[EU GOSTO MUITO DE NÃO LER OS LIVROS QUE DIZEM SER IMPERDÍVEIS]
Eu gosto muito de não ler os livros que dizem ser imperdíveis. Prefiro perdê-los. Prefiro não seguir a ordem que está aí embutida e escondida, algo como "tem de" ou "tem que", espécie de ultimato que a voz publicitária solta e dissemina até se tornar uma lei comum para o rebanhol.
Não vou com o rebanhol, não senhor.
Imperdível por quê? Quem decidiu que tal coisa é imperdível, seja livro, seja lua, seja filme, seja lasanha? E um livro, ora um livro. Livro é da ordem das intimidades. Ia escrever foro íntimo, recuei, apago mentalmente o foro íntimo, mas mantenho o seu significado no mais perto do nível do chão: só eu sei o que me apega a um livro.
Desde que me entendo como leitor. Muito cedo aprendi a não correr atrás dos livros "do momento", e via com desconfiança aqueles que, ainda não adolescência, iam de mão em mão pelas mãos da "turma". Turma, aliás, é o embrião do rebanhol, e toda turma, um dia, será rebanho.
Olho para as minhas estantes na Biblioteca Aurora Arurá, em Massarandupió, Bahia, e constato a minha ligação com os livros que sempre me chegaram "depois". Depois da febre, depois do disse-não-disse, depois-depois, já quando o rótulo de imperdível já não lhes cola nas lombadas.
Tempo houve em que fui convidado a escrever resenhas para o então Caderno 2, do jornal Estado de Minas. E mesmo ali não fui de exercer ou praticar a sanha do instante, e procurava comentar livros de atração recíproca. Sim, porque sou adepto da crença de que os livros também encontram os seus leitores.
Prescrevo-me a calma nessas estantes que me acompanham vida afora. Para mim, essas estantes são povoamentos, pequenas comunidades onde os títulos, à revelia das classificações, buscam convívio entre diferenças e oposições. São amados. E o amor de leitor é o mais belo de todos os amores. Mas não se aplica a esse amor a palavra algo usurária que é a palavra imperdível.


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