[PAISAGEM DE VIADUTOS]

Daquela janela, a quarta da direita para a esquerda, no oitavo andar, olhávamos para esses viadutos, esses seis viadutos que se entrecruzam por cima e por baixo, e ali vivemos a metade de um ano, o mesmo ano em que Maribel cortou o noivo em pedaços, e escreveu "canalha" no que sobrou da sua testa.

Os jornais falaram sobre o crime durante uma semana, depois começaram pouco a pouco a esquecer de Maribel e de seu noivo em pedaços, um sujeito cujo nome, se não me engano, era Jaime Víctor, ex-policial militar e muito ligado a um senador da República.

Essas poucas linhas acima formam a sinopse de um filme que Laura e eu planejamos, mas o projeto logo se tornou espuma, desinflou-se, Laura foi para a Patagônia, e eu, como você sabe, fui chamado para o banco, lá comecei a minha rotina de caixa bancário, até o episódio que resultou nos seis tiros que dei no gerente.

De todas as maneiras, essa sinopse ficou comigo anotada em um caderno, de tempos em tempos eu relia aquilo, onde estivesse na minha fuga eu relia aquilo, às vezes gostava, outras vezes tinha impulsos de rasgar as folhas, mas me lembrava de Laura, depois pensava em Maribel desossando o noivo, e desistia, guardava o caderno na mochila, e pegava a estrada.

Em um mês de outubro, anos depois, Maribel veio ao meu esconderijo. Não lhe disse que havíamos pensado, Laura e eu, em um filme sobre o episódio. Ela também parecia que apagara da memória a barbárie com que partiu o noivo em tantas partes. Só por um momento ela mencionou o crime, mas de um modo indireto e reticencioso. "Aquele traste", disse.

Folheamos juntos um livro que eu comprara sobre navios antigos, e bebemos inteira a garrafa de tequila. Fez noite e cedi para ela a minha cama. Dormi no mesmo quarto, mas no chão. Pela manhã, notei que Maribel tinha ido embora. Não deixou bilhete, não deixou rastro, não deixou cheiro. Sua imagem havia se evaporado, tornou-se imagem gasosa, imagem feita de névoa. 

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