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27.2.26

[O VELHO POETA DA LANCHONETE NACIONAL]


[Havia na Rua Goiás, com uma porta que dava para a praça Alberto Deodato, quase esquina com Rua da Bahia, um estabelecimento chamado Lanchonete Nacional.]

[Pelo estilo, era remanescente de uma Belo Horizonte ainda com aura que vinha lá do Bar do Ponto, lá do modernismo mineiro, lá das empadinhas e dos bolinhos de feijão.] 

[Na praça, mínima praça, havia também o Cine Metrópole, em local da antiga casa de ópera dos tempos dos tenores, contraltos e arrebóis. E cheiro de manacás. Mesma praça onde hoje pontificam as figuras em bronze de Drummond e Pedro Nava.]

[Às cinco em ponto da tarde (como no poema de García Lorca), o poeta, já idoso naquela metade da década de 1970, sentou-se em uma mesinha central, encostado em uma pilastra com espelhos, bem próxima do balcão. Pediu um copo de leite frio e um misto quente.]

[Longos bigodes possuía esse poeta já muito cansado, adoentado, um tanto melancólico.]

[Exibia vistosos olhos cor de argila, aquela argila verdete, enquanto olhava lentamente para um lado e outro naquele momento em que a Lanchonete Nacional estava praticamente vazia.]

[O poeta pensava em Goethe e na Elegia de Marienbad, poema que o autor do Fausto começou a escrever em 5 de setembro de 1823 sob o clima devastador da paixão não correspondida por Ulrike von Levetzow, de 17 anos. Goethe, à época, tinha 73.]

[De resto, é uma história conhecida.]

[Mas o poeta, com o seu lanche de final da tarde, parecia tomado pela cena de Goethe na sua viagem de volta para Weimar, compondo a primeira versão do poema.]

[Lá como cá, na estrada para Weimar e em Belo Horizonte, sincronizava-se a melancolia de um e outro por meio de um acontecimento com algum grau de semelhança nos descaminhos entre velhice e juventude.]

[Um pouco mais tarde, já no princípio da noite, o poeta levantou-se e desapareceu minúsculo pela Rua da Bahia afora.]

[Quero crer, porém, que foi ali, naquela mesa e naquele instante de um final de tarde na cidade de Belo Horizonte, que outra elegia com tema similar à Elegia de Marienbad começou a nascer, e cujo título, se não me falha a memória, aludia ao nome de Diamantina.]

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