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Correio Do Autor

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quarta-feira

[OUTRAS MEDITAÇÕES DO DESERTO]

Radicais não são as formas da poesia, seus esquadros, suas molduras, suas vitrines.

Radical é o lugar da poesia, sua falta de moradia, seu endereço incerto e desconhecido, seu-aqui-lugar-nenhum.

Lugar das nulidades, vértice da noite com o dia, vértice da vida com a morte.

Nenhuma radicalidade na roupa da poesia, nenhuma radicalidade nos seus adereços, nos seus ornamentos.

Há mais radicalidade formal nos circuitos elétricos de um brinquedo. Poesia é da ordem do disforme, tal a dor, tal um lapso, um tropeção, um grito, uma rajada de vento.

terça-feira

[RUA DA LITERATURA]

Ela começa pelas imediações da Galeria Vivacqua e segue impávida até se encontrar com os baixios do bairro Santo Antônio.

Em seu trecho literário, entre Cristóvão Colombo e Getúlio Vargas, é rua inteiramente plana para melhor acomodar os pés ou os sapatos de Orfeu que por ela transitam.

É rua muito enciclopédica nas manhãs de sábado, muito ecumênica em certas horas da tarde, e não são incomuns ocorrências de danças e minuetos entre conservadores e vanguardistas.

Bebe-se e proseia-se à larga nesta rua, proliferam cachecóis e écharpes, e chapéus e bonés e boinas. E são costumeiramente risonhos seus frequentadores, todos ungidos pelo dom da fotogenia.

Quem por ela passa, pode ser de repente acometido pela síndrome de escrever livros. E de fato escrevê-los para autógrafos sabadais do próximo mês, do próximo ano, da próxima década.

Nela, ninguém está imune à saudade. A saudade pelos que já se foram, pelos que já partiram. 

A saudade salta de dentro de uma livraria, atravessa a rua e monta tocaia para o homem que vai, para o homem que vem, para o homem já estrangeiro na paisagem belo-horizontina.

De longe ou de perto, fantasmas espreitam e vigiam esses passantes. O mais sagaz desses fantasmas é certamente o cônego Luiz Vieira da Silva, aquele que, conforme Eduardo Frieiro, cultivava o fogoso diabo da liberdade em sua biblioteca ouro-pretana.

Com facilidade, nesta rua é possível passar-se por invisível, percorrê-la de ponta a ponta sem que ninguém perceba. 

E Fernandes Tourinho, o bandeirante que a nomeou, ainda hoje procura esmeraldas nas noites de segunda-feira. 

quinta-feira

[A HABITABILIDADE DO POEMA]

E então nomeio a habitabilidade do poema, a habitabilidade móvel do poema, seu movimento peregrino pelo tempo, através do tempo. O poema, casa móvel, a morada que se desloca.

***

Lezama Lima disse certa vez, com imagens diamantadas, tão próprias do poeta cubano, ser ele um peregrino imóvel de si mesmo. Giro essa imagem de Lezama entre os dedos. Giro-a como quem gira uma esfera. Giro-a não para esgotá-la pelo faminto entendimento, mas para aceitá-la. E com ela ponho em circuito a habitabilidade do poema.

***

A casa móvel do poema. Em que lugar estejam os peregrinos, abre-se a porta da casa móvel. Entrar não significa ficar, não significar tornar imóvel o que é íntimo, mas ir, ir-se, dentro e fora, a habitabilidade navegante do poema.

***

Pois então a ideia de barco. Pois então a ideia de navegação. Chego assim ao destino argonauta dessa ideia que vem, e vem agora em comunhão com a habitabilidade do poema. Morar em viagem. A habitabilidade do poema é uma casa em viagem. Navegações habitadas.

***

Faço reverências a outra ideia-imagem que eclode: o rio, o mar, o curso navegável cúmplice com a força motriz da viagem. O poema que dá abrigo, que é casa; o poema que é móvel, que é barco-moradia em deslocamento.

***

Escrevo aqui e já estou acolá.

[LER OS CONTEMPORÂNEOS]

[era ainda o país profundo da madrugada quando li
o que borges escreveu sobre dino buzzati, um daqueles 
seus verbetes-cápsulas sobre autores, e borges, com a frase
que saltou pelo silêncio-aço da madrugada, diz o quanto

é difícil acompanhar o que escrevem os contemporâneos,
por serem muitos, e tantos, posto que o tempo, compilador,
ainda não criou a sua antologia, e a isto faço acréscimos,
acréscimos de frases já só minhas, posto que concordo

e acrescento o quanto é difícil ler o que produzem
os contemporâneos, por serem muitos, e tantos, e vários,
inda mais agora com o fácil efeito multiplicador
e dissipador de escritura e escritos, eu também digo,

redigo, avalio aquilo que provo e cheiro pelos mares letrais 
do que é tal vírus, ninho reprodutor sem fim de escritos,
e digo o quanto é difícil tal empresa, e nela, sobre ela,
aplico aquilo que me ajuda a perceber o que de aroma

salta da comida, só chego se sinto o cheiro, só avanço
se há tempero, só consigo ler se há sabor do jeito 
que o feijão ostenta entre cebola e alho, aquele caldo, 
aquela sustância, pois se o tempo, como disse borges,

ainda não fez a sua antologia, ponho o meu paladar
como bússola e guia: se é pitéu, ganha a minha leitura.]

[VERBETES PARA UM DICIONÁRIO AFETIVO]