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10.4.26

[JALBELOROVÂNSQUE]

[há uma suculenta iguaria nos interiores e nas combinações a esmo e improvisadas das palavras. 

"coisa de louco", diz a voz sem rosto. 

"coisa de desocupados", diz a voz do vento.

gozo, travessura, peraltice, fuzarca, pândega, diabrura, traquinagem. tantas analogias para esse jogo sem regras, sem normas, sem limites de namoragem com a língua.

no palato, forma-se uma sílaba. o néctar do riso vem e traz outra. o governo anárquico da música aparece e ali coloca entre as duas uma quiáltera para insuflar uma partícula melódica. 

poetas não regidos pelos parâmetros burocráticos costumam jogar tais bilboquês ou petecas semânticas.

aquilo que o atleta faz antes da maratona (esquentar músculos e tendões), o poeta não regido pela burocracia de escrever também faz, só que pela via do ludismo, pela via do prazeroso desrespeito a todas as leis da gramática.

altacestelógrafo. aramurilíndias. estulovaquias. golmeias. tulangovanta.

enquanto os que escrevem sob os ditames das sonolentas repartições públicas da língua, ou seja, aqueles que pegam na árvore dos dicionários as palavras mais gastas, o escritor não regido pelos memorandos e ofícios treina em sua cozinha joyceana. 

é uma alegria. é uma descompostura. é um escândalo. é uma pantagruélica festa.

é uma guerrilha vietcongue que surge pelos matagais do idioma e vem combater os exércitos imperiais com suas formações rígidas de soldados vocabulares.

lambôntega. zizizôstrego. chulimíndea. zástrule. gargalhume.

assanhadas, excitadas, elétricas, as partículas da língua saem do limbo insosso e amorfo do escrever sem arte e chegam, com alaridos e algazarras, para o festim dissoluto e orgíaco das combinações desregradas.

o poeta então prova das fontes primevas das palavras. aquilo que o bebê pronuncia nos primeiros rudimentos do falante aprendizado. ou aquilo que o homem velho cria, às escondidas para não ser chamado de senil, para conversar com o cachorro, com o gato, com o passarinho.

flíguido. trouvândigo. chisvolungreapoutenânticozules.]

9.4.26

[HISTORIETA PARA SUSPIRO E CLAVINOTE]


1.quando chego ao restaurante “ostra-mãe”, sempre às quartas-feiras, recebo saudações personalizadas do garçom plínio, o novo, apelido que lhe deu o jornalista de amenidades vasco sertório. plínio sempre diz: “viva cartago contra os romanos de araque”.

2.não sei por que o garçom se apegou a cartago. é tal a sua intimidade com a velha e histórica cidade que ele poderia estar se referindo a localidades mais próximas no tempo e na geografia, como jequié, santa bárbara do tugúrio ou brejo bonito.

3. peço-lhe faisão à moda william blake, homenagem mais do que justa ao poeta inglês. para beber, um cálice da vodca polonesa esmeraldina. não é preciso dizer que ao fim do almoço eu me sentia tomado pela felicidade azul dos cavaleiros do ano de 1267, quando começou um intervalo de cem anos de paz naqueles vales da soróbia.

4.antes de partir para meu passeio no parque milanês, ouvi da mesa ao lado a boa nova de que mister tramp havia escorregado na banheira, rodopiado o corpanzil e desabado nos ladrilhos como um boi da mongólia, queda que lhe deixou com os portentosos traseiros seriamente avariados e impossibilitado de comer testículos de zebra na companhia de vladimir, el putin, justo naquele dia.

5.amanhã estarei em dublin para o aniversário da revolução fracassada. duas lágrimas eu solto face abaixo só de pensar no fiasco daqueles eventos ocorridos antes do meu nascimento, mas nem por insignificantes na minha vida.

6. na minha adolescência em são paulo, ouvi pela primeira vez o resumo daquela revolução que não houve, mas fiz dela, da própria ideia de fracasso naquelas barricadas, o meu evento histórico favorito.

7. ficarei em dublin até domingo. na segunda, tenho reunião com o alto comissariado da paz-em-guerra, presidido pelo comandante rodolfo zenski, em la coruña. nuvens sombrias pairam sobre a reunião. o que posso, porém, com o meu destino?

[BLEY BARBOSA E O TEMPO WANDER PIROLI DE SER]

Bley Barbosa fez o caminho de sempre naquela tarde de segunda-feira: da Avenida Afonso Pena, veio pela Rua da Bahia, depois viraria à direita na Augusto de Lima, e, enfim, depois de cruzada a Espírito Santo, chegaria à Imprensa Oficial para o de sempre. A boa conversa, os bons chistes, os bons trocadilhos, as novidades escritas: novo conto, nova peça de teatro, o script de um programa de rádio.

O muito alegre e simpático Bley Barbosa pela tarde belo-horizontina. Aquele seu terno branco, os bigodes brancos, os cabelos crespos e brancos bem ajustados na cabeça vistosa, as faces rosadas, o cigarrinho de palha, os olhinhos vivos como os olhinhos de um pardal pela rua acima, essa Rua da Bahia já então tomada pelo palavrório do neoparnaso de poetas a quilo, de poetas a mancheias, e jornalistas, e deputados, e cambistas.

O que posso contar: Bley Barbosa era um sujeito imemorial. Ele vinha de um tempo Wander Piroli de ser. Como se sabe, o tempo Wander Piroli de ser era também um tempo imemorial. Por isso, quando Bley Barbosa chegava, o mais aprazível a fazer era alegrar-se. Alegrar-se com a presença de Bley Barbosa constituía o pão de cada dia daquele tempo Wander Piroli de ser.

Bley Barbosa terá nascido na Grécia junto com os aedos. E os mil bolsos do seu paletó traziam sempre um papelucho datilografado, laudas de papel amarelo, a peça de teatro que talvez jamais seria encenada, mas ali estava, em letras presente, para que a ouvíssemos em voz baixa. Bley Barbosa lia nos tons da corda ré suavemente dedilhada na tarde da Avenida Augusto de Lima.

Depois, quando o Pelicano tornava-se república para a cidadania vespertina, Bley Barbosa recitava com voz de aedo grego o convite para um trago. E o tempo Wander Piroli de ser ondulava-se em mar de calmaria. Os barcos atracavam. As velas dos galeões posicionavam-se em descanso. Homero contava mentiras. E as sereias subiam e desciam pela avenida.

3.4.26

[O ABOIO E O APOCALIPSE]

[de madrugada, ele ouviu aboio
por entre os prédios. e disse:
"ouvidos loucos". como pode aboio
em meio à turba, ao ronco
do helicóptero da polícia, à sirene
da ambulância, à alegre vida
meretrícia alfenas acima, alfenas
abaixo? "ouvidos loucos", ele repetiu.

mas ouviu outra vez: era aboio. 
aboio dalgum melancólico viandante,
perdida alma dalgum descalço anjo
vagante, um sancho talvez na treva
do bairro, querelas com a memória
de um tempo-boi, tempo-novilho.

ele ouvia o aboio e dizia: "louco estou
de vez nesse tempo igual avariado".
tentou redormir, ressonhar, restituir
a lâmina do lago que o sono azula
em camadas, os cachos de silêncio
que os humanos roubam dos gatos,
o violino mendigo que nada expressa
a não ser o acalanto monocórdio.

não redormiu. não ressonhou. só
ouviu de novo o aboio entre os prédios,
nesga de som em concerto, os ecos
do graveagudo quase flamenco, algum
remoto fantasma de talvez-ele-próprio,
áspero canto com algúrios funestos.

acendeu a luz, foi à janela. nada viu
a não ser a dama que chegava da noitefesta,
ou o cachorro que invejava a sombra,
ou vento que rebatia nos tubos 
de um móbile multiplicado em sinos.

abriu a torneira, lavou-se. o aboio
agora ressoava distante. fez o café.
leu sobre o país em desmonte, 
sobre o mundo em desmonte,
sobre a vida em desmonte. 
deu comida ao gato. deu comida
ao cachorro. e foi à rua 
para saudar o apocalipse.]

1.4.26

[SER ORIGINAL]


[de modo algum 
busco ser original.

reúno, sim, os arames 
que outros ajuntaram,
solfejo a canção 
que outros já cantaram.

minha vela não ilumina as trevas,
meu barco não faz as longas travessias
e meu voo é baixo, de galinha.

uso farta velharia 
com o lápis que me auxilia.
bebo longe e bebo perto.
sou capaz de ir lá em homero 
em busca duma palavrinha.

com os de hoje, tento chegar mais perto,
busco ver o que eles veem, 
entro nos ritmos que eles tamborilam.

mas ser original, isto eu não busco.
que busque quem queira e possa.

gosto mesmo é de refazer bordados
com agulha que roubei
de quem a roubou de outros.]

[OS INVASORES DE SINGAPURA]


Há dias tenho percebido a visitação obsessiva e volumosa a este blog de robôs procedentes de Singapore. Pelo que pesquisei aqui e acolá, essas incursões, digamos, sem rosto e sem corpo, se devem a gente (será que de carne e osso?) ministrando aulinha de treinamento para a comunidade das inteligências artificiais. Ou seja: esses bots visitam a esmo ou às cegas tudo o que lhes passa diante dos narizes, se é que possuem narizes.  

Não sei o que este blog pode ensinar a tais cacholas de circuitos algorítmicos lá para as bandas de Singapura. O que aqui se publica desde 2003 já não interessa nem mesmo a outros blogueiros igualmente anacrônicos como este que aqui vos fala. O que buscam essas tampinhas de latão? Buscam a lírica desventrada deste velho poeta que, há muito, já deveria ter dependurado as pantufas? Quanta perda de tempo. 

Sugiro a esse "pessoal" que busque alimento mais propício para os estômagos robóticos. Fiquem lá com os doidos do mundo, como Trump, Netanyahu e outros mequetrefes de uma figa. Deixem-me em paz.

30.3.26

[EPIGRAMAS AO VENTO]


[eis os epigramas: 
cápsulas, 
partículas,
ciscos, 
farelos, 
migalhas.]

..**..

[houve 
então o estouro 
das gabirobas. 
os que nelas pisavam,
elas tão maduras, 
eram bois, 
lobos, onças 
e fantasmas.]

..**..

[a frase rasa 
só chega, 
quando chega, 
a leitores rasos.]

..**..

[tsunamis 
de gentes 
que os algoritmos 
querem 
nos impor 
como amigos.]

..**..

[estranho 
tipo de relâmpago: 
ao meio-dia, 
com sol em riste.]

..**..

[e 
este 
silêncio? 
tem 
nome?]

..**..

[“o tal meio literário 
me amedronta tal 
e qual me sentiria 
amedrontada 
se tivesse de tratar 
com um banqueiro, 
com um delegado 
de polícia, 
com aqueles gritadores 
em pregões 
de bolsas 
de valores”, ela disse.]

..**..

[“quem disse 
que o texto 
não iria doer?”, 
ela perguntou.]

..**..

[escrever 
ou 
incisar?]

..**..

[exaustos 
estão os ouvidos. 
e também os olhos. 
só a língua 
está calma, 
posto 
que em silêncio.]

..**..

[o mundo em cambalhotas: 
o altíssimo capitalismo, 
com as suas big-redes, 
suas big-aranhas, 
algoritmicamente 
reivindica 
o direito de mentir.]

..**..

[eram seis laranjas. 
belas laranjas. 
luzidias laranjas. 
tão redondas laranjas. 
concisas laranjas. 
felizes 
ficaram 
os que se fartaram 
com os seus gomos 
estalantes. 
fim da história.]

..**..

[vejam só 
as samambaias,
tão antigas
quanto o mundo.]

..**..

[as boas 
intenções 
de um jornal 
quase 
sempre têm 
segundas 
e obscuras 
intenções.]

..**..

[presumo que, 
pelo troar 
dos acontecimentos, 
pela pane na racionalidade, 
pela cisão nos aparelhos 
cognitivos, a humanidade 
não atravessa 
os seus melhores dias.]

..**..

[não foi 
nem seria lida, 
mas a palavra lá 
ficou, sozinha, 
ao sol, 
em cima da pedra.]



27.3.26

[IRRADIAÇÕES CONTÍNUAS]

[Cada vez mais ele se entusiasmava com a ideia das irradiações contínuas. Na origem desse entusiasmo, estava a velha e conhecida imagem de uma pedra atirada a um lago, e os círculos concêntricos irradiados a partir do ponto onde houve tal queda. Fechava os olhos e imaginava: ondas em anéis consecutivos pela superfície d´água, até o seu total desaparecimento.

No caderno, ali onde a primeira letra de um texto surge da fricção do grafite contra as ranhuras do papel, ele percebia a força irradiadora de um nascimento. Assemelhável a uma semente cujo estalo, em algum momento do dia ou da noite, desencadeia o processo da germinação. Atos irradiáveis que a mão do escritor (ou a mão do lavrador) provoca no curso do tempo.

A luz da manhã de Belo Horizonte que vazava por uma cortina improvisada, de repente, também pediu permissão para entrar nessa dança das irradiações contínuas. Era uma delicada luz, sem peso ou volume, mas corporificada em lâminas que vinham ao caderno como se uma revoada de minúsculos pássaros em algazarria, essa palavra que talvez não exista, mas que foi irradiada qual semente, qual a própria pedra no lago, a partir da palavra-mãe algazarra.

Todo o ato de escrever parecia eclodir nessas e dessas irradiações: a ideia da primeira frase, a partícula inicial da letra ainda titubeante, dúbia, ágrafo desenho, haste que podia presentificar no papel uma vogal ou uma consoante. Ou até mesmo nada, apenas a garatuja ininteligível de um texto abortado, texto-feto, morto ainda nascituro. Essa moenda, esse moinho das irradiações.

Continuava a vazar a luz de Belo Horizonte pelas janelas têxteis da cortina improvisada, e ele igualmente pensou no silêncio. No "corpo" do silêncio, no silêncio como geografia suspensa no ar, como se geografia apoiada e sustentada por mãos em côncavo, mãos aparadoras, mãos, as mesmas mãos que colhem água de uma fonte. O silêncio pegável, muito embora o paradoxo de aparentemente não ter o silêncio qualquer densidade. Silêncio, no entanto, irradiador.

Ele pensou: todo livro, qualquer livro nasce dessas irradiações imaginadas. Toda escrita, toda garatuja, até o aborto dos livros. E fechou os olhos e mentalizou um diagrama de linhas e traços para essas irradiações que, cada vez mais, provocavam nele entusiasmo e devoção. E se a história humana parece tender para uma tragédia inexorável, como um tijolo de adobe que se esfarela, ele via nessas irradiações da escrita um conforto, uma quase paz ainda que arrodeada por incêndios.]

[DAS EXTINÇÕES]


[humanos talvez não estejam mais aqui em alguns centenares de anos. 

e talvez não façam falta na paisagem já tão desolada da terra. 

falta farão certamente o golfinho, o elefante, a abelha, a aranha, tantos insetos, tantos mamíferos, os peixes, vejam, os peixes, e as ervas, e o rumor das águas, o trovão, a chuva, sim, a chuva. 

em alguns centenares de anos talvez até a palavra humano tenha desaparecido pelo fogo intermitente dos drones, e os próprios senhores da guerra, da guerra interminável, os próprios senhores da guerra serão os alvos de seus próprios armamentos, de seus aviões bombardeios, seus navios, seus satélites, suas bocas em sangue, suas mãos embebidas em sangue, o sangue alheio e o próprio sangue. 

que seja feita então a vontade desses carniceiros como o carniceiro que assassina inocentes em gaza. 

que eles sejam destruídos. 

e que as manhãs dos séculos vindouros sejam abençoadas pelos passarinhos, pelos besouros, pela correnteza dos rios, pelos bichos todos, pela natureza toda em sua tarefa heroica de reconstruir a terra da ação desses genocidas.]

[E DANTE VIDE BEATRICE]



[la seconda volta che dante vide beatrice
fu un certo giorno dell’anno 1283. dante,
a diciott’anni, indossava una tunica, 
il lucco dei fiorentini, e proteggeva 
il capo col cappuccio, una cuffia 
lunga fino a toccar le spalle.

beatrice apparve ad un angolo, così
narra cristiano, il martins, quel poeta
di montes claros, autore dell’elegia de abril,
e traduttore dell’opera divina in portoghese.

due dame di quel medioevo in riva d’arno
affiancavano la fanciulla d’un anno appena
più giovane di dante. e in un fugace sguardo, 
istante colibrì, talmente rapido, talmente
attimo, quasi dissolvimento dell’istante, ella
posò i verdi occhi su di lui, un dolce
vortice, un pendolo, un palpito, un fruscio.

fu sufficiente perché il ragazzo, in trance,
di quell’istante, per la vita, facesse un alimento,
ne percorse la corrente, il fiume senza posa
dell’amor da monte a valle, così forte
ma così forte, ch’egli tosto s’allontanò da lì,
tornò alla stanza della casa ove viveva
col fratello francesco, essendo già morti
donna bella e il funzionario alighiero, e solo,
nella solitudine onirica tra torpore ed estasi,
dante dormì, e sognò, e nel sogno beatrice 
teneva in mano un vermiglio cuore, in fiamme.

era la seconda volta che dante vedeva beatrice, così
narra cristiano, il martins, il poeta
dell’elegia de abril. ed ora, che siamo a maggio,
così racconto io in modo rude ed estroso: invado le mura
di firenze, rivisito il borgo, rivedo quell’incendio
sulla piazza, osservo la linfa nel suo grezzo elemento, 
dante e beatrice, colla e vischio, amalgama, 
attimo e inizio, vita nuova, opera al punto
di fusione, giacché stava nascendo il sonetto.] 

(Traduzione italiana di Manuela Colombo)

26.3.26

[LA POESIA E LA COMPRENSIONE]


[l’esperienza della poesia
è l’esperienza della comprensione.

quell’ombra sotto il tavolo,
l’uomo che cerca un indirizzo,

grida nel vicinato, l’agitazione,
la lama, la strada, la dispersione

delle nuvole, la mano umida, il biglietto
trovato per strada, l’imbarazzo,

la data dimenticata, questi avanzi,
questi residui, queste briciole
della giornata, quel che non si sa.]

(Traduzione italiana di Manuela Colombo)

25.3.26

[BALLATA DEL FIL DI FERRO]


[se lo desidera, il poeta appenderà

la sua poesia a uno stendino
all’aperto, la lascerà lì alla notte
e al giorno, alla pioggia e al sole,
vedrà la poesia decomporsi
come feci di corvo,
come feci di colibrì,
pallottole vaganti trapasseranno
la poesia su questo stendino
che trasuda ruggine,
dei critici passeranno su cavalli
rossi e sulla poesia
depositeranno la macchia
untuosa di una recensione puerile,
oppure no, scenderà dalla notte
la mesta polvere delle anime di latta,
la pioggia acida disegnerà sulla poesia
geroglifici apocalittici, tutto ciò
nel caso il poeta desideri appendere la sua poesia
a questo stendino all’aperto, lì dove la città
fa una deviazione e prosegue indifferente
a questi feti di poesie abbandonate
dagli algoritmi, e delle lumache saliranno
sul fil di ferro lasciando una pista di muco
e bava tra le righe, le strofe,
le immagini, e dei gatti verranno nottetempo
per schizzare sulla poesia il loro piscio, delle ninfe
squartate canteranno il requiem
per la fine di tutto, questo nel caso il poeta
desideri appendere la sua poesia a uno stendino
all’aperto, come se lì lasciasse
le spoglie d’un lavoro inutile.]

(Traduzione italiana di Manuela Colombo)

[CHI LEGGEREBBE UN RACCONTO TANTO BREVE?]

Il racconto era brevissimo, era quasi un sospiro di farfalla tant’era fugace, perciò avvertimmo quelli che passavano per la Rua Torta che non s’illudessero, non s’aspettassero il più clamoroso degli eventi creativi. Flaubert, ancora col turbante, conversava sulla porta della barbieria con Coelho Neto, e Rimbaud, in bicicletta, mostrava la lingua a Dona Ordália, la Santa. La Rua Torta era la via del cinema o la via del ballo o la via del circo, a seconda dell’ora.

Avvertiti che il racconto era brevissimo, i passanti e gli erranti e i transitanti potevano lasciare le illusioni dentro le borse. Si era solo in dubbio circa il lettore del racconto. Chi sarebbe stato? Chi avrebbe potuto leggere un così lieve e inconsistente testo di due righe, a dir tanto? Onofre, da sempre lettore ad alta voce fin da quando era chierichetto, s’era trasferito a San Paolo. Jardel, anticomunista arrabbiato, aveva ottenuto un posto di osservatore di nuvole a Brasilia. E l’Antonio? Antonio era un caso perduto.

Il racconto brevissimo brillava nel chiarore del mattino. Tra un discorso e l’altro, l’alcalde della via, Tomás, ebbe l’dea di portare un altoparlante di quelli usati nei bazar turchi. José Taranto, che si faceva passare per magistrato, portò una cassetta di mele. C’era una caterva di cani nella via a quell’ora. Fioriere alle finestre sprigionavano in certe case il pericoloso odore del peccato. L’ex governatore si grattava la verruca. E noi, gli autori del racconto brevissimo, tendevamo cordoni lungo la via, come se fossero fili del telegrafo.

Le dieci del mattino e niente. Mezzogiorno e niente. Le due del pomeriggio e niente. Chi avrebbe letto il racconto brevissimo per far sì che le novelle non si svalutassero come sementi camolate? Chi sarebbe stato il lettore di quelle briciole di parole, parolone e parolacce? Quando il carillon di Dom Acácio, il poliglotta, suonò le quattro del pomeriggio, ebbe inizio un tumulto nella Rua Oblíqua, parallela alla Rua Torta. Da una parte avanzava la marcia delle Signore Griffate, dall’altra la marcia delle Signore Siliconate. Lì al numero 44, i due cortei marcianti si affrontarono. Ci fu uno scontro a fuoco di improperi. Sottovesti furono strappate. Bisturi vedovanti furono gettati alla polvere.

Carlo Emilio Gadda, che chiacchierava con Flaubert già sulla porta della Cantina, decise di leggere il racconto brevissimo. Gadda, nonostante lo stile tortuoso, era gradito alle fazioni discordanti. Si fece silenzio. I cani s’ammucchiarono con i sensi all’erta sui marciapiedi. In lontananza, un mercantile emise con impeto il suo fischio. Farfalle gioiose sospesero i loro voli di tardo meriggio. 

Aspettavano. Gadda, allora, col minuscolo foglietto manoscritto nelle mani grassocce, si schiarì la voce. Cominciava la lettura. Silenzio. Pausa. Il mondo ora estatico, il mondo ora statico. E allora esplose la bomba atomica.

(Traduzione di Manuela Colombo)