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23.3.26

[ÓPERA EM SILÊNCIO]

[na redonda noite, 
os cavalos
azuis. a lesma. 
os vidrilhos
da luz. o calmo 
antúrio e a nobre
avenca. 

e os cartógrafos. 
seus mapas
por onde a chama 
da vela diz:
"eis o país de lá", 
"eis as cidades
que flutuam 
e os rios de fogo".
o prego. o chapéu. 
a espada.

há o baú 
com os papéis tristes.
substantivados abandonos, 
goivas de lacerar 
as saudades, o corpo
em seu litígio perene 
pois potro
sem doma, sem rédeas. 

o corpo ágrafo 
destituído de palavras.
o corpo em selvageria 
úmida. a casa. o lodo. 
a hera. os sinais
dos guerreiros que vinham 
com suas tochas incendiárias.

tudo é calma sobre o fio 
da lâmina. ela agora dorme. 
a nudez exposta.
o lago que se formou 
junto à cama.

lá fora, os cavalos azuis. 
lá fora a madrugada 
pendente, pêndulo 
das noites baixas, 
rentes ao chão.
as noites rastejantes, 
tapete em trevas.

e os apitos. 
ao largo as barcaças, 
os marinheiros 
com adagas nos lábios,
os capitães soturnos, 
as velas piratas.

e a trempe. 
as brasas dormidas. 
hora de macerar as ervas, 
hora de chamar assim o dia: 
"vem". o dia em aço.
o dia com os seus colares 
no pescoço. o dia 
com os seus cavalos 
vermelhos.]

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