[A TRILOGIA Z]
1. O calvo da plateia quis saber se sou, de fato, o autor da trilogia Z. Digo-lhe que sim e que não. O calvo fica mais calvo e mostra uma flor de entojo logo abaixo do nariz. O calvo não entende como uma coisa pode ser sim e pode ser não.
2. A plateia inteira volta-se para o calvo. Depois volta-se para mim. Volta-se outra vez para o calvo. Volta-se outra vez para mim. A plateia (tantos pescoços móveis) é a plateia do Congresso Experimental de PoesiProsa da Universidade Quinet Artigas. A plateia (logo concluo) igualmente não compreende como uma coisa pode ser sim e pode ser não.
3. A trilogia Z. Sim, digo ao calvo (o calvo agora com a flor de entojo em todo o rosto redondote), eu a escrevi. Em seguida, acrescento: não a escrevi. Sim e não. Não e sim. Disse a ele outros monossílabos do gênero e esperei que o calvo atirasse em mim os caramelos todos do saquinho em sua gordota mão.
4. Do meio da plateia espirala-se agora o pescoço de uma ruiva em brincos. O pescoço espirala-se e se eleva todo naja acima dos outros cocurutos. O pescoço vai falar. O pescoço agora fala. "As ficções são proezas incomensuráveis."
5. O pescoço, após a frase, encolhe-se e retorna ao sepulcral anonimato ao lado do Conde Paulistano. E então o Conde Paulistano atira em mim, pelos olhos, as setas de um verbo transitivo direto metálico inoxidável. "Como pode o senhor aceitar a autoria e negar a autoria?", pergunta o Conde Paulistano.
6. Um homem atravessa o auditório. Usa terno escuro e camisa branca de bolinhas azuis. O homem (logo vejo) está armado com uma carabina Denvor, calibre 54,5, canos reforçados com o aço da Boêmia. O homem fica à minha frente, de costas para a plateia. O homem acende um cigarro. O homem fuma e aponta-me a carabina Denvor. Ele diz: "Ou você é o autor da trilogia ou não é. Ninguém pode ser ao mesmo tempo uma coisa e outra coisa".
7. Percebo alívio na plateia. O calvo enche mais a boca com os caramelos redondotes. O pescoço-naja aquieta-se. O Conde Paulistano puxa ares mais leves. O homem com a carabina Denvor aguarda.
8. "Não a escrevi", eu digo-lhe, por fim. "Não a escrevi e jamais a escreverei."
2. A plateia inteira volta-se para o calvo. Depois volta-se para mim. Volta-se outra vez para o calvo. Volta-se outra vez para mim. A plateia (tantos pescoços móveis) é a plateia do Congresso Experimental de PoesiProsa da Universidade Quinet Artigas. A plateia (logo concluo) igualmente não compreende como uma coisa pode ser sim e pode ser não.
3. A trilogia Z. Sim, digo ao calvo (o calvo agora com a flor de entojo em todo o rosto redondote), eu a escrevi. Em seguida, acrescento: não a escrevi. Sim e não. Não e sim. Disse a ele outros monossílabos do gênero e esperei que o calvo atirasse em mim os caramelos todos do saquinho em sua gordota mão.
4. Do meio da plateia espirala-se agora o pescoço de uma ruiva em brincos. O pescoço espirala-se e se eleva todo naja acima dos outros cocurutos. O pescoço vai falar. O pescoço agora fala. "As ficções são proezas incomensuráveis."
5. O pescoço, após a frase, encolhe-se e retorna ao sepulcral anonimato ao lado do Conde Paulistano. E então o Conde Paulistano atira em mim, pelos olhos, as setas de um verbo transitivo direto metálico inoxidável. "Como pode o senhor aceitar a autoria e negar a autoria?", pergunta o Conde Paulistano.
6. Um homem atravessa o auditório. Usa terno escuro e camisa branca de bolinhas azuis. O homem (logo vejo) está armado com uma carabina Denvor, calibre 54,5, canos reforçados com o aço da Boêmia. O homem fica à minha frente, de costas para a plateia. O homem acende um cigarro. O homem fuma e aponta-me a carabina Denvor. Ele diz: "Ou você é o autor da trilogia ou não é. Ninguém pode ser ao mesmo tempo uma coisa e outra coisa".
7. Percebo alívio na plateia. O calvo enche mais a boca com os caramelos redondotes. O pescoço-naja aquieta-se. O Conde Paulistano puxa ares mais leves. O homem com a carabina Denvor aguarda.
8. "Não a escrevi", eu digo-lhe, por fim. "Não a escrevi e jamais a escreverei."



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