VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA

Correio Do Autor

assuncaopontopaulinhoarrobagmailpontocom

sexta-feira

[A LAÇO, SÓ PALAVRAS MANSAS SÃO PEGÁVEIS]

[quebrou a amêndoa e salvou o poema da asfixia.]

[é sempre triste quando o fulgor dá lugar ao tosco.]

[escritor paternalista (coronelista) é o que fica ensinando o leitor o beabá de ler.]

[escritor escreve, editor edita, leitor lê. a equação é simples.]

[os escreveres ditos profundos são rasos: quem neles pula e mergulha quebra a cabeça nos pedregulhos.]

[chamou de teorema borges os fios de um novelo de lã que o gato decidiu enrolar pelas prateleiras da estante.]

[até uma fração de poema deveria conter todas as artes, incluindo as artes e os ofícios não considerados arte.]

[o poema não é imagem, sintaxe, música, ritmo, intelecto, epiderme. o poema é tudo isto mais movimento.]

[a laço, só palavras mansas são pegáveis no pasto do dicionário.]

[até o fim, serei sempre um escritor periférico, das bordas e beiras, cada vez mais distante do centro, um escritor de migalhas, farelos e ciscos.]

[alegrias e êxtases do cantar minúsculo: voz de cigarra, voz de formiga.]

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu derrama
a oeste, ali onde a estrela temporã
logo virá declamar um poema
de francis ponge.

o vapor de cachoeira não navega
mais no mar. o jardim protege
uma ninhada de vogais. o rústico
graveto aresta a página de uma avenca
que, quase noite, logo vai declamar
um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai
agora o sol, vem a lua, e o cheiro
do óleo diesel é o próprio coração
do diabo a bater na caldeira da fábrica.
a fábrica não vai declamar
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz.
o banquete dos mendigos por entre
as espirais do tabaco de buñuel.
godard recorta o senso comum
com as tesouras de uma andorinha
perdida, perdida e cega, na quase noite.
a andorinha logo declamará
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem velho
à beira de um canteiro. "fracassamos",
dizem os leitores e as leitoras do não
à beira das páginas mortas. e o gato,
gato sem nome, subnutrido, triste,
logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

[LUCAS BALDUS: O LADO OH E O LADO AH DAS COISAS]

Lucas Baldus atravessou a ponte que une o lado oh e o lado ah das coisas. A manhã estava de cachecol. Vesúvios emitiam sinais de fumo no horizonte a perder de vista. Tristezas, em carrinhos de rolimãs, vinham do lado ah; alegrias, em novenas merencórias, vinham do lado oh. Havia muito embaralhamento nas coisas do mundo. O minotauro vetou histórias que começassem com o era uma vez. Às vezes, era um tango na casa dos comendadores; às vezes, era uma polca na casa das senhoras de sangue azul. O lado ah e o lado oh das coisas tinham a ponte para lhes ofertar a cópula. A cópula do lado ah e do lado oh das coisas. Lucas Baldus atravessou a ponte e viu quando a cópula estalou madeiras e corrimões na travessia. Maitacas gritavam "república federativa do brasil". Macacos riam. O arauto José levava uma edição do Suplemento Literário de Minas Gerais. Alguém desenhou a carvão o nome dos facínoras em cada parede da Rua da Bahia. Estavam, pois, vetadas as histórias que começassem com o era uma vez. Poetas risonhas escreviam à moda de Adélia Prado e Clarice Lispector em folhas de papel-manteiga e eram aplaudidas pelos ursos de boina. O embaralhamento do mundo explodia pipocas. De vez em quando, alguém empurrava Belo Horizonte para o abismo. O jornalista de bigodes vociferava a palavra ladrão assim que o jornalista de cara redondota lhe dava o mote. O jornalista de bigodes perdia pouco a pouco as faculdades imaginativas. Gritava "ladrão", "ladrão", como se rezasse. Lucas Baldus pôs um binóculo em cada lado da ponte: binóculo de olhar para dentro, no lado oh; binóculo de olhar para fora, no lado ah. Pontas desencapadas de fios produziam faísca nos olhos dos cachorros. Era muito Brasil para guardar nos armários. Vazava Brasil pelas gretas. Vazava Brasil pelos recantos das trevas. E prosseguia o embaralhamento das coisas do mundo. Versões sofisticadas de política eram atiradas sob o tapete da República. Havia muita dor no dorso das pedras. Lucas Baldus deixou que os binóculos lá ficassem sob o sol, em vigilância. Lucas Baldus foi então guerrear contra os alisadores de arames.

[A GEOGRAFIA DE UM POEMA É A FINISTERRA]

[o melhor em inconcluir um livro é começar outro livro que também será inconcluso.]

[tudo já fizeram para a poesia chegar aos leitores: chuva de poemas, saco de pão, caixa de fósforos, varal ao vento, tertúlias, saraus e quermesses. e agora as incontáveis possibilidades oferecidas pelo cliques do mouse ou da ponta do dedo. hoje eu procurei a poesia e ela estava em esconderijo secreto e indevassável. a poesia não queria conversa. e os leitores nem perceberam.]

[você faz um balanço e deduz: quase todos os seus companheiros ou conhecidos dos anos mais duros, os anos de osso, são hoje conservadores, retrógrados, oligárquicos.]

[a aparição do poema em noite de trevas. ele veio com estandarte, soava matraca, era um arauto sem cabeça. a cidade inteira trancou as casas. só as crianças se encantavam com a imagem do poema pelas gretas.]

[ele acoplava o sentido de uma frase com o não sentido de outra frase em busca do atrito, da fricção, do curto-circuito.]

[com pé atrás, ele assistia às performances dos deslumbrados da poesia-coisa-nenhuma.]

[a geografia de um poema é a finisterra.]

[o peixe morre pela boca, o escritor morre pelo microfone.]

domingo

[A LUXÚRIA E O POEMA]

[e o poema impôs ao tempo
a grã luxúria, este terceiro dos sete
pecados capitais. e o poema

deu viço ao que era baço, 
ao que era opaco, deu
magnificência e exuberância

ao tempo, alegrou as nuvens,
desregrou o vento em dançarolas
de leitura, e o vento assim leitor

agora cúmplice do poema
enamorou-se da luxúria, urra!,
gritaram os marinheiros no cais,

urra!, gritaram as mulheres de azul,
eia!, assim, em uníssono, os anjos
sem emprego nem patrões rumaram

em desgoverno para a festa, urra!,
outra vez gritaram os marinheiros
e lançaram ao mar os alfabetos, eia!,

e então os potros na montanha, eia!,
que a luxúria vinha com as romãs, eia!,
que o poema atiçava odor de enxofre,

e as éguas, ao largo, minavam água
de suas ancas, e os deuses, infantos,
entravam inteiros nos tonéis de baco.]

quarta-feira

[ESTOU FALANDO COM AS PAREDES]


["je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. era
um sábado furta-cor em paris, um sábado
de frialdade metálica, amêndoas
saltavam dos olhos de cães negros,
de toda a parte surgiam os refugiados
com as mãos estendidas, e as chatas 
com meninos e meninas pintados a carvão
não paravam de navegar pelo sena.

"je parle aux murs", disse sílaba
a sílaba o senhor jacques lacan. 
e as paredes, altas, mistura de pedra
e aço, não eram as paredes da capela
sainte-anne, mas paredes elevadas 
havia pouco tempo, operários a mando 
de senhores invisíveis ainda acionavam 
guindastes, eram paredes que durariam
mil anos, durariam às hecatombes,
à bomba, aos terremotos e tsunamis. 

"je parle aux murs", e a voz do senhor
lacan reverberava sobre aquela superfície
agora pintada em tonalidade neutra, 
cinza, o acinzentado sem eco, assonante,
a voz ia e morria, a voz era um grão
em sua vaziez infecunda e estéril, a voz
golpeava o aço e a pedra, a voz ofegava
em sua persistência contra as paredes
elevadas pelos operários a mando 
de senhores invisíveis. e os refugiados,
os refugiados, os refugiados, os refugiados.

"je parle aux murs", ele disse, e a voz
era agora voz incapaz, voz não penetrante
no impenetrável que os operários a mando
de senhores invisíveis ainda construíam,
a voz não achava o furo, o orifício, 
a fresta, a ranhura, o desvão, a mínima
rachadura. a voz só rebatia seu próprio
som irreprodutível: seco, surdo, silente.] 

[ATICEI O PENSAMENTO PARA NOIVAR COM A POESIA]

[aticei o pensamento para noivar
com a poesia. eu disse: 
"vai, pensamento, vai, 
que a filosofia seja noivante,
é só dizer ao sócrates, ao platão,
ao marx, é só dizer que agora,
dagora em diante, o pensamento
está em núpcias com a poesia".

o que dizer ao leibniz? mônadas.
ao spinoza? proposições, demonstrações,
hipóteses. ao rené descartes? abaixo
o método. eis o idílio sem martírio:
o pensamento com a poesia
na ponte dos amantes em doce e grã orgia.

levar a lógica para brincar de esconde.
a dialética para acrobacia. o circo
há de abrigar a tese e a antítese, e um balão
ao céu, látex cadente, com um estouro
vai fragmentar a síntese.

que os doidos todos se acheguem a tal 
quermesse. em rodopio, eis o pensamento 
embriagado de alegria. e a noite inteira, 
por baco, vai se enredar com a poesia.

pensar e cantar. pensar e brincar. a cada louco
um invento. tal e qual heráclito soltaria o anzol
no rio novo a cada minuto. louvores de noivos
para saudar o absurdo, para elogio do estranho,
eis, amigos, os amores namorantes 
do pensamento com a poesia.]