[DIA OSMAN]
[hoje acordei com a palavra
avalovara
no céu da minha boca.
então eu disse para o dia,
o dia que recém-nascia:
"bom dia, senhor,
seu nome hoje
será dia osman".
a palavra avalovara
ficou na minha boca
toda a manhã. polpa
de romã, jorros
de maracujá,
frutas da língua
brasileira-portuguesa.
eu apalpava e acariciava
a palavra avalovara
no céu da minha boca.
fruta e pássaro, pássaro
de múltiplos pássaros,
avalovara, avalovara.
e dizia ao dia osman:
"será que chega
o nosso fim,
o fim de todos os fins,
esse fim que se avizinha
com as botas, os coturnos,
os tanques da idiotia?"
o dia osman não me respondia.
só os sinos dos sineiros
loucos, as matracas da senhora
morte, os cavalos cegos,
as bestas com olhos de sangue
apontavam no horizonte.
aquele vento de aço.
aquela brisa de gesso.
aquela aragem de urânio.
aquela esperança
em frangalhos.
doía, doía, doía
a pele do dia.
a carne da língua
sangrava, mucosas
da boca em tijolo,
pálpebras em cacos
de vidro, mãos
com a aspereza das limas.
e a besta. o tropel da besta.
o cuspe da besta. o fel
da besta. o relincho
da besta. o suor
da besta. o séquito
da besta. os idólatras
da besta. o lago
de sangue onde
mergulha e nada a besta.
e então, avalovara.
era manhã avalovara.
avalovara no céu
da minha boca.
fruta e pássaro, pássaro
de múltiplos pássaros,
avalovara, avalovara.
com o doce da língua,
com o néctar da língua,
com a seiva da língua,
com o sumo da língua,
com o voo da língua,
com os inventos da língua
enfrentaremos a besta.]

