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sexta-feira

[ELOGIO DA FRASE-ÁGUA]

[denso pode ser apenas um nevoeiro na vidraça. ou nos óculos.]

[pobre texto que trai o tom de voz de seu autor.]

[se não fizer faísca, a palavra não está pronta para entrar no poema.]

[parece haver um momento nessa orla de tempo em que todos, literalmente todos, mais cedo ou mais tarde, citarão clarice lispector.]

[com ou sem editor, o livro viverá; com ou sem tradutor, o livro viajará.]


[o ácido da palavra ácido corrói lentamente, eternamente, infinitamente. a frase, porém, permanece intacta.]

[o verdadeiro fim, o fim de todos os fins, é cair na vala comum dos escritores de província.]

[desconfie, mas desconfie com todos os radares, quando um político usar um poema em seu discurso.]

[exibia-se em pompa e empáfia até diante do morto ilustre. e compunha uma autoelegia fúnebre.]

[era uma frase-água não por ser líquida, mas pela limpidez, pela elegância do que dizia.]

[certeza eu tenho: por trás da chuva, da nuvem, do escuro, está acesa a lua.]

[PASCAL QUIGNARD E AS CÂMARAS DE ECO]

[pascal quignard, em «dos laços
entre o som e a noite», diz que as grutas
paleolíticas não são santuários de imagens,
mas instrumentos de música cujas paredes
foram decoradas, são ressoadores noturnos
pintados no invísivel, câmaras de eco,
e o eco teria determinado a escolha
das paredes a serem pintadas. 

diz ainda pascal quignard que o eco
é o lugar do duplo sonoro, do mesmo modo
que a máscara é o lugar do duplo visível:
máscaras de bisonte, máscaras de cervo,
máscaras de ave presa de bico curvo. etc.

mais adiante ele diz que o eco é o guia
e o referente na obscuridade silenciosa,
e diz ainda: «o eco é a voz do invisível».

costumo pensar com frequência no eco
dentro do poema, no som que se estilhaça,
que se fragmenta, sílabas-partículas
em colisão sonora: sons para que os olhos
os vejam. ver som. ver o eco. o olho que escuta.

sei que as teorias poemáticas são modos
de justificar o que a obra, titubeante, obra.
mas de ler pascal quignard nesse tratado
sobre o som e a noite, encontro um alívio
na aflição de um paradoxo: 
o poema é o olho que canta.]

domingo

[AS DOIDICES PEDINTES]

[todas as doidices pedintes estavam reunidas: e pediram à noite que não apagasse as luzes.]

[pediram que as pessoas não calassem os cachorros, os que latiam melancolias na ponte: eram saudades do dono que partira, foi de navio. e não disse adeus.]

[as doidices pedintes não eram das grandes, eram só fiapos de doidices, doidices humildes, descalças.]

[por isso, pediam o que era tão pouco.]

[havia doidice de cavaquinho e doidice de bolso furado.]

[e havia doidice de amores raspados no fundo do tacho.]

[nós, o que passávamos ao largo, ficamos cúmplices dessas doidices pedintes: nossos corações eram governados pela mansidão.]
[e elas pediam chuvinha, a tímida chuva apelidada molha-bobo.]

[e pediam doce de manga, biscoitos de argola, pimenta dedo de moça.]

[pedidos não havia, porém, para viagem a noviorque, bagdá ou minsk. lugares vestidos de longe, vestidos de tanta lonjura, coisas para doidices grandes, descomunais em doiduras.]

[que país tão primevo e tão bom era esse o das doidices pedintes. até os lacans eram dos menores, até os freuds eram dos minúsculos.]

[e as pessoas liam os livros que não tinham páginas.]