[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".]
***
[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]
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[ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".]
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[ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe sílaba a sílaba, evocações de uma raiz longínqua, enunciações de uma noite árabe. mas igualmente eu a admiro pelo que ela contém enquanto utensílio, lá onde podem ser maceradas as ervas e as especiarias, conteúdo de misturações secretas, isto que, nas palavras, dá-se o nome de imagem-âmbar".]
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[ele disse: "amiúde penso em coisas muito desajeitadas para os dias de hoje. por exemplo: o que deixa uma palavra no leitor assim que é lida. refiro-me, por exemplo, à palavra cavalo. quando lida, e vista, pois ler é também uma forma de olhar, o que a palavra cavalo deixa no leitor? deixa crinas ao vento, cascos sobre pedregulhos, o galope em desgoverno para um rumo desconhecido? ou a palavra cavalo deixa no leitor uma cena de quietude? o cavalo quieto, à noite, noite sem lua, noite sem vento, o cavalo ali, a um canto do pasto, a cabeça baixa, os olhos sonolentos, as bandas das crinas caídas ao longo da tábua do pescoço, o focinho pendente, as ventas apaziguadas, os olhos como se refletissem sobre assuntos que jamais saberemos".]
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[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]
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[ele disse: “coitada da leitura, e mesmo da literatura, com a militância do bom mocismo carola”.]
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[ele disse: “uma frase ou dito aos modos de clarice já é o bastante para fazer de um texto um pavão com os seus penachos. e uma frase solta retirada de rosa é o bastante para fazer do citador um pavoneante filósofo”.]
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[ele disse: “grande parte da poesia hoje publicada não passa de arroz que gruda, de doce que desanda, de bolo que sola, de pipoca que não pula”.]
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[ele disse: "anuncio ao mundo que acabei de arrancar de mim um pedaço de palavra. não doeu".]
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27.12.25
9.12.25
[OS SABERES E OS DESSABERES]
mas o saber esvaiu-se, areia
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo,
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo,
água ferruginosa.
ainda há pouco eu sabia,
ainda há pouco eu sabia,
eu disse, e repito, sabia,
mas o saber que eu sabia
em vapor se fez, um outro saber,
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber
logo esse novo saber
apontou ali onde os saberes
fazem morada, um novo saber
fazem morada, um novo saber
qual estranho, qual bicho
sem nome.
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa,
a um saber não se dá a recusa,
ele vem,
puxamos a cadeira,
puxamos a cadeira,
deixamos que seja
novo conviva. olá, eu digo,
novo conviva. olá, eu digo,
solto verbos amigáveis,
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa
de uma frase sinuosa
das que honram
as amizades,
as amizades,
isto até que o destino dos saberes
outra vez, em reprise, outra vez
outra vez, em reprise, outra vez
o destino leve o visitante,
mais um dia passa, outro ano,
outros saberes chegarão,
outros saberes chegarão,
e outra vez
vão ceder o lugar
vão ceder o lugar
para novos saberes chegantes.]
4.12.25
[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]
[o livro dos presságios,
aberto em dia errado, anunciava
o barco para a tarde, a horas tantas,
entre o dia e a noite, e seria
um barco iluminado,
traria tochas na proa, e ele
embicaria porto adentro, dois
marinheiros o conduziriam ao cais,
ambos cegos, joão
era o nome de um, jarbas
era o nome de outro,
e as cordas e os cordames,
os nós e os laços dos velames
penderiam do mastro,
no convés o resto de peixes,
a tinta azul que grafava o casco,
"ilusões invictas"
era o nome desse barco
anunciado para a tarde,
isto conforme o livro
dos presságios, livro
aberto em dia errado,
pois previa para hoje
o que de fato seria ontem,
equívocos de mãos
no desgoverno de um lapso,
mas eis que a tarde
apagava luzes, mas eis
que a noite abria as portas
para novo expediente,
mas eis que a roda
dos calendários girou
com o súbito de um vento,
mas eis que a barra
tingia-se de um fogo,
e então viu-se o clarão
das tochas na proa,
joão e jarbas acenaram
suas mãos de sal,
e o barco de hoje, que era
o de ontem, entrou no porto.]
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