[meu pai deixou-me de herança uma caneta parker canadense ano 1952, uma carabina flobert calibre 22, um par de óculos sem grau com lentes verdes, um relógio omega ano 1951 e uma mala de couro marrom, surrada, a mesma que usei quase vazia para me mudar para são paulo em 1971.
meu pai foi açougueiro, padeiro e por fim um próspero comerciante de secos e molhados em são gotardo, minas gerais. engarrafava um vinho popular chamado "revoltoso" e uma cachaça igualmente conhecida ali pelos anos 1940/50, chamada "maria bonita".
era pequenino, com olhos miúdos, dado inveteradamente aos tragos, os mesmos tragos que o matariam no natal de 1956, aos 38 anos, mesmo dia e ano em que morreu robert walser em herisau, na suíça, estirado na neve.
eu tinha cinco anos à época, pouco me lembro do meu pai e só vim a saber de walser muito mais tarde. aliás, nada, absolutamente nada os liga a não ser essa ponte de datas que descobri e fiz ao conhecer a vida e a obra do escritor suíço.
se as lendas contam a verdade e as memórias não falham, dizem que meu pai só calçou o primeiro par de sapatos aos 12 anos, que apreciava o tango "la cumparsita" e sonhava ir ao méxico conhecer a atriz maría félix. ao morrer, deixou seis filhos.
leio muito walser, mas do meu pai só posso ler o que se teceu em fios e fiapos pela oralidade familiar, como se, para conhecê-lo ou reconstrui-lo, eu devesse decifrar linha a linha a sua curta vida com o mesmo esforço de ler aquelas famosas e admiradas micrografias de walser, escritas a lápis, só possíveis de se aceder com ajuda de uma lupa.
dizem que meu pai começou a morrer pelos pés, que paulatinamente perderam a cor, até que essa ausência de cor lhe tomou conta corpo acima até o rosto.
não sei se isto é verdade.]
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Fragmentos introdutórios do romance inédito "O comandante morre outra vez", menção honrosa no prêmio casa de las américas, cuba, no final do século passado.

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