ano: 51. A hora: 11 da noite.

Sou do interior de Minas, dos altos do Paranaíba de chapadões e planaltos. A cidade é São Gotardo. Mas sou do mundo. Deleito-me com água na boca pelas trilhas e rastros de povos & línguas & artes & culturas em suas legítimas diferenças.

Já corri mundo e já corri perigo, desde bem jovem. Hoje viajo nos barcos da imaginação. Não sou motorista. Entre o carro e a flauta, viajo flautista. Só dirijo mesmo os meus sapatos náuticos. Neles, nesses sapatos filosóficos de navegações em terra, moram os meus pés escreventes, pés de andar a esmo e sem governo pelas cidades que existem dentro das cidades.

Escrevo desde o final da infância/começo da adolescência. Primeiro: poesia. Depois: ficção. Mais adiante: poesia e ficção. Hoje não dou a mínima para os gêneros e gosto da cópula entre a linha que é o verso e o parágrafo que é a ficção.

Sei fazer livros à mão, pela minha
Edições 2 Luas. Nesses livros artesanais, gosto de mergulhar pelos mistérios das lentitudes e do fazer sem pressa.

Pessoas de Romance é a expressão que aplico a meus interlocutores em sombras, figuras de boa conversa e amável convivência, escreventes quando querem e quando necessitam, pois a escrita, para eles, é da ordem das necessidades imperativas e degustativas. Ei-los: Lucas Baldus, João Serenus, Rubem Focs, Cida La Lampe, Vicente Gunz, Vicente Almas, Vicente Pass, Lírio da Luz, Severus Cândido ou a Mulher da Aura Azul.

Publico livros desde 1979, mas o primeiro texto assinado, inaugural, no então Suplemento Literário do Minas Gerais, foi no já distante ano de 1975. Ganhei dois prêmios nacionais de literatura, o que, no Brasil, não quer dizer absolutamente nada. Em 2008, publiquei o romance O hipnotizador, pela editora
Campo das Letras, de Portugal, mesma Casa por onde lancei, em 2003, Pequeno tratado sobre as ilusões, de contos, premiado no concurso Minas de Cultura (Guimarães Rosa), de 1998. Entre fevereiro e abril de 2008, escrevi o perfil biográfico do poeta e ensaísta Fritz Teixeira de Salles, publicado em abril de 2009 pela Editora Conceito, de Belo Horizonte.

Sempre ganhei a vida com o que escrevo. Sou jornalista profissional, fui editor, fui repórter de agência de notícias, fui assessor de imprensa. Hoje, em baião de dois com a minha lavoura literária, reviso, copidesco, faço lanternagens em textos alheios avariados. Sou casado, pai de quatro filhos.

Aprecio a cozinha. Lá invento até o que já foi inventado. E todos os dias, logo que amanhece, faço exalar pela casa o café que eu mesmo preparo em oferenda para as minhas crianças."

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