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20.3.26

[LEITORES? SÓ TEMOS TRÊS]

[leitores? só 
temos três: 
o que gosta,
o que não gosta 
e o que não vê.
nem lê. vez e outra, 
misturam-se 
os três: um faz 
o que o outro faria,
mesclam-se 
as farinhas 
do que gosta,
do que não gosta 
e daquele que não lê.

digo isto: o pão 
da leitura 
vem de massa
enigmática. cada qual 
com o seu trigo,
cada qual 
com o seu fermento, 
um tem água, outro 
tem o sal (ou o doce) 
na padaria.

entre tantos enigmas, 
enigma maior 
entre os três
é o leitor 
que não vê nem lê. 
é leitor in absentia.
dele só intuímos 
a sombra. rosto 
encoberto, corpo
difuso, mais lembra 
um fantasma. se tosse, 
se funga,
se retorce linha a linha 
a frase à vista, 
nada sabemos.

tende a ser frágil, 
sem substância e tutano, 
o leitor que sempre gosta. 
lembra mais um devoto. 
advoga o aplauso, 
é reverencial e idólatra. 
é tanto vício nas palmas 
que há calejo 
e calo nos mindinhos.

dos três, nesse triangular 
esquema, há o cultor
do litígio. é máquina 
de contrariar 
o rio-corrente
da turba. esse leitor 
do contra, ranzinza, 
alisa o gato
a contrapelo e vai 
na contramão do senso 
comodista. lá está ele, 
altivo, tapume 
por onde o vento sopra.

digo isto: a leitura, 
quitanda das alegrias, 
depende dos três assim 
distribuídos. só dois 
seria um fiasco,
a leitura 
seria maniqueísta. 
só um 
seria leitura
sem dilema, monólito 
no tempo, monoteísmo 
do olho. com os três, 
eu digo: a quitanda 
é bem mais plena.]

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