Segunda-feira

DE POEMAS E DE ORELHAS


O poema dito em voz alta pode ser um risco para quem confunde a sintaxe com a baba, o léxico com os dentes, a semântica com os músculos dos lábios. O poema dito em voz alta é um risco para quem não mede ou não calcula o modo com que a frase, ao se formar dentro da boca, ganha o espaço, ganha asas, e vai de encontro às abas das orelhas da platéia, às abas das orelhas dos ouvintes. Existem orelhas inadequadas para tais encontros. Algumas orelhas, pelo desenho de suas abas, confundem o agudo com o grave, o doce com o ácido, o escuro com o claro. Certas orelhas possuem um filtro, talvez uma rede, talvez uma porta inacessível. Por isso o poema dito em voz alta pode ser um risco para quem não investiga antes a natureza das orelhas à sua volta. Poetas costumam sentir um gozo durante a emissão em voz alta de seus poemas. Declamadores costumam arfar o peito durante a emissão de poemas em voz alta. Ouvintes de poemas costumam posicionar com graça e encanto as abas de suas orelhas durante a emissão de um poema em voz alta. Correntes mais modernas de declamadores costumam invocar também o corpo para que a emissão de poemas em voz alta não se atenha unicamente à voz, ao som. Neste caso, voz e corpo se irmanam em um mesmo propósito, braços e mãos, pés e tornozelos, pescoço e nádegas se acumpliciam em um mesmo propósito. Neste caso, o poema dito em voz alta é bem mais do que um mero poema dito em voz alta, afirmam os adeptos dessa nova corrente. Neste caso, sintaxe, léxico e semântica, ritmo e imagem, cortes e movimentos próprios da arte da escrita se amasiam com outros sons e outros ruídos provenientes de outras partes do corpo. Por exemplo, o espirro; por exemplo, os barulhinhos do dedão dentro do sapato. E outros exemplos mais inomináveis e inconfessáveis. Trata-se, enfim, de matéria muito em voga nos dias de hoje, esta matéria do poema dito em voz alta. Hélas!

LIVRO DE MURMÚRIOS

“Gente? Ah, gente é coisa que não tem cura”.

(Ferdinando Azul, em seu leito de morte)

— Falemos agora sobre leitores — disse o homem de um só olho.
— Leitores? Este não é um assunto para estatísticas, este é um assunto para o amor — disse o homem sem olho algum.

(Conversa na beira do abismo)

— Aquele que ali vai é um pós-doutor em poesia do lusco-fusco.
— E aquele?
— É um especialista em tíbias.
— Tíbias. Os ventos tépidos e as águas tíbias.

(Conversa entre dois anjos)

— São quantos doutores a bordo?
— Dezoito.
— E qual é a rota?
— Não nos disseram.
— Apertemos então os nossos corações.

(Conversa entre dois marinheiros)

“A mulher está nua na cama das minhas retinas”.

(Abdulah, O Turco)

— Decepei do meu corpo a mão que escreveu a palavra ódio.
— Arranquei do meu corpo o olho que viu as iniqüidades.
— Amputei do meu corpo o pé que visitou a casa da estridência.

(Conversa de homens sentados ao sol)

Sábado

O MUNDO-LIVRO

Agora há pouco, na boca da noite, bem à tardinha, quando a névoa vinha a passos de ninfas por sobre a Serra do Curral, e Belo Horizonte encobriu-se com certas aragens e paisagens de lusco-fusco, disse-me Rubem Focs, entre um gole e outro de um chá de erva cidreira que nos foi preparado pela Mulher da Aura Azul: "O mundo, amigo, ou a idéia que possuímos de mundo, não passa de um livro em perene construção. Os anos são páginas, os meses são parágrafos, os dias são linhas. Cada minuto é uma letra e todos os que habitamos esse mundo, incluindo aqueles que já partiram, somos personagens de ficção".

Quinta-feira

O ANJO DAS LETRAS

vive em poço de letras um tal anjo
pássaro. não tem passado, não tem
futuro, atemporal com alas-asas
de papel. a cal pintaram-lhe

as faces, ao sul destinaram-lhe um rumo,
sem rumo ele vaga de um lado a outro
do abismo-poço. é mudo esse anjo pássaro
com vozerio paradoxal. grita
para os reversos, cala-se para os abertos

campos de sua imagem tosca, louca
fisionomia nesse poço seco, letras
sob o ciclone de uma aflição sem fim. não
escreve, não registra, não grava na folha

em fogo o seu dia-a-dia de danação. é,
porém, o só e único leme de uma nau
no tempo. o escritor pede-lhe ajuda,
mas é muda a sua consolação.

TRAVESSIAS ATRAVÉS DO MESMO

"Hoje a travessia de Belo Horizonte para Belo Horizonte esteve fechada por um tempo não mensurável. Tantas histórias, tantos desenhos, tantos dromedários ao largo da cidade. Mas a travessia do mesmo para o mesmo esteve fechada a chaves de gancho, a chaves de pêndulo, a chaves de lâmina. Só que agora, na curva desse instante, caminho pela curva da Rua Outono. Vou devagar. O céu de maio é de um azul de alumínio, azul de lata de cerveja. Eis então que a queda de uma pena, árvore abaixo, tira de mim o senso dos limites emparedados. Compro uma caixa de fósforos na padaria. Queimo o mesmo a fogo lento. O mesmo que era o mesmo cai em cinzas a meus pés. E então, com a alegrias, atravesso Belo Horizonte para Belo Horizonte".

Quarta-feira

LUZ SOBRE A LARANJA

"Dele restou a laranja sobre um desvão da cerca, a hora era a do almoço, um bando de sanhaços arrodeava um abacateiro, maitacas avisavam o inavisável, a caminho do sul, e a laranja, no desvão da cerca, junto ao corpo, tinha como que um ouro líquido em seu dorso radiante e intocado".

Terça-feira

LIÇÕES DE TRIBALISMO

"Eles pertenciam a uma tribo-de-botas cuja língua era lâmina, com palavras cortantes. O caminho era sempre o-de-não-olhar para os lados. Ao homem velho a tribo-de-botas dava a oferenda do silêncio, as alças das sobrancelhas mudas. Só dividiam o pão entre os seus pares. O-de-beber era só para deleite dos camaradas. Foi então que veio a guerra: das armas, dos ciclones, das geleiras. O homem velho tinha uma margem. A tribo-de-botas o despenhadeiro".

LIÇÕES DE ABANDONO

"A carta do amigo jazia dentro da gaveta, ela dizia de certas lágrimas por uma tal de Aldora, a carta jazia há 2.567 dias entre pílulas, ungüentos, rolo de esparadrapo, bolotas de algodão. Não fora tocada desde a última leitura em um meio-dia qualquer e distante nos calendários velhos. Até que as gotas surgiram nos cantos do envelope. Gotas-gosmas, gotas-plásticas. Um espetáculo muito deverasmente triste para se olhar".

LIÇÕES DE PONTARIA

"O revólver, sobre o mármore da pia, tinha um só olho, olho sem fim de fundo, olho de redondez monótona e entediante, um olho que não piscava, olho de frieza absoluta, um olho que só tinha olhos para o centro bem centro de sua testa".

LIÇÕES DE CINEMA

"Foi dentro de um filme de Bergman que ele percebeu o furo no cotovelo, a mancha no lóbulo da orelha (a esquerda), o grito dentro do bolso, as trombetas no nariz, a súmula de uma filosofia barata nos olhos entreabertos de um cego logo a seu lado".

LIÇÕES DE TOCAIA

"Mais agradável e aprazível não poderia estar aquele dia (azuláceo, verdáceo, diamantável) até que ele, aos 42 anos, vindo de algum lugar por entre as árvores, perdesse o trem, o livro e o cachorro".

Segunda-feira

LIÇÕES DE MÚSICA

"Se o barulho for demasiado, é só levá-lo a lugar alto, com vazios em volta, deixar lá esse barulho em solidões de alturas. Com certeza, em tal retiro, o barulho será fecundado pelo silêncio".

Sexta-feira

PÓS-PESSOA, PÓS-SOARES

Rubem Focs é quem diz o dito sábio: "A minha pátria é uma língua de inventar".

DO NASCIMENTO DAS IMAGENS


1. O que trago para casa depois de estar na rua não está no bolso, nas sacolas, nos embrulhos. O que trago talvez esteja na pele ou na câmara mais escura e funda do olho, na fricção de uma luz qualquer com uma chispa, engenhoso dínamo a partir do qual, de repente, uma imagem, nem bem pousada, alça vôo.
2. É nesta imagem, fricções nos meus olhos fechados, que a rua lança a rua à minha casa.
3. Hoje posso ter visto um crime enquanto estive pela rua. E o que trago para casa depois de ter visto um crime? Seria a imagem do crime, o cinema do crime, o relatório do crime?
4. Dentro dos meus olhos fechados, enquanto convivo com a minha pequena humanidade, percebo a fricção de uma luz qualquer com uma chispa.
5. É pelo fio incandescente por onde vagueia tal faísca-imagem que o crime vem e pega no meu ombro, vira o meu rosto para a sua própria cena, une e conflitua a ação com a indiferença, a revolta com a quietude.
6. Nossas casas, então, são cenários por onde aquilo que era rua logo se propaga do quarto à sala, da sala ao quarto.
7. O gás mortífero dessa imagem-crime a exalar a rua pelas nossas casas pode, enfim, em combustão, gerar o poema.
8. Assim: era um homem, não mais que um homem, ao alcance de uma bala perdida.

Quinta-feira




(fotomontagem Kaminhos Magazine)


HIPNOTISMOS de Paulinho de Assunção
O arrebatamento de uma narrativa poética

Teresa Sá Couto

(Kaminhos Magazine, Covilhã, Portugal)


Titula-se «O Hipnotizador», é escrito por Paulinho Assunção e vem do Brasil. Mesmo os resistentes à Literatura Brasileira, que não lhe divisam o «português açucarado», mas sim um ruído da língua de Camões, encontram na escrita deste autor uma expressão linguística espantosamente depurada a enformar uma prosa poética singular e hipnótica. Repleta de personagens fantásticas, esta é uma narrativa sobre a demanda da escrita, a investigação do próprio caminho e da emoção da caminhada, por luz e trevas da cidade de Ouro Preto, aqui homenageada, para atingir o mundo todo. São mil e uma histórias inebriantes feitas de caminhada em caminhada, a bordo de letras andarilhas, com palavras que pedem palavras, «acasos dispersos que entram em convergência». «E não é saboroso esse exercício de pôr em andaimes as construções feitas de vento?», pergunta o narrador ao leitor sabendo que, rejubilante, este aplaudirá, aparelhado para a soberba viagem.
O narrador, Ferdinando Flauta Mágica, é um viajante que andou por muitos «mundos e caminhos em busca das chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.». Um nome misterioso de quem já teve «centenas de nomes» pela vida fora: nomes de «guerra» e de «paz», nomes «claros» e «escuros», nomes «oceânicos», esquisitos, ciciantes e murmurantes. O que viu «transborda de uma vida e vai preencher outras vidas mais», entenda-se, a de todos quantos lerem este excelso Diário de Viagem. O enredo desenvolve-se pela «dádiva de um chamado», refere o misterioso narrador, numa altura em que já é impossível abandonar a narrativa: um «convite para um encontro com o mistério do meu nome», eis o «tema desta história que, toscamente, e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e a você, leitora.».

E tem o leitor em 109 páginas uma prosa límpida e alada, visual, musical e de odor inebriante, consequência de uma cabeça de viajante: «sempre desembestada e sem rédeas: basta um descuido e ela muda de trilhas. Basta um descuido e ela vai daqui para acolá, livre, sem freios. Essa é a dívida que pago por ser amante das histórias e das peripécias. Um homem como eu, um homem assim da minha espécie, está condenado a trilhar sem bússolas os caminhos feitos de pedra e os caminhos feitos de nuvens».

A «Sociedade de Contadores de histórias»

Tudo se passa «numa certa noite de Inverno», «num dos lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto», onde o narrador acaba de chegar, vindo de muitas partes do mundo para aceder àquele local. O desafio é conhecer a Cidade-Baixa, os subterrâneos de Ouro Preto, «lugarejos secretos» que Flauta Mágica – o que viaja de recordações e é «residente das lembranças» – assemelha aos que há sob Praga, Munique, Buenos Aires, Porto, e o «leme da imaginação» leva-o pela Grécia, Hungria, savanas africanas, ao interior de mosteiros espanhóis, à «meditação nas altas montanhas da Indochina». Assim se faz uma história sobre as peregrinações pelo mundo em busca de histórias. E assim se leva o mundo a uma pequena cidade transformando-a numa cidade do mundo.

A Ferdinando Flauta Mágica vão-se juntando outras tantas personagens surpreendentes para uma jornada de convívio com a «Sociedade de Contadores de Histórias»: entre muitos outros, estão Língua-Solta, homem de «rosto ameno e pacífico», apesar da «cicatriz em forma de lua minguante» a cortar-lhe a face, «olhos cor de pedra-sabão» e que, «embora seu nome indicasse o posto, parecia tudo fazer e tudo dizer com a língua guardada»; Centauro Veloz, um velhinho «galante e com nariz para o alto» que em jovem fora mordomo de dois governadores de Minas Gerais e com elegância segurava as tochas que iluminavam a caminhada «rumo às profundezas de Ouro Preto»; Jerónimo, um cego que sonhava com o fogo, e que o narrador imagina que tivesse asas, «as asas talvez de um anjo, talvez as asas de uma ave cuja espécie jamais conheceremos»; António-das-Hipérboles, homem «especialista em exagerar os factos do mundo» ; João Codax, um sineiro aposentado, com novas grandes missões; Maga Romena, especialista em dragões e conhecedora de todas as suas histórias «já escritas ou inventadas pelo mundo afora»; Nancy Cairo, «uma perfumista, fabricante de fragrâncias, inventora de odores, arquitecta de cheiros»; Magóia Coromandel, uma detective que investiga o roubo das ossadas do «Hipnotizador» patrono da Petúnia Negra, organização dedicada aos estudos da hipnose, mas que é disputado por outra sociedade rival que o quer para patrono do seu mundo com grandes bibliotecas de ficção.

Todos percorrem os subterrâneos de Ouro Preto, rumam ao Salão das Histórias de Suspense, ao Salão das Histórias Intermináveis, ao Salão das Histórias Policiais, pelos corredores labirínticos onde a magia da imaginação acontece.

«O coração de um homem que acredita em fábulas é um coração destinado aos sobressaltos, aos disparos incontroláveis.» Por mais viajado que fosse Flauta Mágica, esperava-o o inesperado. Por mais livros que um leitor tenha lido, é o sobressalto, o espanto da leitura que ele procura. E, claro, o hipnotismo. Tudo está neste livro de Paulinho Assunção: «Ah, os filósofos. E os poetas. E os loucos. E as crianças. As mulheres apaixonadas. E os sem eira nem beira pelo morro abaixo das fantasias.»


O Hipnotizador, Paulinho Assunção; Editorial Campo das Letras, Porto, Fevereiro 2008

TODO ESCRITOR É UM ESTRANGEIRO

O rio que corre pela minha aldeia não é um rio. É um arroio, um riacho, um ribeiro, um córrego. E o nome dele é Confusão. Dizem as lendas - e as lendas são a face inventiva da verdade - que os primeiros povoadores da região mineira onde se acha hoje São Gotardo, divididos em dois grupos, de repente se perderam, confundiram caminhos e veredas, entraram por onde não deveriam ter entrado, foram quando deveriam ter voltado. Tenho, assim, nas minhas origens, na imagem desses viajantes extraviados, razões e motivos topográficos, geográficos ou simbólicos para o jogo e o simulacro, para confundir as pistas e embaralhar os rumos. Tal como aqueles primeiros exploradores da região onde nasceu a minha cidade, aprendi que a literatura, como eu a entendo, se alimenta dos caminhos embaralhados, que ela é um jogo no interior do idioma, um jogo no qual o melhor lance (ou o mais prazeroso) é o perder-se, é estar onde não se previa, é andar como quem extravia. Diria mais: escrever, para mim, é sempre usar bússolas enlouquecidas.

Nas vésperas dos meus 53 anos, vejo-me estética e ideologicamente um escritor mínimo, um escritor mínimo no corpo de um homem mínimo. Embora desde os vinte e poucos eu sobreviva da palavra - como repórter, redator, revisor e tantos outros ofícios afins ou tangentes ao exercício da palavra -, exerço até hoje a minha escrita como aqueles primeiros exploradores topograficamente desmemoriados do antigo Arraial da Confusão, lá onde os altiplanos do cerrado mineiro, de repente, de modo abrupto, formam um vale, um corte, uma incisão na geografia. Volto então a insistir: para mim, escrever é se perder e entendo o escritor como um estrangeiro e a literatura como um estado de estrangeiridade. Digo mais: os pés humanos são também escreventes e andar é igualmente um modo de escrever. Daí eu não encontrar diferenças de princípio entre o transeunte a pé no corpo das cidades e o escritor no seu espaço íntimo.

Nada tem a ver o ato de escrever com aquele propalado clichê de que escrever é um ato solitário. Escrever, na verdade, é talvez o mais íntimo dos atos, mas nada tem de solitário. O ato de escrever, pelo menos como eu o entendo, é o momento da mais profunda e avassaladora conexão com o mundo. É a intimidade não isolada, é a íntima porção de tempo contagiada pelas coisas do mundo. Nos arredores e nas margens de uma folha em branco de papel, tudo o que entendemos por mundo vem participar do ato de escrever. Ali acontece a íntima comunhão - e, aqui, destituo da palavra comunhão qualquer resquício de religiosidade. É, talvez, aquela comunhão implícita no trecho de uma carta de Paul Celan a Hans Bender, quando o poeta diz: "Je ne vois pas de différence de principe entre un poème et une poignée de main". Em outras palavras: é o poema (e eu diria: a escrita) posto no mesmo patamar de um aperto de mão.

OS PRIMEIROS LIVROS - Todas as vezes em que me perguntam quantos livros eu publiquei, preciso ir aos arquivos e contá-los. São poucos, em torno de uma dúzia, mas jamais tenho deles uma noção numérica. Eles se confundem com os livros a fazer, com os livros a caminho, com os livros abandonados ao meio, com aqueles que possuem apenas uma única frase no seu corpo ainda feito de deserto. Os dois primeiros - "Cantigas de Amor & Outras Geografias" (Poesia, 1980, Coordenadoria de Cultura de Minas Gerais) e "A Sagrada Blasfêmia dos Bares" (Poesia, 1981, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro) - são livros que hoje me atravessam com o punhal frio do desconforto, do incômodo, do mal-estar. Não os renego, pois de nada adiantaria renegá-los, mas de uma coisa estou certo: não os levaria comigo para uma ilha deserta. Até percebo alguma qualidade no segundo, sobretudo naquilo que ele possui de uma "épica do lírico", o espaço do bar como pretexto para uma jornada de um dia no corpo mais vasto dos tempos ditatoriais. Sobretudo naquilo que ele traz como adesão à estética cabralina, certos recursos estilísticos como os vocábulos espelhados ou a opção pelos substantivos. Mas o livro teve uma edição tão precária, contém tantos erros de revisão e tantas gralhas que o tornam quase ilegível hoje em dia.

Aquela momentânea adesão à estética cabralina e certa opção pela linguagem em sua crua matéria, quase uma obsessão nesse período, vem de uma época, 1971, quando fui limpador de letras em São Paulo. Não creio que essa profissão tenha sido um dia catalogada, mas posso dizer, com todas as letras: aos vinte anos, eu fui limpador de letras na cidade de São Paulo. Limpador de tipos de máquina de escrever em meu primeiro emprego na Rua da Consolação, 41, bem diante da Biblioteca Mário de Andrade. Durante o dia, limpava tipos de máquina de escrever numa empresa chamada Organização Ruf; de noite, era o último a sair da biblioteca. Como não podia comprar livros, eu os copiava em cadernos e, assim, encontrei um modo de possuí-los, de sentir-lhes o gosto, de sentir deles a íntima carnadura. Copiei, palavra por palavra, tudo o que encontrei de Cabral, trechos e trechos de Joyce, Lorca, Oswald e Mário, os Campos e as fontes onde beberam os Campos. Vasta e interminável listagem de um copista jovem e pobre, procedente do mais fundo de Minas Gerais, um sujeito que, de repente, se vê em trânsito pela mais cosmopolita das cidades brasileiras e enfiado na Babel de uma biblioteca que jamais vira ou freqüentara. Era ali que eu me aturdia diariamente pelas prateleiras da seção de livros raros, lá onde encontrei a primeira edição daquele Oswald de Andrade que disse: "Aprendi com o meu filho de dez anos que a poesia é a descoberta das coisas que nunca vi".

Creio que há um momento na vida de um escritor em que é preciso caminhar sobre as águas. Minha caminhada eu a empreendi em 1983, quando escrevi "Diário do Mudo". Neste livro, escancarei as minhas dívidas (e também as minhas dúvidas), pus sobre a mesa as faturas, percorri de modo até mesmo autofágico tudo o que absorvera até aquele momento. Mas se do ponto de vista poético o livro é uma caixa de ressonâncias, uma caixa de ecos dos compósitos e sedimentos da minha formação, o que o motivou vem de bem antes. O que o motivou foi um carro de madeira que eu via na minha infância, a engenhoca de um mudo pelas ruas de São Gotardo. Naquele carro, que crescia e crescia a cada vez que saía à rua, tudo funcionava mediante polias, roldanas, cordames e mancais. Era uma feérica representação do mundo do fazer. Aquele homem, destituído da voz, achara um meio de se expressar através de uma engenhoca na qual pequenos bonecos representavam lavadeiras, tipógrafos, serralheiros, boiadeiros ou simplesmente o povo em dia de festa. Assim que o carro andava, tudo se movia. Por isso mesmo, em homenagem a tão impressionantes mecanismos, costumo definir "Diário do Mudo" como uma engenhoca de palavras.

O livro recebeu o Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte de 1983 e, no ano seguinte, foi publicado pela Editora Comunicação. Costumo dizer que um autor é duas vezes premiado quando é escolhido por uma comissão julgadora que respeita e admira. Foi o que senti quando Laís Corrêa de Araújo, Melânia Silva Aguiar e João Etienne Filho o escolheram. E sentiria o mesmo, em 1998, quando meu livro de contos "Pequeno Tratado Sobre as Ilusões" saiu vencedor de outro concurso nacional, o Prêmio Minas de Cultura (Guimarães Rosa), selecionado por Luiz Vilela, Sônia Coutinho e Ana Cecília de Carvalho. Este livro, aliás, teve um tortuoso caminho. Escrito em 1985/86, com 67 histórias, ele permaneceu onze anos na gaveta, período em me dediquei integralmente ao jornalismo, boa parte como repórter da Agência Estado na sucursal de Belo Horizonte. Um pouco antes do concurso, já fora do jornal, reduzi o livro para 29 histórias e o inscrevi com aquela insegurança de estar entrando em um baile com uma roupa fora de época. Nada me garantia que aqueles contos, guardados por mais de uma década, pudessem ainda dizer alguma coisa. Ao que parece, os contos disseram, mas o livro só seria publicado em 2003, não aqui, mas em Portugal, pela editora Campo das Letras. Entre escrevê-lo e publicá-lo - e publicá-lo em outro país - passaram-se 16 anos.

ESCREVER, FAZER - A frase que direi pode ter algo de pompa, mas não a resisto: gozosos são os caminhos da escrita. E gozosos são os modos de fazê-la, sem perder de vista a idéia de que esse fazer acontece naquelas frações de tempo do espaço íntimo. E fui fazer livros à mão, fazê-los como quem levanta uma casa no ar, fazê-los através de uma editora - a Edições 2 Luas - que é também uma ficção, que é também uma personagem, como são personagens (e não heterônimos ou pseudônimos) os autores que assinam vários desses livros ou livretos, como Lucas Baldus, Vicente Gunz, João Serenus ou Rubem Focs. São personagens que escrevem aquilo que eu escreveria (ou não), tão fora de lugar quanto eu, tão tortos quanto eu. E fui fazer esses livros à mão, escrevê-los e diagramá-los, dobrá-los e cortá-los, costurá-los e colá-los, ilustrá-los e distribui-los em um lento, sinuoso e labiríntico processo sempre na contracorrente da pressa, a contrapelo da produção em série. Um exemplar de cada vez, cinco de vez em quando, dez quando é possível. E publiquei "Noite de Palavras", "Romances", "Rostos", "Escreventes", "Saberes", "OutrasÁguas", "Namor - Imaginações para Namorados", "Livro dos Quereres", "A Flauta e o Automóvel", "Kafka em Belo Horizonte" e alguns de outros autores como Lucia Castello Branco, Maria Gabriela Llansol, Ruth Silviano Brandão, Roberto Correia dos Santos, Vera Casanova, Jaime Rocha, Eliane Marta Teixeira Lopes e Ângela Santoro.

Para mim, esses livros, nascidos da artesania, são cartas, cartas em busca de destinatários. Desconheço a equação secreta que desvenda o modo como um livro chega a um leitor, ignoro quais caminhos ele percorre, mas, ao chamar de cartas os livretos da Edições 2 Luas, dou-lhes, mais que um nome, uma condição, um estado. Talvez um dia eles sejam reunidos em um único livro, um livro único porém sempre imperfeito, como é sempre imperfeita a escrita, no seu dizer, no seu expressar. Sim, pois a imperfeição é da natureza da arte. Uma arte perfeita seria da ordem das divindades e as divindades, há muito, deram baixa das milícias humanas e se tornaram entidades contemplativas. Prefiro então a via humana do fazer. Fazer como faz o carpinteiro, o mestre carapina, o jardineiro, o amolador de tesouras e facas, todas essas profissões em desuso ou extintas, como o limpador de letras que fui em São Paulo.

De todos as maneiras, entre o meu primeiro livro e o próximo, entre os que estão na correnteza do mercado e os que viajam clandestinos pelos correios, feitos pela artesania da Edições 2 Luas, nada mudou em essência. O que aconteceu foi o livro que veio depois de outro livro, o livro que sempre há dentro de outro livro, um mesmo e sempre distinto livro. Afinal, o que há dentro de um escritor a não ser andaimes e estaleiros para a construção de livros? O que pode sair da autópsia de um escritor a não ser essas paisagens dos campos da Mancha, lá onde um Quixote, embriagado de livros, faz do mundo as suas páginas e de suas páginas o mundo - o seu e o mundo dos outros?

(Paulinho Assunção, depoimento originalmente publicado na edição de maio de 2004 do Suplemento Literário de Minas Gerais)