19.8.26

[O ABOIO E O APOCALIPSE]

[de madrugada, ele ouviu aboio
por entre os prédios. e disse:
"ouvidos loucos". como pode aboio
em meio à turba, ao ronco
do helicóptero da polícia, à sirene
da ambulância, à alegre vida
meretrícia alfenas acima, alfenas
abaixo? "ouvidos loucos", ele repetiu.

mas ouviu outra vez: era aboio. 
aboio dalgum melancólico viandante,
perdida alma dalgum descalço anjo
vagante, um sancho talvez na treva
do bairro, querelas com a memória
de um tempo-boi, tempo-novilho.

ele ouvia o aboio e dizia: "louco estou
de vez nesse tempo igual avariado".
tentou redormir, ressonhar, restituir
a lâmina do lago que o sono azula
em camadas, os cachos de silêncio
que os humanos roubam dos gatos,
o violino mendigo que nada expressa
a não ser o acalanto monocórdio.

não redormiu. não ressonhou. só
ouviu de novo o aboio entre os prédios,
nesga de som em concerto, os ecos
do graveagudo quase flamenco, algum
remoto fantasma de talvez-ele-próprio,
áspero canto com algúrios funestos.

acendeu a luz, foi à janela. nada viu
a não ser a dama que chegava da noitefesta,
ou o cachorro que invejava a sombra,
ou vento que rebatia nos tubos 
de um móbile multiplicado em sinos.

abriu a torneira, lavou-se. o aboio
agora ressoava distante. fez o café.
leu sobre o país em desmonte, 
sobre o mundo em desmonte,
sobre a vida em desmonte. 
deu comida ao gato. deu comida
ao cachorro. e foi à rua 
para saudar o apocalipse.]

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