VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA

Correio Do Autor

assuncaopontopaulinhoarrobagmailpontocom

Receba As Atualizações Deste Blogue em Seu E-mail

quinta-feira

[A PONTE DAS BOAS HISTÓRIAS]

O velho disse que uma boa história era aquela que atravessava a ponte. A ponte à qual se referia o velho era a que unia o País do Oh ao País do Ah e ficava sobre o Rio Sem Nome. Morávamos no País do Oh. Nada sabíamos do País do Ah. O velho deu peso e medida para o que considerava uma boa história. Era a história que atravessava. Porque muitas histórias, logo à beira do Sem Nome, caíam, despencavam, iam embora pelas águas. E o velho disse aquilo. O velho era nosso amigo assim como fora amigo dos nossos país e dos nossos avós. O velho também não tinha nome e sei que já não contava a idade. E ele disse aquilo. Uma boa história era aquela que atravessava a ponte. Então ficamos à espreita dessas histórias. Não tínhamos certeza se elas seriam encontradas. Mas o velho disse aquilo. E uma ponte é a suprema beleza que a vida faz vicejar diante dos olhos.

quarta-feira

[TUDO NO MUNDO É VERBETE]

[tudo no mundo é verbete: eis a infinidade e a infinitude do meu móvel-ser, diluinte e diluível ser, dissipável ser na paisagem. tudo no mundo é verbete, repito, e leio, passo as páginas das desordenações ordenáveis. a vaca. o besouro. o andarilho sem sombras.]

[verbete: ponto luminoso da coisa em latência. a coisa ondula. sai da superfície monótona e lateja, é um caroço, a coisa é coisa caroçante, talvez quisto, cisto, na rasura do mundo.]

[o ponto luminoso do verbete que agora se eleva da lâmina rasa do mundo. verbete ômega, verbete uivo, verbete lobo, verbete-pensamento.]

[é também verbete o poema que irradia clarões na treva incognoscível da página. meu móvel-ser, diluinte e diluível ser, lê o verbete-poema como se um cego a apalpar o ilegível.]

[verbete aura, verbete féretro, verbete vento. tudo no mundo é verbete, repito, e abraço a enciclopédia da tarde, andarilho sem sombras.]

[a casa é o verbete das coisas da casa, o mofo na parede, o retrato do filho, o musgo na porta, a pasta de dente, o mosquito morto.]

[e o lá-fora é o verbete das coisas do lá-fora, a anciã e o seu cigarro, a placa de alumínio que despenca de um quinto andar como se dardos de um anjo mau, o amolador de facas em vozerio de arauto, a jovem senhora que se esconde atrás de sua figura exibível.]

[e esta monotonia, este tédio das coisas repetíveis na boca dos homens: verbetes da repetição desenfreada.]

[a estranheza do mundo: verbete assombrado.]

[a falência do mundo: verbete cortado ao meio e logo ajuntado em outro formato de fragmentos.]

[o verbete dolorível e doloroso do fim de tudo.]

[ONDULAÇÕES E ERRÂNCIAS IDEOLÓGICAS]

[a representação das ondas ideológicas deve levar em conta o predomínio da instabilidade. isto é: nada é fixo, tudo é móvel. e em movimento.]

[daí ser oportuno agregar a essa representação das ondas ideológicas a ideia de errância, de nomadismo, pois mesmo o sedentarismo conservador, apegado a valores petrificados, se desloca e se move pelas ou por entre as ondulações.]

[queira ou não queira, voluntária ou involuntariamente, o sedentário conservador é atirado para fora de sua poltrona.]

[a partir dessa concepção de ondulações ideológicas, as usuais representações de esquerda e direita, de progressismo e conservadorismo, se desfazem e se esfarelam, se pulverizam e se estilhaçam, posto que as ondas de cada polo de opostos invadem ou são invadidas, contaminam e são contaminadas pela incessância do mar revolto.]

[mar revolto: eis uma providencial imagem para retratar o grau de esgarçamento dessa lâmina líquida por onde navega a massa humana em rede.]

[rede: desde que não forme elos estáveis, rede é igualmente uma imagem oportuna, mas não mais adequada do que a ideia de onda. vejam o mar chegando à praia. vejam as ondas em alto-mar. assim os homens hoje se movem pelo dorso errático de seus desejos.]

[o senhor otto, criado e formado na ambiência das dicotomias insanáveis, encontra sérias e aflitivas dificuldades para entender as ondulações que o jogam para lá e para cá no campo líquido das representações ideológicas.]

[o senhor otto sonha com um mundo ilusório e fictício. um mundo no qual, da manhã à noite, tudo seja palpável, pegável, controlável, comandável.]

[o senhor otto morre a cada minuto em seu dia de transtornos e desconfortos. apegado ao binarismo como um bebê se apega ao seio da mãe, o senhor otto transforma angústia em ódio, ódio em desejo destrutivo de tudo o que contradiz o seu mundo idealizado.]

[pode-se dizer que o senhor otto é o sargaço à deriva que as ondas ideológicas movimentam em mar aberto.]

[partidos, instituições, classes, grupos, facções ou agrupamentos disto ou daquilo perdem fronteiras e divisas. qual fronteira, qual divisa pode resistir à borda, às bordas de uma onda, espumas que se desfazem, espumas que se dissipam?]

[o senhor klos, criado e formado na ambiência das dialéticas, experiente hermeneuta de um mundo menos cristalizado do que o mundo do senhor otto, foi também tragado pelas ondulações. o senhor klos, à esquerda, é também um homem em pânico.]

[otto e klos já não são polos. já não pontas binárias. já não são totalmente contornáveis no purismo de suas ideias de mundo. são bordas, franjas, fímbrias em errância no mar-oceano das ondulações ideológicas.]

["o que fazer agora?", indaga klas, que fazia parte do mesmo agrupamento de klus, oposto ao de klos e também ao de otto.]

[klas também está em pânico.]

[klas lia o mundo de modo vertical, aprendeu a ler o mundo de modo horizontal, mas ainda não possui instrumentos e destreza para ler o mundo de modo multívoco, polissêmico, não mais o movimento do olho para lá e para cá, linha a linha, bloco a bloco, para baixo ou para o alto, para um lado ou outro lado, mas o olho em voo de pássaro, que abarca e açambarca o movimento ondulatório dos desejos e dos embates.]