Isaac Bemquerer Gutz,
Livro raro,
encontrado por nossa amiga Cida
Soube por João Serenus que Kafka se deliciava com o livro de Gutz. “Várias vezes, quando passava à noitinha pela Rua Paraíba para tomar alguns cálices, encontrei Kafka às gargalhadas, com o livro na mão”, ele diz.
Da nossa parte, Lucas Baldus e eu também fizemos hoje pela manhã uma leitura em voz alta deste saboroso compêndio e, sem resistir, anotei aqui alguns dos verbetes:
Godón — Este vampiro, com 400 anos e dono de dentinhos minúsculos e inofensivos, veste-se de Luiz XIV e passa as noites embriagado, cantando árias e dançando tarantelas pelas alamedas do Cemitério do Bonfim.
Loropas — Vampiro-poeta, construtor de sonetos e redondilhas, este Loropas teria participado da Guerra do Paraguai, foi expulso por obscenidades de uma legião vampiresca do Rio Grande do Sul, adotou o Edifício Malleta como moradia e costuma mordiscar o pescoço das mulheres em horário pontualíssimo: sempre às 4h15 da manhã.
Govión — Baixo e gordote, calvo e de passinhos curtos, este vampiro vive nas imediações da Praça Sete de Setembro. Não gosta de pescoços; gosta mesmo é de dar mordidelas suaves nos tornozelos das mulheres.
Laudarico — Eis um vampiro adaptado aos novos tempos: possui uma banda de rock, visita Paris duas vezes por ano, detesta sangue, lê colunas sociais, adquiriu asas de alumínio com faroletes e faróis e reside em uma gruta-boate nas encostas da Serra do Curral.
Gualdaberto — É um vampiro solitário e turrão. Pratica e exercita as lições e os ensinamentos das velhas cartilhas dos mestres vampiros da Transilvânia. Dizem, sem provas, que come gatos vivos. Não tem residência fixa. Nos ataques, ele tem a precisão de um jaguar. Avança como um relâmpago e, em dois segundos, ele subjuga as suas vítimas. Em vão, porém. Nada acontece, pois o vampiro Gualdaberto é desdentado.

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