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quinta-feira

[O AVÔ, O ALTIPLANO E O FOGO-FÁTUO]

[o altiplano, no princípio da noite,
ora era sombrio, ora fosforescia 
lá e acolá guirlandas de luz de fogo-fátuo,
remotas povoações deixaram ali os seus mortos,
e esses mortos, quando assim a noite chegava,
lançavam seus avisos de luz azulada, nem dava
medo, o avô nos disse que os mortos
saudavam a nossa passagem, nós vínhamos 
de uma pescaria, os embornais cheios de lambaris,
as varas nas costas, e as botinas rangiam
pelos pedregulhos. era a vastidão à perder de vista.

o avô, eletricista, era generoso 
em nos levar semana a semana à barragem,
um pouco acima da vertente, pois ali, em remansos,
os lambaris se concentravam, e vinham aos anzóis
com vontade e gula, e as fritadas da noite 
mais alta eram pretexto e aconchego
para as histórias, histórias de cangaceiros,
antônio dó e antônio silvino, o avô
pausava a voz nos instantes em que havia confronto
entre a polícia e os bandos, era um calafrio
muito misturado com o prazer.

o altiplano era do tamanho do deserto do saara,
assim dizia o avô. e à noite, à noitinha,
quando o fogo-fátuo de antigas sepulturas
faiscava a escuridão, o altiplano 
era ainda mais largo, mais vasto, nele
cabia o mundo inteiro, um de nós pensava.

e quando pegávamos a trilha que dava à estrada,
a estradinha de areia branca que nos levava
a campo da passagem, a língua do avô
já ia sendo amolada para as histórias que viriam,
o ensaio era dizer que pelo rastro ainda fresco
passara a cascavel, que a loca no barranco
era moradia do urutu, que as unhas na areia
eram as unhas andejas do lobo-guará.]

[BRILHO NO ARROZ COM NACOS DE PARAFINA. E OS TIROS]

[o velho disse que os nacos 
de parafina davam brilho ao arroz,
os caminhões encostavam, e, com as pás,
os chapas puxavam a carga para o depósito,
o arroz formava enormes dunas no chão
de cimento, e então outro grupo de homens
atirava e espalhava os nacos de parafina
para que os grãos foscos, polvorentos,
adquirissem o brilho de um produto
cem por cento de primeira linha.

o velho encostava-se no balcão do armazém
e explicava essas engenharias aos meninos,
contava sobre a esperteza de vender gato 
por lebre, e enquanto explicava, enquanto 
dourava a pílula da cabotinice, bebia
pouco a pouco em goles curtos a pinga
do lameu, cujo rótulo era "maria bonita",
lameu era o fabricante e o velho o engarrafador
responsável pelo rótulo de uma mulher
muito assemelhada com a atriz maria félix.

os meninos olhavam para o trabalho de polir
o arroz com os nacos de parafina. no largo
em frente, largo de terra batida, dois homens
de terno branco conversavam ao pé do ouvido.
um deles, o baixo, era profissional assassino,
bastava mandá-lo, basta o pedido e um pouco
de dinheiro e ele saía à caça 
de algum vivente jurado de morte.

o velho sempre deixava o revólver 32 
sobre o balcão, ao lado de uma carabina 22
francesa. os fregueses chegavam, compravam,
iam embora, no comum dos dias e dos anos,
acostumados que estavam em ver o velho
com o seu copo de pinga do lameu e as duas
armas sobre o balcão, instrumentos 
quase hábitos, instrumentos quase brinquedos, 
pois quando já bêbado, no final das tardes, 
ia com o lápis na parede e desenhava 
um tosco círculo, um tosco alvo,
e, voltando, encostando outra vez 
junto ao copo e às armas, atirava 
naqueles alvos, os estampidos
ecoavam pela cidade de campo da passagem
quatro mil almas acostumadas com aquelas doidices,
um velho e a sua pinga, um velho e as suas armas,
e os tiros, os tiros, os tiros, os tiros.]

[DAS ESCOLAS LITERÁRIAS]

[filio-me a uma escola literária
pouco comentada, que é a escola
das tortuosidades,
essas tortuosidades das árvores 
e arbustos do cerrado, essa paisagem 
onde aprendi
a ver o horizonte em arabescos
de folhas, de cascas e espinhos.

foi essa paisagem que me ofertou a frase
em trilhas, atalhos, encruzilhadas,
o súbito de um olho d´água 
no altiplano, o súbito das pegadas
do lobo-guará, a hipnose olfativa
de um araticum caído, as florescências
da gabiroba em graciosas redondilhas,
o juá, o cajá-manga, essas pontuações
de frutos em estranhezas na frase, 
o ninho da cascavel aos pés da macaúba,
e, em noites de privilégio, o fogo-fátuo
a se elevar de antigas povoações.

dessas tortuosidades
que a gramática não prevê
e os compêndios não ensinam,
adquiri a frase em peregrinagens,
a frase que vai sem fim com o seu cajado,
porque os tropeços são comuns
nesse tipo latitudes e longitudes
de palavras, e cair é quase um rito
para que floresça uma pausa,
um silêncio, o branco lacunar
de uma ruptura no sentido,
e para que surjam no rastro
do peregrino certas agrafias
que a escrita ainda não alcança.]

[MÁRIO DE ANDRADE VÊ OS VIDRILHOS]

[o poema-documentário começa 
nos próprios óculos de mário: é ali,
pela redondez das lentes, que se dará

o fenômeno dos vidrilhos, aliterado
fenômeno a se reproduzir ressoante
por maravilhas e brilhos da noite.

diz pedro nava que mário de repente 
debandou-se do grupo, foi para a sacada 
do grande hotel, contemplou o estilo 

flamejante e manuelino do conselho 
deliberativo, rua da bahia com avenida 
paraopeba, ali onde, adusto e áspero

pela rigidez e a monotonia, eleva-se
hoje o edifício malleta. e então
o poema-documentário volta aos óculos

de mário, e pela redondez das lentes
com faíscas nas hastes, flagra outra vez 
o fenômeno dos vidrilhos, a combustão 

de luzes na noite de belo horizonte,
o sonar de mário capta frequências acústicas,
seu radar recebe ondas eletromagnéticas.

com letreiros diante da câmera, o poema,
que é documentário, exibe as seguintes
frases: "ah, o brasil da república velha;

ah, a belo horizonte das magnólias; ah,
o barnabé em pânico com o ovo do novo
que eclode no ano de 1924; ah, o ah, o oh,

o ih das boquiabertas onomatopeias, o ah,
o oh, o ih das senhorinhas e senhorinhos 
do partido republicano mineiro". corte.

volta-se a câmera para os óculos de mário,
"holofotes que varrem a noite", diz nava.
corte. fusão de imagens dos óculos de mário

com os óculos do poeta sem nome. é o ano
de 2016, entrante, talvez venha uma hecatombe, 
chove, dói no horizonte a dor de um mendigo 

bifronte, gota a gota caem do céu vidrilhos 
de sangue, eis o poeta sem nome, turvas
lentes na noite, cinema de um mesmo instante.]

[VERBETES PARA UM DICIONÁRIO AFETIVO]