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Correio Do Autor

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domingo

[TUDO NO MUNDO ESCREVE]

[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.]

[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]

[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]

[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]

[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]

[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]

[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]

[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]

[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]

[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica. mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]

[tudo no mundo escreve: "quem vem lá?", pergunta o anjo torto com o seu lápis. "ninguém", a voz responde, a voz que vai pelo viaduto tal aedo que leva às gentes as palavras ainda ágrafas, palavras ainda destituídas do verbo ser. sabe-se que são deveras perigosas as palavras ainda destituídas do verbo ser. são palavras que não podem dizer: "eu sou". elas só dizem: "ninguém, ninguém". impossível anotá-las em cadernos, como bem sabe o anjo torto com o seu lápis à entrada do viaduto, junto às volutas, às balaustradas, às lanternas. "como escrevê-las, então, se elas usam a cisão entre sujeito e verbo como forma de fingimento?", isto é o que pergunta o anjo torto com o seu lápis. mas ninguém responde.]

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