
Solilóquios de Merval, dono de curiós
“... o que é o amor senão o arroz que agora exala sobre a trempe, entregue ao alho e à cebola, batizado pelo sal, mais e mais em substâncias de branco, o que é o amor senão o arco-íris sobre a casa onde Mizabel compota a laranja, compota o figo, compota o mamão há pouco ralado, a casa de Mizabel com janelas para o leste e para o oeste, a bica no meio de avencas, o cachorro de nome Cachorro, o gato de nome Gato, o canário de nome Canário, Mizabel foi à feira, de lá trouxe o ouro em flor de uns girassóis e a salsa-cebolinha para o frango, o que é o amor senão o vento nas campânulas, ali onde o rio nasce, perto do lugarejo a que dão o nome de Cruvinel, légua e meia antes da Capelinha, légua e meia depois do Arapuá, foi, isto foi, foi em noite de corujas santas que assisti chuvas cadentes, pérolas de fogo sobre as copas de uma gameleira, os meninos já dormiam, as mulheres só nos rumores, mas o boi e o carneiro, estes, ali nós três vimos quando o céu foi despencando a chuvarada de fogo, tiros de espingarda no meio das estrelas, sim, o que é o amor senão o agora da varanda com a Lina de mãos comigo dadas, a Lina que veio de São Paulo, toda com esmaltes de carmim em unhas longas, a Lina quase onça, em inglês quase saliente, agora aprendiz de datilógrafa para cartas escrever, novenas transcrever, hinos regravar em papéis de rosa-cor e perfume de gardênias, a Lina, a Lina, toda Lina aqui quando a lua surge para os lados da França, para os lados da Holanda, pois logo-ali, depois da montanha, começa o estrangeiro, e a gente avista o estrangeiro sem precisão de binóculos, mundo, sim, o mundo é pequeno, cabe em caixa de amendoim, sim, o que é o amor senão o canto da saracura-beira-brejo, hora avançada da manhã que estala gravetos....





