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sexta-feira

[EM LA PEDRAJA, UM CORAÇÃO RESISTIU AOS FASCISTAS]

[os fascistas espanhóis encheram de cadáveres as mais de duas mil valas comuns espalhadas pelo país durante a guerra civil, com milhares de fuzilados, todos eles com um tiro de misericórdia na cabeça para não haver dúvida sobre a morte.]

[essa voracidade assassina dos franquistas deu à espanha o segundo lugar (o primeiro é do camboja) em número de desaparecidos, algo em torno de 114 mil, entre eles, o poeta federico garcía lorca, cujos restos até hoje não foram encontrados.]

[leio agora no el país que escavações feitas na vala de la pedraja, em burgos, localizaram um coração e 45 cérebros bem conservados pelo terreno argiloso da região, dois desses cérebros ainda encravados com projéteis.]

[embora a explicação para esse fenômeno esteja na composição argilosa e ácida do terreno em que se situa la pedraja, há aqui uma ardente metáfora em resposta ao fascismo: mata-se o corpo, mas não  as ideias nem os sonhos.] 

quinta-feira

[VOCÊ NEM SABE O QUE LHE CAI DA NOITE]

[assim com a mão em côncavo,
mas não em súplica, aparo as gotas
que da noite caem. não sei se água, 
não sei se luz, não sei se estrela 
ou qualquer luzeiro líquido, só
sei que aparo essas gotas, são quase
sílabas ou quase letras, pois,
ao ter plena a mão que as recebe,
sinto a indisfarçável presença do poema.]

[SAUDAÇÕES PARA ADÃO VENTURA]

[sair pela tangente, iludir o vento,
atrair relâmpagos, contornar a ponta
mais extrema de um grito, arder no frio,
gelar no fogo, ser parte inseparável
do escuro, cravar no dia os dentes
pontiagudos, remar pelo rio acima
até que o fim seja começo, arranhar
as unhas no invisível, domar o potro
louco sem pescoço, virar a tampa
do cozido, encher com ervas o elixir
mais demoníaco, ver o risco do corisco,
puxar a língua do eunuco, roubar 
dos deuses o fogaréu e o arbítrio,
verter o ácido sobre o quisto, tirar
o ás do meio do baralho, atar os laços
do horror no mastro do navio, quebrar
o ovo, lamber o orvalho, zunir com a bala
a orelha do casmurro, pedir a música,
propor a dança, cavar a cova, induzir
o corvo ao nevermore possante e altivo,
morder as uvas, riçar a superfície
seca do espelho, martelar o nada
até que a anticoisa seja lâmina, dissolver
a moeda, incendiar o circo, assaltar
o comboio que leva a santa, achar 
o atalho para a ilógica via da poesia.] 

[FANTASMAS DIANTE DA GRUTA METRÓPOLE]

[fantasmas de fraque e cartola
palreavam hoje diante do que foi
a gruta metrópole. palreavam
sobre doces e panturrilhas. 
calmos e serenos pela aura 
da fantasmagoria, usavam
apetrechos de silêncio 
para a descrição do remoto 
convívio, lá quando a esbelteza
de suas calvas luziam
belo-horizontinas, adjetivadas
calvas de doutores e pontífices,
de sonetistas e barrigas 
de redondilhas. nós, os que hoje 
passamos pela rua da bahia, vimos
esses fantasmas em colóquio
sobre o nada, o nada eterno
que sempre floriu naquele tugúrio.
e um de nós, talvez o escriba
desse cenário, percebeu ser ele 
igual um fantasma ali no simpósio,
canivete em óxido no bolso da sobrecasa,
relógio parado no fundo das algibeiras.]

[O POETA SOBE A RUA DA BAHIA]

[sobe o poeta a rua da bahia.
lentamente sobe
a rua da bahia.
diligentemente sobe
a rua da bahia.
ofegantemente sobe
a rua da bahia.
o poeta vai ao sarau
da academia.
o poeta vai ser imortal
estadual da academia.]

[QUANTO VALE UM ESCRITOR?]

[quanto vale um escritor?
um vintém. ou nem. menos
ainda do que nem. vale
nusga, vale nesga, vale a raspa
no casco de um navio 
que o mar já não quer. quanto
vale um escritor? ora,
sem peso, sem volume, sem
linhagem, sem cabedal, ele
vale o chão onde se cospe,
o chão onde se pisa, o peixe
cego que o mar vomitou na praia.] 

[ESCREVER?]

[há o dito: escreve-se
para que se possa ler o livro
que ainda não existe. esse dito
é fato, não há por que
contestá-lo. e faz bem
escrever o sonhado livro,
o inexistente livro,
mesmo que, ao final, ele seja
obra do fracasso: queria-se
um livro novo, tem-se
um livro antigo.]

segunda-feira

[O GHOST-WRITER]

Há quatro meses, se tanto, o Senhor Lamberto procurou a minha tenda de ghost-writer em busca de uma ajuda. Aflito, queria que eu escrevesse uma carta. Carta mesmo, à moda d´antanho, manuscrita a caneta tinteiro, e a ser enviada pelos Correios, muito embora a distância entre remetente e destinatário não ultrapassasse a dez quarteirões entre os bairros X e Y desta nossa cidade de Belo Horizonte.

A conversa foi por telefone. Pelo tom da voz, percebi que o assunto era grave. O Senhor Lamberto vinha à minha tenda por sugestões de um ex-deputado para quem eu dera andaimes e alvenaria, rejuntes e pintura em um livro de memórias. Contente com o resultado produzido pelas minhas ferramentas, o ex-deputado de quando em quando agia de bom grado como propagandista dos meus serviços.

Esses anúncios gratuitos de boca em boca chegaram por fim aos ouvidos do Senhor Lamberto em hora mais do que apropriada de sua vida de viúvo. Muitas tentativas ele fizera de próprio punho para conceber a tal missiva. As ideias, porém, andavam em desgovernado tumulto em sua cabeça. Não se ligavam em fios de coerência. Turvavam-se em borrões pelos parágrafos, e a clareza, imperativa para o tema, sofria apagões constrangedores.

O Senhor Lamberto exigiu sigilo absoluto durante todos os capítulos de nossas tratativas. Do valor que eu cobraria pela tarefa à identidade da pessoa em quem suas palavras deveriam produzir o efeito "de um campo de girassóis como aquele do Van Gogh", como ele disse com ênfase quase musical. Deduzi que ele poderia estar na faixa dos 80 anos. A voz era rouquenha, mas emitia-se por uma tessitura ainda vigorosa, de barítono, com pausas retóricas e reticenciais de quem já falara em público. 

Ao cabo de uma semana de idas e vindas, de acertos e erros, demos por finalizada a incumbência. Foram incontáveis leituras ao telefone do texto a caminho. Se de próprio punho o Senhor Lamberto esbarrava no enxame enlouquecido das palavras à sua volta, pelo telefone ele indicava com precisão o que entraria ou não entraria na carta, se tal vocábulo era impróprio ou inadequado aos olhos de quem o leria, se estava fora de moda ou não o tratamento a ser dado ao arremate.

Quando fui entregar o texto impresso ao Senhor Lamberto para que ele, aí, sim, fizesse a cópia manuscrita, e a remetesse ao seu destino, estranhei o silêncio em seu apartamento. Em vão, acionei o interfone do pequeno prédio de três andares em uma rua íngreme do bairro Y. O funeral havia sido no dia anterior, conforme soube pelo porteiro de nome Tibério.

Trouxe de volta a carta. Tenho-a comigo, em uma pasta, como um objeto incômodo. Não sei o que fazer com essas duas laudas de palavras comovidas e igualmente tempestuosas que o Senhor Lamberto avalizou como se palavras de sua própria lavra. Não é preciso dizer que a carta é uma carta de amor. Destinada à Senhora Adelaide.