[CITAÇÕES, CITADORES E CITADOS]


Citações. Tantas citações. Citações podem elevar o citador aos píncaros da importância. Pega bem citar. Sempre pega bem citar. Deve-se, porém, citar com o cuidado e a destreza de garimpar pepitas, pois pega mal citar calhaus.

Um Melville aqui, um Sartre ali; uma Clarice ali, uma Hilda acolá, e João Guimarães Rosa, e Susan Sontag, e Hemingway, e Faulkner ou Leminski. Tantas citações, tantos citados. E o citador, possuído pelo espírito do citado, pode esticar o corpo docemente sobre as alfombras da importância.

Há quem invente graciosamente citações e citados. Lembro-me, por exemplo, do Otto Lembrovsk. O fato de ter sido linotipista do diário oficial do município, por anos e anos desbravando a selva escura de textos sem alma, fez dele um citador dos mais profusos.

Certa vez ouvi dele a seguinte frase: “As patifarias literárias não seriam patifarias sem os patifes”. “Quem disse isto?”, eu perguntei. “Gustave Flaubert”, respondeu Otto. “Quando?”, eu quis saber. “Logo que terminou Madame Bovary”, ele falou. e exibiu feições muito sérias, muito doutas, era quase um nobel trotando o pangaré da importância.

Em minha vida de observador de tais aves e passaredos, encontrei muitos outros citadores que, à maneira de Otto Lembrovsk, gostavam de alinhavar citações falsas em tertúlias e quermesses. Até encontrei quem, sem me conhecer, inventou em meu nome uma fantasiosa citação.

Ei-la: “Todo citador é um parasitário de uma figa”.

Alerto: quem ouvir tal frase, saiba que não sou o seu autor nem sei quem é a sua autoria.

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