Bley Barbosa fez o caminho de sempre naquela tarde de segunda-feira: da Avenida Afonso Pena, veio pela Rua da Bahia, depois viraria à direita na Augusto de Lima, e, enfim, depois de cruzada a Espírito Santo, chegaria à Imprensa Oficial para o de sempre. A boa conversa, os bons chistes, os bons trocadilhos, as novidades escritas: novo conto, nova peça de teatro, o script de um programa de rádio.
O muito alegre e simpático Bley Barbosa pela tarde belo-horizontina. Aquele seu terno branco, os bigodes brancos, os cabelos crespos e brancos bem ajustados na cabeça vistosa, as faces rosadas, o cigarrinho de palha, os olhinhos vivos como os olhinhos de um pardal pela rua acima, essa Rua da Bahia já então tomada pelo palavrório do neoparnaso de poetas a quilo, de poetas a mancheias, e jornalistas, e deputados, e cambistas.
O que posso contar: Bley Barbosa era um sujeito imemorial. Ele vinha de um tempo Wander Piroli de ser. Como se sabe, o tempo Wander Piroli de ser era também um tempo imemorial. Por isso, quando Bley Barbosa chegava, o mais aprazível a fazer era alegrar-se. Alegrar-se com a presença de Bley Barbosa constituía o pão de cada dia daquele tempo Wander Piroli de ser.
Bley Barbosa terá nascido na Grécia junto com os aedos. E os mil bolsos do seu paletó traziam sempre um papelucho datilografado, laudas de papel amarelo, a peça de teatro que talvez jamais seria encenada, mas ali estava, em letras presente, para que a ouvíssemos em voz baixa. Bley Barbosa lia nos tons da corda ré suavemente dedilhada na tarde da Avenida Augusto de Lima.
Depois, quando o Pelicano tornava-se república para a cidadania vespertina, Bley Barbosa recitava com voz de aedo grego o convite para um trago. E o tempo Wander Piroli de ser ondulava-se em mar de calmaria. Os barcos atracavam. As velas dos galeões posicionavam-se em descanso. Homero contava mentiras. E as sereias subiam e desciam pela avenida.

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