[O QUE VEM DEPOIS DO SE]
“(...)
... Jeff Morton, morador dos arredores de Londres, envia-me uma pergunta sobre a qual passei todas as horas do dia sem encontrar para ela uma resposta. Tradutor para o inglês de Os doces cílios de Marilyn Monroe, esta novela de tanto vigor e frescor do jovem escritor brasileiro Antônio Frelobé, inventor de uma fundamental cadeira de balanço para leituras de longo curso, Morton quer saber de mim se... (...).
Se. Não tenho modos de encontrar a resposta. Alonguei o meu dia, caminhei em volta da casa, chamei duas vezes o Manuel Jorge Marmelo no Porto, para uma consulta, saí à rua para um sorvete e, mais tarde, para dois chopes. Em vão. Não consegui resposta para a pergunta que me fez o inventivo Morton, este inglês pacífico, colecionador de tampinhas de garrafa e usuário de enormes sapatos, quase galochas.
Se. Morton quer saber de mim se. Se, não sei. Não posso saber. Minhas estantes não têm a frase continuadora do se, meus livros se negam a contar algo além das reticências.
Sou homem pequeno, meço poucos palmos de altitude. Jamais neva sobre o meu chapéu. Ando devagar, pendo o corpo para o lado esquerdo e dou, a cada cinco passos, dois ou três tapinhas no bolso da calça onde guardo a minha carteira de dinheiro — tudo para saber se a minha carteira não fugiu.
Certa vez, já faz muito tempo, chamaram-me de poeta. Nesse dia tal eu acreditei, mas fui devagar percebendo que a poesia não me visita nem nunca me visitou, e as musas, excêntricas, voltam para outro lado o rosto quando da minha passagem. Amanheço muitas vezes triste, pássaro de asas caídas. E só no decorrer do dia vou apanhando, aqui e ali, gotinhas de felicidade.
E agora vem o inglês Jeff Morton querer saber de mim se...”

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