4.12.25

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

[o livro dos presságios, 
aberto em dia errado, anunciava 
o barco para a tarde, a horas tantas, 
entre o dia e a noite, e seria 
um barco iluminado, 
traria tochas na proa, e ele 
embicaria porto adentro, dois
 
marinheiros o conduziriam ao cais, 
ambos cegos, joão 
era o nome de um, jarbas 
era o nome de outro, 
e as cordas e os cordames, 
os nós e os laços dos velames 
penderiam do mastro, 
no convés o resto de peixes, 
a tinta azul que grafava o casco,
 
"ilusões invictas" 
era o nome desse barco 
anunciado para a tarde, 
isto conforme o livro 
dos presságios, livro 
aberto em dia errado, 
pois previa para hoje 
o que de fato seria ontem, 

equívocos de mãos 
no desgoverno de um lapso, 
mas eis que a tarde 
apagava luzes, mas eis 
que a noite abria as portas 
para novo expediente, 
mas eis que a roda 
dos calendários girou 
com o súbito de um vento, 
mas eis que a barra 
tingia-se de um fogo, 

e então viu-se o clarão 
das tochas na proa, 
joão e jarbas acenaram 
suas mãos de sal, 
e o barco de hoje, que era 
o de ontem, entrou no porto.]

30.11.25

[A ESTA HORA DA NOITE]


[a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre poesia inglesa,
ou sobre os hábitos
de walter benjamin em paris,
ou sobre a vida
de augusto dos anjos
em leopoldina, minas gerais.

um amigo disse, no tempo
em que os amigos
conversavam
a esta hora da noite:
"o rosto dos escritores
impregna-se do que escrevem,
e as rugas são traços e textos
em palimpsesto
na carne do rosto".

a esta hora da noite,
o amigo que tal coisa disse
não vive mais neste mundo,
e há o silêncio,
e há o rosto de textos
nele impregnados,
e há o buraco
das conversas
que já não acontecem
a esta hora da noite.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre o ativismo de grace paley,
ou sobre a lata
de atum que kerouac comia,
antes de morrer,
ou sobre o silêncio
entre joyce e proust
em certo banquete,
sobre os livros
que joubert jamais publicou
ou sobre a infância
de edmund jabès no cairo.

a esta hora da noite,
o telefone não toca
para a leitura do conto
recém-escrito, a bomba
de nêutrons dizimou
a esquina, veio a nuvem
de gafanhotos,
o vinho está seco no copo,
não há quem possa
conversar sobre o dilema
de um palíndromo,
ou sobre a casa
onde drummond
viveu em belo horizonte,
ali pelos lados
do bairro da floresta.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre dantas mota,
sobre os diários
de eduardo frieiro,
sobre os sonetos
de jorge de lima,
sobre a métrica de yeats
ou sobre as minúsculas
em cummings, não há sinais
de palavras intercambiantes
sobre um livro
que possa nascer
a respeito de barcos,
relógios, perfumes,
ruínas, trens
que jamais chegam,
trens que jamais partem.

a esta hora da noite,
as conversas
estão despovoadas de rosalía
de castro e antonio machado,
não há quem possa
referir-se a martim codax
e às ondas do mar de vigo,
a esta hora da noite
só há tiro e sirene, motor e uivo,
galope e abismo.]

3.9.25

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures. 

É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures. 

É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam. 

É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.

A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.

Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.

Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.

É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.

Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.

Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]

31.8.25

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

[ainda noite, mas já manhã prenunciada, veio o texto.]

[texto assim: fiapo da roupa de um peregrino.]

[lembrei-me então da carta 
que paul celan escreveu a hans bender em 18 de maio do ano de 1960: "só mãos verdadeiras escrevem um poema verdadeiro. em princípio, não vejo nenhuma diferença entre um aperto 
de mãos e um poema".]

[e o texto veio assim: fiapo da roupa de um peregrino.] 

[não era ouro, não era ourivesaria, nada de texto-diamante à luz chegante do dia: era fiapo.]

[fiapo da roupa de um peregrino.]

[com a delicadeza que se impôs em hora tão inaugural no tempo, tratei de laçar a lápis esse indizível que jamais escreveremos.]

[modo não há de escrever o fiapo que se fez de texto na manhã prenunciada.]

[o fiapo é o indizível, é o horizonte inalcançável, é isto que nos ilude para a escrita sempre sonhada e impossível.]

28.8.25

[EDMOND JABÈS: GENEROSIDADES DO SILÊNCIO]

[o que perturba sem nenhum ruído, sem 
algaravias, o livro perturbador e perturbante, 
esse livro que por ele somos perdidamente atraídos 
(são tão poucos, são contáveis nos dedos), 

esse livro que nos retira o centro e nos lança 
às espirais da própria perturbação, esse livro 
talvez não seja um livro longo, imenso, oceânico, 
mas um livro que, mesmo ao ter mil páginas, 

é um livro de pequenas cápsulas, de pequenos grãos, 
de pequenas ilhas. 

mostro a k. e a q
um dos livros de jabès. abrimos em conjunto 
as suas páginas. lá estão as cápsulas, as frações 

e as porções do fato perturbador e perturbante. 
o que lemos nesse livro, livro que é a multiplicação 
de tantos livros num pontilhismo de tantas ilhas 
em um mapa sem nome, nos joga às margens 

da cidade. a cidade então perde o centro, e, com ela, 
passamos a habitantes do horizonte. o horizonte 
sem margens. trazemos então edmond jabès, 
ele próprio, ao nosso convívio. dele ouvimos 

a generosidade do silêncio. nele identificamos 
o silêncio ouvinte, esse silêncio pleno de ouvidos, 
silêncio pleno de olhos, silêncio pleno de peles. 
o silêncio como uma epiderme do tempo. jabès 

então caminha conosco por essa belo horizonte 
a cada olhar inventada. também ele usa sapatos 
náuticos. também ele atravessa de um lado 
e outro as alfândegas dos gêneros.]

16.8.25

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

[Caro amigo Senhor Pon: 

Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.

Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.

Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.

Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente. 

Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera. 

Una stretta di mano.  

Do seu
G.]

21.5.25

[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

[fazia noite, mas era urso. 
fazia claro, mas era poço. 
fazia doce,
mas era vespa. fazia liso,
mas era lâmpada. 

ó, música sem som 
da frase oblíqua.
ó, mancha invisível 
no mar seco.

aqui vou eu: cavaleiro, 
cavalo, furo e faca 
pela dobra da música. 
da poesia, bani os incensos. 
da prosa, abri o capinzal
na planície, soprei 
dunas do deserto.

aqui vou eu: camelo 
e tuaregue, adaga 
e sangue, parede 
e alvura 
no sol de andaluzia.

não venha comigo, 
poeta imitante.
não venha comigo, 
lebre indignante.

nômade, montanhoso 
e litorâneo, trago 
amêndoa no punho. 
e componho: silêncio
de john cage 
dentro de um redemoinho.]

24.3.25

[BIBLIOTECA AURORA ARURÁ]


Hoje farei a doação para um sebo de 300 ou 400 livros, pequena fração do acervo pessoal formado no passo a passo das décadas. A maior parte seguiu em 42 caixas há dois meses para a Biblioteca Aurora Arurá, na Bahia, minúscula, simples e graciosa edificação elevada no quintalzinho da moradia amarela de Massarandupió. Este será o último endereço desses livros que nos acompanharam em Belo Horizonte a cada mudança de casa pelos bairros Pampulha, Sion, Luxemburgo e Cruzeiro. Agora compõem a Aurora Arurá, nome que surgiu em um sonho numa madrugada de outubro de 1998, na praia de Búzios, no Rio de Janeiro, durante um diálogo imaginário  com o poeta Manoel de Barros.

4.9.24

[TUDO NO MUNDO QUER SER LIDO]



[tudo quer ser lido: a flor, o parafuso, o cisco. 

a paisagem quer ser lida, e a janela, o fogo, o trovão. 

tudo quer ser lido e expõe sua textuaria ao mundo. 

o homem que vai, a mulher que vem, o menino que atravessa a zona de sombra de um edifício: todos querem ser lidos. 

escreve-se com o corpo, escreve-se com o silêncio. 

e tudo isto quer ser lido. 

débora, a transtornada, quer ser lida. 

jader, o furioso, quer ser lido. 

papéis, células lexicais na luz, geometrias vocabulares, arranjos de letras inscritas na pele: tudo quer ser lido. 

o lado certo e o lado avesso do objeto querem ser lidos. 

o objeto "a" quer ser lido. 

as paredes rebatidas pela voz para dentro do analista querem ser lidas, e própria voz, para dentro, posto que é voz ouvinte, quer ser lida. 

já não é mais só o poema, o romance, o tratado, o ensaio.

tudo quer ser lido. 

adolfo, o pastor, quer ser lido. 

hélia, a noviça, quer ser lida. 

o olho que lê também quer ser lido, e a mão que apalpa, tato legente, quer ser lida. 

quem não escreve quer ser lido, e quem escreve quer ser lido.

há o pássaro metálico de um pânico, e o pássaro quer ser lido.

e o pânico quer ser lido. 

não importa que faltem olhos, não importa mais a escassez legente: tudo quer ser lido, todos querem ser lidos. 

dança a letraria abundante pelos salões virtuais: tudo quer ser lido. 

mesmo quem nunca leu, quer ser lido. 

mesmo quem já morreu, quer ser lido. 

eis as lápides, eis a saudade ou a indiferença pelo que agora é pó: tudo quer ser lido. 

até a leitura quer ser lida. 

a antileitura quer ser lida, e a antipalavra quer ser lida.

partículas fetais de vocábulos ainda para nascer querem ser lidas. 

a finitude e a infinitude querem ser lidas. 

o leitor que pede o autógrafo ao autor quer ser lido, e o aglomerado de sábado, à porta da livraria, mais do que exibível, quer ser lido. 

o diálogo, mais do que a operação dialógica entre um e outro, quer ser lido. 

a fala quer ser lida. 

e a própria repetição infinita que aqui se faz e aqui se escreve quer ser lida.]

7.5.24

[TUDO NO MUNDO ESCREVE]

[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.]

[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]

[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]

[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]

[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]

[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]

[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]

[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]

[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]

[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica. 

[mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]

24.4.24

[A POESIA E A PROSA DUELAM NA TABERNA]






["dizem os pasquins 
que somos inimigas", falou
devagar a prosa, o copo 
sobre a mesa, aceso
o cigarro rente à testa, a voz,
a voz vinha de boca narrativa.

"inimigas não somos, se bem, devo
dizer, em algum momento senti
ganas de matá-la", disse a poesia, 
com meio riso cônico e irônico, 
com outro meio riso
fácil de notar que era um meio riso
assim entre o sério e o adusto.

"ah, também tive esses impulsos
assassinos", confessou a prosa, o foco
dos olhos sobre as próprias mãos
agora em repouso sobre a mesa, 
o cigarro quase no fim, 
o fôlego para as frases longas.

"seus deboches sempre 
foram deboches de fraqueza", 
respondeu a poesia, agora
com um cálice de bebida forte, 
se aguardente ou absinto, 
as sobrancelhas franzidas,
elípticos os lábios 
com palavras bélicas.

"em mim você também lançou 
as setas envenenadas", falou a prosa, 
os braços-parágrafos
prontos para uma guerra, 
um discurso-fleuve
a um simples puxar do gatilho, dois
travessões aquartelados no queixo.

"e você sempre bebendo 
das minhas águas", disse a poesia, 
que agora acendia uma cigarrilha
com os riscos de um fósforo-metonímia. 
"tantos contrabandos, 
tanto furto, tantos assaltos,
para depois me difamar nos intramuros".

e assim foi pela tarde o palreio
da prosa com a poesia. ora
um bater de latas, ora
um quase duelo. ora
o raio que o parta de um cruzar
de facas sobre o cerebelo.

de longe, ao fundo, os que moramos
aqui na aldeia
ouvíamos o transcurso do simpósio.

sei que homero 
espreitava da penumbra,
sei que dante, 
no depósito, tinha atentas
as orelhas. sei que o goethe, 
aquele que lia nuvens, 
de quando em quando
descia a vista para saber 
a quantas ia a tal pendenga 
entre a prosa e a poesia.

foi-se a tarde, foi-se a noite. fez-se dia,
veio outra noite. cavalos 
entraram pelas janelas, 
com os cascos sobre os batentes.
um javali, um dromedário, peixes
nadaram no seco, 
sozinhas as flautas tocaram.

tudo isto nós presenciamos, 
os que somos aqui da aldeia. 
o palreio da poesia
com a prosa, dia e noite, noite e dia.

isto até que a madrugada, igualmente
bebida, à taberna chegasse
e visse as duas sobre a mesa:
bêbada uma, bêbada a outra,
uma sobre a outra elas dormiam.]

5.3.24

[EM SALAMANCA, A TEORIA DO LIVREIRO SIETEFUEGOS]


Foi em uma tarde brumosa e nevoenta da cidade de Salamanca, com mais exatidão na magnífica Calle de la Compañía, que Rubem Focs ouviu do livreiro Fernán Sietefuegos uma teoria deveras curiosa sobre a origem da filosofia. Segundo tais argumentos ditos em voz grave e baixa por Sietefuegos, foram os gatos que a inventaram, oferecendo-a na bandeja para os primeiros ou primeiríssimos filósofos de que a humanidade tem notícias. "O que é isto?", "Como foi que aconteceu?", "De onde veio?" ー todos sabemos que essas perguntas os gatos amiúde fazem como um hábito entranhado em sua natureza, enquanto cheiram o ar ou escutam o inaudível, enquanto fingem dormir, mas estão em vigília praticando exegese e hermenêutica de coisas secretas. Sietefuegos, com os seus enormes sapatos em lenta caminhada pela pedraria da rua, dono de um alfarrábio ali perto, na Calle de los Libreros, respirou fundo com um certo júbilo nos olhos. Parecia feliz com a história que ouvira de quem igualmente a escutara de outros e outros pelos tempos remotos. E concluiu: os filósofos nada mais fizeram do que emprestar dos gatos a metodologia, e esse pode ter sido o primeiro caso de roubo de propriedade intelectual. "Rimos os dois como crianças que riem das histórias estapafúrdias, e renovamos o nosso louvor e respeito, não propriamente aos filósofos, mas aos gatos."

27.11.22

[EM TRIESTE, NO CAFÉ MOJORES]

[Os camarões enlatados da marca Nogalitos (para quem não os conhece, são secos, miúdos e polvilhados com especiarias picantes) ainda podem ser degustados no Café Mojores, de Trieste, o mesmo aprazível e distinto estabelecimento já centenário onde o escritor Carlo Nubs costuma receber os amigos nas tardes de quarta-feira. Ali estive, no mês passado. Levava comigo algumas edições raras de manuais de pesca. Entre eles, cito um pequeno compêndio, não propriamente sobre a arte pesqueira, mas sobre a atitude que deve ter o pescador em locais de arriscado acesso, locais pouco frequentados, locais regidos pelo acaso, já que nunca sabemos se terminamos o dia com o embornal farto ou com a paciência rota. Carlo Nubs ficou comovido ao folhear essa edição que lhe caíra em mãos, pela primeira vez, fazia uns vinte anos. Ouvi-o dizer, de cor, frases inteiras sobre a arte da paciência ali contida, especialmente ali pela página 50, onde o autor do compêndio (omito o seu nome por motivos de segurança) compara o pescar com o escrever. Foi então que Carlo Nubs pediu ao garçom (um croata sessentão) os Nogalitos. O próprio Nubs fez questão de abrir a lata. Exalou-se pelo Café Mojores a hipnotizante sedução das especiarias. E o garçom, passo seguinte, ofereceu-nos as claras cervejas Nugars, claras e fortes, muito apetecíveis quando combinadas com os Nogalitos em seus incêndios apimentados. E foi-se a tarde. Veio a noite. Trieste estava como dantes. Fronteira de mundos e de sabores. E ainda pude, ao final da jornada, lançar aos ares os redemoinhos e as espirais de um puro da Etiópia, composto por metade tabaco, metade penugem de ninfas.]

6.8.22

[DEPOIMENTO DE NOEL BISCOLET, VULGO CONDE DE LAUTRELUNE]

"Eu conheci o escritor Paulinho Assunção em São Paulo, em janeiro ou fevereiro de 1971. Era então um sujeito magro de dar pena. Pele e ossos. Usava uma calça de tergal, quedes pretos muito usados, camisa de gola puída e sempre com um casaco de brim marrom. Todos os começos de noite ele chegava à Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação, e dali era o último a sair. 


Dizia-me estar copiando verso a verso, linha a linha, sílaba a sílaba, a poesia de João Cabral de Melo Neto. Tudo em um cadernão escolar que ele levava debaixo do braço até um ponto do ônibus na Avenida Rio Branco, de onde seguia para os altos da Vila Madalena, na Rua Madalena.


Apesar da vida difícil e da asma, possuía um entusiasmo invejável. Tinha vasculhado toda a seção de livros raros da biblioteca. Em sua mesa, na sala de consultas, avolumavam-se primeiras edições do modernismo, lia com voracidade Oswald e Mário, e soletrava em espanhol a obra de Lorca e Antonio Machado. 


Lia sempre com um lápis na mão. Eu, que era então um apaixonado pelos livros de Pitigrilli, assustava-me com aquele tiroteio a esmo que ele praticava em suas leituras. Fartura de assuntos, fartura de autores. Parecia um presidiário que, solto, reencontrava a liberdade dentro de uma biblioteca. Ele tinha vindo do interior de Minas Gerais. 


Sim, se bem me lembro, a vida dele não era fácil. Trabalhava em dois expedientes na Rua 15 de novembro, em uma empresa de cadastro. Passava o dia dentro de ônibus pelas ruas de São Paulo. Ele recebia um pacote de fichas, logo cedo, e deveria ir de endereço em endereço colhendo informações sobre clientes. De sul a norte, de leste a oeste da cidade. A obrigação era entrevistar cada pretendente a um crediário e fazer anotações sobre o local visitado. Em mínimos detalhes: cor da casa, tipo de construção, informações sobre bairro, rua, vizinhança. O nome dessa profissão esquisita era informante de cadastro.


Por essa época, ele andava como uma moça sergipana de nome Artemísia. Nos finais de semana, gostava de frequentar umas reuniões organizadas por um velho sindicalista do porto de Santos. Gente do Partido Comunista. O sindicalista era pai de uma vizinha da Vila Madalena chamada Mara, mulher do Nelson, ambos artesãos da Praça da República. Aquela feira hippie. 


Acho que Nelson foi um dos grandes amigos de Paulinho Assunção naquele tempo. Tocavam violão e compunham. Foram até selecionados em um programa de calouros da Fundação Padre Anchieta, um programa dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. Cantaram uma música cuja letra era uma colagem de frases do Nietzsche. "Melodia aleatória", eles diziam com o orgulho daquela onda vanguardista do período. As notas da escala tonal eram numeradas em pedaços de papel e depois fazia-se um sorteio às cegas. O resultado era imprevisível para a dor dos ouvidos mais conformados. 


Um dia visitei Paulinho Assunção naquele barraco da Rua Madalena. Em uma mala de couro cru, ele guardava poemas escritos em folhas soltas, dobradas em pacotes e amarradas com barbante. Eu soube depois pelo Lips, um chapeiro de lanchonete na Rua Teodoro Sampaio, que esses pacotes depois foram queimados um a um no pequeno quintal que havia entre o barraco e a casa principal. Isto teria acontecido em agosto ou setembro. Provavelmente em setembro, quando o Exército matou o capitão Carlos Lamarca e Paulinho Assunção teria voltado para Minas. Não sei. A sergipana Artemísia divulgava outra história, que ele teria sido preso pelo delegado Fleury. Não sei. A experiência da literatura desfaz datas, desmonta fatos, turva o entendimento.


Nelson, o marido de Mara, conta por exemplo que Paulinho Assunção teria adotado outro nome, Vicente Pass ou Rubem Focs, e embarcado em um navio mercante para a Noruega. Sei apenas que tenho saudade de nossas conversas sobre vanguarda, sobre poesia e música de vanguarda, Maiakovski e Pierre Boulez, Stockhausen e poesia concreta. Conversas ali na porta da biblioteca, quando saímos para fumar. Ele puxava um cigarro do maço de Gauloise sem filtro comprado em uma banca de revistas da Praça da República. Baforava. Gesticulava. Um passarinho de tão magro. Eu fumava Continental. 


Hoje estou muito velho. Minha memória é uma memória esburacada. Mas se você souber por onde anda o Paulinho Assunção diga-lhe que consegui escrever o livro sobre os rios brasileiros, uma sinfonia de poemas entrecruzados. São 400 páginas. Nunca será publicado."

22.9.21

[FILOSOFIAS DE DOMINGO]


G. Deleuze quis tomar uma cerveja nos fundos do Mercado, mais adiante da loja de patos, um pouco antes da loja de peixes, entre os pimentões e as laranjas, entre a filosofia do ver e a filosofia do degustar. A cerveja veio e havia lentidões na manhã de domingo. G. Deleuze pôs o chapéu sobre o balcão, tinha limões nos bolsos do paletó, pediu a João Serenus descrições sobre a incidência da luz sobre os copos. Bebemos. Bebemos: um brinde para Espinoza, um brinde à fluidez dos afetos, um brinde à nova gravata de Franz Kafka, um brinde aos brincos de Cida La Lampe. Uns poetas passaram montados em um camelo, voou um bando de bailarinas sobre as nossas cabeças. Estávamos em estado de trincheira, trincheira para sorrir, trincheira para apreciar. Quase cresciam flores na ponta dos nossos dedos. Nenhum irado veio nos tirar da quietude.

25.3.19

[NUVENS DE PALÍNDROMOS SOBRE BELO HORIZONTE]

[vicente gunz e eu fomos ver o homem-que-puxa-o-fio na avenida paraná.]


[o homem tem um cartaz de papelão sobre o peito, onde se lê: “eu sou o homem que puxa o fio”.]


[vicente gunz e eu contamos vinte e seis discípulos atrás dele.]


[parece que a jornada começou pela praça rio branco e seguirá até a praça raul soares.]


[não é preciso dizer que o fio que o homem puxa é um fio imaginário.]


[o homem leva com ele uma carretilha.]


[a carretilha desenrola-se interminavelmente.]


[alguns discípulos afirmam que o fio que o homem puxa é um fio vermelho.]


[alguns discípulos são filosóficos: “este é o fio das extremidades metafísicas”.]


[outros são mais pictóricos: “este é o fio da primeira rajada de cores do dia da criação”.]


[vicente gunz e eu agora fazemos parte do bando.]


[vamos pela avenida paraná, expedicionários, e tudo é um ruidoso estado de júbilo.]


[um poeta ainda em fase de aleitamento aliou-se a nós: “este é o fio das evoluções estéticas”, diz o poeta a todo instante, de esquina em esquina, como quem divulga um manifesto.]


[parece que nossa caminhada não terminará nunca.]


[gunz compra um chapéu de feltro.]


[eu abro o guarda-chuva.]


[moedas tilintam no meu bolso.]


[meu nariz ri do mundo.]


[acho que vai chover pétalas de rosas.]


[há nuvens de palíndromos no céu de belo horizonte.]