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Mostrando postagens de 2025

[A FRASE QUE CAIU DA NOITE]

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[gatos apreciam andar lentamente pelo gerúndio.] [país. imaginei ter um. já não imagino mais.] ["vem", disse a chama. a lenha foi. e era noite. falava-se a língua dos murmúrios.] [buraco. o da estante. o que ficou do livro in absentia .] [arder. era mesmo para arder aquele comunal convívio pelo livro, para o livro.] ["qual legado seria o da inscrição feita dentro de uma amêndoa?", ela perguntou.] [benjamin disse: "a rua: habitação do coletivo".] [aparições. instantâneos que a letra, qual radar, puxa para a frase.] ["a mão também é peregrina com o seu lápis-cajado", ele disse.] ["manto. tão abrigante palavra, toda ela aquecida", ela disse.] ["ah, mas o tecido do texto só para poucos vira manto", ela disse.] [arpejo. tudo aquilo que, em um tempo-antes, foi rumor.] [fímbria. certas dobras, certas beiras, onde pensamento e abismo se irmanam.] [declamação. o que dizem ser uma forma de envergonhar os poem...

[ELA DISSE; ELE DISSE]

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[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".] *** [ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".] *** [ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".] *** [ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe ...

[DIÁRIO DE VICENTE ALARAN]

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[Abderrahmane Ualibo, o torna-viagem, o sem-pátria, dado a se camuflar em noites secretas no corpo de personagens, diz, em um de seus diários jamais publicados: "Escrever é apenas inseminação verbal".] [Joseph Joubert (1754-1824), aquele que jamais teve um livro publicado em vida. Não será esta a mais fulgurante condição para um escritor hoje?] [A vulgarização do fragmento. A vulgarização da "história curta". A vulgarização do aforismo. E, ao contrário, em outro extremo, o grande mito do livro imenso, do livro-rio, o lugar-comum do livro que "fica em pé".] [À beira dos 75 anos, tempo de repetir Drummond: nenhum problema resolvido, sequer colocado. Mas a folha em branco, à espera do lápis, é o paraíso.] [Aquela frase de Borges (algo irônica, algo sarcástica) de apoiar na Argentina um candidato certamente incapaz de vitória: "gosto das causas perdidas" (em versão livre, de memória). Pois a literatura talvez seja isto, hoje. E eu ...

[OS SABERES E OS DESSABERES]

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[ainda há pouco eu sabia,  mas o saber  esvaiu-se, areia  na peneira, matéria não mais apanhável, toda ao chão como se fungo, lodo,  água ferruginosa. ainda há pouco eu sabia,  eu disse,  e repito,  sabia,  mas o saber  que eu sabia  em vapor  se fez, um outro saber,  frágil, lerdo, manco, logo esse novo saber  apontou ali onde os saberes fazem morada, um novo saber  qual estranho,  qual bicho  sem nome.  tive de aceitá-lo, a um saber não se dá a recusa,  ele vem, puxamos a cadeira,  deixamos que seja novo conviva. olá, eu digo,  solto verbos  amigáveis,  sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa de uma frase sinuosa  das que honram  as amizades,  isto até que o destino dos saberes outra vez, em reprise, outra vez  o destino  leve o visitante,  mais um dia passa, outro ano,  outros saberes chegarão,  e outra vez vão ceder ...

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

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[o livro dos presságios,  aberto  em dia errado, anunciava  o barco  para a tarde, a horas tantas,  entre  o dia e a noite, e seria  um barco  iluminado,  traria tochas na proa,  e ele  embicaria porto adentro,  dois   marinheiros o conduziriam  ao cais,  ambos cegos, joão  era o nome de um, jarbas  era o nome de outro,  e as cordas  e os cordames,  os nós e os laços  dos velames  penderiam do mastro,  no convés o resto de peixes,  a tinta  azul que grafava o casco,   "ilusões  invictas"  era o nome desse barco  anunciado para a tarde,  isto conforme  o livro  dos presságios, livro  aberto  em dia errado,  pois previa para hoje  o que de fato seria ontem,  equívocos  de mãos  no desgoverno de um lapso,  mas eis que a tarde  apagava luzes,  mas eis  que a noite abria as port...

[A ESTA HORA DA NOITE]

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[a esta hora da noite, não há quem possa conversar sobre poesia inglesa, ou sobre os hábitos de walter benjamin em paris, ou sobre a vida de augusto dos anjos em leopoldina, minas gerais. um amigo disse, no tempo em que os amigos conversavam a esta hora da noite: "o rosto dos escritores impregna-se do que escrevem, e as rugas são traços e textos em palimpsesto na carne do rosto". a esta hora da noite, o amigo que tal coisa disse não vive mais neste mundo, e há o silêncio, e há o rosto de textos nele impregnados, e há o buraco das conversas que já não acontecem a esta hora da noite. a esta hora da noite, não há quem possa conversar sobre o ativismo de grace paley, ou sobre a lata de atum que kerouac comia, antes de morrer, ou sobre o silêncio entre joyce e proust em certo banquete, sobre os livros que joubert jamais publicou ou sobre a infância de edmund jabès no cairo. a esta hora da noite, o telefone não toca para a leitura do conto recém-escrito, a bomba de nêutrons dizimou...

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

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[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures.  É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures.  É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam.  É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas. A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade. Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador. Do Bairro da Floresta, onde começa...

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

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[é quase noite. e as pitangas  tingem o leite que o céu  derrama  a oeste, ali onde a estrela  temporã  logo virá declamar  um poema  de francis ponge. o vapor de cachoeira  não navega  mais no mar.  o jardim protege  uma ninhada  de vogais. o rústico  graveto  aresta a página de uma avenca  que, quase noite, logo vai  declamar  um poema de francis ponge.  é quase noite ao sul do sul, vai  agora o sol, vem a lua, e o cheiro  do óleo diesel é o próprio  coração  do diabo a bater  na caldeira da fábrica.  a fábrica  não vai declamar  um poema de francis ponge. o corte no olho do cão andaluz.  o banquete dos mendigos  por entre  as espirais  do tabaco de buñuel. godard recorta o senso  comum  com as tesouras  de uma andorinha  perdida,  perdida e cega,  na quase noite.  a andorinha  logo declam...

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

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[ainda noite, mas já manhã  prenunciada, veio o texto.] [texto assim: fiapo  da roupa de um peregrino.] [lembrei-me então da carta  que paul celan  escreveu a hans bender  em 18 de maio  do ano de 1960:  "só mãos verdadeiras  escrevem um poema verdadeiro.  em princípio,  não vejo nenhuma diferença  entre um aperto  de mãos e um poema".] [e o texto veio assim: fiapo  da roupa de um peregrino.]  [não era ouro,  não era ourivesaria, nada  de texto-diamante à luz chegante  do dia: era fiapo.] [fiapo da roupa de um peregrino.] [com a delicadeza que se impôs  em hora tão inaugural no tempo,  tratei de laçar a lápis  esse indizível que jamais escreveremos.] [modo não há de escrever o fiapo  que se fez de texto na manhã  prenunciada.] [o fiapo é o indizível,  é o horizonte inalcançável, é isto  que nos ilude para a escrita  sempre sonhada e impossível.]

[EDMOND JABÈS: GENEROSIDADES DO SILÊNCIO]

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[o que perturba sem nenhum ruído, sem  algaravias, o livro perturbador e perturbante,  esse livro que por ele somos perdidamente atraídos  (são tão poucos, são contáveis nos dedos),  esse livro que nos retira o centro e nos lança  às espirais da própria perturbação, esse livro  talvez não seja um livro longo, imenso, oceânico,  mas um livro que, mesmo ao ter mil páginas,  é um livro de pequenas cápsulas, de pequenos grãos,  de pequenas ilhas.  mostro a k . e a q .  um dos livros de jabès. abrimos em conjunto  as suas páginas. lá estão as cápsulas, as frações  e as porções do fato perturbador e perturbante.  o que lemos nesse livro, livro que é a multiplicação  de tantos livros num pontilhismo de tantas ilhas  em um mapa sem nome, nos joga às margens  da cidade. a cidade então perde o centro, e, com ela,  passamos a habitantes do horizonte. o horizonte  sem margens. t...

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

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[Caro amigo Senhor Pon:  Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo. Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas. Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato. Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. ...

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

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[fazia noite, mas era urso.  fazia  claro, mas era poço.  fazia doce, mas era vespa. fazia liso, mas era lâmpada.  ó, música sem som  da frase oblíqua. ó, mancha invisível  no mar seco. aqui vou eu: cavaleiro,  cavalo,  furo e faca  pela dobra da música.  da poesia, bani  os incensos.  da prosa, abri o capinzal na planície, soprei  dunas do deserto. aqui vou eu: camelo  e tuaregue,  adaga  e sangue, parede  e alvura  no sol de andaluzia. não venha comigo,  poeta imitante. não venha comigo,  lebre indignante. nômade, montanhoso  e litorâneo, trago  amêndoa no punho.  e componho: silêncio de john cage  dentro de um redemoinho.]

[BIBLIOTECA AURORA ARURÁ]

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Hoje farei a doação para um sebo de 300 ou 400 livros, pequena fração do acervo pessoal formado no passo a passo das décadas. A maior parte seguiu em 42 caixas há dois meses para a Biblioteca Aurora Arurá, na Bahia, minúscula, simples e graciosa edificação elevada no quintalzinho da moradia amarela de Massarandupió. Este será o último endereço desses livros que nos acompanharam em Belo Horizonte a cada mudança de casa pelos bairros Pampulha, Sion, Luxemburgo e Cruzeiro. Agora compõem a Aurora Arurá, nome que surgiu em um sonho numa madrugada de outubro de 1998, na praia de Búzios, no Rio de Janeiro, durante um diálogo imaginário  com o poeta Manoel de Barros.