[A PROCURA]


Aqueles eram tempos de obsessiva procura por tudo. Procurávamos e procurávamos. Onde estivéssemos, estávamos à procura. O chão, o céu, as cidades, a noite, as manhãs, em tudo procurávamos, muitas vezes sem saber ao certo o que de fato procurávamos. O ruído de unhas sobre uma superfície de vidro. A mastigação dos cachorros. O rastro de fumaça dos aviões quando o céu estava limpo. As vozes nos becos por onde passávamos, vozes como se de outro mundo ou de outros mundos. Éramos seis. Tínhamos sido expulsos da Cidade Alta. Vagávamos. Não tínhamos rumo. Eu era o mais doente. Carregava em mim a terrível doença, estava fraco, minha voz sumia. Mesmo assim, fazia parte da procura. íamos para lá e para cá como animais acuados e cercados à procura de uma saída. Cavávamos o terreno à nossa frente. Levantávamos pedras a fim de saber se o que procurávamos estaria ali, entre a terra e pedra, entre musgos ou cascalhos secos. Um dia, um longo dia depois de semanas e semanas à procura, paramos um velho na Subida Norte, a subida que levava ao platô das casas incendiadas. O velho ficou rente a um muro e nos olhou com melancolia. Intuía o perigo, se encolhia. Chegamos bem perto dele. Os seis fizemos uma roda em volta dele. E então chegamos mais perto, bem mais perto dos olhos dele. Olhamos o fundo dos olhos dele por muito tempo. Procurávamos. Procurávamos. Então veio a noite, abandonamos o velho com o seu medo, e fomos pelo escuro continuar a nossa procura.

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