[GEORGES PEREC, A JANELA E O GATO PRETO]
[nada tem a ver o que agora escrevo com a foto de perec e seu gato preto, nem com a janela ao fundo, suas grades em arabescos, a luz vazante, o almofadão que de sofá se faz.
nada tem a ver. e tem, agora digo, pois há uma personagem que não vejo, e é tal pessoa (pessoa novelesca) que puxa palavra atrás de palavra, é a ponta de um novelo que não vemos.
pobre literatura.
quão pobre é a literatura nesse instante.
no êxtase de uma ausência, eu digo, a pobre e miserável literatura, em seu lugar mendigo, ela poderia tratar de presenças, mas prefere as ausências.
tão desmiolada literatura.
enquanto a corrente direcional do senso comum vê o cenário, a réptil, a quelônia, a viscosa literatura vê o que não aparece na foto, opta pelo que está fora, pelo que fugiu pelas bordas-margens da foto.
é batalha perdida, eu digo.
desde os antigos palimpsestos do mundo é a mesma história, eu digo, a literatura trata desse buraco, é esse buraco que a redime, e é esse buraco que, a cada texto, lhe dá o tiro de misericórdia.]


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