Hoje, com a manhã a tropel, manhã a passos de potro, desci a Avenida Afonso Pena na doce companhia do Jorge-Ficções, ele que, entre tantos atributos, proclama ser um parente distante do Conde Isidore Ducasse, apelidado Lautréamont, o outro do monte, o outro de Montevidéu. Fazia poesia concreta na esquina da Rua Maranhão. Fazia guernica nos olhos de um menino a jogar bilboquês. Vimos o Big Sur pelos lados do quartel do Corpo de Bombeiros, mas não vimos o Henry Miller. Henry Miller não ia à solta, à solta ia o Olavo Bilac, com novas polainas. Descíamos a avenida e o Jorge-Ficções chutava com o bico dos sapatos umas quintessências filosóficas. Duas imanências cruzaram o nosso caminho, duas transcendências choveram nos nossos olhos. Passaram por nós dois poetas irados e voadores, poetas de boa envergadura, com asas de altazor. Pela Rua Ceará, ouvimos alaridos. Nada preocupante. Eram os alaridos de uma Virginia Woolf a caminho do café. Belo Horizonte estava quase Barcelona na manhã-sorvete desta sexta-feira feita de bolero e samba-canção. Rios de literatura desaguavam a caminho da Savassi. Não vimos cachorros. Vimos gatos. E garças e alguns tamanduás. Jorge-Ficções contava-me aleluias e pipocas. Coisas epifânicas, lembranças do nosso amigo Kafka, falava-me de tempos de guerra, falava-me de tempos de cabaré. Nas viradas da Avenida Getúlio Vargas, tomamos um bonde. E o bonde entrou sorrateiramente pelas franjas da paisagem.
HERMENÊUTICAS SOBRE MODOS DE ANDAR
1 mês atrás








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