[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.
essas porções que a noite
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa
e a desordem.]
31.1.26
26.1.26
[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]
1.Pode um conto não contar uma história.
Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto
do leitor que lê um conto que não conta uma história.
2.A história em um conto pode estar na
borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto,
a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.
3.Quando um conto vai além do tempo que
se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos,
muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma
novela.
4.Se porventura o conto possuir uma
história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em
estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome
irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o
conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra
de gelo, em derretimento.
5.A partitura por onde navega o conto
deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão.
E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício
de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo,
com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um
leitor feliz.
6.Talvez a maior virtude de um conto seja
enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao
chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será
faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto
esse instante de comunhão extrema.
7.Assim como a profusão de rostos numa
multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se
escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única,
serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da
travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não
podem ser enumerados, por sua abundância.
8.Um conto pode ter personagens. Ou não.
Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça,
amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o
relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.
9.A função do conto é dar vida ao
minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o
cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo,
pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o
inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.
10.Um
conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um
pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a
ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita
imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício
do inacabado.
24.1.26
[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]
sua
boca, sua cabeça,
sua sombra.
sua sombra.
seu
discurso está vazio.
bacia
sem nada, peneira
ao vento.
ao vento.
tudo
está vazio:
seu
grito, seu rumor,
seu murmúrio.
seu murmúrio.
sua
aorta está vazia.
sua horta,
sua praga.
tudo
está vazio.
o
livro que você lê
está vazio.
está vazio.
letreiros
da imensa avenida,
edifícios
da grande cidade.
edifícios
da grande cidade.
tudo
está vazio.
seu
lápis não tem grafite,
sua caneta
não tem tinta.
sua caneta
não tem tinta.
tudo
está vazio.
seu
corpo no palco,
seu enchimento-espantalho,
seu gesto
performático.
seu enchimento-espantalho,
seu gesto
performático.
tudo
está vazio.
seus
dedos, seu teclado,
sua memória.
sua memória.
seu
chip está vazio.
sua vaidade,
seu sucesso, sua bolsa
de valores.
tudo
está vazio.
seu
monólogo em rede,
seu seguidor
e seu seguido.
seu seguidor
e seu seguido.
tudo
está vazio.
sua
metáfora, sua curva
figurativa,
suas volutas significantes.
figurativa,
suas volutas significantes.
tudo
está vazio.
mas
o poema, rebelde,
nega o ato
nega o ato
benevolente,
nega
a genuflexão
submissa,
o poema, sol a pino,
o poema, sol a pino,
cruza veloz
seu
olho de poema pelo raio da janela-bruma.]
22.1.26
[METODOLOGIA PARA ERIÇAMENTO DE FRASES]
[... ela disse: "narciso não tem lápis, e os rostos não escrevem".]
[... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".]
[...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".]
[... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".]
[... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".]
[... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".]
[... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".]
[... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".]
[... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".]
[... ele disse: "e então, naquela manhã, surgiu murilo rubião na paisagem, com sacola de mercado e os lentos passos dentro de tênis azuis".]
[... ele dizia: "tarde, muito tarde, descobri que aquele poeta alto e magro, em dissipação na paisagem, não era emílio moura."]
[... ela disse: "é claro que o texto foi lido, e se nada disseram ou nada dizem é porque a moita é o mais confortável lugar da não-fala".]
[... ela disse: "somos todos postes que falam ininteligíveis monólogos nos ouvidos de outros postes".]
[... ele disse: "a interlocução foi esfarelada".]
[... ela dizia: "que triste a tal poesia que se quer unânime".]
[... ela dizia: "o réptil, sub-reptício, sem rumor e sem ruído, comete a fraude da falsa camuflagem".]
[... ele dizia: "é admirável a arte de não ser visto na multidão".]
[... ele dizia: "não há prazer algum em fazer o que todos fazem, o verbo fazer deve sempre ser verbo desbravador".]
[... ela dizia: "alguma coisa se movimenta no mundo quando ocorre um ato de desobediência".]
[... ela dizia: "literatura não é enturmação, é sempre dissidência".]
[... ela dizia: "escrever é dependurar palavras em varais ao tempo. quem passa lê. ou não lê".]
[... ele disse: "desobedecer é o verbo mais importante de uma língua".]
[... ela disse: "o caracol também poderia se chamar walter. por entre folhas, gravetos, ciscos, tinha também o seu livro das passagens".]
[... ela dizia: "aquelas chuvas oblíquas, aqueles ventos em curva, aqueles homenzinhos de cachecol em suas esquinas fantasmas".]
[... ela disse: "tantos lápis, tantos cadernos, e todas essas palavras em greve de fome".]
[... ele disse: "a província e os provincianos sempre ensinam que o sujeito deve cultuar a baixa autoestima".]
[... ela disse: "os intuitivos e os autodidatas foram banidos da tribo".]
[... ele disse: "leem os mesmos autores, comentam os mesmos livros, frequentam os mesmos lugares e olham para a mesma direção".]
[... ele disse, e ali eram os arrabaldes, ali onde as reminiscências de tangos velhos: "o país fodeu-se".]
[... ela dizia: "se há felicidade, talvez ela esteja no convívio com os bichos, esses mesmos que dão importância até na queda de uma folha seca".]
[... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".]
[...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".]
[... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".]
[... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".]
[... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".]
[... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".]
[... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".]
[... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".]
[... ele disse: "e então, naquela manhã, surgiu murilo rubião na paisagem, com sacola de mercado e os lentos passos dentro de tênis azuis".]
[... ele dizia: "tarde, muito tarde, descobri que aquele poeta alto e magro, em dissipação na paisagem, não era emílio moura."]
[... ela disse: "é claro que o texto foi lido, e se nada disseram ou nada dizem é porque a moita é o mais confortável lugar da não-fala".]
[... ela disse: "somos todos postes que falam ininteligíveis monólogos nos ouvidos de outros postes".]
[... ele disse: "a interlocução foi esfarelada".]
[... ela dizia: "que triste a tal poesia que se quer unânime".]
[... ela dizia: "o réptil, sub-reptício, sem rumor e sem ruído, comete a fraude da falsa camuflagem".]
[... ele dizia: "é admirável a arte de não ser visto na multidão".]
[... ele dizia: "não há prazer algum em fazer o que todos fazem, o verbo fazer deve sempre ser verbo desbravador".]
[... ela dizia: "alguma coisa se movimenta no mundo quando ocorre um ato de desobediência".]
[... ela dizia: "literatura não é enturmação, é sempre dissidência".]
[... ela dizia: "escrever é dependurar palavras em varais ao tempo. quem passa lê. ou não lê".]
[... ele disse: "desobedecer é o verbo mais importante de uma língua".]
[... ela disse: "o caracol também poderia se chamar walter. por entre folhas, gravetos, ciscos, tinha também o seu livro das passagens".]
[... ela dizia: "aquelas chuvas oblíquas, aqueles ventos em curva, aqueles homenzinhos de cachecol em suas esquinas fantasmas".]
[... ela disse: "tantos lápis, tantos cadernos, e todas essas palavras em greve de fome".]
[... ele disse: "a província e os provincianos sempre ensinam que o sujeito deve cultuar a baixa autoestima".]
[... ela disse: "os intuitivos e os autodidatas foram banidos da tribo".]
[... ele disse: "leem os mesmos autores, comentam os mesmos livros, frequentam os mesmos lugares e olham para a mesma direção".]
[... ele disse, e ali eram os arrabaldes, ali onde as reminiscências de tangos velhos: "o país fodeu-se".]
[... ela dizia: "se há felicidade, talvez ela esteja no convívio com os bichos, esses mesmos que dão importância até na queda de uma folha seca".]
17.1.26
[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]
[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio.
Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas.
Coisas que eclodiam.
Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância.
Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera.
Sentiu-se bem.
Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo.
Apenas sentiu-se bem, como se uma alegria esvoaçante, de asas vivazes e ágeis, tocasse diariamente a sua porta.
Recebia essa visitante. Oferecia-lhe a sala. Deixava que essa alegria alada pousasse no escritório ao lado de caixinhas de madrepérola, minúsculas latas, objetos dispostos em uma gramática lúdica.
A infância, por obra e graça da prescrição diária, então renascia nesses labirintos de objetos que a idade foi acumulando entre cadernos, livros, lápis, retratos, flâmulas e recortes.
Retornavam folguedos, travessuras, espantos, cheiro de terra.
E uma vontade desmesurada de música passou a predominar em seus dias. Tanto que, muitas vezes, sob os olhares interrogantes da família, ele cantarolava feito um doidinho manso.]
4.1.26
[O FIO E O TIGRE AZUL]
[era só um fio.
começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais.
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais.
era só um fio
na paisagem que a cidade
na paisagem que a cidade
expunha ao ocaso, luzes
trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los
como se fantasmas, mulheres
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los
do tigre azul.
o fio único desafiava
o fio único desafiava
os tratados de filosofia,
os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio
que começava na ponta
leste e vinha como se serpente
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste, e prosseguia,
mais e mais ele prosseguia,
um fio desejante
de não ter jamais um fim
atravessava a cidade
atravessava a cidade
em seu ocaso triste,
de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico
tristes, em pânico
com o tigre azul.]
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