22.2.26

[SIGNORE FRAGOLINO E A SUA BICICLETA]

Meu filho contou-me a história, que teria sido assim: 


Que Signore Fragolino, com as mãos já trêmulas, abriu um pouco a cortina da sala naquela manhã de fevereiro e percebeu que o tempo, pouco a pouco, melhorava em sua querida Ravenna. As nuvens já não estavam tão pesadas e escuras como na semana anterior, e o sol, mesmo tímido, iluminava em rebrilhos os telhados do centro velho. O termômetro marcava 13 graus.


Muito devagar, frágil e arrastando as pantufas, Signore Fragolino aproximou-se da mesa da cozinha. Ali, pelas mãos afetuosas e sexagenárias da sobrinha Alda, já o esperavam sobre a toalha vermelha de bolinhas brancas o caneco de café, as fatias de pão, o pote de manteiga Galbani e o prato com o queijo Squacquerone. Signore Fragolino havia completado exatos 115 anos no final de janeiro e vivia apenas com a Signora Alda, viúva de outro combatente histórico da Resistência Italiana na região de Ravenna, o Signore Gildo.


Aquele era um dia especial na longa e aventurosa vida do Signore Fragolino. Especial e doloroso, dada a decisão que tomara com grande e sofrido esforço alguns dias atrás: vender a sua amada Bianca, a bicicleta que lhe servira desde os anos 1940 quando juntou-se à 28ª Brigada Garibaldi, liderada por Arrigo Boldrini, o famoso Bulow, como era o seu codinome, no combate ao nazifascismo. 


Ali na cozinha, curvado sobre a mesa, Signore Fragolino fechava os olhinhos castanhos e tentava reviver as suas peripécias junto com os demais partigiani por toda a Emila-Romagna, mas, especialmente, a partir da Isola degli Spinaroni, uma ilha existente lá pelas lagoas ao norte de Ravenna, que servia tanto como refúgio quanto centro de comando da luta antifascista.


Signore Fragolino terminou o café e olhou demoradamente para a sobrinha Alda. Com ajuda dela, iria daí a pouco à loja Il Baule dei Ricordi, onde o dono, Signore Alberto, prometera receber Bianca para revenda com única condição e exigência: que o comprador da bicicleta cuidasse dela com o mesmo zelo com que fora cuidada desde quando, no vigor da idade e destemido combatente, cantara Bella Ciao pilotando Bianca pelas trilhas mais secretas do norte da cidade.


Agasalhado com o velho capote e com a boina vermelha antifascista, o pescocinho protegido pelo cachecol de lã que a mulher, Signora Natalia, tecera por noites e noites de inverno antes de falecer aos 84 anos, lá foram pelas ruas de Ravenna o Signore Fragolino, a Signora Alda e a velha Bianca. A bicicleta era levada como se fosse uma criança: cada um, carinhosamente, segurava uma das pontas do guidão. 


Ao avistar a loja, Signore Fragolino suspirou e puxou lentamente o lencinho vermelho do bolso do capote. Suspirou outra vez  e enxugou uma lágrima. De lá, Signor Alberto, com os seus bigodões negros, acenou com o estardalhaço de sempre, famoso entre os moradores de Ravenna. Mas aquele aceno, em tudo amigável, doeu ainda mais no coração do Signore Fragolino. É que terminava ali a sua história com Bianca. 


Pouco depois, cantarolando Bella Ciao baixinho em louvor aos tempos históricos e heroicos, ele voltou para casa amparado pela sobrinha Alda. Morreu no dia seguinte, com 115 anos e quinze dias.


Menos de um mês depois, a bicicleta Bianca encontrou um novo dono à altura da exigência assinalada pelo Signore Fragolino: Tomás, francês de nascimento, mas internacionalista com porções brasileiras, mexicanas e italianas, comprou a velha Bianca e se deixou guiar por ela pelas ruas seculares de Ravenna: livre, sem rumo, deliciosamente sem rumo como um travesso passarinho.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.