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24.10.20

[NAVEGANTES SEM ROSTO]


[navegantes que não deixam rastros
ou sinais de sua passagem, nem mesmo 
resta deles a espuma por onde a quilha-olho
finca e fende a lâmina superficial de um texto,
são navegantes sem rosto, talvez fantasmas,
ou talvez não queiram o flagrante 
de sua leitura, de sua visita, ou mesmo se neguem 
a ser um número a mais no acúmulo estatístico
de cliques, toques, tics e tacs, 
sim,
deles nada se sabe, se vêm da china ou da argentina,
da dinamarca ou da guatemala, se do próprio bairro
onde o autor, assim que a madrugada vem lamber
luxuriante as fímbrias do dia, ali onde o autor,
lápis em punho, dá ao traço de uma letra
a insegurança dos barcos em mar revolto,
os barcos adernantes do escrever inútil.]

22.10.20

[LEITORES? SÓ TEMOS TRÊS]

[leitores? só temos três: o que gosta,
o que não gosta e o que não vê.
nem lê. vez e outra, misturam-se 
os três: um faz o que o outro faria,
mesclam-se as farinhas do que gosta,
do que não gosta e daquele que não lê.

digo isto: o pão da leitura vem de massa
enigmática. cada qual com o seu trigo,
cada qual com o seu fermento, um tem
água, outro tem o sal (ou o doce) na padaria.

entre tantos enigmas, enigma maior entre os três
é o leitor que não vê nem lê. é leitor in absentia.
dele só intuímos a sombra. rosto encoberto, corpo
difuso, mais lembra um fantasma. se tosse, se funga,
se retorce linha a linha a frase à vista, nada sabemos.

tende a ser frágil, sem substância e tutano, o leitor
que sempre gosta. lembra mais um devoto. advoga
o aplauso, é reverencial e idólatra. é tanto vício
nas palmas que há calejo e calo nos mindinhos.

dos três, nesse triangular esquema, há o cultor
do litígio. é máquina de contrariar o rio-corrente
da turba. esse leitor do contra, ranzinza, alisa o gato
a contrapelo e vai na contramão do senso comodista.
lá está ele, altivo, tapume por onde o vento sopra.

digo isto: a leitura, quitanda das alegrias, depende
dos três assim distribuídos. só dois seria um fiasco,
a leitura seria maniqueísta. só um seria leitura
sem dilema, monólito no tempo, monoteísmo do olho.
com os três, eu digo: a quitanda é bem mais plena.]

[LOUVAÇÕES À GOIVA]

[gosto da palavra goiva.
louvo a palavra goiva.
com a ideia de goiva,
com o fio cortante da goiva,
eu escavo a letra.

o que há com a pose do poeta
que não corta a graxa ou a banha
das aortas do poema? só pose
e gula, só pose e garganta,
só gogó e falares com protuberância?

a goiva ensina o lavrar diário:
escavar a matéria à sua máxima
economia. lascas de gordura seca,
essa banha milenar que apodrece
a palavra, essa nata, tudo isto
a goiva retira para o bem das substâncias.

a goiva ainda ensina: 
"só a obra inquire a obra, 
e todo o resto 
é falação humana".]

19.10.20

[DIÁRIO DE VICENTE ALARAN. EM PARIS E OUTROS LUGARES]

[Abderrahmane Ualibo, o torna-viagem, o sem-pátria, dado a se camuflar em noites secretas no corpo de personagens, diz, em um de seus diários jamais publicados: "Escrever é apenas inseminação verbal".]

[Joseph Joubert (1754-1824), aquele que jamais teve um livro publicado em vida. Não será esta a mais fulgurante condição para um escritor hoje?]

[A vulgarização do fragmento. A vulgarização da "história curta". A vulgarização do aforismo. E, ao contrário, em outro extremo, o grande mito do livro imenso, do livro-rio, o lugar-comum do livro que "fica em pé".]

[À beira dos 69 anos, tempo de repetir Drummond: nenhum problema resolvido, sequer colocado. Mas a folha em branco, à espera do lápis, é o paraíso.]

[Aquela frase de Borges (algo irônica, algo sarcástica) de apoiar na Argentina um candidato certamente incapaz de vitória: "gosto das causas perdidas" (em versão livre, de memória). Pois a literatura talvez seja isto, hoje. E eu repito Borges: gosto das causas perdidas.]

[Desventurado mineiro velho em Paris: feito de ficções, envolto em ficções, preso às teias das ficções.]

[Muitas vezes penso (penso nisto cada vez mais amiúde): serei um homem feito de palavras, vindo do pó das palavras, a caminho do pó das palavras?]

[Fui hoje cedo ao cemitério de Montparnasse. Fiquei longos minutos diante do túmulo de Samuel Beckett.]

[Minha tentativa de escrever o capítulo 10 na manhã de hoje fracassou. Fui atraído pela movimentação do carro da limpeza pela minha rua. Distraí. Deixei o lápis sobre o caderno e fui caminhar.]

[Ontem, na Rue Pascal, entendi de fato o que era uma epifania (mas epifania pagã, terrena), ao ver o vulto de um Cortázar que não era Cortázar, mas um jornaleiro muito velho que entrava por um túnel do tempo.]

[Não poderei levar de Paris a Diamantina a encomenda do meu tio Onofre. Pediu-me ele um vidrinho com um pouco das águas do Sena. Certamente a companhia aérea não permitirá que eu transporte essa "porção de memória líquida", segunda a definição de um velho estudante do Caraça.]

[Vicente Alaran. Juliette sempre achou graça no meu sobrenome. Alaran. Alaran. Ela repete e ri. Juliette, que não é a Binoche, trabalha em um hotel da Rue Amelot, no Marais. É de Nice. Tentou a carreira de atriz. Não deu certo. Alaran, Alaran. Ela repete e ri. Alaran, eu lhe digo, é um alarido falado musicalmente.]

["Em um voo noturno da antiga Vasp, São Paulo-Bruxelas, classe econômica, dissimulado e espremido nas poltronas centrais com a mulher e os quatro filhos, o agente começava a missão que lhe manteria 12 anos na Europa e faria dele um dos homens mais importantes dos serviços secretos europeus." (Trecho do capítulo 9, não aproveitado por sua fraqueza estilística.)]

[O capítulo 17, fracassado, e rasgado, começava assim: "A Organização Petúnia Negra, de nome tão exótico, poderia ter saído de um livro de Roberto Drummond, não fosse a sua especialidade espionar alta funcionária governamental em Bruxelas, por meio do agente ...".]

[Achei, no meio de uma agenda, um provérbio (Zocco Chico Proverb) que copiei de um livro do qual já não me lembro, que diz (e dá calafrios pelo que diz): If you are my enemy / I kill you for money / If you are my friend / I kill you for nothing.]

[O livro era assim: capítulo um, favor voltar ao pré-capítulo.]

[Tive certa vez a arrogância de reclamar da falta de um hífen entre Jean e Paul no túmulo de Jean-Paul Sartre em Montparnasse.]

[No alto da serra da Paraúna. Quase dá para tocar o céu. Viajo segunda para o Brasil. Saudades da minha Diamantina. Um velho argumento para um roteiro jamais concluído, rascunhado em um cartão de embarque, parece-me hoje decididamente risível: "Mineiro em Paris, natural de Diamantina, torna-se agente secreto".]

[Edmond Jabès. Nas travessias de Paris, de metrô, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, suas notações interrompidas, suas notações-caminhantes, escritório móvel pelos subterrâneos da cidade. Por fim, a construção de uma obra em fragmentos circulares.]

[En el sur de la rosa se ha quedado un pájaro detenido. Lezama escreveu isto. Devagar, olho para o sul da rosa. Um sul rosal-rosalino em rosáceas. Mas não quero o pássaro preso. Solto-o.]

[Originário do que chamo de "barroco solar", em contraposição ao "barroco lunar" (o primeiro festivo, profano, báquico, aberto, leve, o outro circunspecto, sacro, pesado), talvez eu encontre na figura da vertigem a definição melhor para o prazer da leitura. Ler como se o texto representasse o salto do acrobata no circo. Sem rede para protegê-lo.]

[Jamais dei uma entrevista; penso que jamais darei uma entrevista. Não por arrogância, mas por temor. O temor de dar à resposta (e às respostas) a condição de pedra, de petrificação. Como um fervoroso do inconcluso, do inacabado, toda resposta (pelo próprio significado do termo resposta) seria vã tentativa de arremate ao que sempre é irrematável.]

[Ne frustra vixisse videar ("Não me deixe parecer ter vivido em vão"), teria dito o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) a Johannes Kepler, pouco antes de morrer, ao que tudo indica, por envenenamento. Entre os feitos de Brahe, por 485 dias, ele observou detalhadamente a supernova que brilhou na constelação Cassiopeia em 1572, e publicou, mais tarde, em 1573, o relato dessa observação no livro De nova stella. Mas o conto, na minha opinião, deve começar de outro modo: pelas próteses que Brahe usava ao ter perdido uma parte do nariz em um duelo. Aí começa a literatura, penso eu aqui na beira do Sena, às vésperas de me despedir de Paris.]

[Sempre penso em quem seria e como era o Falso Geber, o alquimista medieval espanhol que primeiro descreveu o ácido sulfúrico, o autor de obras como Summa perfectiones magisterii, Liber fomacum, De investigatione perfectionis, De inventione veritatis. Leio por aqui e acolá para não confundi-lo com o alquimista árabe Geber (Jabir Ibn Hayyan), este, entre tantas descobertas, criador do alambique de modo a destilar o travesso espírito do vinho, ou al kohl. Mas penso no Falso Geber pelo mistério que o cerca, por seu anonimato, penso nele como matéria de simulacro, como matéria de ficção.]

[Deveras curioso que o médico Jan Baptista van Helmont (1579-1644) tenha batizado os ares de caos. Ainda agora, um redemoinho muito à maneira daquele que Riobaldo cismou ter visto com o demo dentro girou na minha esquina, tão caótico quanto uma dança luciferina.]

[Cada vez mais rio do bico dos meus sapatos. E digo: "Ó, sapatos, destituídos de filosofia".]

[O romance de Durst e Lila aconteceu exatamente naqueles dez dias abolidos pela Igreja Católica em 1582, para dar origem ao calendário gregoriano, ou seja, de 4 de outubro, pulou-se para 15 de outubro. Problema do papa Gregório XIII, porque Durst e Lila se fecharam em uma alcova do Castelo Jerst, da Bavária, exatamente nesses dias roubados do tempo por sugestão do astrônomo Christoph Clavius. Foram dez dias de um romance que, à época, conforme certos peregrinos desbocados, fez cair mamona de tão quente.]

[Caderno 1: Oito anos e 184 dias em Paris. Despeço-me, por fim.]

[Caderno 2: Amanhã, assumo novo posto de trabalho no Porto. O velho sonho de estar à beira do Douro.]

[Há pouco, enquanto observava o dorso das águas à luz da tarde, um grilo pousou em um pedregulho à beira do Douro. Um grilo verde. Muito magro e janota. Desengonçado, fora de lugar e expressando certo incômodo. Acho que nenhum portuense notou esse grilo verde à beira do rio. Creio que me olhava. Não sou especialista em olhares de grilos. Jamais poderei saber se, como eu, um grilo pode ser míope, se vê o mundo assim ou daquele modo. Mas não achei um despropósito deduzir que o grilo me olhava. Talvez quisesse conversa. Talvez quisesse dizer boa tarde em idioma de grilo, talvez desejasse um comentário sobre o tempo nublado. Nada disse. Nem ele, nem eu. Logo o grilo voou. Mas pode ser que nada disto tenha acontecido.]

[Ainda há pouco, passei pelo As Sogras, na Campo dos Mártires da Pátria. Não entrei, porém. Virei a esquina e segui pela Rua Caldeireiros em busca da tipografia que me foi indicada por Abderrahmane Ualibo. É bem provável que eu edite a noveleta aqui no Porto. Mas a editarei à moda antiga, não mais do que 50 exemplares compostos e rodados em prensa obsoleta, a caminho do desaparecimento. Faz bem esse tipo de gesto produtor de tais contrastes. Praticar o que já quase não existe ou está em vias de se tornar névoa. Depois beberei à beira-Douro uns bons tragos de Porca de Murça, em homenagem à edição destinada ao fracasso. O que são os livros senão esses fracassos acumulados?]

18.10.20

[O TRABALHO DAS FORMIGAS]


[densa, espiralante, demasiadamente povoada de palavras e sinais, irrespirável e ofegante, a frase então se encontrou com as formigas, que logo iniciaram o trabalho de roê-la, de triturá-la, reduzindo-a aos traços e ao laconismo, aos escombros e ao silêncio.]

13.10.20

[LADRILHOS, PARTÍCULAS, MIGALHAS, VIDRILHOS]

[a mediocridade é a mais sedutora e hipnótica das bruxas. atrai como a serpente atrai o passarinho.]

[no olho da fervura, há mais poesia do que nos compêndios de verso e prosa, nos tratados altivos, nas falas da soberba.]

[bem cedo, ainda escuro, cortei a cebola, o pimentão e o tomate, amassei o alho, e fiz o cozido exalar pela casa.]

[disse o velho que ideologia é tal água aberta no quintal: ora inunda tudo, ora vai por trilhas aqui e lá, direita, esquerda e pelos meios.]

[com o prumo do pedreiro, você pode aprender a dar o corte, no final da linha, no próprio coração da imagem. é o ritmo.]

[torquês: ótima ferramenta para um poema.]

[o novo, agora, só na criptoteca, com os códigos indecifráveis. o resto é rede.]

[prantear. verter lágrimas por isto e aquilo. na antiguidade do dicionário ainda encontro tais pepitas.]

[na oficina, para construir o poema, ele fez antes uma incisão na rocha.]

[nesta altura das contendas, já sou o homem que palreia com os livros. digo-lhes onomatopeias e escuto: a língua deles soa tal música.]

[nomeávamos cada coisa com outro nome: nuvem era valsa, matagal era teatro, a noite, manto, e a frase, para a frase um nome por minuto.]

[o poema, então, meu amigo, é a água derramada do vaso. após o derrame, manter do lado de fora a forma do vasilhame que a continha.]

[o livro é um veículo que, mesmo em altíssima velocidade, você pode pular fora sem risco de fraturas.]

[tipos ideológicos: o que é, sem que pareça ser, embora gostasse de parecer que é, não fosse a canalhice de posar que é outro.]

[águas de março, águas de junho. o que fez o tempo enlouquecer tal graveto dentro de um redemoinho?]

[um cérebro de polainas só produz textos de polainas.]

[nublina em belo horizonte. verbo nublinar: não existe. mas deve ser inventado.]

[nenhum poema usa mais a solar palavra arrabalde, que vem do árabe ar-rabd, e logo se turva, soturna, com os us da palavra subúrbio.]

[ele vincava de tal modo as palavras que o poema exibia-se tal fraque em vitrine de alfaiataria.]

[o mais, mais ainda, não suportou a luz vespertina, a luz que fenecia, e foi à taberna com o menos, o menos ainda.]

[bem avisamos que o poema era dentro de outro poema e o poema de dentro era o poema de fora, salvo erro, salvo engano.]

[intempérie é uma bonita palavra com esse tropel de sílabas, tropel que avisa o que vem, taróis de chuvas e trovoadas.]

[saltou uma palavra do dicionário. e a palavra era aprazível.]

[resistir é limar a lâmina, tinir o metal e dar uma banana para os energúmenos.]

[lia em voz alta um livro de jean-luc nancy e os pardais todos chegaram em palreações de simpósio.]

[era uma imagem quase de fruta: a lua das cinco da tarde sobre a place vendôme.]

[aquele livro de heidegger sobre heráclito e essa cerveja tão lânguida, tão à espera, tão senhora de seu copo.]

[essa aflição pela poesia. calma. sossega. a poesia não é um cachorro com a língua de fora.]

[há uma multidão de ex-amigos que tomou o bonde para a ruína.]

[há uma estrada lezama e há uma estrada borges. e há a estrada macedonio.]

[fracassei, mas ainda assim atiço a pedra em outra pedra para as faíscas de poesia.]

[o diário argentino de gombrowicz. infatigable el viento. primero anotaré los hechos. navegamos por el delta del paraná.]

[ler o livro para que dele já não reste nada. e então recomeçar a leitura. a partir do nada.]

[então vamos ler o que ainda não está escrito.]

4.10.20

[VARIAÇÕES SOBRE UMA FRASE-TEMA SOLAR DE MARIA GABRIELA LLANSOL]

[O ímpeto não tinha nome, mas um de nós falou que o ímpeto deveria se chamar cavalo sem crinas. 

Vínhamos da cidade alta, o mar ainda era invisível, guardado pelas muradas e pela sinuosidade em declive dos becos.

Descíamos, orquestrávamos a ânsia de algum deslumbramento ao chegarmos à praia. 

Todas as letras do alfabeto eram indigentes. 

Em frangalhos, as camisas de algodão grosso, transportadas na bagagem do Antônio-Torna-Viagem, nos vestiam, assim do modo que um corpo se veste com um pergaminho. 

Os barcos amarravam à areia o seu instinto desumano de partida. 

Longe ainda estávamos, mas víamos o instinto desumano em garras de fera sobre os moluscos e as conchas. 

O instinto desumano, com as unhas que fazem o adeus, se agarrava como podia à premência do barco, o barco voltado para o sul, o sul sem trevas, solar e promíscuo, o sul de sal e sol e cópulas. 

Longe ainda estávamos, e nossos corpos, vestidos pelo algodão grosso, pediam o vinho incomensurável dos tonéis que anjos mendigos haviam guardado para a partida. 

Por fim, aquele um de nós falante evocou outra vez o nome do ímpeto, o ímpeto cavalo sem crinas. 

Éramos os indigentes do alfabeto, éramos os vestidos pelo pergaminho. 

Tudo em nós era o revés das cordas, das unhas e das garras.

Em pouco e pouco, tomaríamos a vastidão dos largos. 

Iríamos para os confins do incognoscível. 

As letras mendigantes eram as velas dos barcos formadores de uma possível frota. 

E quando ganhamos o tecido verde-longínquo do oceano, era manhã de sol, sol de mar, de luz e sal.]

1.10.20

[OS QUATRO ROMENOS DO BULEVARDUL UNIRII DE BUCARESTE]

[eram quatro romenos 
no bulevardul unirii de bucareste, 
três deles de costas para nós,
os que chegávamos, um deles de frente 
para nós, os que chegávamos, 
os quatro romenos
no bulevardul unirii de bucareste, 
o de camisa vermelha era obeso, 
atarracado, apreciador 
de cerveja em goles intermitentes, 
o de camisa azul pensava nos coelhos, 
os coelhos que deixara 
já desventrados para a sopa e o guisado,
o de camisa branca, também de costas, 
discorria sobre o céu cinza-alumínio
daquela hora em bucareste, e o quarto, 
com o seu boné, contava dedo a dedo 
as proezas da noite passada, a noite 
romena daquele agosto de 2017, e nós, 
o que chegávamos, éramos os poetas 
do tambor e da pândega, 
anunciávamos as palavras 
em seu nascedouro,
vínhamos com os instrumentos
de cavar fontes, queríamos a palavra 
nova, a palavra-feto, a palavra cujo parto 
desmontaria o mundo em farelos e pedaços, 
e os quatro, os quatro romenos 
do bulevardul unirii de bucareste, 
jamais souberam quem éramos, 
pois éramos os poetas do tambor 
e da pândega para desmontar o mundo 
em farelos e pedaços naquele agosto de 2017:
com céu cinza-alumínio abobadado 
sobre a bomba das nossas cabeças.]

26.9.20

[FIGURAS DO INCONTÍVEL. OU MÍNIMA POÉTICA DO TRANSBORDAMENTO]

[as figuras do transbordamento, do vazamento.]

[as figuras da irrigação, da erupção, da irrupção.]

[as figuras do incontível, do imprisionável.]

[as figuras do que explode, do que dilata, do que expande.]

["a lava é a figura imemorial da liberdade", disse o velho.]

[as figuras da inundação, da arrebentação.]

["faz-se o poema pela eclosão de imagens", disse o velho.]

["deter é impossível", também disse o velho.]

[um homem, dois homens, três homens. as gentes. a praça. a rua. a multidão, o movimento.]

["a própria quietude é um estado de latência, é um vulcão dormido", disse outra vez o velho.]

[pelas rachaduras, pelos orifícios, pelos buracos, pelas reentrâncias, a água vaza, assim como a lágrima, assim como o grito, o léxico, a frase, o ritmo. assim como o ato.]

["o ato é a figura da potência incontrolável", disse o velho.]

["inconcebe-se o poeta que se atém a formas fixas, mármores, paralisia, entrevamento", disse o velho.]

[ingênuo é o poeta que tem o seu poema guardado em vidro de formol.]

[a figura do mundo: estilhaçamentos. o mundo quebradiço. o mundo trincado. cacos. meteoros e asteroides como se lascas de outros mundos.]

[a figura da memória: dilatamentos para trás e para adiante. a memória infinda-se.]

[o poema: porções ou cápsulas das revoluções em andamento.]

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

["pallaksch", murmurava hölderlin,
"pallaksch", ele murmurava, nem sim,

nem não, nem sim, nem não, ó
melancolia dos murmúrios, ó

a crua limiaridade do que não é
sim, nem é não. paul celan 

também murmurou com hölderlin
"pallaksch", assim igual eu murmuro

"pallaksch", murmuro as desdobras 
sem dobras do que indefine,

mas intuo ter visto lá onde o navio
cruza, lá onde o mar-alto vira,

intuo ter visto um pássaro
sem cor sobre o verde mar

desconhecido, intuo esse pássaro, 
não é do sim, não é do não,

mas é tão jovem quanto
um fogo em seu vigor inaugural.]

[DA SEPARAÇÃO ENTRE POEMA E POESIA]

[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema: 
plâncton, âmbar, abelha, 
ou grãos de trigo, em pendões, 
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.

penso no organismo, 
no indivíduo, penso na ilha 
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo 
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.

penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia 
era já forma adiposa, teia-aranha.

penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.

agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.

agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]

19.9.20

[EDMOND JABÈS: GENEROSIDADES DO SILÊNCIO]

[o que perturba sem nenhum ruído, sem 
algaravias, o livro perturbador e perturbante, 
esse livro que por ele somos perdidamente atraídos 
(são tão poucos, são contáveis nos dedos), 

esse livro que nos retira o centro e nos lança 
às espirais da própria perturbação, esse livro 
talvez não seja um livro longo, imenso, oceânico, 
mas um livro que, mesmo ao ter mil páginas, 

é um livro de pequenas cápsulas, de pequenos grãos, 
de pequenas ilhas. 

mostro a k. e a q
um dos livros de jabès. abrimos em conjunto 
as suas páginas. lá estão as cápsulas, as frações 

e as porções do fato perturbador e perturbante. 
o que lemos nesse livro, livro que é a multiplicação 
de tantos livros num pontilhismo de tantas ilhas 
em um mapa sem nome, nos joga às margens 

da cidade. a cidade então perde o centro, e, com ela, 
passamos a habitantes do horizonte. o horizonte 
sem margens. trazemos então edmond jabès, 
ele próprio, ao nosso convívio. dele ouvimos 

a generosidade do silêncio. nele identificamos 
o silêncio ouvinte, esse silêncio pleno de ouvidos, 
silêncio pleno de olhos, silêncio pleno de peles. 
o silêncio como uma epiderme do tempo. jabès 

então caminha conosco por essa belo horizonte 
a cada olhar inventada. também ele usa sapatos 
náuticos. também ele atravessa de um lado 
e outro as alfândegas dos gêneros.]

[PASCAL QUIGNARD E AS CÂMARAS DE ECO]

[pascal quignard, em «dois laços
entre o som e a noite», diz que as grutas
paleolíticas não são santuários de imagens,
mas instrumentos de música cujas paredes
foram decoradas, são ressoadores noturnos
pintados no invisível, câmaras de eco,
e o eco teria determinado a escolha
das paredes a serem pintadas. 

diz ainda pascal quignard que o eco
é o lugar do duplo sonoro, do mesmo modo
que a máscara é o lugar do duplo visível:
máscaras de bisonte, máscaras de cervo,
máscaras de ave presa de bico curvo. etc.

mais adiante ele diz que o eco é o guia
e o referente na obscuridade silenciosa,
e diz ainda: «o eco é a voz do invisível».

costumo pensar com frequência no eco
dentro do poema, no som que se estilhaça,
que se fragmenta, sílabas-partículas
em colisão sonora: sons para que os olhos
os vejam. ver som. ver o eco. o olho que escuta.

sei que as teorias poemáticas são modos
de justificar o que a obra, titubeante, obra.
mas de ler pascal quignard nesse tratado
sobre o som e a noite, encontro um alívio
na aflição de um paradoxo: 
o poema é o olho que canta.]

[ALBERT CAMUS E A JANELA]

[na enciclopédia das quedas 
e dos fracassos, junto com o verbete 
livro, há também os verbetes
dos verbos ver e deduzir. impossível

ver (e deduzir) o que albert camus 
vê pela janela nesse instante, instante, 
assim nos parece, de descanso, 
de intervalo, de lacuna, ao sentar-se 

no marco, talvez melhor chamar isto 
de contramarco, ou, no dizer 
dos engenheiros, pano de peito, talvez, talvez 
seja isto, ou não, pois as nomenclaturas 

igualmente fracassam, apenas vemos 
que camus sentou-se, uma das pernas 
alçada sobre o encanamento da calefação, 
a outra perna se apoia no assoalho,

a luz de paris com os seus cinzentos 
à beira do prata, um telhado, uma antena 
de televisão, camus segura com a mão 
direita talvez um cálice,

e olha, o que vê o escritor não sabemos, 
talvez nem olhe, talvez apenas absorva 
o que vai pela rua, um homem 
e uma mulher talvez passem justo agora,

um carro, ou nada, pode ser que a rua 
esteja vazia, camus então apenas deixa-se 
ficar com o nada pelos olhos, sim, 
tudo isto é fracasso, fracasso

das deduções, imaginâncias sobre uma foto
que nos comove, imaginâncias 
sobre o fracasso do que tentamos ver: 
um escritor na janela, entre duas

folhas abertas para que a janela 
nos faça recordar de um livro, um livro 
igualmente aberto, a janela-página 
com um escritor sentado lá dentro.]

[A LUXÚRIA E O POEMA]

[e o poema impôs ao tempo
a grã luxúria, este terceiro dos sete
pecados capitais. e o poema

deu viço ao que era baço, 
ao que era opaco, deu
magnificência e exuberância

ao tempo, alegrou as nuvens,
desregrou o vento em dançarolas
de leitura, e o vento assim leitor

agora cúmplice do poema
enamorou-se da luxúria, urra!,
gritaram os marinheiros no cais,

urra!, gritaram as mulheres de azul,
eia!, assim, em uníssono, os anjos
sem emprego nem patrões rumaram

em desgoverno para a festa, urra!,
outra vez gritaram os marinheiros
e lançaram ao mar os alfabetos, eia!,

e então os potros na montanha, eia!,
que a luxúria vinha com as romãs, eia!,
que o poema atiçava odor de enxofre,

e as éguas, ao largo, minavam água
de suas ancas, e os deuses, infantos,
entravam inteiros nos tonéis de baco.]

[QUANDO PENSO EM POEMA]


16.9.20

[FRASE-RAP, FRASE-HIP, FRASE-HOP]

[bom mesmo é começar o dia com uma frase-música,
frase que não tenha vírgulas nem tenha pontos
e se enrosque inteira numa flauta, ou num flautim

que não respeite a pauta, frase que não seja sóbria,
que doida, que irada, que dentro de um fagote
a clave ela entorpeça, frase que não seja torpe, nem

tosca, só a onda, dedos de luxúria num clarim
de banda, que rap, que hip hop, elétrica harpa,
flamenca guitarra, uma frase solta que seja cigana,

nômade e móvel com a sua tenda, que cante, soprana
diva, ao palco suba, uma frase-ária, ou então sinfônica,
que pegue de mahler uma a uma das mil vozes sônicas,

que seja bandolim num quintal de avencas, roda de samba,
que seja uma frase-pixinguinha num sax de bamba,
uma frase-cavaquinha, ou que do alaúde busque a provençal

doçura, que seja coltrane, que seja count basie, frase
billie holiday na noite de uma paris profana, bidu
sayão numa frase-bachiana, que faça então do dia

a suprema música, que o olho insone do ódio não tenha
contradança, que eu siga pela rua com as sandálias 
do bem murilianas, e que ainda tenha alguma esperança.]

13.9.20

[CÓPULAS]


[a fruta. única, altiva. só 
na altivez da árvore.
o sol a inveja assim que o dia
brota e incha o seu falo-pau
em riste. presume-se
que se avizinha cópula
do sol com a fruta,
a luz que penetra a fenda,
o néctar da vegetal orgia,
banquete de um fogaréu
de caldo e lava, 
esses amanheceres
do recomeçar do mundo.]