22.2.26

[OS VAMPIROS DE BELO HORIZONTE]


Isaac Bemquerer Gutz, em seu Os vampiros que conheci em Belo Horizonte (Editora Tatarana Feliz, São Paulo, 1998, 420 páginas), enumera, de modo enciclopédico, em verbetes ricamente ilustrados a bico de pena e aquarela, os 147 vampiros que teriam povoado (e ainda povoam) a cidade desde os seus primórdios. 

Livro raro, encontrado por nossa amiga Cida La Lampe num dos cômodos do casarão ocupado por Franz Kafka na Rua Paraíba, nele o autor nos conta que esses vampiros — alguns europeus, outros asiáticos, muitos sem origem definida — ainda podem ser observados em certas horas da noite e em algumas regiões de Belo Horizonte, como o Edifício Maletta, o Cemitério do Bonfim, o Viaduto da Floresta, as margens do Rio Arrudas, o Parque Municipal ou as encostas da Serra do Curral. 

Soube por João Serenus que Kafka se deliciava com o livro de Gutz. “Várias vezes, quando passava à noitinha pela Rua Paraíba para tomar alguns cálices, encontrei Kafka às gargalhadas, com o livro na mão”, ele diz. 

Da nossa parte, Lucas Baldus e eu também fizemos hoje pela manhã uma leitura em voz alta deste saboroso compêndio e, sem resistir, anotei aqui alguns dos verbetes:

Godón — Este vampiro, com 400 anos e dono de dentinhos minúsculos e inofensivos, veste-se de Luiz XIV e passa as noites embriagado, cantando árias e dançando tarantelas pelas alamedas do Cemitério do Bonfim.

Loropas — Vampiro-poeta, construtor de sonetos e redondilhas, este Loropas teria participado da Guerra do Paraguai, foi expulso por obscenidades de uma legião vampiresca do Rio Grande do Sul, adotou o Edifício Malleta como moradia e costuma mordiscar o pescoço das mulheres em horário pontualíssimo: sempre às 4h15 da manhã.

Govión — Baixo e gordote, calvo e de passinhos curtos, este vampiro vive nas imediações da Praça Sete de Setembro. Não gosta de pescoços; gosta mesmo é de dar mordidelas suaves nos tornozelos das mulheres.

Laudarico — Eis um vampiro adaptado aos novos tempos: possui uma banda de rock, visita Paris duas vezes por ano, detesta sangue, lê colunas sociais, adquiriu asas de alumínio com faroletes e faróis e reside em uma gruta-boate nas encostas da Serra do Curral.

Gualdaberto — É um vampiro solitário e turrão. Pratica e exercita as lições e os ensinamentos das velhas cartilhas dos mestres vampiros da Transilvânia. Dizem, sem provas, que come gatos vivos. Não tem residência fixa. Nos ataques, ele tem a precisão de um jaguar. Avança como um relâmpago e, em dois segundos, ele subjuga as suas vítimas. Em vão, porém. Nada acontece, pois o vampiro Gualdaberto é desdentado.

Mabeia — Vampira cor de jade (Gutz relaciona 32 mulheres-vampiras no seu livro), com vastas cabeleiras e brincos de argola, seus ataques são inconfundíveis: ao morder pescoços, Mabeia entra em êxtase, levita, bate palminhas e cantarola cantigas de roda.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.