[OS FILÓSOFOS E A ECLOSÃO DOS OVOS]
[os
filósofos ficavam à espreita, atrás das pedras e dos arbustos.
só saíam quando
os ovos eclodiam.
era o momento do júbilo.
cada filósofo emocionava as
pálpebras de ver e as pálpebras de sonhar.
chamávamos esse espetáculo de
"o que os ovos fazem com a filosofia".
os povos ágrafos parece que
transmitiram aos filósofos esse ardor na alma. pois não havia outro nome senão
ardor na alma para definir aquela festa da eclosão dos ovos.
era tanto êxtase
que os filósofos, aos saltos, lembravam velas esvoaçantes de barcos em dia
claro, sob vento contínuo e benfazejo.
relatos posteriores desses acontecimentos ainda provocam até hoje a festa pândega e pagã da visão e do sonho.
peço mais um cálice de vinho ao garçom leitor de proposições e axiomas.
elevo brindes aos filósofos desses mundos obscuros.
ponho a literatura ao sol, em varais com espinhos, para que ela sofra lentamente a dor das asperezas.
é tarde.
e a madrugada será longa como um deserto de tulipas murchas.
chamam-me de "aquele que crê".
prefiro, porém, ser chamado de "aquele que andarilha".]


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