VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA

10.7.20

[FIGURAS DO INCONTÍVEL. OU MÍNIMA POÉTICA DO TRANSBORDAMENTO]

[as figuras do transbordamento, do vazamento.]

[as figuras da irrigação, da erupção, da irrupção.]

[as figuras do incontível, do imprisionável.]

[as figuras do que explode, do que dilata, do que expande.]

["a lava é a figura imemorial da liberdade", disse o velho.]

[as figuras da inundação, da arrebentação.]

["faz-se o poema pela eclosão de imagens", disse o velho.]

["deter é impossível", também disse o velho.]

[um homem, dois homens, três homens. as gentes. a praça. a rua. a multidão, o movimento.]

["a própria quietude é um estado de latência, é um vulcão dormido", disse outra vez o velho.]

[pelas rachaduras, pelos orifícios, pelos buracos, pelas reentrâncias, a água vaza, assim como a lágrima, assim como o grito, o léxico, a frase, o ritmo. assim como o ato.]

["o ato é a figura da potência incontrolável", disse o velho.]

["inconcebe-se o poeta que se atém a formas fixas, mármores, paralisia, entrevamento", disse o velho.]

[ingênuo é o poeta que tem o seu poema guardado em vidro de formol.]

[a figura do mundo: estilhaçamentos. o mundo quebradiço. o mundo trincado. cacos. meteoros e asteroides como se lascas de outros mundos.]

[a figura da memória: dilatamentos para trás e para adiante. a memória infinda-se.]

[o poema: porções ou cápsulas das revoluções em andamento.]

9.7.20

[ELEGIA PARA AMIZADES DEFUNTAS]

[disse o velho que a elegia é a composição ideal como epitáfio para as amizades defuntas.]

[os cavalos. era ainda noite, e os cavalos, a tropel, passavam com as crinas em fogo. ao fundo, um piano tocado por um cego.]

[o velho disse: "até a frase mais insignificante deve receber tratamento de ourives". "o pedreiro", assim também disse o velho, "sabe o valor de um mero tijolo".]

[na lama de uma trincheira em ruínas, fica o poeta à espera de inimigos imaginários. o velho diz: "pobre infante das eras primitivas".]

[a mão que vinha em cumprimentos era mão de pedra. as flautas voaram. as crianças fugiram para os buracos.]

[o velho disse: "você fura a letra, se não minar sangue, então é letra morta". o velho ia com o seu cajado. doloria a manhã no brasil. abutres comiam vísceras.]

[o enterro das amizades defuntas foi à tarde, quase noitinha. os saxofones e as clarinetas recusaram a última homenagem. só os taróis sinistros compareceram à beira-cova.]

["o ódio", disse afinal o velho, "o ódio não é jardineiro".]

23.6.20

[ESTOU FALANDO COM AS PAREDES]


["je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. era
um sábado furta-cor em paris, um sábado
de frialdade metálica, amêndoas
saltavam dos olhos de cães negros,
de toda a parte surgiam os refugiados
com as mãos estendidas, e as chatas 
com meninos e meninas pintados a carvão
não paravam de navegar pelo sena.

"je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. 
e as paredes, altas, mistura de pedra
e aço, não eram as paredes da capela
sainte-anne, mas paredes elevadas 
havia pouco tempo, operários a mando 
de senhores invisíveis ainda acionavam 
guindastes, eram paredes que durariam
mil anos, durariam às hecatombes,
à bomba, aos terremotos e tsunamis. 

"je parle aux murs", e a voz do senhor
lacan reverberava sobre aquela superfície
agora pintada em tonalidade neutra, 
cinza, o acinzentado sem eco, assonante,
a voz ia e morria, a voz era um grão
em sua vaziez infecunda e estéril, a voz
golpeava o aço e a pedra, a voz ofegava
em sua persistência contra as paredes
elevadas pelos operários a mando 
de senhores invisíveis. e os refugiados,
os refugiados, os refugiados, os refugiados.

"je parle aux murs", ele disse, e a voz
era agora voz incapaz, voz não penetrante
no impenetrável que os operários a mando
de senhores invisíveis ainda construíam,
a voz não achava o furo, o orifício, 
a fresta, a ranhura, o desvão, a mínima
rachadura. a voz só rebatia seu próprio
som irreprodutível: seco, surdo, silente.] 

17.6.20

[ORA DIREIS, LAVAR PALAVRAS]

[ora direis, lavar palavras.
ora direis, ensaboá-las, quarar 
as pobres em cima de pedra, depois 
enxaguá-las e torcê-las, 
anáguas silábicas tão alvas
como se quisessem aparência-hóstia.

ou quisessem condição carola, palavras
de sacristia, o tablete de anil 
para torná-las puras, virginais
senhoras ou frases em conserva.

pois que deixem nelas a crosta
do sol ou da chuva, deixem a capa 
de lodo-fungo em suas escamas, 
deixem intactas marcas, nódoas, 
manchas, fantasmas
― acúmulo de bocas que as disseram,
acúmulo de dedos que as escreveram.]

10.6.20

[VARIAÇÕES SOBRE UMA FRASE-TEMA SOLAR DE MARIA GABRIELA LLANSOL]

[O ímpeto não tinha nome, mas um de nós falou que o ímpeto deveria se chamar cavalo sem crina. 

Vínhamos da cidade alta, o mar ainda era invisível, guardado pelas muradas e pela sinuosidade em declive dos becos.

Descíamos, orquestrávamos a ânsia de algum deslumbramento ao chegarmos à praia. 

Todas as letras do alfabeto eram indigentes. 

Em frangalhos, as camisas de algodão grosso, transportadas na bagagem do Antônio-Torna-Viagem, nos vestiam, assim do modo que um corpo se veste com um pergaminho. 

Os barcos amarravam à areia o seu instinto desumano de partida. 

Longe ainda estávamos, mas víamos o instinto desumano em garras de fera sobre os moluscos e as conchas. 

O instinto desumano, com as unhas que fazem o adeus, se agarrava como podia à premência do barco, o barco voltado para o sul, o sul sem trevas, solar e promíscuo, o sul de sal e sol e cópulas. 

Longe ainda estávamos, e nossos corpos, vestidos pelo algodão grosso, pediam o vinho incomensurável dos tonéis que anjos mendigos haviam guardado para a partida. 

Por fim, aquele um de nós falante evocou outra vez o nome do ímpeto, o ímpeto cavalo sem crinas. 

Éramos os indigentes do alfabeto, éramos os vestidos pelo pergaminho. 

Tudo em nós era o revés das cordas, das unhas e das garras.

Em pouco e pouco, tomaríamos a vastidão dos largos. 

Iríamos para os confins do incognoscível. 

As letras mendigantes eram as velas dos barcos formadores de uma possível frota. 

E quando ganhamos o tecido verde-longínquo do oceano, era manhã de sol, sol de mar, de luz e sal.]

31.5.20

[QUEM LERIA CONTO TÃO BREVÍSSIMO?]

O conto era brevíssimo, era quase um suspiro de borboleta de tão fugaz, por isso avisamos aos que passavam pela Rua Torta que não se iludissem, não esperassem o acontecimento-mor da criação. 

Flaubert, ainda de touca, conversava à porta da barbearia com Coelho Neto, e Rimbaud, de bicicleta, punha língua para Dona Ordália, a Santa. 

A Rua Torta era rua-cinema ou rua-baile ou rua-circo, conforme a hora.

Avisados que o conto era brevíssimo, os passantes e andantes e transeuntes puderam deixar as ilusões dentro das sacolas. 

Só havia dúvida quanto ao leitor do conto. 

Quem seria? 

Quem poderia ler tão ligeira e cadente peça de duas linhas, se tanto? 

Onofre, sempre um leitor em voz alta desde os tempos de coroinha, mudara-se para São Paulo. 

Jardel, anticomunista espumante, conseguira posto de observador de nuvens em Brasília. 

E o Antônio? 

Antônio era caso perdido.

O conto brevíssimo luzia à claridade da manhã. 

Conversa vai, conversa vem, o alcaide da rua, Tomás, teve a ideia de trazer um autofalante daqueles de armarinhos turcos. 

José Taranto, que se passava por magistrado, trouxe um caixote de maçãs. 

Eram demasiados os cachorros na rua àquela hora. 

Floreiras nas janelas exalavam em algumas casas o perigoso odor dos pecados. 

O ex-governador coçava a verruga. 

E nós, os autores do conto brevíssimo, esticávamos cordões pela rua afora, como se linhas de telégrafo.

Dez horas da manhã e nada. 

Meio-dia e nada. 

Duas da tarde e nada. 

Quem leria o conto brevíssimo para que as ficções não minguassem como se sementes carunchadas? 

Quem seria o leitor daquela migalha de palavrotas e palavrinhas? 

Quando soaram as quatro da tarde pelo carrilhão de Dom Acácio, o poliglota, começou um tumulto na Rua Oblíqua, paralela à Rua Torta. 

Vinha a passeata das Senhoras Roxas, ia a passeata das Senhoras Sônicas. 

Ali pelo número 44, as duas porções passeantes se enfrentaram. 

Houve tiroteio de impropérios. 

Anáguas foram rasgadas. 

Coifas viuvantes foram atiradas à poeira.

Carlo Emilio Gadda, que proseava com Flaubert já à porta da Cantina, decidiu ler o conto brevíssimo. 

Gadda, embora o estilo sinuoso, era querido pelas partes divergentes. 

Fez-se silêncio. 

Os cachorros amontoaram-se em posição de sentido nas calçadas. 

Ao longe, um navio mercante soltou a fúria de seu apito. 

Mariposas risonhas pararam seus voos de fim de tarde. 

Aguardavam. 

Gadda, então, com o minúsculo papel manuscrito nas mãos gordotas, limpou o pigarro. 

Começaria a leitura. 

Silêncio. 

Pausa. 

O mundo agora estático, o mundo agora estátua. 

E então explodiu a bomba atômica.