[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".]
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[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]
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[ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".]
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[ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe sílaba a sílaba, evocações de uma raiz longínqua, enunciações de uma noite árabe. mas igualmente eu a admiro pelo que ela contém enquanto utensílio, lá onde podem ser maceradas as ervas e as especiarias, conteúdo de misturações secretas, isto que, nas palavras, dá-se o nome de imagem-âmbar".]
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[ele disse: "amiúde penso em coisas muito desajeitadas para os dias de hoje. por exemplo: o que deixa uma palavra no leitor assim que é lida. refiro-me, por exemplo, à palavra cavalo. quando lida, e vista, pois ler é também uma forma de olhar, o que a palavra cavalo deixa no leitor? deixa crinas ao vento, cascos sobre pedregulhos, o galope em desgoverno para um rumo desconhecido? ou a palavra cavalo deixa no leitor uma cena de quietude? o cavalo quieto, à noite, noite sem lua, noite sem vento, o cavalo ali, a um canto do pasto, a cabeça baixa, os olhos sonolentos, as bandas das crinas caídas ao longo da tábua do pescoço, o focinho pendente, as ventas apaziguadas, os olhos como se refletissem sobre assuntos que jamais saberemos".]
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[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]
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[ele disse: “coitada da leitura, e mesmo da literatura, com a militância do bom mocismo carola”.]
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[ele disse: “uma frase ou dito aos modos de clarice já é o bastante para fazer de um texto um pavão com os seus penachos. e uma frase solta retirada de rosa é o bastante para fazer do citador um pavoneante filósofo”.]
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[ele disse: “grande parte da poesia hoje publicada não passa de arroz que gruda, de doce que desanda, de bolo que sola, de pipoca que não pula”.]
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[ele disse: "anuncio ao mundo que acabei de arrancar de mim um pedaço de palavra. não doeu".]
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